Novembro 2008


Kevin Rowland, Concrete And Clay

Eu ia postar algo dos Dexys Midnight Runners, mas dei de caras com esta preciosidade e… claro… um clássico é sempre um clássico, por arrepiante que seja a versão.

voadora

Não resisti, acho que tenho uma foto de uma manifestação com ele, mas à distância. Assim fica muito melhor…

rtp

30 de Novembro de 2008, 22.38 da noite, site da RTP.

Que com jeitinho vamos todos juntos para o Parlamento Europeu…

Ministra da Educação recebe “importante” apoio da Juventude Socialista

É verdade… ao andar pelos arquivos do Umbigo para fazer-lhe uma breve história e seleccionar textos para uma coisa em forma de livro que se espera não muito desinteressante, percebi que o Umbigo faz hoje três anos de vida, pois o prirmeiro post data de 30 de Novembro de 2005, sendo que vida a sério começou a ter exactamente seis meses depois, a 30 de Maio de 2006, quando passou a ter postagem regular. Até aí tinham sido feitos apenas 14 posts, sendo que os restantes 6.586 vieram nos 30 meses seguintes que agora se assinalam, para além dos 36 do aniversário propriamente dito.

Os comentários vão em quase 120.000 fora aqueles que têm ido parar à caixa do spam, que hoje nem quero abrir, pois nos últimos dias caíram por lá coisa de 600, sendo que uma boa quantidade é de legítimos e não de propostas para eu ir a um casino online, aumentar a minha masculinidade. espreitar diversas modalidades de sexo virtual ou pics e vídeos de raparigas e senhoras em poses mais ou menos estimulantes para quem não tem o estímulo real necessário e/ou indispensável para dispensar tais estimulações.

Mas regressando ao essencial…

Pois, é possível que daqui por uns meses apareça um Umbigo em papel, pois já vi o contrato e parece real. Com o menos mau do que aqui foi publicado, mais umas originalidades em seu redor. A seu tempo pedirei a devida autorização para incluir alguns textos alheios que aqui foram postados, à maneira de estrelas convidadas para abrilhantar a coisa.

Entretanto, por hoje vou ali acabar a introdução que o prazo para a entrega minguou bastante desde a última vez que olhei para ele.

anp29nov08anp29nov08a

Tivemos direito há pouco, no espaço Futuro Hoje do noticiário da 8 da SIC, a um espaço alongado sobre o Magalhães e a JP Sá Couto com todas as características de uma vulgar publireportagem, daquelas que se inserem nos jornais na secção de Classificados.

Os critérios de interesse editorial não são da minha competência, obviamente.

Mas fico curioso com o interesse de uma reportagem destas, acerca de uma empresa que funciona, para todos os efeitos, em situação de monopólio no fornecimento daquele equipamento para as escolas portuguesas do 1º CEB. E de um equipamento que é fornecido sem qualquer hipótese de concorrência.

Claro que não critico os gestores (bons!) da empresa que beneficiam deste contrato e de tamanha cobertura mediática.

Ou de um contrato para o fornecimento de um milhão de computadores para a Venezuela, enquanto se fornecem 700.000 para o mercado interno, para não falar em outras promessas de compras da Líbia e de angola.

Só que me posso interrogar se este tipo de peça é de incontestável interesse para o público ou para as partes envolvidas, a saber, o Estado português e a JP Sá Couto, sendo que esta, tendo o negócio assegurado, já nem terá muito a ganhar pela publicidade.

O que me leva a concluir que isto seria propaganda.

Tilly and the Wall, Beat Control

Quando ouvi pela primeira vez pensei que era um pastiche dos Miami Sound Machine. Continuo a achar. Mas diverte-me na mesma. Talvez esta soe menos a dejá vu.

Pelo que se viu, leu e ouviu nesta última semana percebe-se que o PS e o Governo decidiram tornar a questão da Educação a causa central destes últimos meses de mandato, tentando apresentá-la como símbolo de um fracassado espírito reformista.

