Janeiro 2009


Confesso não ter grande conhecimento das posições de Joel Neto sobre nenhum assunto em particular. Não faz parte das minhas leituras regulares, por nenhuma razão em especial, mas apenas porque alguém meu amigo e conterrâneo insular de JN que o conhece me disse que não valeria muito a pena. Sei que é um mau método, mas há que confiar nos amigos.

Joel Neto prosador e escritor é mainstream o suficiente para também não me atrair muito, mesmo se as capas dos livros são interessantes e os títulos das obras suficientemente atractivos. Não me ocorre agora nenhum, mas é porque estou cansado.

No entanto foram vários os mails que hoje me pediram para dar atenção à crónica seguinte, publicada na Notícias-Sábado, em que Joel Neto aparentemente incita os professores a terem decoro e qualifica como obscenidade a sua conduta.

jneto

Ora bem, lida a crónica, escrita com prosa escorreita, moderada inventiva e algo entre a ironia quase fina e o sarcasmo mal disfarçado, sou obrigado a resumir os argumentos do cronista da seguinte forma:

  • Os tempos estão maus.
  • Há gente a perder o emprego.
  • Os professores deviam ficar caladinhos com o que têm.

É uma forma de ver as coisas, aquela forma a que eu costumo considerar o culto da mediocridade ou o elogio do nivelamento por baixo. Joel Neto defende, em suma, que se há quem esteja mal, todos – ou pelo menos os professores – devem estar mal. É uma espécie de Trabalhador da Silva, mas com crónica assinada na imprensa.

Joel Neto não parece capaz de pensar de forma contrária, ou seja, que o errado é estar tanta gente em más condições apesar da chuva ininterrupta de subsídios europeus nos últimos 25 anos. Joel Neto não parece perceber que esse é o raciocínio do miserabilismo. Chega mesmo a dizer que há quem tenha deixado de telefonar porque deixaram de «ter cabeça para os afectos». É uma frase interessante, mas cheguei a pensar que iria escrever que tinham deixado de ter dinheiro para usar o telemóvel 3G.

Joel Neto parece mesmo incomodar-se que os professores apareçam na televisão. num exercício, a traço médio entre a graça e a graçola, escreve que os professores «aceitam completamente ser avaliados, desde que não sejam nunca alvo de avaliação».

É giro.

Joel Neto deve ter olhado para esta frase e ter sentido algum orgulho em ter alcançado uma espécie de redondel argumentativo.

E, rendido ao estilo, escorregou para a generalização fácil sobre toda uma classe profissional.

Claro que seria fácil devolver na mesma moeda e falar daqueles jornalistas que fazem peças a pedido ou por encomenda. Ou que passeiam às custas dos promotores dos eventos sobre os quais fazem reportagens. Ou que vão lá fora fazer entrevistas com tudo pago por quem interesse em opiniões, no mínimo, satisfatórias. Ou que saltitam das redacções para os gabinetes ministeriais e vice-versa. E que usam os amigos nas redacções para fazerem passar as mensagens do poder. Se ele precisar, posso dar-lhe detalhes. Mas nunca consideraria a hipótese de afirmar que todos os jornalistas são biscateiros.

Nada disso será obsceno. Ou a Joel Neto ainda não lhe ocorreu denunciar isso.

Mas há jornalistas e jornalistas. Há que saber distinguir o trigo do joio. No caso dos jornalistas a avaliação é nebulosa. Escuso-me mesmo a comentar como tem sido feita no grupo para que é produzida a revista em que ele escreveu esta prestimosa crónica.

Mas Joel Neto acha que, em nome da miséria do proletariado actual, todos devemos baixar os braços e desejar ser miseráveis também.

Eu acho essa atitude quase obscena.

Porque se rende à fatalidade da mediocridade.

Pior, critica quem não cede a essa fatalidade e ainda luta contra ela.

São atitudes.

Junto envio, para divulgação no seu blogue, tomada de posição dos docentes do Agrupamento de Escolas da Lousã.
Assinaram a recusa da entrega dos Objectivos Individuais 102 dos 116 docentes.

Gratos pela atenção
A educadora do AEL

Conceição Duarte

Chega-me por mail a informação que numa escola, cuja identificação omito por opção pessoal e não por pedido, o prazo para a entrega dos Objectivos Individuais é a primeira semana do 3º período.

Eu acho inteligente. E ainda sobra algum tempo para a negociação dos ditos, caso isso seja indispensável, o que acho ser.

Mais ninguém pensou nisto? É que eu não conheço prazos legais para esta pseudo-fase do processo de ADD, portanto…

Imaginemos que eu queria ser reconhecido como um excelente professor, entregava os OI, requeria duas aulas assistidas e seguia o simplex2.

Como sou professor quasi-generalista, lecciono naturalmente História e Geografia de Portugal e Língua Portuguesa (grupo de recrutamento 200), mais as excreescentes ACND Estudo Acompanhado e Formação Cívica (safei-me ao matírio da Área de Projecto). Dou ainda aulas de Iniciação à Informática a um grupo de alunos com NEE.

Como pertenço ao Departamento de Ciências Sociais e Humanas, as minhas aulas assistidas  para efeitos de detecção da excelência do meu desempenho- 2 – e o meu porta-folhas essencial deveriam recair na componente do meu horário relativa à disciplina de HGP.

