Abril 2009


25ab09a1849a

(c) Antero Valério

Professores marcam protesto para início da campanha

Sobre esta decisão – não colocada nas reuniões de que tenho conhecimento, nem sequer nos relatos dos sindicalistas – nem sequer vou fazer comentários. Mas dou a minha mão à palmatória: por uma vez a realidade impôs-se às decisões das cúpulas. HAveria mais a comentar sobre as razões desta inversão de marcha, mas não gostaria de fragilizar ainda mais o que já de si está demasiado frágil.

No entanto deixo aqui duas anotações sobre passagens particulares, atribuídas ao colega Mário Nogueira, que acredito terem sido descontextualizadas, por ser impossível aceitá-las como provenientes de alguém consciente do que se passa nas escolas:

A proposta de acompanhar a auto-avaliação com uma declaração de protestos “tem tido uma aceitação extraordinária e mostra que o modelo de avaliação é incoerente, burocrático e não serve para avaliar professores”.

É difícil considerar extraordinária a adesão a qualquer medida apresentada em reuniões com uma baixíssima participação. Mesmo que digam que conta é a opinião de quem vai, espero que percebam que a aceitação da maioria dos presentes em debates com 5, 10 ou mesmo 20 ou 30 docentes em agrupamentos com 150-200 professores, será sempre algo muito longe do sentir da maioria efectiva dos docentes. Tal como com a política – e no Expresso de hoje vem uma esclarecedora matéria sobre a desafeição dos portugueses em, relação aos partidos (77%) – seria interessante compreender a razão desta regressão em tão poucos meses, depois de uns míticos 91% de adesão à última greve.

Não parem mesmo para pensar…

Mas há mais. Numa tirada perfeitamente desnecessária, Mário Nogueira afirma:

Sobre as críticas de alguns docentes que na semana passada acusaram os sindicatos de estar a cumprir calendário por já terem decidido avançar para um protesto, o dirigente da Fenprof reconheceu a existência de “alguns críticos” mas diz que na “na hora da verdade eles não aparecem”.

Pois, ou não aparecem ou são mandados sair das reuniões. Ou as suas propostas não são ouvidas ou consideradas. Eu desafiava Mário Nogueira a apresentar o número de reuniões em que a medida de uma manifestação em cima das eleições europeias foi a decisão tomada formalmente ou sequer proposta.

A menos que, «na hora da verdade», as provas teimem em «não aparecer».

É que, já depois de eu ter sido convidado a sair da minha reunião, sei que foi feita a exigência por parte de uma colega que, para a próxima, seja feita uma acta da reunião realizada e de todas as suas principais incidências.

Porque parece que algumas destas reuniões são como as realizadas na 5 de Outubro. Parece que quem de lá sai esteve em reuniões diferentes.

Apetecia-me escrever mais umas verdades, daquelas mesmo verdadeiras que andam a esconder do olhar público, mas é 25 de Abril, vamos deixar o sarcasmo para outro dia.

Porque hoje festeja-se uma vitória pública e não gostaria de falar em quem anda a lamber derrotas em privado.

ESTIVE COM O PADRE QUE ME BAPTIZOU. DEI-LHE CONTA DO ESTADO DE ALMA DOS PROFESSORES. E O SANTO HOMEM ACONSELHOU: IDE A FÁTIMA E REZAI. QUEM SABE SE HÁ UM MILAGRE. MAS NÃO SE FICOU POR AQUI. EM DOIS MINUTINHOS REDIGIU UMA ORAÇÃO E OFERECEU-MA, CHEIO DE FÉ.

E EU VOU PARTILHÁ-LA CONVOSCO, PEDINDO DESCULPA AOS MAIS SUSCEPTÍVEIS:

Salve Rainha

Salve Rainha, mãe de Jesus, tende misericórdia de nós, professores.

Esperança nossa, salvai-nos daqueles “filhos da mãe” que nos perseguem, há quatro anos, sem descansar.

Por vós suspiramos, gemendo e chorando neste bal(de) de lágrimas, e nos corredores das nossas escolas.

Sede, pois, advogada nossa, e livrai-nos do pesadelo do nosso estatuto, gerado pelo azedume  e vingança da Santíssima Trin…, perdão, Vaidade.

Afastai de nós esta funesta avaliação, assim como todo o mal que dela virá, para nós, para os nossos filhos e netos e para todos os portugueses que hão-de vir, pelos séculos dos séculos,

Amen

C. R.

25a125deabril

Maximo Park, Apply Some Pressure

Aparelho de alarme dá resposta ao xixi na cama

Foi cá uma andorinha que me sussurrou. O que tem a sua graça, atendendo a este meu post de dia 19 e à sua conclusão:

Discutir a sério, meus caros, nunca é sinal de fraqueza ou divisão. Discutir a sério é sinal de força e vitalidade. Não discutir ou evitar o confronto público é que é sinal de fraqueza. Aprendam com o passado recente alguma coisa.

