Colegas Professores: É preciso resistir!
Em 10 de Janeiro de 2008, o governo neoliberal do socialista José Sócrates, do qual faz parte uma Ministra da Educação apostada em acabar com o pouco que de bom ainda resta de um ensino e de uma escola que os diversos governos teimaram em destruir, publicou o Decreto Regulamentar n.º 2/2008, para regulamentar o estatuto da Carreira Docente no que se refere ao sistema de avaliação de desempenho do pessoal docente, estabelecendo também as normas relativas ao regime transitório para a sua aplicação no ano escolar de 2007/2008.
Logo, Professores, Sindicatos e Conselho de Escolas, vieram a terreiro criticar o modelo e pedir o adiamento e a substituição do sistema de avaliação proposto.
Continuando o ME a afirmar que tudo se iria processar nos termos da legislação publicada, tivemos que sair à rua, numa manifestação que encheu as principais avenidas de Lisboa com mais de cem mil professores, para provarmos ao Governo que, se pensava que o nosso descontentamento era pouco significativo e se reduzia a uns tantos que se deixaram instrumentalizar e arregimentar por meia dúzia de sindicalistas comunistas, estava profundamente enganado, pois quem estava ali a protestar era toda uma classe indignada, chocada e magoada com um Governo que, desde a sua tomada de posse, tudo fez para a desprezar e achincalhar.
E, foi assim que assistimos ao recuo do ME e à publicação do Decreto Regulamentar n.º 11/2008, 23 de Maio, que visava definir o regime transitório de avaliação de desempenho do pessoal docente e respectivos efeitos durante o primeiro ciclo de avaliação de desempenho que se conclui no final do ano civil de 2009.
Se dúvidas houvesse quanto ao facto de esta avaliação não ser justa, séria e credível, bastaria atentar nos resultados da avaliação regulada por este primeiro Simplex que, por causa das perversas quotas, obrigou as CCAD a inventar argumentos e mais argumentos para transformar avaliações de Excelente e Muito Bom (que foram quase todas!) em avaliações de apenas Bom.
Ora, quando pensávamos que o ME tinha parado para pensar e negociar com os professores um novo modelo de avaliação que fosse sério, justo, credível e exequível, eis que nos querem obrigar, de novo, a pôr em prática um modelo que já havíamos rejeitado linearmente.
Foi preciso, mais uma vez, invadirmos as ruas de Lisboa, agora em número superior a cento e vinte mil, para de novo dizermos aos senhores do Governo e do Largo do Rato que queríamos ser avaliados sim, mas nunca pelo modelo que há dois anos nos tentam impingir.
E, foi assim que, sem espanto, assistimos a um novo recuo da equipa da Educação que, completamente descredibilizada e para evitar maiores estragos na contabilidade eleitoralista dos actos eleitorais que se aproximam, se viu até na necessidade de esconder a sua chefe durante algum tempo.
É, então, publicado a 5 de Janeiro o Decreto Regulamentar n.º 1-A/2009, de 5 de Janeiro, que define um novo regime transitório de avaliação de desempenho do pessoal docente de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário.
Caros colegas!
Onde estavam afinal as grandes virtualidades do modelo de avaliação que o ME queria impor aos professores, se da versão inicial já pouco resta para o presente ciclo?
A necessidade sentida pelo Governo, na sequência das enormes manifestações de descontentamento levadas a cabo pela quase totalidade da classe docente, de alterações sucessivas do Modelo de Avaliação, mais não é que um reconhecimento inequívoco da sua inadequação pedagógica e da inaplicabilidade do modelo.
Mas, atenção!
As alterações pontuais que foram introduzidas não alteraram a filosofia e os princípios que lhe estão subjacentes.
As alterações produzidas pelo Governo mantêm o essencial do modelo, nomeadamente, alguns dos aspectos mais contestados como a existência de quotas para Excelente e Muito Bom, desvirtuando assim qualquer perspectiva dos docentes verem reconhecidos os seus efectivos méritos, conhecimentos, capacidades e investimento na carreira.
