Estava tudo preparado para ser através da Educação e das escolas que Sócrates e o partido por si modelado, com os préstimos distantes de Jorge Coelho e mais próximos de António Vitorino, procurariam renovar a sua maioria.

O modelo já tinha sido ensaiado na reentrée de 2008. Era só manter a máquina da propaganda bem oleada, com eventos a acontecerem com regularidade.

Da distribuição de Magalhães alongada no tempo à multiplicação dos diplomas das Novas Oportunidades, passando pelas remodelações de Escolas Secundárias e chegada de equipamentos informáticos e tecnológicos a muitas escolas, não esquecendo acréscimos de sucesso nos exames mesmo em cima das eleições, tudo estava delineado para o sistema educativo estar ao serviço da produção de uma nova maioria em 2009, por ser espaço ideal e privilegiado para aliciar as «famílias».

Mas algo correu mal.

Ainda em tempo útil de demonstração, chegou a constatação de que diversas medidas emblemáticas deste Governo em matéria de Educação foram uma farsa, produziram escassos efeitos reais e muito se resumiu a truques de propaganda.

A luta assumida contra os docentes fracassou, mesmo se restam destroços legislativos à deriva ainda capazes de produzirem danos, sem ganhos especiais para a paisagem. E o primeiro sinal foi o massacre de Vital Moreira nas eleições europeias, ele que fora um paladino desta pseudo-revolução na Educação, como tanto gostou de escrever.

  • Fracassou porque em nada dignificou a carreira ou permitiu melhorar o trabalho nas escolas. Os alunos em nada beneficiaram de medidas como o Estatuto da Carreira Docente, o próprio Estatuto do Aluno ou a avaliação do desempenho docente.
  • Fracassou porque, afinal, a opinião pública não abandonou os professores, por muitos anúncios que disse tenha sido feito. Em Maio, uma sondagem da Visão colocava os professores como os menos responsáveis pelo fracasso das políticas educativas.
  • Fracassou porque os próprios organismos dependentes do ME reconheceram a falta de preparação e qualidade técnica de reformas estruturantes como a da avaliação do desempenho docente.
  • Fracassou ainda e em especial, porque os professores resistiram e resistiram muito para além do que deles se esperava, quantas vezes em situação de aparente isolamento, pois sabiam que a razão estava do seu lado.

Perante isso, José Sócrates, o Governo e o seu PS, decidiram abandonar, pelo menos de forma mais evidente, o campo da Educação como o prioritário na sua estratégia eleitoral. Ontem na abertura do Fórum Novas Fronteiras, sintomaticamente reduzido a discursos oficiais apesar de um António Vitorino na apelar à liberdade das críticas e intervenções, José Sócrates oficializou a retirada:

A três meses das legislativas, e no dia do manifesto de 30 economistas, José Sócrates defendeu ainda três escolhas essenciais: políticas sociais, reformas sectoriais e investimento público.

Tudo muito vago, tudo muito abrangente, tudo muito despesista, agora já sem preocupações orçamentais, que a manutenção do poder vale tudo.

A Educação, que tanto ocupou as prioridades oficiais do passado, foi apagada do discurso oficial. Percebeu-se que a estratégia de afrontamento directo aos professores foi um erro e falhou fragorosamente.

Contra tudo o que esperariam.

O ex-animal feroz, camaleónico, apareceu a admitir o seu erro. A sua testa de ferro para o sector, menos burilada para estas andanças, ainda não conseguiu dar a mão à palmatória. O aparente orgulho pessoal sobrepõe-se a tudo. Como sabe que não continua, parece incapaz de admitir que errou ou que deixou que a usassem como imagem pública de políticas fracassadas. A menos que a obriguem. Mas depois do que a já obrigaram a fazer seria crueldade. embora a política seja isso mesmo e MLR até mereça sofrer aquilo que fez sofrer aos outros.

Na semana passada, em reunião do secretariado, Carlos César sugeriu que voltassem a esconder ministro(a)s como Maria de Lurdes Rodrigues dos olhares públicos, «atrás de biombos» (p. 5 do Expresso).

Não sei se já resolveria alguma coisa.

As feridas estão fundas e por sarar.

Realmente é melhor deixarem a Educação em paz e não relançarem o que já tinha sido lançado em Março, para encobrir o fracasso e servir de contraponto ao Livro Negro da Fenprof.