Fevereiro 2009


pub23fev09

Pelas suas declarações e posições, Francisco Queirós parece vir a ser um dos bons exemplos mas não chega apostar na sorte ou acaso como quando afirma que:

Se é possível que o director de uma escola se transforme num pequeno ditador, é. Se vai haver politização, em muitos casos vai. Mas também vai haver exemplos bons e temos que acreditar que estes são os que vão fazer a diferença (…).

Pois, mas não podemos viver na esperança de casos excepcionais serem a «diferença». Na esperança de…

Não chega. E os riscos são demasiado elevados.

Radiohead, I Might Be Wrong

A LUTA DE BRAÇOS CRUZADOS

.

Muitos professores decidiram não entregar os objectivos individuais, alegando nunca é mencionada essa entrega como um dever dos professores. Permitam-me discordar: tal não é um dever, é um direito. Os professores têm o direito de definir os seus objectivos, e preferiram declinar esse direito. Os resultados a curto prazo não se farão sentir: o director da escola definirá os objectivos para esses docentes e a avaliação continuará. A longo prazo poderemos perder esse direito, e porque nos foi atribuído e não quisemos usufruir dele, no futuro esses objectivos passarão a ser definidos pelos órgãos de gestão… Se o vosso director não for uma pessoa razoável, terão de acatar os seus objectivos com os quais poderão eventualmente não se identificar e sem possibilidade de reclamação!

Os professores decidiram não pedir aulas assistidas. Como resultado a curto prazo não se pode esperar nada: tudo vai decorrer tudo na maior normalidade, não haverá ainda mais excesso de trabalho, excesso de burocracia, excesso de papelada e, ironicamente, a avaliação até parecerá que é exequível. Como resultado a longo prazo espera-se que a senhora ministra no final do ano proclame “apenas 10% dos professores requereram aulas assistidas” e o impacto na opinião pública será: “continuam uma cambada de preguiçosos privilegiados, que não querem fazer nada, nem têm brio profissional - desde que não tenham trabalho, contentam-se pelo bom”.

No final do ano lectivo todos os docentes serão avaliados e terão uma nota, pois apesar de não terem entregue os objectivos individuais terão de preencher a ficha de auto-avaliação, uma vez que essa, sim, é um dever dos professores.

Tendo em conta o reduzido número de professores que pediu aulas assistidas as quotas, obviamente, não serão preenchidas. A conclusão será: os professores fartaram-se de reclamar por causa das quotas e afinal nem as preencheram! A maioria dos docentes optou por esta luta de braços cruzados, a luta do “não concordo e então não faço nada”.

A decisão mais inteligente seria a luta do “vou fazer tudo e mostrar que, apesar de todo o esforço e empenho, este sistema não é exequível”. Não será difícil de imaginar que, se todos pedissem aulas assistidas, o que só por si iria causar inúmeros transtornos a nível de organização das escolas, se todos reclamassem da classificação atribuída - em primeira instância na própria escola e para a CCAD, cem ou duzentas reclamações para serem decididas em 15 dias, podendo ainda reclamar-se para o Director Regional, milhares de reclamações para serem decididas em 10 dias - instalar-se-ia o caos e assim se mostraria que este sistema é impossível. Nada fazendo, que provaremos?

Então, porquê esta opção pela luta de braços cruzados?

Na maioria das escolas, quem a liderou foram os avaliadores, pois sentiam-se muito angustiados com o facto de ter de avaliar colegas, mas quando concorreram para professores titulares (ninguém os obrigou) sabiam que teriam de avaliar, quando aceitaram as comissões de serviço (ninguém os obrigou…) sabiam que teriam de avaliar; arranjaram, assim, uma maneira de, não só evitarem avaliar como de parecerem heróis na liderança da “luta contra o sistema”.

Para conseguirem tal, muitos deles coagiram directa (dizendo alto e bom som na sala dos professores que quem pedisse aulas assistidas iria ser lixado) ou indirectamente (há maneiras muito subtis de coagir) os avaliados a não pedirem aulas assistidas.