Mas espero – com toda a sinceridade – estar errado e a consulta de 20 a 24 de Abril me demonstrar que tudo está em aberto.

Nesse caso, darei a mão à palmatória. Nem que marquem a manifestação para dia 15 ou 23, só para mostrar imensa abertura à opinião dos professores.

Eu gostava de dar a mão à palmatória, mas que não fosse apenas com a mudança de data da manifestação.

Por duas razões, que nem me vou alongar muito a expor, por causa das coisas.

  • Porque a participação na semana da consulta está a ser muito abaixo do esperado e qualquer decisão baseada na amostra em causa será sempre muito frágil. Aliás, penso que seria bem mais útil reflectir sobre as causas da baixa participação  e, em vez de estarem a preparar o cenário da retirada no final do ano lectivo nos bastidores, tentarem perceber onde está a origem do problema.
  • Porque a classe docente não pode funcionar como primeira linha e carne para canhão de uma estratégia mais global de confronto político, sem que estejam garantidas contrapartidas caso ela resulte. Lamento mas – sou tacticista e para além disso realista – actos de sacrifício colectivo em nome do bem comum não se devem fazer apenas em troca de elogios no momento do funeral. Para bons entendedores…

E agora não me venham dizer que estou a alinhar com isto e aquilo, porque já expliquei que não foi à minha custa que este Governo chegou ao poder, nem será com ele que o primeiro fax continuará. Mas também não gosto que usem o meu grupo profissional como isco ou diversão…

Só com papel passado e garantia…

Nem me digam que é por causa dos textos e comentários de um ou outro blogue que houve baixa participação na consulta. Como o presidente do CCAP pretendeu quanto à contestação em torno da ADD. Nem eu tenho tais delírios de grandeza.

Não é devolução de simpatias, coisa que raramente pratico, mesmo em situações convenientes, o que me fez ganhar alguma fama (e proveito) de mal educado.

Mas o Almocreve das Petas foi sempre um dos meus blogues de estimação, por muitas razões, a principal das quais o amor evidente pelos livros. Não é por acaso que fez parte da primeira selecção de links do umbigo. Não remeto muito para lá, porque é mesmo um prazer muito pessoal.

Ser objecto deste post é algo inestimável.

blushing1

Mail enviado ao grupo parlamentar do PSD:

Ex.mos. Srs.
No dia 22 de Abril, na AR , no debate com a presença do primeiro ministro, o senhor deputado Paulo Rangel comparou o estado do ensino à violência doméstica: “o governo a bater nos professores, os professores a bater na escola… (sic)

Não querendo discutir a metáfora (pouco feliz, de resto, na minha perspectiva), e esperando que tenha sido apenas um lapso, queria deixar claro que os professores (perdoem-me a arrogância do plural) se estão a bater PELA e não “contra” a escola pública.

Aproveito ainda para lamentar que o GP do PSD não se tenha disponibilizado para se associar aos GP que se uniram para subscrever um pedido de fiscalização sucessiva do modelo simplificado de avaliação, que se encontra em vigor.

Grata pela atenção dispensada e esperando o esclarecimento possível:

Ana Mendes da Silva, cidadã, encarregada de educação e professora do GR 300 na Escola Secundária da Amadora

Comentário: Eu até gosto do Paulo Rangel, que acho rapaz (é quase das minhas idades, acho que me posso dar a estas liberdades…) inteligente, civilizado e mais umas quantas coisas. O problema é que há coisas que, em determinadas circunstâncias, mais valia serem pensadas antes de ser ditas.

O individual e o colectivo

Somos seres pensantes e seres sociais. Em condições “normais” conseguimos pensar/ reflectir sobre o que nos rodeia, mas o nosso pensamento sofre várias influências da sociedade em que nos inserimos.
Ainda assim, quando estimulado, o pensamento  leva-nos a equacionar e até criticar algumas ideias de outros com as quais, simplesmente, não estamos de acordo.

Serve isto como preâmbulo para o que tenho andado a pensar.

Quando praticamente toda uma classe profissional (os professores dos ensinos básico e secundário) se dispos a unir-se numa luta contra o ECD e o modelo de avaliação imposto, isto significa que, apesar das influências dos do lado, havia uma unidade de pensamentos. Ao fim de vários anos de conformismo, houve uma lei que despoletou a indignação geral. Penso não existir um único professor ( ser pensante) que possa concordar com esta divisão da carreira, que, quase aleatoriamente, estabeleceu 2 categorias e responsabilizou uma pela avaliação e progressão da outra.

