Perguntas e respostas da Fátima Inácio Gomes à jornalista Clara Viana para a peça de ontem no Público sobre o movimento de contestação dos professores:
O surgimento e acção dos movimentos independentes de professores mudou a luta dos professores ? Porquê? Como? Ou os sindicatos “venceram”?
Não se deverá colocar a questão no domínio de uma luta entre movimentos independentes e sindicatos. A “luta” é comum e é contra as medidas do Ministério da Educação, não só no que respeita a avaliação de desempenho, mas, muito especialmente, no que toca o próprio conceito que preside à dita “reforma educativa”. Enquanto agentes desta reforma, sabemos, melhor que ninguém, o quanto esta “reforma” põe em causa todo o sistema de ensino público e compromete uma reforma real que tenha em vista a melhoria da qualidade da escola pública.
Contudo, é inegável que o surgimento dos Movimentos mudou completamente o quadro de acção da luta de professores. Aliás, é um fenómeno único relativamente a qualquer classe profissional: os professores foram capazes de se organizar, movidos por um genuíno sentimento de contestação dos princípios e de revolta face ao desprezo como estavam publicamente a ser tratados, transcendendo as organizações tradicionais. Este fenómeno ainda será estudado, já que revela uma alteração de mentalidades e dos modos de actuação, fruto de uma dinâmica que envolve a sociedade, o acesso à informação e a capacidade de comunicar globalmente. Os sindicatos de professores tiveram de lidar com o exercício de opinião dos professores, directamente, e este é um fenómeno que, a breve prazo, se estenderá aos próprios partidos políticos. Os sindicatos não “venceram”, e para já, também não “perderam”, os sindicatos tiveram de se adaptar a uma situação inteiramente nova… e ainda o estão a procurar fazer.Esperava que a ruptura pudesse ter sido maior? (Ruptura em tipos e métodos de acção).
Esperava, sim, e creio que existiram condições para essa ruptura. A plataforma sindical, em conjunto com a esmagadora maioria dos professores, conseguiu feitos inéditos na história recente – realizaram-se duas manifestações com números assombrosos para uma única classe profissional. O mesmo aconteceu com os números das greves, apenas ”ignorados” pelo governo, pois em todo o país foi visível o grau dessa participação. Os professores estavam mobilizados, unidos, orgulhosos pela defesa da dignidade da classe e cientes de que lutavam por algo mais do que meras razões profissionais. Em Dezembro, início de Janeiro, estavam criadas as condições para que a plataforma sindical desse o golpe final. Não o fez. A meu ver, foi um erro crasso. Não poderei avaliar completamente, sem incorrer no perigo de ser injusta e irresponsável, quais as razões que fizeram os sindicatos, se não recuar, marcar passo. Julgo que, mais uma vez, se trata da incapacidade destes sindicatos (como aconteceria com outros) de lidar com uma força com a qual não estavam habituados, nem preparados, para lidar. Estas estruturas não têm a flexibilidade necessária para gerir uma situação destas, estão presas a tiques que vêm de longe. É precisamente essa flexibilidade que têm os Movimentos, por não estarem ligados a qualquer disciplina, nem política nem ideológica. Os Movimentos, constituídos por professores no activo das funções, sabiam exactamente qual era o sentir da classe, pois é o seu próprio sentir e a própria razão da sua existência.
Na verdade, os sindicatos caíram no mesmo erro que, um dia, presidiu à assinatura do famigerado “memorando de entendimento”, e que lhes valeu uma grande contestação dos professores, que procuraram redimir na manifestação de 8 de Novembro – uma via negocial enviesada, quando é já manifesta a incapacidade desta equipa ministerial de negociar e ouvir, tanto os parceiros institucionais, como aqueles que tão incisivamente, e em massa, manifestaram a sua oposição.Quando iniciaram as movimentações, contava chegar ao fim do ano lectivo nesta situação no que respeita tanto à avaliação, como ao ECD?