Os docentes que pediram aulas assistidas estão agora a ser apelidados de oportunistas: oportunista é uma pessoa que se aproveita da desgraça dos outros em proveito próprio. Que desgraça? O não terem pedido aulas assistidas não podendo por isso ter muito bom ou excelente? Mas não o fizeram de livre e espontânea vontade? Nas sociedades democráticas, as pessoas são livres de tomar decisões e, mais importante ainda, têm o direito de ser respeitadas pelas mesmas. Coacção é o método preferencial utilizado nas ditaduras…

Falando em oportunismo, não foram os avaliadores oportunistas quando aceitaram os cargos e as regalias, nomeadamente as monetárias? Se desde sempre tencionavam não cumprir parte dos deveres inerentes ao cargo… Claro que os avaliadores não optaram pela luta do tudo fazer e depois reclamar, pois seriam eles na berlinda ao ter de deliberar em primeira instância sobre essas reclamações. Decidiram o que mais lhes interessava e os avaliados foram na onda.

Tudo isto tem servido para demonstrar o pior das pessoas: as qualidades primordiais de um professor deveriam ser a tolerância e o respeito pelos outros e não é isso que se verifica.

De momento, não sei se me orgulho de ser professor!

Um Professor que não cruzou os braços.


- José Viriato -

“Magalhães” causa ansiedade nas crianças

A demora da chegada do Magalhães às escolas está a criar ansiedade, angústia e alguma “cobiça” nas crianças, que não compreendem por que é que o colega do lado recebeu antes o famoso computador portátil, alertam pais e professores.

Para evitar este “ciúme” muitas escolas optaram por não trabalhar com os computadores até todos os meninos terem o Magalhães, enquanto outras optaram por trabalhos de grupo para os alunos irem aprendendo informática.

“Há uma grande insensibilidade da parte das operadores na percepção do que são crianças a receber um bem como o Magalhães, que lhes aguçou o apetite e é gerador de ansiedade”, disse à Lusa o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Albino Almeida.

Repare-se na simpatia do Pai da Nação que iliba completamente o ME e o Governo de quaisquer responsabilidades pelo não cumprimento das suas promessas e não das «operadoras».

Discursos de Sócrates no IEFP vão para tribunal

O facto de o Instituto do Emprego continuar a exigir nos seus concursos a leitura de intervenções do primeiro-ministro originou um processo no Tribunal Central Administrativo Sul, por iniciativa do próprio procurador-geral da República.
(…)
O caso, revelado em primeira mão pelo DN nas edições de 10 e de 12 de Janeiro, continua a agitar as hostes do IEFP. Na semana passada, no dia 17, o Sindicato Nacional dos Técnicos de Emprego (SNTE) escreveu uma carta a Francisco Madelino, presidente do Conselho Directivo do IEFP, a questioná-lo sobre a manutenção do referido discurso de José Sócrates entre a documentação recomendada para a prova escrita de conhecimentos nos concursos de promoção dos técninos superiores. A direcção do SNTE considerou desta forma a atitude: “O acto inqualificável – e intocado, convém sublinhá-lo – de reciclar um discurso do actual primeiro-ministro na documentação, matéria que, inclusive, foi já objecto de debate parlamentar.” Paulo Portas, presidente do CDS/PP, levantou a questão num dos últimos debates quinzenais com o primeiro-ministro na Assembleia da República.

Na carta a Francisco Madelino, à qual o DN teve acesso, o SNTE denuncia outras situações e alegadas irregularidades. Como é o caso da abertura de concursos de promoção no IEFP sem a constituição de júris. Nos concursos de 31 de Dezembro de 2008, os júris só são definidos a 13 de Janeiro e os nomeados só tomam conhecimento, através de despacho, três semanas depois.

