Maio 2009


Um texto essencial do Rui para compreender muita coisa:

vertebral

Listas de professores

A propósito do assunto que ontem à noite ocupou parte do noticiário da SIC – gravação da forma como uma professora se dirigia aos alunos numa sala de aula – e que foi abordado neste post, apercebi-me – caso já não o soubesse – que existe em muita gente um duplo padrão de conduta e de apreciação dos factos (alegados ou reais) em algumas matérias.

Vejamos:

  • Há quem ache que estar a expor este caso em praça pública está errado porque implica uma espécie de julgamento prévio da pessoa visada. Compreendo, mas discordo. Em especial quando quem defende isso, surge de forma inflamada a querer a exposição pública de outros casos, para outras pessoas, em especial quando ocupam cargos públicos de responsabilidade.
  • Há ainda quem considere que a SIC está em busca de audiências ao apresentar a dita gravação. Gostaria de saber a opinião dessas pessoas sobre a apresentação das gravações feitas sobre o caso Freeport pela TVI. Haverá quem alegue que são casos de natureza diferente mas, em minha opinião, o tratamento comunicacional é paralelo, com a diferença que ali temos uma gravação com a própria pessoa e em outro caso temos uma gravação em que falam sobre terceiros não presentes.

Em consciência, acho que qualquer dos casos merece divulgação pública. Se, como já disseram, a situação da docente – com ou sem estado de perturbação psicológica – já era conhecida na escola, mais grave é que a deixassem prolongar. Por isso, a denúncia é correcta. E, como escrevi, a docente deve ser suspensa enquanto se apuram os factos. Acho que é a forma correcta de proceder. Acho o mesmo, por exemplo, quanto ao caso do procurador Lopes da Mota.

Também em consciência, acho que nada justifica reacções de alarido, e aparente cegueira, por parte de quem acha que isto é tudo uma imensa tramóia e apontam timings suspeitos para a exposição deste caso. Poderíamos dizer o mesmo de muita outra coisa. Também não acho que eventuais actos incorrectos, fortemente incorrectos, por parte de uma colega professora possam ser justificados com comportamentos equivalentes de alunos ou encarregados de educação.

O erro alheio pode contextualizar o nosso mas nunca legitimá-lo.

Lamento a aparente impopularidade e não-corporativismo da minha opinião – que nãoi equivale a um linchamento público mas ao desejo de esclarecimento cabal dos factos, daí o “suspenda-se para averiguações” – mas não posso aceitar quem usa de duplo padrão para avaliar estas situações: a denúncia pública só é válida para os «outros», para os «adversários», mas para os «nossos» deve ocultar-se?

Tenho pena, mas a sala de aula também é um espaço público e eu gostaria que todos nós tivessemso padrões de exigência para com a nossa conduta superiores aos que são admitidos para os outros grupos profissionais, incluindo os políticos.

Porque, ao contrário do que se afirma, a imagem pública dos professores não está em baixa. Muito pelo contrário. Não estraguem tudo, ao querer varrer o que é incómodo para debaixo do tapete.

O silenciamento forçado nunca é a política certa.

ALEGRE, SÓ EM BELÉM

Tenho apreciado muito a atitude  intransigente e  vertical de Manuel  Alegre. Mas tenho apreciado pouco as suas cedências constantes ao calculismo político.

Manuel Alegre tem sido frontal contra as políticas perversas deste governo. Mas também tem feito tudo o que pode para que Belém não lhe fuja do alcance dos olhos.

E é pena que um dos políticos mais éticos que militam no Partido Socialista se deixe seduzir mais pelo poder moderador de Belém que pelo poder executivo de S.Bento.

Será, M. A., mais útil em Belém, ou sê-lo-ia mais útil numa eventual coligação no governo?

“Não o sei e sei-o bem.”

O que eu acho é que Manuel Alegre, num novo partido, iria vindimar a em duas latadas cheias de votos:  muitos dos quais pendem amadurecidos da ramada privada do P.S.;  outros tantos, esperavam ser colhidos por ele, na  ramada baldia dos eleitores flutuantes.

E o resultado?