De facto, não contava. Com a imensa força que se gerou, com a contestação massiva, nunca previ que, nesta altura, não tivesse sido já dado o “murro na mesa”. Contudo, é importante frisar que, não tendo nada de substancial mudado, também nada se aplicou. Estamos a atravessar uma “terra de ninguém” em que reina o faz de conta. A ministra, o primeiro-ministro, os secretários de estado, todos sorriem, querendo fazer crer que tudo funciona. Nas escolas, na esmagadora maioria das escolas, os professores cumprem as suas funções, aquelas que verdadeiramente os preocupa e interessam para a escola: dão as aulas, desenvolvem actividades que consideram pedagogicamente produtivas e relevantes para os seus alunos. Deste modelo de avaliação, resta um cadáver informe. Estamos à espera do enterro, apenas.Entregou os OI? Na sua escola foram mais professores que entregaram ou o inverso?
Não entreguei. Na minha escola, metade fê-lo e a maior parte foram os professores contratados, por estarem numa situação extremamente precária.Como está o ambiente na sua escola? Os professores estão divididos, há mal-estar, por causa das posições adoptadas quanto à avaliação?
No início ainda houve alguma crispação, tanto dos colegas que se sentiam traídos porque este ou aquele colega que entregava os objectivos, quer pelos próprios professores que os entregavam, sentindo-se pressionados (pela precariedade da sua colocação, pelo medo dos concursos) a fazer algo que, no fundo, contestavam. Contudo, deve ressalvar-se que a grande maioria dos professores que entregou os objectivos não pediu observação de aulas, não porque temam esta observação, como é óbvio (o nosso desempenho é diariamente observado), mas porque não quiseram tirar proveito das quotas para classificações de Muito Bom e Excelente, quando outros colegas mantinham o sentido da luta.
Maio 31, 2009 at 8:50 pm
De pouco vale “depoiar” sem resultados, quanto mais sem objectivos. Colectivos, evidentemente.
Maio 31, 2009 at 8:56 pm
Uma pequena metáfora…
Os professores são apenas as primeiras peças. Já todos sabemos isso mas é difícil passar a mensagem. Provavelmente só quando todos (portugueses) estivermos já caídos é que muitos se vão aperceber do que é este arremedo de governo democrático, esta autocracia que a ninguém interessa.
Maio 31, 2009 at 9:02 pm
Ou seja, no fim voltamos sempre àquela questão do Fernando Gil da Não-inscrição. Andamos em luta, fazemos manifs, greves, abaixo-assinados e mais alguma coisa, mas no dia seguinte estamos a picar o ponto como se nada fosse.
É aí que em parte a sinistra se escuda e por isso ontem afirmou que o essencial é que as escolas estão a cumprir a sua missão. Nós sabemos que não é assim, mas falta dar o tal “murro na mesa” de que fala Fátima Inácio Gomes.
Não sei qual é o ponto da situação em termos de estratégia para o futuro e deu para perceber há uns tempos que a não entrega da auto-avaliação é uma estratégia que aparentemente colhe poucos seguidores, mas estou disposto a não entregar a minha auto-avaliação como forma de contestação a toda esta política educativa. O Paulo já declarou a sua intenção. Quantos somos e como podemos alargar o universo de resistentes?
Maio 31, 2009 at 9:13 pm
# 1
Esquecer.
O 15 foi força de dois …
no pós 15 somente um …
… bate com a porta, né?
No “umbigo” está-se bem.
Maio 31, 2009 at 9:32 pm
Uma análise muito ponderada que me parece descrever fielmente a actual situação em toda a sua complexidade.
Muito caminho ainda pela frente, nesta altura em que o governo não hesita em deitar mão de meios inéditos nas suas ofensivas para desvalorizar a escola pública, abrindo caminho para a privatização completa do ensino.
Maio 31, 2009 at 10:03 pm
#3, estou contigo.
Falta o tal murro na mesa!!
Maio 31, 2009 at 10:06 pm
Falta o murro na mesa ,que já deveria ter sido dado .
Maio 31, 2009 at 10:08 pm
Ah se os professores fossem determinados e corajosos como os camionistas…
Maio 31, 2009 at 10:11 pm
O que eu gostava mesmo era ver os MOVIMENTOS UNIDOS para que deles nascesse uma coisa muito bonita que mudasse o futuro da educação e do país… Porque isto com governos e sindicatos já lá não vai…
Maio 31, 2009 at 10:16 pm
Continua a confusão entre a privatização do ensino e a subserviência ao mercado.
