Os pais têm todo o direito de exigir professores competentes.
Não há dúvida. Esta questão é pacífica. Mas o problema da educação não está aí. Nas aulas que tive a ocasião de assistir, verifiquei o que já se sabia: os professores sabem como dar aulas, o que se passa é que, muitas vezes, não dispõem dos meios e condições humanas, técnicas e administrativas para o poder fazer com qualidade. Logo, genericamente, os professores são competentes ou, potencialmente, competentes.
Um dos maiores problemas está, por um lado, na deficiência dos meios e condições de trabalho e, por outro, na falta de reciprocidade na relação da maior parte das famílias e alunos com a escola e com os professores. Quero dizer, se os pais têm todo o direito de exigir competência e profissionalismo da parte dos professores, estes têm todo o direito de exigir dos pais dos seus alunos e também destes confiança e colaboração positiva com a escola e com os seus professores. Quando estes exigem dos seus alunos um comportamento adequado ao trabalho na sala de aula e reprimem com firmeza uma atitude descabida e, de imediato, um pai ou uma mãe, dando ouvidos acríticos às queixinhas do(a) filho(a), reage queixando-se de que o professor é “autoritário” ou “violento” ou “exagerado”, desautoriza completamente o professor e permite a continuidade do comportamento inadequado do seu filho, prejudicando-o e aos seus colegas.
E não se pense que a indisciplina é apenas a violência em meio escolar e que esta resulta das condições sócio-culturais das famílias. Podemos compreender e compreendemos, com certeza, que há muita gente com enormes dificuldades devido ao desemprego, trabalhos mal remunerados, etc. Mas ser pobre não é o mesmo que ser mal formado ou mal-educado! Há pessoas pobres dignas, respeitadoras e muito educadas, que aproveitam todas as oportunidades que a sociedade lhes oferece, incluindo a formação e educação em meio escolar, para poder sair da pobreza com dignidade. É uma mistificação pensar que os problemas de indisciplina nas escolas se devem à pobreza. O que se passa é bem diferente: instalou-se na sociedade portuguesa a ideia de que a democracia dá-nos, a todos, direitos e todos se sentem na obrigação de reclamar direitos sem a contrapartida e a reciprocidade dos deveres. E, portanto, a própria “educação” das crianças em boa parte das famílias, muitas delas da classe média, faz-se no sentido de que a criança tem direito a tudo, mas não tem o dever de nada. Explico-me melhor: a “educação” familiar, por razões que não importa aqui analisar, tem-se tornado demasiado permissiva. Grande parte das crianças é educada no consumismo com a Consola de Jogos, com a TV, com a NET, com o telemóvel de última geração, com o “Papá dá” para não ter que ouvir a berraria de um «Não!», com a Pizza, o Hamburguer e a Coca: habituadas a ter tudo e, raramente ou nunca, sem terem recebido um «Não». Não estão, de modo algum, preparadas para a frustração e partidas negativas que a vida nos prega. Quando chegam à escola, muitas crianças e adolescentes julgam que tudo lhes é permitido e nada lhes pode ser proibido. A educação, numa boa parte das famílias, tem sido hedonista e irresponsável, guiada apenas pela satisfação e prazer da criança, sem nunca se lhe exigir responsabilidades e contas pela sua liberdade. E isto nada tem a ver com a pobreza, mas com uma certa atitude perante a vida e a sociedade!
A nosso ver, a indisciplina daqui resultante, o julgar que pode usar o telemóvel, falar com o colega, sair do lugar, esconder por brincadeira o material escolar dos colegas, etc., sempre que lhe apetece, e desobedecer, sistematicamente, ao professor ou dizer, contrariando todas as evidências, «Mas eu não fiz nada! O(a) professor(a) é que pega comigo!», ou “O que é que eu fiz?!», etc., não resulta da pobreza mas, pelo contrário, dos excessos de uma “educação” permissiva que medrou nesta sociedade consumista, para a qual grande parte dos portugueses não estava nem está preparada, nem educada.