Outras alterações como as que têm a ver com as classificações dos alunos e abandono escolar, são meramente conjunturais, tendo sido afirmado que esses aspectos seriam posteriormente retomados para efeitos de avaliação.
Apesar de designado por Modelo de Avaliação, não o é efectivamente. Não tem cariz formativo, não promove a melhoria das práticas, centrado que está na seriação dos professores para efeitos de gestão de carreira.
Caros colegas!
É lamentável que o Ministério da Educação e o Governo recorram à ameaça e à chantagem para forçarem os docentes a abdicarem da sua luta.
A implementação do Modelo de Avaliação imposto pelo Governo significa a aceitação tácita do ECD, que promove a divisão artificial da carreira em categorias e que a esmagadora maioria dos docentes contesta.
O Decreto Regulamentar nº 1-A/2009 embora retire do processo avaliativo alguns parâmetros anteriormente previstos não o torna mais exequível, nomeadamente devido à concentração de competências no Presidente do Conselho Executivo.
Caros Colegas!
O modelo de avaliação preconizado revela no essencial uma visão controladora, centralizadora e não reguladora e formativa.
A sua aplicação não evitará o aumento do trabalho burocrático nas escolas, em detrimento das funções pedagógicas que constituem a tarefa prioritária dos professores e educadores.
O modelo apresenta graves lacunas, uma vez que ao consignar a não obrigatoriedade de os Professores serem avaliados na componente científico – pedagógica, bem como à observação de aulas, que podem ou não ser requeridas em função do interesse da obtenção final pretendida, aspectos que inicialmente eram tidos como essenciais e intocáveis foram agora alterados e revogados, não só não promove, como compromete, a qualidade do ensino.
Este processo continuará a não promover uma aplicação harmónica e rigorosa da avaliação e a criar as condições para que os professores, avaliados, no contexto local de um determinado Agrupamento, possam concorrer, a nível nacional, com outros colegas, avaliados de forma tão diversa que o processo se torna injusto e não equitativo constituindo-se, assim, como instrumento promotor de desmotivação.
Caros colegas!
A implementação do referido modelo, nas suas linhas estratégicas, tem gerado e continuará a gerar e a agravar o clima de insatisfação, mal-estar e até conflitualidade entre pares e hierarquias.
O modelo apresentado, apenas suspende temporariamente a inclusão de critérios de avaliação, tais como os resultados escolares dos alunos e taxas de abandono escolar.
O regime de quotas impõe uma manipulação dos resultados da avaliação, devido aos ” acertos” impostos pela existência de percentagens máximas para a atribuição das menções qualitativas de Muito Bom e Excelente;
O desenvolvimento de todo o processo, tem por base a divisão da carreira em duas categorias (professor titular e não titular), ditado por um concurso injusto e arbitrário.
Caros Colegas!
As alterações sucessivas do Modelo de Avaliação inicial são, por si só, o reconhecimento da sua inadequação e da sua inaplicabilidade sendo que muitas das medidas anunciadas avulso são elas próprias embrião de novas contradições.
Por isso, entendo que devemos continuar a:
- Manifestar o nosso direito a ser avaliados, ainda este ano, através de um modelo que seja justo, testado, simples, formativo e que, efectivamente, promova o mérito pela competência científico – pedagógica, mas sem diferenciação de natureza administrativa.
- Manter suspensa a nossa participação em qualquer procedimento no quadro do modelo de avaliação de desempenho instituído pelo Decreto Regulamentar n.º 2/2008 de 10 de Janeiro e pelo Decreto Regulamentar n.º 1-A/2009 de 5 de Janeiro, nomeadamente não entregando os objectivos individuais e não solicitando a observação de aulas.
- Continuar a envidar todos os esforços para que os alunos não sejam afectados pelo clima de instabilidade da exclusiva responsabilidade da política educativa conduzida por esta equipa ministerial.