Votos, muitos votos desperdiçados, porque oferecidos de bandeja à voragem destruidora das actuais alcateias partidárias. Os quais, em eleições presidenciais, poderá vir a não ter.

Por isso, Manuel Alegre terá perdido a oportunidade da vida para mostrar na prática o que ele parece ser em teoria: Um ser incomum, onde a verdade, a  justiça e a  dignidade  políticas se casam harmonicamente com a índole limpa e transparente do “homo-poeticus”. Do político mais genuinamente democrata e substantivamente idealista da nossa actual democracia:  “homo-erectus”,  vertebrado e firme  até à medula.

CUNHA RIBEIRO

Se sempre se afirmou que as medidas para a gestão da carreira docente passavam em primeiro lugar pelos homens de cinzento das Finanças, porque será que há destes equívocos? Incompetência não será…

Docentes desesperam por acordo

Educação e Finanças têm interpretações diferentes da lei que define regime de aposentação
Há docentes à espera que os ministérios das Finanças e da Educação se entendam sobre o regime de aposentação pelo facto de a Caixa Geral de Aposentações estar a indeferir os pedidos feitos de acordo com as regras do ME.

O desentendimento entre ministérios pode já estar resolvido. O deputado do PS, João Bernardo, garantiu ao JN que os ministros Lurdes Rodrigues e Teixeira dos Santos assinaram, “a 24 de Abril, novo despacho conjunto” que define 31 de Dezembro de 1989 como a data limite para as candidaturas a esse regime de aposentação.

O modelo transitório teve de ser acordado, em 2005, aquando da introdução das novas regras de aposentação, aprovadas pelo Executivo de José Sócrates.

Foi das primeiras negociações entre a equipa de Lurdes Rodrigues e os sindicatos e das raras que resultou em acordo: o regime de aposentação para os educadores de infância e professores de 1º ciclo que terminaram o curso em 1976.

De acordo com o decreto-lei nº229/2005, os professores podem reformar-se “até 31 de Dezembro de 2010″ desde que tenham “13 ou mais anos de serviço docente à data de transição para a nova estrutura de carreira, tenham, pelo menos, 52 anos de idade e 32 anos de serviço, considerando-se, para o cálculo da pensão, como carreira completa 32 anos de serviço”.

Ora, o problema é que como o Estatuto da Carreira Docente entrou em vigor a 1 de Janeiro de 1990, sindicatos e ME consideram 31 de Dezembro a data-limite de transição (para os docentes terem os 13 ou mais anos de serviço); mas a Caixa Geral de Aposentações indeferiu os pedidos dos professores por exigir esse tempo de serviço até 30 de Setembro de 1989. Como o ano lectivo começava em Outubro quase todos os docentes, que deveriam ser alvo do diploma, ficaram excluídos.

Breve parecer sobre a prova de aferição de ontem, escrito para o jornal I e de que foram aproveitadas umas oito palavras, mais uma, menos outra:

A prova de aferição de Língua Portuguesa para o 6º ano de escolaridade deste ano é, como em anos anteriores, uma prova globalmente bem estruturada e equilibrada, embora com um nível de dificuldade médio-baixo para este ciclo de escolaridade.

Como já aconteceu no ano lectivo anterior, até devido às críticas sobre a não penalização dos erros ortográficas, esta é uma prova quase por completo “fechada” na primeira parte, procurando avaliar praticamente em exclusivo a compreensão do texto escrito e do funcionamento da língua.

Já a segunda parte, exclusivamente destinada a avaliar a produção escrita, apresenta uma proposta de trabalho que foge claramente ao pedido de uma narrativa, antes procurando a produção de um tipo de texto híbrido, entre o utilitário e o publicitário.

Em qualquer dos casos parece apostar numa fragmentação do discurso e da própria compreensão, não apostando numa concatenação das questões ou numa sua progressão lógica. Em termos de dificuldade é uma prova que, salvo a extensão e poucas questões sobre gramática, não assustaria quase ninguém se fosse apresentada para o 4º ano.