Caro Ferrão, a escola pode continuar a ser “pública” e servir os objectivos do capitalismo, tal como o Estado pode ser totalmente colonizado por interesses privados e reclamar-se “socialista”.
A linha de separação não passa pela semântica mas pela função que realmente desempenham as instituições: reforço do domínio do Capital e da Nomenklatura, ou afirmação da liberdade e do poder dos cidadãos.
Maio 31, 2009 at 10:26 pm
#8
Se bem me lembro, não foi bem na mesa que os camionistas deram murros…
Maio 31, 2009 at 10:28 pm
Que coisa é essa “coisa muito bonita que mudasse o futuro da educação e do país”? Como ia conseguir cumprir tão elevado desígnio só por nascer?
Quem é que instrumentaliza o descontentamento/a luta dos professores?
Maio 31, 2009 at 10:32 pm
TERESA:
Não gosto da expressão #instrumentaliza”. Prefiro esta “associa”.
E acho que decorreram anos demais para preovar q1ue os sindicatos o não fazem
Maio 31, 2009 at 10:35 pm
GRELHADA:
Unir os movimentos devia ser agora a nossa missão.
Maio 31, 2009 at 10:42 pm
#3
Quantos somos?
Não saberemos!
Deviam ser os sindicatos a dar a cara e informar os professores que não deviam entregar a A.A. e que lhes dariam toda protecção jurídica. Mas isto sou eu a delirar e a ser utópica, porque os sindicatos vão lavar as suas mãos e deixar tudo nas costas de “meia dúzia” de zecos mais resistentes!
Maio 31, 2009 at 10:54 pm
Os países mais desenvolvidos já não têm exércitos milicianos. Hoje os exércitos são profissionais. Há reestruturações que vão acontecendo nas sociedades, mas é preciso estar com atenção a elas e compreender as razões. Neste caso, o capitalismo de que fala h5n1 reconheceu que as suas guerras de rapina não são compatíveis com exércitos de todo o povo. Na eminência de uma derrota militar (Alemanha, segunda guerra mundial; EUA, guerra do Vietname; Portugal, guerra na Guiné) os militares tendem a pôr em cheque o poder militar. No caso da derrota militar no Vietname, isso acabou com o exército miliciano dos EUA.
O que eu acredito é que o acesso pleno e generalizado às ciências representa hoje um perigo tão grande para as novas formas de poder transnacionais que já não são compatíveis com ele. O ensino público fica sujeito a todos os atentados às leis da pedagogia, esmagado em burocracia, incapacitado de realizar a sua única missão de ensinar; o ensino privado, livre destes constrangimentos, com meios de acesso restritivos, fica reservado para as elites do “arco governativo”, como agora se diz.
Maio 31, 2009 at 11:00 pm
#16 …os militares tendem a pôr em cheque o poder político…
Maio 31, 2009 at 11:09 pm
Bia #15 ora aí está a questão! Onde é que vemos a plataforma, que deve ser quem deve coordenar as hostes por ser quem tem a máquina montada, a ir mais longe do que as acções “significativas”? Que temem, eles?
Falam sempre que os professores não vão arriscar, não vão fazer, não vão acontecer… mas é claro, se não há uma liderança capaz, em quem confiar. No fundo, sabemos que estamos entregues a nós próprios e isso isola.nos – consequentemente, divide-nos.
Aliás, esta manifestação foi a clara resposta à questão se os professores são capazes ou não: a esmagadora maioria foi, mobilizou-se, graças à acção dos Movimentos e dos próprios professores, entre si, com mails e sms. E não foi assim que tudo começou? Quando aprenderão?!?!?!
Maio 31, 2009 at 11:28 pm
Subscrevo tudo, palavra por palavra. Post e comentário 18.
Maio 31, 2009 at 11:37 pm
# 18
“Aliás, esta manifestação foi a clara resposta à questão se os professores são capazes ou não: a esmagadora maioria foi, mobilizou-se, graças à acção dos Movimentos e dos próprios professores, entre si, com mails e sms. E não foi assim que tudo começou? Quando aprenderão?!?!?!”