Carlos Alberto Costa
Professor Titular do Agrupamento de Escolas de Vizela
Janeiro 26, 2009 at 2:28 pm
“Manifestar o nosso direito a ser avaliados, ainda este ano, através de um modelo que seja justo, testado, simples, formativo e que, efectivamente, promova o mérito pela competência científico – pedagógica, mas sem diferenciação de natureza administrativa”
Porreiro pá… um prof. TITULAR a clamar por uma avaliação justa… podia ter tomado a iniciativa de criticar a divisão da carreira não concorrendo, mas adiante.
Modelo testado? Cá, só o do relatório de avaliação crítica, com os resultados que estão à vista: todos subiram sem parar e agora estão todos TITULARES.
Testado lá fora? Porreiro… este ano?… táss…
Janeiro 26, 2009 at 3:08 pm
#1,
estou à vontade porque protestei logo, ao não concorrer
concorda ou não com a divisão?
não adianta andar à pedrada
Janeiro 26, 2009 at 3:33 pm
Como é que alguém que não concorre ou não aceita a divisão se apresenta como professor titular? Só é titular quem quis concorrer ou aceita agora as nomeações…
Não é pedrada, é apenas um desabafo…
Janeiro 26, 2009 at 6:08 pm
Esclarecimentos Sobre as Implicacoes Da Nao Entrega de Objectivos 1
(Fenprof)
http://www.scribd.com/doc/11393800/Esclarecimentos-Sobre-as-Implicacoes-Da-Nao-Entrega-de-Objectivos1
Janeiro 26, 2009 at 7:36 pm
A palavra de ordem só pode ser “resistir”, “resistir”, “resistir”. Alguém há-de vencer esta contenda. E o momento não é ainda, se algum dia o vier a ser, o de baixar os braços ou de levantar a bandeirinha branca. Antes disso, outras batalhas existirão, nesta já longa e sofrida guerra. E ainda há que contar com a guerrilha… Portanto, força e coragem é o que se pede aos lutadores que continuam a resistir e a recusar uma imposição feita sem jeito nem nexo, sem diplomacia nem arte política, com anarquia ideológica e ética, sem competência nem bom-senso, por parte de uma equipa ministerial cega, agressiva, ofensiva e fútil, umbilicalmente ligada à vaidade, narcisismo, arrogância e prepotência do “chefe” e que, em situações normais, teria sido demitida (não utilizo o termo “corrida” por ser demasiado forte, embora mais adequado…), há muito tempo, quanto mais não seja, pelos resultados (objectivos!…objectivos!…) não cumpridos, da sua própria actuação…
Concorremos a professores titulares, aceitámos essa injustiça, o ofensivo ECD e muitas outras mais imposições/provocações. E aguentámos obedientes, mas cada vez mais indignados e revoltados. Honra nos seja feita! Somos, de facto, pacíficos, pacientes, cumpridores, responsáveis. Mas a paciência tem limites!
Parabéns, Carlos Alberto! Enquanto assim falares e escreveres, dizes tudo!…
Janeiro 26, 2009 at 7:39 pm
Não deixa de ser verdade que são muitos dos mais velhos, os designados professores titulares, aqueles que têm dado mais visibilidade a esta luta contra uma situação injusta, hipocritamente designada de indispensável para melhorar a escola pública.
É sempre uma honra, para nós professores, quando um colega exprime de forma clara e frontal, o que vai na alma de quase todos nós!
Janeiro 26, 2009 at 7:55 pm
Este modelo de avaliação docente é civilizacionalmente retrógrado, é um andar para traz na luta pela valorização da cultura e dos valores de referência dos últimos dois séculos. É o retorno à competição desenfreada e animalesca contra a fraternidade humana. É um apelo imbecil ao individualismo contra o apelo à solidariedade.