O sucesso deverá ser equivalente ou superior ao das provas feitas em anos anteriores, ou seja, acima dos 80%. Se isso equivale a que mais de 80% dos alunos têm competências linguísticas médias ou superiores ao desejável para que ao chegarem ao 9º ano possam ser considerados devidamente alfabetizados é toda uma outra questão.

flor

Foto da Armanda.

Leio com algum pasmo, antes de me recolher a vale de lençóis, esta peça do Público, em que Paulo Feytor Pinto pela Associação de Professores de Português analisa as provas de aferição de Língua portuguesa deste ano.

Se eu achava que a APP mal percebia dos dois primeiros ciclos do Ensino Básico e pouquinho do terceiro, a menos que se fale de exames, agora tenho a certeza.

Leia-se esta passagem:

É nestes textos que a APP lamenta a indicação de referências que são objecto de avaliação. Por exemplo, na prova do 4.º ano é pedido para escrever um convite e informar quem é que está a ser convidado. Feytor Pinto defende que se a criança não sabe isso, então desconhece como se redige correctamente um convite. Ou seja, a informação dada pelo teste deveria ser omitida para melhor avaliar as competências dos alunos.

No que diz respeito à gramática, os exercícios são “bastante bons”. Há apenas um problema: foi adoptada terminologia que ainda não está generalizada. Os “substantivos” são “nomes”, segundo a Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), que não entrou ainda em vigor. Portanto, os professores não são obrigados a usar “nome”, pois nos programas estes continuam a ter a designação de “substantivos”. Haverá alunos que terão dificuldade a responder a essas perguntas, diz.

A APP continua a questionar a utilidade das provas de aferição cujos resultados só são conhecidos no ano lectivo seguinte.

Existem aqui três lapsos evidentes:

  • Não se percebe exactamente aquilo com que se discorda em relação ao convite a elaborar na prova do 4º ano. É porque não se diz a quem se dirige um convite que não se sabe como se estrutura um convite. Será que Paulo Feytor Pinto leu sequer a prova? Porque parece que nem percebe aquilo que é pedido no exercício em causa.
  • Há muito tempo que a designação de nome é usada no Ensino Básico e não decorre da TLEBS. Há muito que substantivo caiu em desuso. Podemos discordar mas é um facto. Há bons anos que isso se passa. A APP desconhece. Desconfio que sei porquê. Quanto aos exercícios serem «bastante bons» faz-me sorrir. São «facilitistas» mas «bons»?
  • Os resultados das provas de aferição são sabidos, escola a escola, turma a turma, aluno a aluno, ainda antes do final do ano lectivo em que são realizadas. É por isso que são realizadas em Maio, o que até prejudicial para a planificação do trabalho, mas é a verdade. os resultados costumam chegar alguns dias antes do final das aulas. Ainda o ano passado e no anterior foi assim. A APP e Paulo Feytor Pinto desconhecem isso. Desconfio que sei porquê e tenho pena.

Isto demonstra até que ponto há associações de professores que desconhecem aquilo que é o trabalho diário, quotidiano, daqueles que deveria representar. Ou nâo.

Já disponíveis, antes do que eu esperava, confesso. Para a prova do 4º ano e para a do 6º ano. No caso da prova do 4º ano percebe-se que o convite proposto na 2ª parte tem um valor muito escasso na pontuação final (4 pontos), o que poderá penalizar os alunos que consideraram essa actividade com uma importância próxima da proposta de diálogo (32 pontos) que o antecede.

Madness, Dust Devil (actuação de hoje…)

(A minha ligação aos Madness é ancestral e afectiva. Há exactamente 30 anos o One Step Beyond seria o meu primeiro vinil, mesmo meu… e ainda espreita por ali… Ouvi-los agora já não é bem o mesmo, envelheceram e perderam viço, mas é como aquela antiga paixão a quem se perdoam as rugas em função das memórias… Embora o Suggs esteja quase escorreito…)

O-Deserto-da-Educacao-017-2009(c) Luís Cruz Guerreiro
(porque isto é só ideia dele, tirando o bicho para o AJJ)

Professora de Espinho suspensa por alegada conversa sobre orgias sexuais na sala de aula

Acho que não há razão para dramas e desta vez estou com a DREN. Atendendo à gravidade das acusações, e tal como nos processos disciplinares a alunos com alegados ou reais comportamentos altamente incorrectos, suspenda-se a professora até se apurarem os factos.