Logo, o Ministério da Educação, porque não fez o diagnóstico correcto do problema e pretendeu resolvê-lo pegando, exclusivamente, pelo lado dos professores, não resolveu problema nenhum pois pegou pela ponta errada! E toda esta situação é resultante, não da classe docente, mas de todo um conjunto de políticas erradas dos sucessivos governos, que a tal conduziram a sociedade portuguesa. Mas, como quem elege estes políticos e, indirectamente, estas políticas é a maioria dos portugueses, esta só têm que se queixar de si própria.
Zeferino Lopes, Prof. de Filos. na Escola Secundária de Penafiel, em 12 de Julho de 2009.
Julho 14, 2009 at 2:05 pm
Parabéns ao Zeferino.
é mesmo isto.
E pela cobertura nacional do Umbigo, parece que é isto de Norte a Sul, Este a Oeste e em todas as aldeias, vilas e cidades, independentemente da dimensão.
Julho 14, 2009 at 2:17 pm
Concordo completamente. Enquanto houver este nível INSUPORTÁVEL de indisciplina, não há competência que valha à escola!
Julho 14, 2009 at 2:28 pm
Os Pais têm que compreender que os maiores prejudicados pela indisciplina na escola nem são os professores. São os próprios filhos, sejam indisciplinados ou não.
Julho 14, 2009 at 2:53 pm
Muito bem explicado!
Julho 14, 2009 at 2:58 pm
Só as armandinas poderão discordar…
Julho 14, 2009 at 3:43 pm
“É uma mistificação pensar que os problemas de indisciplina nas escolas se devem à pobreza”.
E quem tem contribuído para difundir esta ideia?
Sobretudo uma certa esquerda que gosta de construir o seu discurso na justificação da miséria, confundindo falta de recursos económicos com falta de educação (leia-se socialização alicerçada em regras familiares de respeito).
Depois temos a litania bourdalesa adaptada à escola pelo eduquês, que transforma a origem social numa determinação férrea de comportamentos e competências, tal e qual o fazia a aristocracia feudal em relação ao dom divino da realeza.
Finalmente temos os tecno-mafiosos, que alicerçam toda uma rede de empregos e lugares à sombra do Estado, na base do apoio terapêutico a desenvolver em relação aos pobres e aos necessitados.
Desta teia de interesses resulta um manto diáfano sobre a ligação pobreza-problemas de violência, onde a própria direita colhe os seus frutos ácidos sobre segurança.
Julho 14, 2009 at 3:46 pm
O GRANDE PROBLEMA DA EDUCAÇÃO É A INDISCIPLINA!!!!!!!!!
Acho que os professores também têm o direito de exigir pais competentes!!!
Acho que também os professores têm o direito de exigir um Estado competente! Um Estado que nesse aspecto se dê ao respeito e que se faça respeitar e que restitua aos professores a sua “autoridade” e efectue para isso uma legislação condizente e compativel com essa condição. Só nessa altura é que as pessoas terão então moralidade para «exigir professores competentes!»
O resto são tretas de um pais de ranhosos!
Julho 14, 2009 at 3:47 pm
Obviamente este problema da indisciplina tira-me do sério. E tira porque acho que é tão claro como água.
Julho 14, 2009 at 4:21 pm
Javier Urra na obra “O Pequeno Ditador”, defende que as sociedades excessivamente permissivas, que privilegiam os direitos em vez dos deveres, tornam as crianças mimadas, sem limites, que chantageiam quem as tenta controlar. O pequeno Ditador é alguém, criança ou adolescente, que quer que o mundo gire à sua volta, é aquele que aprendeu que pode impor a sua vontade.
Este vê os pais como aqueles que têm que lhes dar dinheiro e os professores como alguém que está ali ao seu serviço.