Conceber formas de luta com que todos concordem é bem mais difícil.
No entanto, julgo ser um acontecimento histórico ( e não só em Portugal), que uma classe profissional se tenha manifestado na sua quase totalidade 2 vezes no mesmo ano; ainda mais notória foi a disponibilidade de mais de 90% terem aderido a uma greve.

Uma força destas consegue-se uma vez por geração, talvez nem isso.

Nessa altura, o individual era também o colectivo.

O que “esvaziou” essa luta?
Ainda em jeito de pré-balanço, parece-me que todos devíamos reflectir sobre isto, porque TODOS somos responsáveis: os que desistem, os que julgam ser os detentores da razão, os que se perdem nas lutas pelos protagonismos, os que militam e os que são “amadores” nestas lides ( como eu).

Pela minha parte, senti necessidade de avançar no terreno ( escola) com a contestação que via nas ruas. Não entreguei os Objectivos, porque me parecia o único contributo individual coerente. Não quis ser avaliada por um modelo que rejeito absolutamente. Em coerência, gostava de poder levar isto até ao fim, não entregando a ficha de auto-avaliação.

Mas a luta não é só individual, embora tenha de ser sempre, também, a luta de cada um que, fazendo parte de um todo, contribui para o colectivo.

Não critico ninguém, mas penso que, por uma questão de honestidade, este assunto não devia ser tratado com ligeireza.
Posso aceitar argumentos estratégicos de quem, mais habituado a estas “lutas”, reconhece não haver condições para tal. Teria havido em Março ou em Novembro? Talvez…
O que não aceito é ouvir/ ler de companheiros de luta que o que não quero é ser avaliada.
Isso não é um argumento sério. Eu aceitaria ser avaliada num modelo justo e nunca por alguém a quem não considero competência para tal  foi isso que este modelo criou: a injustiça de atribuir a uns a missão de avaliar os seus pares, mesmo que sem diferenciação entre as partes).
A minha luta individual contra ESTE modelo começou quando não entreguei os Objectivos  e devia terminar quando não entregasse a Ficha de Auto-avaliação.

Reb

O triunfo dos animais

Um conto de Abril

“Quatro patas bom, duas pernas mau”.

George Orwell

Era uma vez uma quinta habitada pelos diferentes animais que vivem numa quinta. Num passado remoto eclodira aí uma revolução que devolveu a todos os animais da quinta a democracia, isto é, a liberdade para se exprimirem e para escolherem aqueles que deviam representá-los e orientá-los na gestão colectiva da quinta. Muito depois desses tempos gloriosos e míticos, a quinta passou a ser administrada por um regedor que foi eleito pela maioria dos residentes da quinta. Antes de assumir tão grandes responsabilidades, o dito regedor comprometeu-se a trabalhar pelo progresso da quinta e pelo bem-estar de todos aqueles que aí viviam. Mas, após a eleição, esqueceu-se das obrigações e promessas então celebradas e foi transformando, paulatinamente, a quinta que era de todos numa reserva sua.

O tempo foi passando, a maioria das quintas vizinhas prosperando e a reserva do regedor definhando. A falta de trabalho aumentou produzindo um desventurado cortejo de calamidades sociais; as infra-estruturas caducaram; muitos dos melhores ou mais jovens obreiros, não vislumbrando perspectivas de futuro no território da reserva, migraram para paragens mais promissoras; as relações entre o regedor e os restantes animais da reserva deterioraram-se.

Indiferentes aos deprimentes sinais do tempo, o regedor e os seus mais fiéis servidores, irremediavelmente extasiados pelas fragrâncias inspiradas na casa grande da reserva, interiorizaram e publicitaram a sua representação do seu pequeno mundo. Para eles, a reserva era uma espécie de oásis celeste exemplarmente governado, embora minado por perpétuas e tenebrosas conspirações.

Depois chegou o inevitável tempo das purgas a adversários e a velhos aliados, que sulcou um fosso ainda mais profundo entre a pequena elite de animais que fruía do poder, dos meios de produção, dos rendimentos e mordomias da reserva e a maioria dos animais sem poder que trabalhavam arduamente e desse modo contribuíam para os proveitos materiais e espirituais da reserva.

Apesar do declínio evidente da reserva e das manifestas incapacidades e iniquidades do regedor, o ambiente de “paz podre” entranhou-se. O medo, a subserviência, a resignação, o pragmatismo, a inveja, a falta de criatividade e de habilidade, tudo isto tolhia os animais entretanto considerados menos iguais a darem o corpo e a alma a um manifesto viável que reivindicasse, pela via democrática, a deposição do regedor. Por sua vez, este, orgulhosamente só, aprendeu, com a experiência e a sua refinada intuição política, a eliminar os putativos sucessores, a silenciar todos os opositores, e, sempre no momento oportuno, a conquistar, sub-repticiamente, o apoio das turbas.