Sendo aquilo que estava a ouvir-se na SIC arranjai-lhe um caminho directo para a porta de saída.

Mas que não usem isto como argumento no debate sobre a Educação Sexual nas escolas.

Chegada por mail, enviada por uma das subscritoras com indicação de a poder publicar pois já foi enviada para a Plataforma, via Fenprof, por correio electrónico e convencional

Professores da Escola Secundária de Lousada contestam formas de luta propostas pela Plataforma Sindical

Os professores da Escola Secundária de Lousada vêm, por este meio, apresentar a sua total discordância com o enfraquecimento das formas de luta previstas para o final do ano lectivo, apresentadas pela Plataforma Sindical.

Pertencemos a uma escola secundária que talvez seja caso único no país, pois dos cerca de 140 professores somente um solicitou aulas assistidas e entregou objectivos individuais. Temos agido de forma unida e coerente: fomos às duas manifestações nacionais e a adesão às duas greves foi sempre acima dos 97%.

Consideramos (e fizemos saber ao nosso delegado sindical da Fenprof) que as formas de luta têm de ser radicalizadas e NUNCA atenuadas, sobretudo nesta altura do ano lectivo e neste período político (época pré-eleitoral).

Entendemos que nova manifestação ao sábado é totalmente desadequada, dado que já fizemos duas com números de adesão assombrosos e nada foi conseguido. O mesmo ocorreria se se realizasse greve de um dia (e mais se revela totalmente descabida e anedótica a realização de paralisações por dois tempos lectivos – o que nos remete para a pergunta: se duas greves com adesões de cerca de 90% em dois dias não surtiram efeito, o que leva os sindicatos a pensarem que uma paralisação por dois tempos provocará alguma mudança? É como esperar que um doente que precisa de penicilina, se cure apenas com benuron…)

Com efeito, os professores da Escola Secundária de Lousada (e estamos em crer que a esmagadora maioria dos professores) não se revêem no abrandamento das formas de luta. Como tal, não participarão nem na pseudo-greve de dois tempos lectivos prevista para o dia 26 de Maio, nem na manifestação masoquista “para Lisboeta ver” no dia 30 de Maio.

É que, ou se luta com as armas todas, ou então, sentemo-nos a descansar que bem precisamos por esta altura…

Professores da Escola Secundária de Lousada

Lousada, 7 de Maio de 2009

Paradóxius e outras minudênçias

Estamos carecas de saber que nas provas de aferição os alunos não podem/devem identificar-se em nenhuma passagem.

Por essa razão, e por muito que isso até faça parte dos conteúdos programáticos, continuo sem perceber porque, ano sim, ano não, na prova de 4º ou 6º ano de LP, aparecem propostas de produção de cartas ou convites que – quase de forma instintiva – levam os alunos a de alguma maneira identificar-se a si ou ao local onde moram.

Este ano é no 2º texto da 2ª parte da prova do 4º ano. É verdade que são a cegonha e a tartaruga que convidam, mas aposto que não serão poucos os miúdos a escorregarem

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As provas de aferição de Língua Portuguesa para o e anos de escolaridade. A que me toca mais, embora este ano não leccione 6ºs anos, parece-me bem acessível. Salvo umas coisitas sobre funcionamento da língua e na estruturação do texto da 2ª parte poderia ser apresentada ao 4º ano sem danos de maior. Previsão: na ordem dos 85% de sucesso. Mesmo não sendo o docente da disciplina se a minha DT descer dos 90% temos chatices nas aulas de Formação Cívica.

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Já no fim de semana um antigo responsável da Independente dizia que alguém tinha destruído uns dossiers sem se perceber porquê.

Eu acho que foram questões de gestão de espaço e reciclagem que pesaram em tais decisões

Elementos sobre o estado da escola pública 31: responsabilizar os estudantes pelo seu desempenho

Inovou ao começar com um texto dramático (obrigado pela dica, Reb). Interessante alternativa. Vou agora tentar ver o resto e já darei notas da prova.

Aceitam-se opiniões a quem já a viu ao vivo e a preto e branco.