Enquanto a economia colapsa, o sistema financeiro se desagrega (e com ele vários dos empresários maravilha do centrão dos negócios), as disparidades sociais aumentam, o desemprego teima em crescer o desânimo toma conta de todos, dos consumidores aos empresários, José Sócrates e o seu núcleo duro decidiram que a classe docente deveria ser a sacrificada perante a opinião pública e o país, elegendo-a como o inimigo de estimnação, ao qual não cedem como se disso dependesse a salvação das suas almas.

Ao serviço dessa estratégia desenvolveram principalmente duas tácticas:

  • Em termos de opinião pública, mobilizaram a meia dúzia de opinadores que ainda lhe são incondicionalmente afectos, assim como todas as redes e âncoras nos órgãos de comunicação social no sentido de procurarem condicionar a opinião pública com um conjunto de mensagens curtas e destinadas a transmitir várias noções erradas em torno deste conflito, a saber: isto é tudo manobra de sindicatos movidos por interesses político-partidários; os professores nunca foram avaliados e têm medo de o ser; os protestos dos docentes já começam a ser excessivos; o Governo está disposto a negociar, os sindicatos é que não. Tudo isto é, em maior ou menor grau, falso, mas parece que no combate político as mentiras são meros pecados veniais que se lavam automaticamente um cada eleição ou, quando o tempo aperta, a cada nova fornada de títulos de jornais.
  • Em termos de intervenção juntos dos professores a táctica tem sido a da conjugação da intimidação mais ou menos explícita (algumas reuniões com os órgãos de gestão das escolas por parte dos/as DRE, ameaça de os avaliar pelo SIADAP e não pelo modelo específico dos docentes, o assédio de mails para as caixas de correio dos docentes) com a tentativa de cortar fatias à unidade dos professores, procurando sensibilizar os docentes filiados no PS para funcionarem como correntes de transmissão nas escolas dos ditâmes do Largo do Rato, procurando atrair para o lado do ME os PCE mais amedrontados ou ainda tentando os coordenadores e avaliadores com a dispensa da sua própria avaliação científico-pedagógica, não esquecendo ainda a promessa de criar mais um escalão para a progressão na carreira de professor-titular ou, ainda mais recentemente, de abrir mais vagas para titulares.

Sendo tácticas politicamente hábeis, na medida em que uma segunda ou terceira divisão de políticos consegue ser hábil em alguma coisa, são igualmente tácticas pouco honestas do ponto de vista ético, pois baseiam-se em mistificações dos factos ou na tentativa de aliciamento de grupos específicos no seio da classe docente, apostando na fraqueza daqueles que só querem desenrascar a sua vidinha e os outros que se lixem (que os há e alguns até apareceram em manifestações…).

Perante isso, e sem coacção física sobre ninguém (pois podemos ser denunciados num futuro Prós & Contras…), é necessário demonstrar ao maior número de docentes que neste momento há que cerrar fileiras e, apesar de desencontros pontuais ou mesmo mais profundos em matéria de táctica e estratégia, identificarmos com clareza aquilo a que nos opomos e quem nos tem maltratado ao longo de quase quatro anos, sem aparente arrependimento.

Perante isso, há ainda que demonstrar ao senhor primeiro-ministro, à senhora ministra e aos seus secretários, que quem está a aguentar a situação nas escolas até ao limite do possível são os professores e não a tutela e que não é possível enganar-nos ou aliciar-nos com tais truques de última hora, meramente instrumentais e ao serviço de uma estratégia puramente eleitoralista.

CONFLITO GOVERNO/PROFESSORES :

Quem ganhar a opinião pública triunfará e quem aparecer aos seus olhos como surdo, inflexível ou arrogante perderá – independentemente das razões que lhe assistam.

A outra hipótese possível é um “empate”, feito com pequenas vitórias muito parciais para ambos os lados.

