CAVACO FEZ UMA PLÁSTICA

Cavaco Silva já não é o político que me habituei a respeitar e admirar enquanto Primeiro Ministro.

O actual Presidente da república, que, antes, rejeitava, não só por princípio, mas também por temperamento, maquilhagens políticas de toda a espécie, deixou-se, infelizmente, resvalar para a pior das ortodoxias da política tradicional – o fingimento.

Por isso, Cavaco banalizou-se como político, sendo hoje, tal como a maioria dos políticos, alguém que se serve da política para atingir ambições pessoais. O político sério, que era antes, virou um político “a sério”: um político que exercita gestos, falas e sorrisos com o exclusivo intuito de ficar bem na fotografia.

Aquele Primeiro Ministro de expressão permanentemente crispada e séria, que cortava a direito, exclusivamente preocupado em salvaguardar o interesse nacional, “morreu” desde que se apercebeu da sua impotência para continuar a regeneração do país.

Se reformou bem a economia e as finanças foi porque esse era o domínio do seu saber. Mas a saúde, a justiça e a educação continuaram em progressiva degradação, tendo atingido o clímax degenerativo com o governo de Sócrates. Todavia, foi a partir da derrota com Jorge Sampaio, nas primeiras eleições presidenciais, a que se candidatou, que Cavaco Silva mais se modificou como político.

Cavaco não digeriu nada bem a derrota. Tê-la-á sentido como uma espécie de ingratidão popular. E, aconselhado, ou não, percebeu que não lhe bastava a aura de bom ex-primeiro ministro para alcançar o sonho de ser presidente da república. Era preciso mais para, caso se candidatasse de novo, conseguir a vitória.

E foi assim que o rosto sério e crispado de Cavaco Silva começou a rasgar-se em sorrisos; foi assim que o começámos a ver, com ar informal, a abocanhar bolo-rei, sem o mínimo recato; foi assim, que a metamorfose se deu.

E a verdade é que Cavaco venceu, na sua segunda candidatura presidencial. O que teve um efeito de reforço na sua atitude de transformação plástica. A partir daí nunca mais o homem sério deixou de se distanciar da sua anterior imagem de marca. A partir daí, o espelho tem sido o melhor “assessor” de Cavaco ( e o  acessório que mais o acompanha), sempre à sua beira, para, no momento oportuno, lhe mostrar o rosto, que ele vai alterando, ao sabor das circunstâncias.

E tem sido assim em toda a legislatura de Sócrates.

Ora vimos um presidente despreocupado com o tremendo atropelo constitucional que foi o novo estatuto dos professores; ora o vimos quase possesso com a insignificante questiúncula política levantada pelo estatuto dos Açores; ora deixou passar legislação decisiva que iria afectar a vida dos portugueses; ora vetou leis e decretos de “lana caprina”.E, continuando a sua inacreditável metamorfose política, vemo-lo agora a fazer de conta que quer eleições separadas.

Mas será verdade que o Presidente da República quer mesmo eleições separadas?

Eu acho que não. E por duas razões:

Em primeiro lugar, porque Cavaco adoraria fazer a vontade ao PSD, e sobretudo, à sua amiga, Ferreira Leite, que as pretendiam no mesmo dia.

Em segundo lugar, porque seria favorável ao interesse nacional que as eleições fossem em simultâneo, visto a despesa pública ser muito menor. E todos sabemos que Cavaco, não fosse o seu projecto pessoal falar mais alto, não deixaria de ser sensível a essa poupança.

O que me leva à inevitável conclusão que, mais uma vez, o Presidente da República não agiu em conformidade com o que seria melhor para o país, pelo mero interesse egoísta de continuar no poder, a todo o preço.

Cunha Ribeiro