Façam o Favor de Ser Felizes!

(romance lai)

Capítulo Dois

- Hoje à tarde quero que venhas comigo, a um lugar especial, Maria. – As palavras dele saíam entrecortadas enquanto mastigava.

Maria Prado, sorridente, desviou por momentos o olhar do espelho do “Psiché” Dona Maria, interrompendo a aplicação do rímel Pupettshow n.º5.

- Um lugar especial, Leo? – Suspirou com uma risadinha. – Espero que seja bem romântico…

Admirou-o com desvelo. Como sempre, estava lindo de morrer! As pernas rechonchudas e sólidas entaladas entre as ligas das peúgas, os requintados “shorts” “Abatattado” com ursinhos cor-de-rosa, a barriguinha sexy no tronco lanoso…todos os detalhes másculos de Leonardo Gualter, o capataz da lavandaria “Bolhas de Sabão”, arrebatavam os sentidos sempre alerta de Maria.

- Mmm… crunch…- continuou ele, lambendo as migalhas do canto da boca. – Ora…Logo verás. É só…um lugar. Mas especial para mim. Preciso da tua opinião.

Leonardo ia continuar a trincar a tosta, quando Maria soltou um grito abafado.

- Pára! – Maria correu a estacar-lhe a mão. – Já te disse várias vezes para não vires comer aqui. Pelo menos sem trazeres um pires!

O amante abriu um largo sorriso, mostrando uma fieira de dentes salpicados de restos de caviar negro. Para ser mais exacto, era o Caviar à moda da Maria Prado, uma receita económica que ela inventara. Azeitonas pretas raladas, gelatina e um pouco de algas liofilizadas, numa proporção divinal e única. Era o que ela chamava de “Caviar-simplex”. Iludia sempre. Pelo menos os desconhecedores de verdadeiro caviar. Maria gostava de o servir a qualquer refeição, incluindo ao pequeno-almoço. Leonardo Gualter adorava!

Há um par de semanas que se encontravam quase diariamente, em profícua sofreguidão amorosa. Ela não o gostava de o trazer para sua casa, pois desarrumava-lhe tudo, mas de vez em quando abria uma excepção. Normalmente, as traseiras da lavandaria bastavam para satisfazerem os voos da paixão, em cima dos edredões lavados a seco ou por entre os cortinados adamascados prontos para entrega.

Maria pegou no resto da tosta com “caviar” e começou a empurrar suavemente o capataz para fora do quarto decorado num misto estilo Regência com pós-moderno. As paredes, forradas a seda às riscas vermelhas e bege, davam um ar imponente e determinado ao ambiente, complementado com um trio de cadeiras de braços rococó, em dourado e rosa, que salientava a feminilidade voluptuosa da dona da casa; pesados cortinados de cetim azul-celeste, a reforçar a componente ética e combativa; tapetes de Arrayol (rezavam as etiquetas respectivas), cobrindo o soalho num aconselhável pendor nacional e tradicional; e exóticos lustres asiáticos, a imbuírem de sofisticação os tectos de gesso lavrado. Tudo num conjunto “je ne sais quoi”, muito Parisiense de França. A dar o retoque de surpresa moderna, um amplo sofá forrado a couro negro. Rematando o conjunto, em cima de um pedestal, ao lado da cama redonda, um busto de alabastro de Napoleão, agora decorado com a gravata multicolorida de Leonardo, olhava-os, em pose imperial.

Antes que ela tivesse tempo de o enxotar do quarto, o seu impetuoso Leo agarrou-a pelos ombros e obrigou-a a lançar-se com ele sobre o sofá de couro. Ela libertou uma gargalhadinha de prazer e o homem deitou-se de costas, com satisfação. O couro do móvel chiou, com o impacto súbito.

- Ah, ah! – Exclamou Leo, divertido. – Adoro este sofá!

De súbito, reergueu-se, de um salto deixando a Maria desamparada no couro encovado.

-Espera aí… Vou mostrar-te o que tenho andado a magicar…

Deixou a Maria por instantes, atordoada a tentar recompor o penteado e a limpar o rímel esborratado, e voltou com uma dúzia de folhas rabiscadas.