O governo parece estar, mais do que os sindicatos, na posse desta verdade por dispor de assessoria e orientação estratégica do aparelho do PS.

Saberão os professores jogar com estas regras perversas?

O conflito que há anos vem opondo o governo do PS e os professores – acompanhados pelos seus sindicatos – decidir-se-á com a batalha ( em curso), pela conquista da opinião pública, para o que, é fundamental a obtenção de posições estratégicas na opinião publicada.

As duas partes têm vindo a atrair potenciais aliados e a alargar os respectivos campos, consolidando posições e discursos.

O encontro de sábado entre 150 professores militantes do PS, Sócrates e a ministra da educação, foi apenas mais um passo da organização e consolidação de estratégias de uma das partes.

Na comunicação social, tem-se assistido à tomada de posição de cronistas, analistas, redactores e mesmo alguns directores, estando a tornar-se nítidas as simpatias de muitas figuras habituais da nossa imprensa e televisão.

Se tudo se vai decidir nesta batalha, para fazer chegar as respectivas razões ao domínio público, importa identificar algumas questões estratégicas :

Quem – aos olhos da opinião pública – parece ter mais razão do seu lado ?

Quem surge à opinião pública como detentor da atitude de abertura ao diálogo? Ou, dito de outra forma, sobre quem fica o ónus da teimosia e da inflexibilidade?

Se em relação à primeira questão os professores parecem surgir com alguma vantagem, já em relação à segunda questão, a situação é no mínimo preocupante, já que se assiste a uma viragem neste domínio :

Durante largos meses a posição fechada, não dialogante, inalterável e intransigente era a do governo. Naquela fase, os professores lutaram pelo direito ao diálogo e pela negociação, o que fez crescer na opinião pública a simpatia pela sua causa.

Agora, numa pirueta estratégica, o governo ensaiou uma inversão de posições, que o lado dos professores não pode permitir.

Se os professores se apresentarem fechados ao diálogo e à negociação, perderão a prazo a opinião pública, permitindo ao governo dar continuidade à sua irresponsável política educativa.

Os porta-vozes dos professores devem, antes de mais, intervir na comunicação social com a ideia de esclarecer e ganhar a opinião pública e não com outros objectivos.

Estes porta-vozes não podem dar-se ao luxo da picardia e do riso cínico, quando estão sob o olhar das câmaras.

A responsabilidade destes professores, que falam à comunicação social é enorme – facto que nem sempre parecem consciencializar – já que um passo dado em falso pode deitar tudo a perder.

É por esta razão que considero que a estratégia de afirmar que sem suspensão deste modelo de avaliação, não há negociação é – aos olhos da opinião pública uma estratégia errada, desadequada, que – a continuar – nos poderá conduzir a um beco sem saída.

Os representantes da classe docente devem comparecer às negociações sem pré-condições e nesses encontros bater-se leoninamente pelos seus pontos de vista, mesmo que tenham que repetir-se um milhão de vezes.

Se as negociações acabarem, ronda após ronda, sem resultados, o ónus do insucesso será distribuído por ambas as partes.

Entrar no gabinete negocial e sair ao fim de 15 minutos de conversa, é um acto muito difícil de compreender e aceitar pela opinião pública, que pode facilmente ser entendido como de teimosia e arrogância irresponsável. ( Embora, emotivamente, seja o que apetece fazer)

A estratégia de “só negociamos se suspenderem primeiro”, é errada.

Os comunicadores da classe docente têm que aparecer à opinião pública imbuídos de uma atitude responsável ( que acredito que têm), ponderada, dialogante, construtiva e empenhada em resolver os problemas da escola e dos alunos.

Concordo que esta é uma tarefa bem difícil, para o que se torna vital, antes de mais, reconhecer a sua complexidade e importância para o desfecho da luta.

Não pode haver mais espaço para ingenuidades.

