A CUNHA

Ser DEPUTADO na Assembleia da República pode ser O SONHO de muitos.. Para mim foi apenas e só um vulgaríssimo sonho que se pode contar assim: Andava à procura da melhor forma de ser DEPUTADO.  A primeira pessoa que encontrei , na minha procura, disse-me, sem rodeios: ” Olhe que para ser Deputado, não vale muito a pena ter diplomas ou licenciaturas, nem mesmo doutoramentos em coisa nenhuma. Nem sequer com médias altas. Que isso de diplomas eram coisas valiosas, sim, mas no passado.” –  E se tirasse um curso só para deputado ?- perguntei. E a resposta saiu categórica: “Que não, que não havia nenhum curso desses.” Fechei-me em copas, olhei para os meus botões e perguntei: – Que hei-de fazer então? ( Nenhuma resposta).

Mas não desisti. Continuei à procura, pois ser Deputado, se bem que não dê lá muito DINHEIRO LÌQUIDO, ao fim do mês, sempre pode dar bastante DINHEIRO ILÍQUIDO de vez em quando. Encontrei, então, alguém que, com aquele ar de quem já de lá vem, me disse:   ” Se você pertencesse a algum partido, poderia ter alguma chance. Mas – indaguei – como posso  pertencer a um partido, se (ideologicamente) os partidos já nem existem? E logo me retorquiram: – Está  red… ( iam-me dizer “redondamente”) mas arrepiaram caminho e continuaram: ” Está enganado, olhe que ainda há quem fale no Partido Socialista, no P.S.D., no C.D.S.P.P. e mesmo no Partido Comunista…”. Ai sim?! – Disse eu; então vou tentar.

Fui à procura do P.S. “Vá ao Largo do Rato” – disse uma voz. E eu fui. Mas, mal entrei, deparei com um homem forte, a passear no corredor, com um livro na mão. Tinha ar de poeta. E, numa voz grave e colocada, entoou: Você procura o P.S.? Já não é aqui. O  P.S. que eu conheci acabou.”. Mas – retorqui timidamente – a mim disseram-me que… “Já lhe disse e repito – que a mim ninguém me cala! – o P.S mudou, já não é aqui.” E eu, fiquei tão perturbado, tão cheio de medo, que desisti, logo ali, de procurar o P.S.

Depois, fui à procura de quem manda no P.S.D.: Uns diziam-me que estava no Porto, e era homem; outros que vivia em Lisboa, e era mulher; outros ainda que o podia encontrar na Madeira… A verdade é que fiquei tão desorientado que não consegui procurar mais.

Seguiu-se o C.D.S.P.P.: desloquei-me a Lisboa de propósito. Perguntei onde era a sede. Indicaram-me o sítio, e eu subi umas ruas esquisitas e lá fui bater  à(s) PORTA(S). Mas esta, não havia maneira de abrir. Passou um transeunte, um pouco mal vestido, e logo me avisou: “Não vale a pena” , isso é muito pequenino. Entram lá muito poucos. E quando entram saem depressa…Além do mais, você já tem idade demais p’ra entrar.

Já quase a desistir, por descargo de consciência, procurei o P.C.P. Disseram-me que era um partido muito antigo e muito amigo de “pobres ” e  “pedintes”. Podia estar ali a minha salvação. Lá fui;  bati à porta; abriram, escutaram o que eu tinha a dizer, e a resposta veio, fulminante. “Que não, que não tinham lugar p’ra gente licenciada em universidades católicas. E, ainda por cima, de fato e gravata!”

E pronto, curvado pelo infortúnio, sem réstia de esperança, lá voltei p’ra minha casa. Fiquei ao menos de consciência tranquila. Ninguém vai poder dizer que sou DEPUTADO à custa de uma CUNHA qualquer. E, já agora, dormir por dormir, sempre durmo melhor na minha cama do que no hemiciclo de S. Bento…

CUNHA RIBEIRO