Em causa poderá estar o que o SNTE considera de “sonegação de competências”. Na carta à direcção do IEFP, é também referida a existência de uma carta anónima que relata alegadas irregularidades na própria constituição dos júris que seleccionam quem é ou não promovido na carreira do Serviço Público de Emprego e Formação Profissional. Os responsáveis do SNTE dizem que se as informações prestadas por um alegado membro do júri tiverem “o mais ténue fundo de verdade”, o assunto passa a ser do “domínio do pidesco”.

O alegado membro do júri autor da carta anónima revela situações de “coacção”, de violação do princípio da imparcialidade e de ingerência da própria direcção do IEFP nos critérios de avaliação dos concursos. Segundo a denúncia anónima, “os candidatos vão ser prejudicados se estes concursos prosseguirem”. Mais, diz a missiva a dada altura, “existem acórdãos de tribunal que simplesmente suspendem a continuação dos concursos que violam regras semelhantes a este tipo de concursos”.

PGR abriu 138 inquéritos de violência escolar

Depois de conhecido o vídeo de uma aluna a agredir a professora por lhe ter retirado o telemóvel, Pinto Monteiro apelou aos conselhos directivos e professores para que anunciassem as agressões. O DN teve acesso aos primeiros dados. A maioria das denúncias são da comarca de Lisboa

Maioria é de queixas de agressões violentas

O Ministério Público abriu 138 inquéritos-crime a casos de violência nas escolas, no último ano, segundo dados a que o DN teve acesso.

A maioria dos processos foram abertos depois de o procurador-geral da República (PGR) ter apelado, em Abril de 2008, aos conselhos directivos das escolas e aos professores para que denunciassem os casos de agressões – actos que configuram um crime público. Isto, depois de o País ter ficado em choque com um vídeo gravado numa sala de aula que mostrava uma aluna da Escola Carolina Michaëlis, do Porto, a agredir a professora que lhe tinha tirado o telemóvel.

Os 138 processos que o MP tem entre mãos incluem agressões violentas contra professores e alunos no espaço dos estabelecimentos de ensino. E reflectem uma média de quase um caso por dia – dividindo este número pelos 180 dias de aulas do ano lectivo.

Conjunto de 5 questões que me foram colocadas pela jornalista Clara Viana e respectivas respostas dadas para a peça que hoje ocupa as páginas 8 e 9 do Público, nas quais se faz o balanço possível do processo de implementação do DL 75/2008.

- Tem indicações sobre o modo como se está a processar a transição?
Tenho indicação que a transição se está a processar em ritmos muito diferentes, desde logo porque ainda haverá escolas sem Conselhos Gerais Transitórios a funcionar em pleno ou sequer constituídos. Embora o prazo definido seja o final de Maio, julgo que muitos agrupamentos ou escolas terão problemas em cumpri-lo.

- Confirma-se que a tendência é para a “transformação” dos actuais PCE’s em directores?
Sim, essa é a tendência numa larga maioria de escolas, pela amostra que vou tendo. Isso é especialmente notório em escolas nas quais os actuais PCE já exercem o cargo há 2, 3 ou mais mandatos.

- Não vê nenhuma vantagem na liderança unipessoal?
Acredito que existam vantagens mas não acho que seja o melhor enquanto modelo único, perante as evidentes desvantagens que acarreta e as distorções que introduz em termos de redes de poder. Os futuros Directores executivos serão, a um tempo, muito fortes perante os corpos docentes, mas extremamente vulneráveis perante as estruturas centrais e intermédias do ME. A tendência será, em especial se for confirmada a sua avaliação segundo o SIADAP, para o poder político os transformar em comissários locais das suas políticas.

- O que é que pode mesmo mudar nas escolas com este novo modelo?
Uma quebra da coesão entre os corpos docentes e as equipas directivas, visto que estas deixarão de ser eleitas com base num projecto de equipa sufragado pelos docentes e funcionários da escola, para ser escolhido por um colégio eleitoral, formado com base em princípios corporativos e de cooptação. Por outro lado, acredito que a autonomia passará a existir apenas no sentido descendente, dos futuros directores para aqueles que serão encarados como seus subordinados, visto que no sentido ascendente tenderá para ser nula.