Independentemente do que cada uma das partes verdadeiramente é e representa – que para mim é o mais importante – é sobretudo decisivo o que cada uma das partes parece aos olhos da opinião pública.
É que, embora a nossa causa seja justa, de pouco nos servirá a sua justiça, se essa causa for derrotada.

Diz o poeta e é verdade que “a razão mesmo vencida, não deixa de ser razão”, mas além da razão – que sabemos que temos- todos nós professores, queremos que a nossa razão triunfe.

A bem da justiça e de uma escola pública de qualidade.

( @ r | º §

INTRANSIGÊNCIA DO M.E. IMPEDE RESOLUÇÃO DO PROBLEMA QUE O OPÕE AOS PROFESSORES:

M.E. DEVE SUSPENDER ACTUAL MODELO DE AVALIAÇÃO!

GREVE DE DIA 3 SERÁ MOMENTO IMPORTANTÍSSIMO DA LUTA DE TODOS OS PROFESSORES!

As organizações sindicais de professores abaixo referidas, confrontadas com as declarações do Secretário de Estado Adjunto e da Educação, proferidas no final de uma reunião partidária, de que os Sindicatos não estariam disponíveis para negociarem uma saída para o problema da avaliação de desempenho, esclarecem:

  1. Os Sindicatos de Professores, nas reuniões das diversas “mesas negociais” realizadas na passada sexta-feira, manifestaram disponibilidade e estavam preparados para apresentarem uma proposta de solução transitória de avaliação para o ano em curso, em alternativa ao modelo ministerial, ainda que simplificado;
  2. Tal solução implicaria, obviamente, a suspensão do actual modelo, de forma a que a avaliação se pudesse centrar no professor e na sua actividade pedagógica;
  3. A Ministra da Educação inviabilizou essa negociação ao rejeitar, liminarmente, qualquer solução que implicasse a suspensão do modelo em vigor, o que retirou sentido à eventual apresentação formal da proposta sindical. Ou seja, foi o ME quem colocou condições prévias ao vetar qualquer solução que passasse pela suspensão do actual modelo de avaliação;
  4. A solução transitória defendida pelos Sindicatos exige o envolvimento do professor, através da sua auto-avaliação, e do conselho pedagógico da escola ou agrupamento, bem como do conselho executivo na concretização de todo o processo de avaliação de desempenho;
  5. Naquelas reuniões, as organizações sindicais manifestaram disponibilidade para iniciarem, desde já, a negociação de um modelo alternativo de avaliação que seja pedagogicamente adequado, cientificamente capaz e promova a melhoria das práticas pedagógicas.
  6. Ao contrário do que tem sido propalado pelo ME, os Sindicatos de Professores já apresentaram, por diversas vezes, propostas sobre avaliação de desempenho. Só na actual legislatura, fizeram-no por quatro vezes ao longo de todo o processo de revisão do ECD e de regulamentação da avaliação, contudo, numa atitude de inqualificável prepotência, o ME, simplesmente, ignorou-as;
  7. A negociação do novo modelo de avaliação do desempenho deverá realizar-se no quadro de uma revisão do ECD que permita, igualmente, eliminar as quotas de avaliação e ultrapassar o problema da divisão dos professores em “Professores” e “Professores titulares”;
  8. Face à intransigência do ME que, insensível aos protestos dos professores e à realidade e ao interesse das escolas, recusa suspender a avaliação e abrir um processo de revisão do ECD no sentido antes referido, as organizações sindicais de professores apelam:

1.º À Unidade dos professores nas escolas;

2.º À suspensão da avaliação nas escolas que ainda não suspenderam;

3.º À PARTICIPAÇÃO DE TODOS OS PROFESSORES E EDUCADORES NA GREVE NACIONAL DO PRÓXIMO DIA 3 DE DEZEMBRO, CONSCIENTES DE QUE UMA FORTÍSSIMA ADESÃO A ESTA GREVE OBRIGARÁ O MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E O GOVERNO A ATENDEREM ÀS SUAS JUSTAS REIVINDICAÇÕES.