Desculpa. A acção dos blogues foi e é determinante na mobilização. Os professores informam-se e mobilizam-se (via mails e sms)a partir dos blogues. E este blog, “A Educação do meu Umbigo”, é determinante (…)
Maio 31, 2009 at 11:44 pm
#4
Se já não há portas, porque insiste em lhes bater?
E nem me bata a mim, que só estou nisto por convicção.
Um dia irei fazer outra coisa, não me considero professor-dependente, ao contrário dos com medo que foram à festa e que igualmente morrerão.
Maio 31, 2009 at 11:50 pm
O 15 de Novembro existiu porque existiram os meios – o Umbigo e o profavaliação – e (já agora) … eu nas minhas andanças de comentarista residente. E do outro “lado da linha”, eu e o I. Trindade.
E depois … PIM.
Junho 1, 2009 at 12:24 am
# 21
Quando uma porta se fecha, outra (ou outras) se abrem …
Ou janelas …
Pecado ou «pecus» … pé que não anda, não faz caminho. medo.
Agora. Não fui à festa. Por convicção.
Junho 1, 2009 at 12:52 am
# 20
Ó Ana, eu lá quis retirar importância ao blogue, a qualquer um deles? se eu até participo!
Os blogues são mais um meio de expressão dos professores, na sua individualidade (quer os autores quer os participantes) sem “aparelho”. Aliás, é bom que se mantenham assim… se começarem a instrumentalizar movimentos e blogues, a criar disciplina de opinião, então estamos feitos!
Junho 1, 2009 at 8:41 am
#16
Mas então o problema tem a ver com a reprodução das elites e a sua relação com a educação, o que só muito parcialmente coincide com a divisão ensino público-ensino privado.
Esse mito de que a “escola pública”, de massas, só pelo simples facto de ser financiada pelo Estado, assegura e protege a democracia, foi claramente negado por todos os regimes despóticos, nomeadamente os ditos socialistas.
Portanto o problema reside antes nos fins a que se destina a escola, no modo de funcionamento e organização da mesma, independentemente de ser pública ou privada, e na forma como o sistema capitalista enquadra o papel da educação do Estado em função do sistema de poder económico e político.
Junho 1, 2009 at 8:50 am
PS
O “acesso às ciências” está claramente refém do sistema capitalista.
As ciências exactas são simples meios de expansão e fortalecimento do mercado capitalista, uma vez que os laboratórios são propriedade das multinacionais e as “descobertas” só são aproveitadas e reproduzidas se gerarem mais-valias significativas no mercado.
As ciências humanas são em grande parte colonizadas pelos comissários políticos e pelos papagaios das instituições transnacionais, acabando por transformar as ideias em gadgets ideológicos de curto alcance, ao serviço das mafias político-finaceiras.
Junho 1, 2009 at 11:03 am
Fátima, penso como tu.
A partir de dada altura, sentimos necessidade de uma qualquer forma de liderança. Rejeitamos autoritarismos e ortodoxias , pois inventemos outra forma de organização que nos defenda.
Caso contrário, cada um por si, isolado na sua escola, não tem força para nada.
E ficamos pelas boas ideias e belos debates…
Esta é uma lição que tenho tirado desta “luta”.
Junho 1, 2009 at 3:33 pm
«…porque os sindicatos vão lavar as suas mãos e deixar tudo nas costas de “meia dúzia” de zecos mais resistentes!»
Ora aqui está uma boa ocasião para substituirem esses inúteis sindicatos…
Junho 2, 2009 at 12:06 am
“Rejeitamos autoritarismos e ortodoxias , pois inventemos outra forma de organização que nos defenda.”
Mas é mesmo algo novo, inventado agora, de que andam à procura? Será que não está já inventado e a funcionar? Tão novo que não é reconhecível!
Ou o novo é algo adaptado? Mais velho que os sindicatos, tão sujeito a ortodoxias e autoritarismos como eles mas, além disso, com uma vocação totalitária, e que uma tendência sebastianista e vagamente (?) elitista encara como redentor?
E há mesmo que acabar com os sindicatos ou apenas enfraquecê-los para ganhar espaço?
Junho 3, 2009 at 11:13 am
Atrasei-me na discussão…