- Confirma pedido de novo parecer ao advogado Garcia Pereira sobre o novo modelo de gestão escolar? Razões?
Confirmo. As principais razões prendem-se com o desrespeito pelo que está definido na lei de Bases do Sistema Educativo quanto ao método e intervenientes no processo de escolha dos órgãos de gestão e direcção dos estabelecimentos de ensino. Acho que o desrespeito pelo artigo 48ª da LBSE só não é claro para quem o não quer ver.

Resultados aqui, sem grandes surpresas. Afinal o Mickey Rourke apenas estava a fazer dele mesmo, pelo que não entendo a surpresa pela vitória do Sean Penn. Quanto ao resto tudo normal, incluindo o grande vencedor, Slumdog Millionaire que já tinha passado aqui pelo Umbigo:

The Chemists, Radio Booth

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Tenho pena que o formato da Casemate exceda bastante o A4, pelo que a imagem fica amputada, mas por outro lado é um formato interessante de manusear.

Já quanto à Bo-Doi ando sem perceber o que lhe terá acontecido, que não acho nenhuma há já alguns meses…

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De como se pode fazer uma leitura totalitária da legitimidade democrática

Palavras para quê?

Estive hoje a ouvir mais um relato sobre a forma como uma grande liderança faz avançar o processo de ADD no seu agrupamento, servindo quase por certo para case-study do respectivo sucesso.

  • Após uma primeira tentativa de arranque e perante a resistência do corpo docente, condescende-se num adiamento inicial da implementação.
  • Apesar disso, os OI são pedidos ainda durante o primeiro período, pelo sim, pelo não.
  • Saído o simplex2 em Janeiro, impedem-se os docentes de renegociar ou redefinir os ditos objectivos, sendo que a recusa é feita por via oral ou não aceitando sequer requerimentos nesse sentido. Com convém, procura-se não deixar rasto em papel do atropelo cometido.
  • Mais interessante ainda, pretendendo alguns docentes optar pelo regime simplificado sem aulas assistidas, essa pretensão é ignorada ou desencorajada com ameaças veladas sobre quem ousar ir contra o que a grande liderança considera ser o «direito à avaliação».

Claro que, perante tamanho abuso, há contestação mas permanece meio muda e atemorizada pois a grande liderança não hesita em afirmar aos quatro ventos que consegue tudo o que quer do ME e que domina «aqueles meandros» para obter todos os apoios para os projectos da sua escola/agrupamento-modelo.

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Um trabalho minucioso do Maurício Brito onde a grande maioria dos comentadores regulares do Umbigo se conseguirá encontrar.

The Divine Comedy, Something For The Weekend

Oldie but a goodie como diz o rapaz.

Este é um tema que já passou por diversos textos deste blogue e muitos mais comentários.

Até que ponto o que é incómodo deve ser discutido abertamente ou deve ser reservado para fóruns de iniciados, a que só devem aceder os detentores de pergaminhos de antiguidade e autoridade?

A resposta maioritária é quase sempre a mesma: sim, tudo deve ser discutido com abertura e transparência. Mas a verdade é que, na prática, há vacas sagradas espalhadas pelo caminho, uma das quais é a análise da conduta das organizações sindicais.

É só tocar na (in)coerência de algumas atitudes e metemo-nos em trabalhos. Lembro-me logo do Jorge Coelho a dizer que quem se metesse com o PS levava logo. O mesmo se passa com o movimento sindical e, há que chamar os bichos pelos nomes, com a Fenprof que, por muito serviços que tenha prestado aos docentes, não pode arrogar-se do direito da infalibilidade e intocabilidade.

Mal se lhes toca numa pontinha das vestes, logo salta alguém de dedo acusador em riste, afirmando que só quem esteve na luta x e y, no cordão e na marcha w e z, para não falar na vigília de mil oitocentos e quarenta e três é que tem direito a pronunciar-se. E, claro, dizem logo que os críticos não passam de oportunistas que beneficiam das conquistas e quem em nada contribuíram para elas.