Ora, essas aulas representam apenas 7 horas semanais do meu horário lectivo, o que significa que a minha excelência seria avaliada com base em 2 aulas relativas a 30% do meu horário.

Quanto aos restantes 70% do meu horário lectivo, o simplex2 acha que serão irrelevantes e eu poderei cometer os maiores atropelos que, desde que esteja presente e tenha 100% de assiduidade, posso ser considerado um Excelente Professor.

Poderemos considerar este um método que avalia efectivamente a qualidade de um Professor?

Isto é algo que se possa levar a sério?

Eu acho que não. Como tal, não me sujeito a uma ficção útil para efeitos eleitorais. Não porque receie submeter-me a uma avaliação bem concebida – tenho suficientes para mostrar no meu currículo académico – mas sim porque é um método cheio de erros, lacunas e mistificações.

Como tal, nem estou preocupado se entregar os OI influi, ou não, na entrega da ficha de auto-avaliação. Afinal quem recusa este modelo de ADD está a pensar entregar a ficha de auto-avaliação?

Yellowcard, Believe

Este frequente comentador do blogue nas últimas semanas (estreou-se enquanto tal no passado dia 17), tem optado em algumas intervenções por me interpelar directamente em tons de apocalipse-agora-e-já.

Como li a minha conta de obras de guerrilha psicológica, divirto-me com os desvarios retóricos da criatura, ao ponto de aqui reproduzir a parte final, mais directa e personalizada, de um dos seus  mais recentes e tonitruantes comentários, à qual falta a apenas aquela coisa divertida de me chamar profeta e dizer que eu estou no Monte Sinai:

Onde anda Dr. Paulo Guinote ????

A quem serviram os apelos à Desobediencia Civil ????

A quem serviram os apelos à não entrega dos Objectivos Individuais ????

A quem serviram os insultos ????

Defender a Escola Publica nada tem a ver com posturas que em nada a dignificam.

Onde anda Dr. Paulo Guinote depois de ter incendiado as escolas??????

Onde anda Dr. Paulo Guinote depois de ter colocado PROFESSORES CONTRA PROFESSORES ?????

ONDE ANDA ??????

PARA ONDE VAI QUANDO O SEU BARCO ADORNAR POR COMPLETO ?????

PARA ONDE VAI DR. PAULO GUINOTE ?????

Será que sabe !!! Será que tem a consciencia tranquila !!! Será que os seus colegas o vão poder encarar olhos nos olhos ???? Será !!!!! Será !!!!

Não há que hesitar: perante isto sinto-me ultrapassado pela potência da argumentação, pelo rigor das acusações, pelo adivinhável rubor inflamado do meu acusador. Nem quero crer que use lentes de contacto pois, pelo ímpeto, já teriam saltado há muito das órbitas dilatadas pela indignação tão bem simulada.

Caso fosse eu muito vaidoso, acreditaria que sou alguém importante e não um zeco de subúrbio, vivendo numa pequena aldeia do deserto, defronte de uma serrania protegida até lhe quererem colocar um Fripor em cima.

Entretanto, chamem lá os bombeiros, se é verdade que fui eu a incendiar as escolas… Ao menos salvem as bibliotecas, que se lixem os interactivos.

Como é possível que um governo escudado na chamada “legitimidade democrática” altere todo o quadro legal em que se estruturava a Escola Pública Democrática Portuguesa, cujos princípios estão consignados na Constituição da República, instituindo um quadro que faz da Escola uma empresa, operando, deste modo, um verdadeiro “golpe de estado” na Educação?

Não haverá mecanismos legais que processem um governo que tendo apresentado ao Povo Português um programa leve a cabo outro?

Como é possível continuar impune um governante que recorre a mecanismo de chantagem e intimidação para obrigar que se cumpra pela força, o que pela razão e justiça os professores se recusam a fazer?

Chantagem e intimidação não são crimes?

Nenhum professor consciente teve dúvidas, ou tem, que a chamada “avaliação” dos professores, instituída pelo actual governo absoluto nunca teve como objectivo aferir o mérito de um professor, mas tão só , promover mais um mecanismo ao serviço de arbitrariedades. Como se compreenderá que, quem consiga estômago bastante para participar nesta embrulhada legal e neste processo de “avaliação” sinuoso e subjectivo, possa ser um bom, muito bom, excelente professor e os milhares, cuja consciência cívica e moral não o permita, sejam professores medíocres, lançados no fundo da tabela dos concursos?

A máscara caiu: Eis para que serve a avaliação deste governo: Medir o grau de subserviência de um professor.

A excelência de um professor não se mede em formas, made in Chile, a excelência de um professor constrói-se todos os dias, dando-lhe condições materiais para ter acesso à cultural e não, como fizeram, reduzindo-os à indigência; a excelência de um professor constrói-se, exigindo-lhe formação científica e pedagógica, e não, como fizeram, retirando-lhe a formação; a excelência de um professor constrói-se, promovendo a sua liberdade e dimensão humana e não, como fazem, sujeitando-o a comportamentos desviantes da sua dignidade.

Eis o governo que temos: Até o partido que os levou ao Poder hipotecaram!: É este o partido que Mário Soares fundou? É este o partido que ajudou a construir a democracia portuguesa?

Não.

Os professores portugueses têm o dever cívico de dizer: Não. Os professores têm o dever cívico de defender a Democracia que Abril fez nascer.

Anabela Almeida

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