Este modelo de avaliação só pode ter sido arquitectado por alguém que ainda se vê ou imagina de cacete na mão, as partes púbicas cobertas com uma tira toscamente recortada de pele de animal selvagem, porque assenta em arquétipos caceteiros de actuação (estratégia frequentemente utilizada pela actual equipa do ME), é fraudulento e mentiroso e tem os objectivos que são um, apenas um…desprestigiar a classe docente, despromovê-la socialmente (e, por arrasto, a escola a que todos devem aceder em condições de igualdade), pagar-lhe pouco.
Compreensível, já que o dinheiro público não dá para tudo e para todos. E como o movimento que se pretende não é de progresso civilizacional mas de regressão, esse dinheiro, se não continuarmos com a nossa perseverança, a nossa luta, será distribuído de forma “natural”… de acordo com a lei da selva, ou seja, do mais forte…
Selectivamente, ganharão, entre outros, os banqueiros. De preferência, porque mais de acordo com a natureza, os mais manhosos, pervertidos e corruptos…
Janeiro 26, 2009 at 8:00 pm
Quanto à questão dos” Titulares que não deviam ter concorrido”, só me apetece dizer que quando o ECD estava a ser discutido, as nossas manifes. eram de 2000 ou 3000 Profs.
Onde estavam os 118000 professores agora tão esclarecidos? O momento para acordar foi qual?O do Concurso para titulares ou o da publicação do 2/2008?
Vou-me abster de outros comentários. Acredito que a “roupa suja” tem lugares próprios para ser lavada, a lavandaria, claro!
Janeiro 26, 2009 at 8:20 pm
#1
Por mim…pode descansar. Não voltarei a incomodar mais ninguém, nem em manif. , nem em RGP, nem em Moções, nem a recolher assinaturas, …
Janeiro 26, 2009 at 11:12 pm
Um bom resumo da situação.
O que estes seres alucinados quiseram foi poder aplicar o nepotismo e o amiguismo a uma profissão que a eles tinha, até agora, sido relativamente poupada.
Nos ´concursos é que vamos ver o resultado esta total salgalhada: foi juntar grupos a nível de concurso, foi criar estas divisões absurdas, irá ser o criar de vagas para titulares e não titulares, é agora isto de uma falsa meritocracia com classificações manipuladas para se ajustarem a quotas…
Queriam fixar professores, mas deparam agora com mais uma injustiça, a de este sistema praticamente impedir os titulares de concorrerem, quando muitos ainda sonhavam com aproximações da residência.
Quiseram arranjar tacho para amiguinhos que estavam destacados e,– com a junção de grupos e com a contemplação de apenas 7 anos das carreiras , para titulares,– conseguiram que estes ultrapassassem muitos dos seus colegas no terreno, criando até problemas de horários pequenos que sobram e que quase ninguém quer…
Com o pretexto que o concurso nacional era muito pesado e complexo, criaram um monumento de injustiça nacional, não só com o vil ECD como com uma ordenação de docentes que já ninguém entende, já não se sabe como cada um chega a uma escola, concorrendo como e em que ordem, critérios que ,antes, permitiam a reclamação, a correcção e a reposição da justiça.
Se em outras profissões podem fabricar-se classificações para quotas, num ora agora progrides tu e para a próxima progride o teu colega, na nossa há sempre um grau de mobilidade que não permite esse tipo de esperteza saloia sem gerar grandes injustiças. Para além de que nós,professores, estamos habituados a lidar com questões de VERDADEIRA avaliação e do esforço de justiça que acarreta, sem malabarismos só para preencher grelhas.
Tudo isso comprova uma vez mais a leviandade de medidas aceleradas que foram tomadas, sem o mínimo de reflexão real ou de simples tino. Tudo isto sublinha a notável incompetência dos promotores destas “leis”.
Se se sentirem insultados por serem apelidados de incompetentes, então terão de admitir que não foi ingénua incompetência que os guiou, mas talvez uma maquiavélica e propositada…variante de incompetência!