Até que, num dia resplandecente de Abril, o destino, sempre tão ardiloso, resolveu alterar este status quo e devolver a esperança a todos os animais da reserva – os quais voltaram a acreditar na possibilidade de resgatar o legítimo significado cívico da ancestral, jovial e promissora quinta dos tempos lendários da revolução.

Luís Filipe Torgal

Agradecendo a referência ao António Ferrão:

Freedom of school choice meets its limits

A new study reveals that one in three Dutch schools are segregated. Attempts to discourage ‘black’ and ‘white’ schools often clash with the constitutional right to freedom of education.

Em especial se for para incluir um daqueles comunicados maçudos que ninguém lê.

Professores apelam ao apoio da opinião pública para a sua luta

A ideia é boa e recorrente, só sendo de estranhar que nunca se ultrapasse o patamar da ideia e da opção tradicional. Mas como ontem ouvi dizer que as únicas formas de luta conhecidas eram manifestações, greves, vigílias, abaixo-assinados, a via jurídica e a negociação, já é um avanço.

Porque a comunicação é essencial. Não pode é ser feita à moda dos tempos de antena dos anos 70 ou com prospectos à porta das estações do metro.

Desculpem-me, mas o mundo já andou uns bons 25 anos para a frente.

Manuela Moura Guedes, Foram Cardos, Foram Prosas

Em conversa no outro dia, por ocasião do debate promovido pelo BE, todos concordavam que uma medida como a escolaridade obrigatória de 12 anos é algo, em abstracto, difícil de contrariar.

E tentar demonstrar que o contexto nacional justifica imensas reservas a um projecto tão generoso é visto como uma intolerável incompreensão.

Mas não.

Portugal é pródigo, em especial na área da Educação, em legislação para o retrato. Fomos dos primeiros a decretar a escolaridade primária obrigatória nos alvores do regime liberal. E dos primeiros a decretá-la universal e gratuita, nos alvores da República.

Isso mudou alguma coisa? Quem conhece a evolução dos principais indicadores sobre a escolaridade, escolarização e alfabetização da nossa população sabe que nunca se deu qualquer dramática (ou sensível) inflexão na sequência de tais medidas.

Mas adoramos decretar o Paraíso.

Esta medida – claramente eleitoralista – é apenas mais uma numa longa lista de alegadas boas intenções. Apenas isso.

pub24abr09

Público, 24 de Abril de 2009


Ramones, Baby, I Love You e Rock’n'Roll Radio

(porque o Luís G. me fez lembrar esta omissão na selecção de ontem na Antena 1, só que eu só tenho Ramones em vinil…)

Falta tirar um coelho da cartola. Qual?

bunny

Escola pública no último debate online

A defesa da escola pública esteve no centro do último debate sobre políticas de igualdade, contributo para a construção do programa eleitoral do Bloco de Esquerda. Participantes salientaram que a política deste governo é um caminho para reduzir a Escola Pública numa escola só para pobres, condenaram a incompetência do ministério, manifestaram solidariedade com as lutas dos professores e destacaram a necessidade de continuar a debater a educação.

Nesta Quarta feira, 22 de Abril, realizou-se o último debate online sobre políticas de igualdade. Neste debate sobre educação participaram Ana Benavente (Investigadora em Educação), Cecília Honório (Movimento Escola Pública), Manuel Grilo (dirigente do SPGL) e Paulo Guinote (autor do blogue “A Educação do Meu Umbigo”), Miguel Reis moderou. A deputada Ana Drago não pôde participar por se encontrar doente.

Sócrates anuncia escolaridade obrigatória até 12º ano

O primeiro-ministro anunciou hoje, no Parlamento, que o Governo vai apresentar uma proposta para alargar a escolaridade obrigatória para 12 anos e um programa de bolsas de estudo no secundário a partir do próximo ano lectivo.

As medidas foram anunciadas por José Sócrates na sua intervenção inicial do debate quinzenal na Assembleia da República, que é dedicado ao tema da educação.

Sócrates disse que o Governo vai apresentar uma proposta que passa a escolaridade obrigatória dos actuais 9 para 12 anos, o que, na sua opinião, significará “para todos os jovens até aos 18 anos a obrigação de frequência de escola ou de um centro de formação profissional”.

Manifestação?

« Página anteriorPágina Seguinte »

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Join 293 other followers