SOS Professores Desinformados

Ex.ºs Srs.,

Estou metido em manifestações e reuniões há mais de um ano, e começa-se a desenhar um padrão que me é particularmente desagradável e muito frustrante.
Aos sábados manifesto-me, segunda feira reunimo-nos e planeamos formas de luta, a partir de terça, não se fala mais no assunto e alguns até aproveitam para ir entregando os objectivos e no próximo sábado em que houver jornada de luta, toca a tirar o cartaz e a t-shirt do armário, que aí vamos nós em romaria para a manifestação. Mas, andamos a brincar às manifestações? O aspecto folclórico e alegórico da luta chega para ficarmos contentes e com a sensação de dever cumprido?
Sou um professor sindicalizado há muitos anos e consigo continuar a ver que os professores, pelo menos os meus colegas, não são instrumentalizáveis, ao contrário do que  alguns reclamam e outros desejam.
Não consigo compreender a falta de orientação, liderança e esclarecimento dos sindicatos dos professores, como é que depois das grandes manifestações se parou e se deixou arrefecer um processo que parecia bem encaminhado.
Procuro alguém que me explique como é que neste momento estamos a fazer a luta individualmente e escola a escola, ou melhor, professor a professor, já que, pelo menos na escola onde estou, é cada um por si e não sentimos nenhuma espécie de apoio.
Apenas conseguimos ouvir o silêncio.
Como é que se perdeu o timing e o momento criado pelas grandes manifestações? Estamos à espera de Junho para tomar iniciativas? ou será que estamos à espera das eleições e do aval das agendas politicas?
Enquanto o Correio da Manhã o DN e a TSF vão lançando informações e desinformações, e os despachos de gabinete ministerial se vão sucedendo a um ritmo impossível de assimilar, alguns intimidados resistentes continuam a lutar, mas com a duvida a surgir na mente.
Enquanto as cúpulas sindicais se degladiam para assumir protagonismo e alguns colegas obtém os seus 15 minutos de exposição mediática, outros, mais espertos, mas menos conscientes fazem contas aos dias que vão ganhar aos “Otários” que ao não entregarem objectivos perdem dois anos de contagem de tempo de serviço, outros ainda, fazem contas aos ganhos resultantes das passagens de escalão através de comissão de serviço e ainda, há os que fazem as contas aos ganhos resultantes dos cargos de direcção. Só por aqui, já podem ter uma ideia de onde e como vai ser investida a poupança obtida com os anos de congelamento de carreiras e de salários.
A hierarquização vertical e a divisão das carreiras são outros aspectos que permitirão aos professores serem meros preenchedores de fichas ou confirmadores de muito anunciadas estatísticas de sucesso escolar.
Os sindicatos merecem todo o meu respeito e continuo a ser sindicalizado, mas, para merecerem a representatividade eles têm realmente que representar. Representem-nos Porra!
O mundo tende para a justiça e ela pode tardar, mas chegará, mas, é preciso fazer alguma força nesse sentido, existe alguém com capacidade para liderar, sem ter no horizonte as eleições do outono?
As nossas lutas não foram em vão e alguns ganhos existiram, mas, se elas só serviram para tirar a cara do Dr. Lemos e da Dr.ª Rodrigues da TV e para colocar lá diariamente a cara do Dr. Pedreira, então, o resultado foi muito escasso e fizemos demasiada força para tão pouco ganho.
Dos 212 signatários do pedido de suspensão já somos só 4 que confirmadamente não vão entregar os objectivos, será que somos como aquele grupo de soldados japoneses que não receberam a noticia do fim da 2ª grande guerra e que ficaram 30 anos escondidos na floresta à espera do fim do conflito? Se assim é, alguém nos avise. Será que somos figurantes de alguma nova versão de “O Triunfo dos Porcos” ou do “Ensaio Sobre a Cegueira”? Alguém nos avise. É que corremos o risco de estar iludidos a pensar que somos um pequeno grupo de espartanos que vão impedir os persas de chegar a Roma ,e, mais tarde, vir a descobrir que tudo não passou de um sonho sem sentido.
Deixem-se de brincadeiras, tomem decisões e adoptem formas de luta sérias e consequentes, garanto que há professores com querer e com qualidade para uma luta a sério. Não dêem a desculpa do dinheiro, os trabalhadores do saneamento fizeram uma semana de paralisação sem tirar o lixo.
Alguém diga alguma coisa, o que é que se passa? “Está alguém em casa?!”

José Semedo