Como se criticar, discutir, fosse atacar e pretender o extermínio da espécie.

Ok. Pronto. Não se fala nisso, Finge-se que nada existiu, façamos de conta, como naquela crónica que tantos gostam de citar do Mário Crespo.

  • Façamos de conta que não houve gente que incitou a lutar contra a ADD mas que, mal os ventos se tornaram mais agrestes, correram a entregar os Objectivos Individuais.
  • Façamos de conta que, perante isso, ninguém afirmou que os delegados são escolhidos pelos associados de base e que as cúpulas sindicais não têm responsabilidades por nada.
  • Façamos de conta que isso só aconteceu em alguns sindicatos e não em todos.
  • Façamos de conta que, por estes últimos dias, a presença dos sindicatos nas escolas não tem sido quase em exclusivo por via de algum papel, visto que há gente de carne e osso que ainda se embaraça com o seu papel nesta estória.
  • E, para não incomodar mais, façamos de conta que é melhor não discutir nada disto, em nome de uma série de valores, o primeiro dos quais é a Unidade da e na Luta e tal, que alguns foram dos primeiros a quebrar.

E, já agora, façamos ainda de conta que não há matérias da dita Luta que estiveram a cair quase no olvido, como algumas já parecem ter caído, desde logo o novo modelo de gestão escolar.

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Adenda: Este texto diz o que diz, não dirá aquilo que alguns gostariam que dissesse, para comodidade das suas reacções. De qualquer maneira mais vale ofenderem em on do que em off, entre quatro paredes. Eu não tenho a pretensão e certamente que não o dom da infalibilidade.

o-deserto-da-educacao007-2009(c) Luís Cruz Guerreiro e Paulo Guinote

O que vale é que Valter Lemos e José Pacheco são almas sempre jovens.

Professores mais velhos resistem às novas regras da avaliação

Os professores com mais anos de carreira têm menos disponibilidade e podem não estar mentalmente preparados para responder às exigências que a escola pública hoje lhes coloca, defende um especialista em ciências da educação.

“Foram introduzidas novas regras na avaliação docente, novas exigências e uma nova diversidade no trabalho docente. Hoje é muito mais fácil os professores jovens aderirem a estas exigências do que aqueles que tiveram de fazer a transição entre um sistema e o outro”, afirmou à Lusa o director do Centro de Investigação em Educação da Universidade do Minho.

Segundo José Pacheco, os professores com mais anos de carreira “nem sempre estão mentalmente preparados” para responder às novas exigências do sistema de ensino, como o trabalho burocrático e o tempo extra lectivo passado na escola, pelo que há um certo “desencanto” em relação à profissão.
(…)
O secretário de Estado da Educação reconhece que o corpo docente “está bastante envelhecido” e que em 2005 mais de metade dos professores estavam nos últimos três escalões. Mas garante que tem havido renovação. “Este ano daremos um grande impulso a essa renovação, com um concurso válido para quatro anos para recrutar novos docentes”, afirmou Valter Lemos.

Talvez agora se percebam aqueles ímpetos por parte do ME que em várias alturas fez os possíveis por empurrar os docentes mais experientes para fora do ensino. É por estamos todos «envelhecidos» e não estamos «mentalmente preparados».

Eu, por exemplo, aos 43 anos, sou um caso perdido de envelhecimento e impreparação mental para os disparates do guru-mor dos afectos, que de tanto querer impor a tolerância demonstra até que ponto é intolerante, e para secretários de estado que têm uma certa e determinada sobranceria sempre que falam dos professores sendo que o seu trajecto pessoal e profissional isso não recomendaria, muito menos a sucessão de atropelos jurídicos e equívocos na apresentação dos factos.

Mas há sempre solução: fazem-se contratos com os professores apenas para 20 anos de carreira. Aí por volta dos 45 (idade média que se atingiria o antigo 8º escalão, o primeiro dos três escalões fatídicos)  mandam-se embora e contrata-se nova fornada.

Dos mais velhos, para condução do rebanho, deixam-se ficar só os pachecos.

