Confesso não ter grande conhecimento das posições de Joel Neto sobre nenhum assunto em particular. Não faz parte das minhas leituras regulares, por nenhuma razão em especial, mas apenas porque alguém meu amigo e conterrâneo insular de JN que o conhece me disse que não valeria muito a pena. Sei que é um mau método, mas há que confiar nos amigos.

Joel Neto prosador e escritor é mainstream o suficiente para também não me atrair muito, mesmo se as capas dos livros são interessantes e os títulos das obras suficientemente atractivos. Não me ocorre agora nenhum, mas é porque estou cansado.

No entanto foram vários os mails que hoje me pediram para dar atenção à crónica seguinte, publicada na Notícias-Sábado, em que Joel Neto aparentemente incita os professores a terem decoro e qualifica como obscenidade a sua conduta.

jneto

Ora bem, lida a crónica, escrita com prosa escorreita, moderada inventiva e algo entre a ironia quase fina e o sarcasmo mal disfarçado, sou obrigado a resumir os argumentos do cronista da seguinte forma:

  • Os tempos estão maus.
  • Há gente a perder o emprego.
  • Os professores deviam ficar caladinhos com o que têm.

É uma forma de ver as coisas, aquela forma a que eu costumo considerar o culto da mediocridade ou o elogio do nivelamento por baixo. Joel Neto defende, em suma, que se há quem esteja mal, todos – ou pelo menos os professores – devem estar mal. É uma espécie de Trabalhador da Silva, mas com crónica assinada na imprensa.

Joel Neto não parece capaz de pensar de forma contrária, ou seja, que o errado é estar tanta gente em más condições apesar da chuva ininterrupta de subsídios europeus nos últimos 25 anos. Joel Neto não parece perceber que esse é o raciocínio do miserabilismo. Chega mesmo a dizer que há quem tenha deixado de telefonar porque deixaram de «ter cabeça para os afectos». É uma frase interessante, mas cheguei a pensar que iria escrever que tinham deixado de ter dinheiro para usar o telemóvel 3G.

Joel Neto parece mesmo incomodar-se que os professores apareçam na televisão. num exercício, a traço médio entre a graça e a graçola, escreve que os professores «aceitam completamente ser avaliados, desde que não sejam nunca alvo de avaliação».

É giro.

Joel Neto deve ter olhado para esta frase e ter sentido algum orgulho em ter alcançado uma espécie de redondel argumentativo.

E, rendido ao estilo, escorregou para a generalização fácil sobre toda uma classe profissional.

Claro que seria fácil devolver na mesma moeda e falar daqueles jornalistas que fazem peças a pedido ou por encomenda. Ou que passeiam às custas dos promotores dos eventos sobre os quais fazem reportagens. Ou que vão lá fora fazer entrevistas com tudo pago por quem interesse em opiniões, no mínimo, satisfatórias. Ou que saltitam das redacções para os gabinetes ministeriais e vice-versa. E que usam os amigos nas redacções para fazerem passar as mensagens do poder. Se ele precisar, posso dar-lhe detalhes. Mas nunca consideraria a hipótese de afirmar que todos os jornalistas são biscateiros.

Nada disso será obsceno. Ou a Joel Neto ainda não lhe ocorreu denunciar isso.

Mas há jornalistas e jornalistas. Há que saber distinguir o trigo do joio. No caso dos jornalistas a avaliação é nebulosa. Escuso-me mesmo a comentar como tem sido feita no grupo para que é produzida a revista em que ele escreveu esta prestimosa crónica.

Mas Joel Neto acha que, em nome da miséria do proletariado actual, todos devemos baixar os braços e desejar ser miseráveis também.

Eu acho essa atitude quase obscena.

Porque se rende à fatalidade da mediocridade.

Pior, critica quem não cede a essa fatalidade e ainda luta contra ela.

São atitudes.

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