Maria compreendeu logo: como era seu hábito, a qualquer hora do dia e em qualquer recanto, Leonardo Gualter andara a rascunhar mais algumas regras a incluir nos regulamentos das suas empresas, num brio exemplar e técnico de quem anseia não deixar nada ao acaso, no que ao corpo legislativo diz respeito. Eram artigos legais, cláusulas contratuais, projectos detalhados de portarias ou de despachos, – para quando, por influência da empresa da Maria, as suas propostas se pudessem universalizar a outras empresas e a todo o país – numa profusão de instrumentos legais e de alíneas fantasiosas, que procuravam regulamentar cada gesto de cada dia laboral dos seus funcionários.

- Não há dúvida, Leo! – Elogiou Maria. – Os teus empregados são uns seres bafejados pela sorte! Isto aqui o que são? São vírgulas? Não exageraste?

A unha afiada de Maria Prado apontou para as folhas. A cada três palavras, uns traços negros salpicavam a página. Gualter olhou de perto. Fez uma careta de desprezo.

- Isso aí não é nada… Escrevi isto ao pequeno-almoço, enquanto me deliciava com o teu Caviar-simplex… devem ser migalhas do dito…- tentou apagar uma das “vírgulas” com o dedo papudo envolto em cuspo, mas acabou a rasgar a página, ligeiramente arreliado. – Bolas! Eu depois trato disso, revejo se estiver para isso…! Deixa! Vê-me só se concordas. – E Leonardo começou a ler em voz alta. – “ Anexo Um…”

A referência ao vocabulário legal (tal como ao técnico) excitava sempre a Maria. Começou a sentir um fogo a invadir-lhe o corpo todo, a entupir de faúlhas cada um dos seus poros.

Deitou-se no sofá ao lado do companheiro e implorou, arfante:

- Oh! Tem um ANEXO? Sim…! Excelente…

Leo Gualter continuou, pausado e em tom lascivo:

-… Anexo Um da Terceira Adenda…

- Ohhhh! E uma ADENDA!!! Continua! – Maria ardia já. Mordia o polegar em deleite. – E tem Alíneas?! Diz-me que tem ALÍNEAS, por favor!

- Tem alíneas… tem… – sussurra-lhe em sensual voz de falsete o capataz. – Mas antes, deixa-me ler-te o preâmbulo…

- PREÂMBULO?! Sim! Sim! … Não pares! – Maria lançou-se à orelha do amante e trincou-a, exaltada.

Após o preâmbulo, que à Maria pareceu uma eternidade, e uma mão-cheia de artigos e alíneas, as folhas engorduradas, inauguradoras de magistrais regulamentos, acabaram a manhã espalhadas pelo tapete colorido.

*

Estavam num arrabalde degradado da cidade. O sol incómodo da tarde perturbava a concentração de quem vinha fazer uma visita profissional. Maria olhou em volta de ar enojado: casas antiquadas, pessoas empobrecidas, uns restos de fábricas, ruas pouco modernas. Aquilo não tinha nada de tecnológico e não condizia com o empreendedorismo acelerado de Gualter. Se competisse à Maria, ela mandaria arrasar tudo num ápice. Por cada bairro com menos de 2.000 pessoas, uma interdição de urbanismo! As pessoas pobres da modernidade deviam habitar em modernos bairros sociais, com torres vistosas de quinze andares e com uma concentração mínima que favorecesse o convívio e o franco desenvolvimento de vizinhanças e de promiscuidades. Assim sobraria mais espaço para os condomínios de gente de elite, espraiando o seu bom gosto e os seus campos de golfe em agradáveis metros quadrados.

Leonardo Gualter apontou pata um edifício de dois pisos e em tijolo-burro, de escassas janelas e com um letreiro desbotado sobre a grande porta: “Padaria Jeitosa”.

-“Jeitosa”?! – Troçou Maria.

- Que queres…. Herança de família. Foi o nome que o meu avô lhe deu… acho que vem de uma alcunha… Anda daí!

Maria encolheu os ombros. Entraram então.

Copy e raiControleiro da Xibanguice (2009)

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