“As crianças tiranas são caprichosas, dão ordens aos pais, organizam a vida familiar, querem ser constantemente o centro da atenção. Desobedecem, são desafiadoras e não aceitam a frustração. São muito irrequietas e não se concentram numa tarefa, dão voltas pela sala de aula e passam de uma coisa para outra”.Javier Urra, nesta obra fala-nos também de uma nova realidade fechada entre quatro paredes: os pais são vítimas de violência dos filhos dentro das suas próprias casas. O autor refere a existência de três gerações: a primeira chama-lhe geração silenciosa e situa-a entre os anos 1935/1950; a segunda chama-lhe geração de pais obedientes (1951/1984) e a partir de 1985 chama-lhe a geração dos filhos tiranos, que impõem a sua própria lei. Segundo o autor, muitas vezes as causas residem no facto de as crianças ficarem muito tempo sozinhas e os pais, para compensarem a falta de tempo, tornam-se permissivos, esquecendo, por vezes que as crianças devem ter regras, uma hora certa para ir dormir e comer… Em suma, Javier Urra, é de opinião que é preciso educar no respeito e afecto, transmitindo valores, “aprender a fazer, a conhecer, a viver juntos e a ser”, falando com as crianças, ouvi-las, ensiná-las a aceitar frustrações, ser capaz de dizer ”não”, sancionando e castigando quando necessário e fazer cumprir aquilo que se impõe sem medo. A sociedade, afirma o autor, ”paga muito caro o abandono em que deixa os seus filhos”…
Julho 14, 2009 at 6:31 pm
Nesse livro – “O pequeno ditador”, percebe-se bem porque existem tantos hiperactivos. É muito mais simpático ao ouvido, mais desculpabilizante…e quiçá, mais fino (eheheh)
Julho 14, 2009 at 7:14 pm
Dá jeito, a muitos pais, culpar os professores pela (des)educação que dão aos seus filhos.
Parabéns ao professor Zeferino Lopes!!
Julho 14, 2009 at 7:24 pm
[...] http://educar.wordpress.com/2009/07/14/opinioes-zeferino-lopes/ Deixe um [...]
Julho 14, 2009 at 7:24 pm
[...] http://educar.wordpress.com/2009/07/14/opinioes-zeferino-lopes/ Deixe um [...]
Julho 14, 2009 at 7:29 pm
A propósito,recomenda-se a leitura de Fernando Savater.
Julho 14, 2009 at 7:40 pm
Julho 14, 2009 at 8:09 pm
Xotores!!!
Vão de ler o 4º capítulo do ROMANCE LAI que já nem é da Maria !!!!
Cheio das entrelinhas !!!!
Toda a mentalidade salseira e axibangada dos tempos modernos lá escrebinhada!!!!!
No dia 12 de JULHO!!!!
Vão de ler!!!
Bale muito a pena!!!
É MUITO POSITIVAMENTE BOM!!!!
Julho 14, 2009 at 8:20 pm
Disse tudo e mui bem explicadinho e clarinho.
Parabéns ao PROFESSOR Zeferino. Vai daqui um elogio do tamanho do Mundo.
Julho 14, 2009 at 8:24 pm
Controleiro,
Sempre bons e divertidos capítulos. Parabéns e gratíssima por me/nos ajudar a ultrapassar estes díficeis com a sua boa disposição.
Julho 14, 2009 at 8:27 pm
Ovrigado, Xotora!!!!
O que um pobre Controleiro só com a 4ª Classe DAS ANTIGAS puder de fazer pelos bons xotores das resistências é sempre muito pouco!!!!
Santo Onofre os abençoe!!!!!
Julho 15, 2009 at 12:02 am
Controleiro,
Go on, ok?
As férias eatão aí e já deito relatórios e inventários pelo olho d.. Sorry, mas valem estes momentos de “desanuviação”.
Julho 16, 2009 at 4:29 pm
[...] passa é que, muitas vezes, não dispõem dos meios e condições humanas, … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]