A crónica até nem é das mais contundentes, pois o autor tem demasiados punhos de renda para ser tão trauliteiro na argumentação como um Baldaia, um Rangel ou até um dos seus subordinados que dá pelo apelido de Barbosa.

A bem da verdade, eu até posso dar de barato que entendo parte da argumentação de José Leite Pereira, caso ela fosse coerente em si mesma até ao fundo das suas consequências e factualmente correcta, mas infelizmente não é.

Anotemos algumas passagens:

Os professores de Paredes de Coura não queriam que as crianças a quem dão aulas fizessem um desfile de Carnaval pelas ruas da terra.

Falso. Os professores de Paredes de Coura, por todas as fontes de informação que tenho, apenas não se disponibilizaram para participar num desfile de Carnaval fora do espaço escolar em cuja preparação até participaram. Disponibilizaram-se para o desfile ser feito no espaço em causa e acho que ninguém no seu devido juízo impediria a comunidade de a ele assistir, entrando pelos portões da escola.

O que se lamenta é que o braço-de-ferro que mantêm com o Governo os tenha levado a pôr-se de fora, prejudicando as crianças, roubando-lhes um Carnaval com que certamente andavam a a sonhar e tornando-as parte de um conflito em que não têm sequer idade para dar opinião.

Os alunos já foram lançados para a «guerra» e não foi por parte dos professores, mas sim por parte de quem considera que a qualidade do trabalho dos docentes se pode medir sem a análise do seu desempenho com os ditos alunos, tendo optado por enxertar um modelo de ADD que dá mais peso à quantidade de aspectos burocráticos do que à dimensão pedagógica da docência. Ao fazer isto, o ME demonstrou até que ponto se desinteressa pelo trabalho concreto realizado com os alunos. José Leite Pereira ainda não parece ter entendido isso.

Mas mais interessante é o facto de, perante a situação existente, e se é verdade que tantas almas se apiedaram pelos sonhos destroçados das crianças, ninguém se ter voluntariado para assegurar a realização do dito desfile, a começar pela Associação de Pais (que parece existir para fazer queixas à Confap) e acabando nas autarquias locais (que cada vez mais vão tendo competências nestas matérias).

Nas minhas paragens a AP e a autarquia são parte integrante da solução e não da confusão.

Mas respiguemos mais uma passagem demagógica:

Vamos partir do princípio que este incidente foi um acidente. É que, se o que dizem é sentido e não coisa de Carnaval, então há fortes razões para pensarmos que, com professores destes, a democracia pode estar em perigo e o ensino decididamente perdido.

Este tipo de tirada é um perfeito disparate. Então a democracia está em perigo por causa disto, mas não quando jornalistas de enorme experiência, desde o caso já antigo de Rodrigues dos Santos ao mais recente de Mário Crespo (que até escreve no JN), passando por muito outros como Manuela Moura Guedes, revelam até que ponto o poder consegue entrar nas redacções e condicionar as opções editoriais.?

Ou quando Santos Silva, o jovem, faz as declarações que faz enquanto ministro da Propaganda, reclamando da forma como é apresentado no anúncio de um programa da RTP?

Nunca no JN, claro, que ninguém suspeita de ser um OCS alinhado com o PS no poder e que nunca, mas por nunca ser, acede a funcionar como amplificador do discurso oficial do Governo.

Nunquinha!!!

Quanto à parte em que é elogiada a acção da DREN nesta matéria, percebe-se até que ponto José Leite Pereira interiorizou que a autonomia das escolas – note-se que existiam decisões tomadas pelos órgãos internos da escola nesta matéria e não uma sublevação basista de professores insurrectos – é uma retórica sem substância.

Mas, perante a importância dada por JLP às actividades lúdicas nas escolas, espera-se agora a sua posição perante as medidas do ME que retiram objectivamente tempo à sua realização e que divulgue as fotos do animado corso de jornalistas do JN que escaparam à última razia.

Eu conheço alguns que andam mascarados de desempregados.

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