Coimbra, 30 de Novembro de 2008

As organizações sindicais de professores e educadores:

FENPROF (Mário Nogueira, Secretário-Geral),

FNE (João Dias da Silva, Secretário-Geral),

SPLIU (Manuel Rolo, Presidente),

SNPL (Grasiela Rodrigues, Presidente),

SEPLEU (Pedro Gil, Presidente),

FENEI / SINDEP (Carlos Chagas, Secretário Geral),

ASPL (Fátima Ferreira, Presidente),

SINAPE (Nóbrega Ascenso, Presidente),

SIPPEB (Eleonora Betencourt, Presidente),

SIPE (Júlia Azevedo, Presidente).

FENPROF – FNE – SPLIU – SNPL – SEPLEU


Saudações Virtuais

Pedro Roque
FENEI / SINDEP

GREVE NACIONAL DE PROFESSORES

3 DE DEZEMBRO DE 2008

UMA GREVE DIFERENTE

  • Diferente porque o objectivo central que se pretende atingir com ela é paralisar nesse dia todas as actividades lectivas e não lectivas em todas as escolas do país
  • Diferente porque se pretende dos professores um envolvimento activo na sua concretização. A Direcção do SPN apela a que os professores se juntem nas suas escolas, encerradas para as aulas, e realizem reuniões gerais em que analisem o processo de luta em que estão envolvidos, a sua continuidade e todas as implicações desta mobilização.
  • Diferente também porque devemos aproveitar mais esse dia para mostrarmos de novo nas ruas de todo o país o nosso descontentamento e os motivos da nossa luta. A Direcção do SPN providenciará junto de todas as Câmaras Municipais da Região Norte no sentido de criar as condições necessárias para concentrações de professores no espaço circundante às mesmas, a partir das 10 horas da manhã do dia 3. Nessas concentrações será distribuído um texto dirigido aos pais e encarregados de educação e a toda a comunidade.

TODOS JUNTOS POR UMA GREVE GERAL

DOS PROFESSORES PORTUGUESES

PARTICIPA ACTIVAMENTE

FAÇAMOS DO PRÓXIMO DIA 3 DE DEZEMBRO MAIS UM PONTO ALTO DA MOBILIZAÇÃO E DA LUTA DOS PROFESSORES E EDUCADORES PORTUGUESES

De uma notícia do JN:

O presidente da Pró-Ordem dos Professores, Filipe do Paulo, que afirmou no final da reunião de 18 de Novembro da ministra com militantes do PS ter sido impedido de concluir uma intervenção quando pretendia pedir a demissão de Maria de Lurdes Rodrigues, viu hoje em José Sócrates “uma grande abertura ao diálogo”.

“Verifica-se que o Governo recuou significativamente nestas matérias. Importa agora que os sindicatos também não radicalizem posições e consigam aproveitar esta abertura para, em diálogo e negociação, conseguirmos alguns avanços”, disse Filipe de Paulo aos jornalistas, no final da reunião.

Para o dirigente da Pró-Ordem, importa “começar desde já a negociação do novo modelo de avaliação e trabalhar de imediato na desburocratização do actual modelo para o tornar exequível nas escolas”.

O passo seguinte é abandonar a Plataforma e publicar nº de associados da Pró-Ordem, para sabermos o que vale e o que representa esta caríssimo colega.

