No momento que escrevo, já 39 blogues ligaram (e falo apenas daqueles que usam o Twingly) para a notícia do Público que dá conta do aluno que passou de ano com nove negativas.

O assunto já corria pela net há dias, já tinha assomado na blogosfera, mas uma espécie de indiferença apossou-se de mim ao ler os detalhes da situação.

A sério, só se entusiasma muito com isto quem não anda mesmo por dentro dos meandros do sistema educativo e só vê a espuma das ondas e se esquece que o importante são as correntes submarinas.

Passar de ano com 9 negativas, num conjunto de 14 fatias curriculares no 3º ciclo não é coisa inédita, embora talvez, mas apenas talvez, rara. Já vi no 2º ciclo passarem com 6 ou 7 em 9 e houve mesmo um ano em que fui obrigado a usar uma espécie de voto de qualidade como Director de Turma, quando tentaram passar uma aluna com negativa a todas as disciplinas excepto um nível 5 na disciplina da pessoa que a protegia e a deixava ficar nas suas aulas de outras turmas, enquanto faltava às restantes disciplinas. E bastantes críticas sofri por ter desempatado um votação que estava 4-4.

E não era por nenhuma razão transcendente.

Há algo que devemos ter sempre em conta: as leis existem, com toda a sua permissibilidade, mas somos nós que as aplicamos e temos a hipótese de usar ou não as margens de indefinição/autonomia que elas ainda nos permitem.

No caso da avaliação dos alunos, abandonou-se há perto de 20 anos a rigidez do chumbo automático com três negativas. Que em muitos casos significa quatro negativas, porque a terceira era quase sempre objecto de análise, discussão e eliminação.

A partir de então passámos a navegar num pântano em que, por causa dos preconceitos soixante-huitard da maior parte dos nossos pedagogos e políticos da maior parte da esquerda e mesmo da direita, se passou a associar avaliação a classificação, a selecção, a hierarquização e a exclusão. Com todas as acusações possíveis de elitismo a quem não adere à ideologia desculpabilizadora do insucesso.

Todos os anos 90 sedimentaram esta postura que é muito característica em especial de uma esquerda bem-pensante e socialmente prozaquiana. Foi aqui que floresceram os gualteres. Do coutismo ao benaventismo.

E sempre com a possibilidade de desculpabilização individual pelas decisões formalmente colectivas. Ou seja, é o Conselho de Turma que é colegialmente responsável pela avaliação dos alunos. O que abre a porta a um intercâmbio e partilha de ideias e decisões, mas também a intromissões indecorosas e a desresponsabilizações vergonhosas.

Quem anda por dentro do sistema sabe bem o que se passa em muitas reuniões de avaliação, quando as coisas atingem este tipo de proporção. Ou, na inversa, quando alguém decide atribuir nível 1 a qualquer aluno.

Mas eu volto á mesma tecla: a legislação está lá, permite muito desmando. Mas não é menos verdade que está nas nossas mãos aproveitar essa flexibilidade de acordo com as nossas convicções.

Não adianta deitar as mãos à cabeça publicamente com este caso e depois replicá-lo, com esta ou aquela desculpa.

O miúdo passou com 9 negativas e o beneplácito de um conselho de turma e um conselho pedagógico?

Business as usual.

Siga em frente, é menos um nas Novas Oportunidades e a candidatar-se a fazer um curso universitário naquela coisa do 23+ ou maiores de 23.

Já não me excito por coisa tão comum.

Até posso escrever assim, longamente, mas não se deixem enganar, é só spleen. Só spleen. Com um ligeiro soriso à mistura.