No Público de hoje (sem link) :

O espírito da coisa

Foi num domingo, noite avançada, que Maria de Lurdes Rodrigues veio despachar um equívoco que, pelos vistos, lhe havia escapado. Dizia o novo Estatuto do Aluno do Ensino Não Superior, no artigo 22.º sobre o efeito das faltas, ponto 2, que: “Sempre que um aluno, independentemente da natureza das faltas, atinja um número total de faltas [xis] (…) deve realizar (…) uma prova de recuperação na disciplina ou disciplinas em que ultrapassou aquele limite, competindo ao conselho pedagógico fixar os termos dessa realização”.
Na minha qualidade de director de uma turma do 12.º ano (apesar de não ser professor titular, sou apenas professor…), havia dirigido uma reunião com os respectivos encarregados de educação na quinta-feira anterior e, aconselhado pelos órgãos de direcção da minha escola, um dos pontos da ordem de trabalhos fora, precisamente, a análise do dito estatuto. Uma encarregada de educação questionou a natureza legal do famigerado ponto 2 do artigo 22.º. Compreendendo a dúvida levantada, sugeri aos 13 educadores presentes e a mim próprio (apenas professor) a leitura conjunta do tal artigo assassino. Lá chegámos a um consenso relativamente ao “independentemente da natureza das faltas” querer dizer isso mesmo, que independentemente de as faltas serem ou não justificadas, o que estaria em causa para a realização da prova de recuperação seria o seu total em “bruto”. Aliviado pelo consenso alcançado dormi muito melhor nas noites seguintes. Mas, naquele domingo, a ministra da Educação trabalhou até mais tarde para poder explicar ao país, em geral, e aos pais, em particular, que os professores (pelo menos os professores como eu, pelos titulares não posso falar) não tinham compreendido o espírito do estatuto. Eles liam o que estava lá escrito mas, almas simples, não conseguiam perceber o que se pretendia dizer com aquilo. Ou seja, estavam a ler correctamente mas a interpretar erradamente, mostrando que, para este ministério, a Lei é um estado de espírito e legislar é mais ou menos o mesmo que escrever sonetos ou cartas de amor a uma pessoa imaginária.
Quando a ministra se saiu com esta compreendi que a causa dos professores relacionada com a exigência da suspensão do modelo de avaliação em eterno remendo estava quase ganha. Com esta leveza, esta trapalhice, esta santa ingenuidade, Maria de Lurdes Rodrigues deixava cair a máscara de competência que, inexplicavelmente alguém lhe oferecera. Ainda por cima, num momento em que todos estão particularmente atentos aos assuntos relacionados com a vida nas escolas. Desta vez não seriam os apenas professores a ficarem estupefactos com a calinada, toda a gente ia reparar. E toda a gente reparou. Mais: houve logo quem relacionasse o despacho clarificador com ovos voadores, numa associação de ideias que, estou em crer, é exagerada, se bem que não de todo descabida.
Daí até à actual proposta de aplicação do Simplex na avaliação de professores foi um bochecho. Numa extraordinária confissão pública feita perante as câmaras da RTP1, Maria de Lurdes Rodrigues veio, com aspecto constrangido, afirmar que está e sempre esteve aberta ao diálogo (apesar de não responder às questões colocadas pela jornalista), que é uma pessoa que gosta de ouvir as opiniões alheias e que isso pesa na forma como toma as suas decisões. Por isso decidia agora dar o braço a torcer e cortar às postas o infalível modelo de avaliação que tanta guerra causara. Inacreditável.
Será que, tal como acabou por acontecer com o Estatuto do Aluno, a ministra compreendeu finalmente o espírito escondido no mastodôntico Decreto Regulamentar n.º 2/2008, de 10 de Janeiro? Será que, mais dia, menos dia, vai acabar por suspender o dito cujo, explicando que, afinal, o que está lá escrito não revela o verdadeiro espírito da coisa? Que desde o princípio de toda esta onda de contestação o problema não é dela nem dos que a secundam, mas sim, e como sempre, dos professores que não sabem ler as entrelinhas das leis, decretos e despachos com que nos tem inundado? Bem vistas as coisas, é muito provável que assim seja e o contrário também haverá de constituir uma grande verdade.

Rui Silvares
Cova da Piedade

jn30nov08

E a minha opinião, pelo menos quando se lêem, de seguida, as colunas de opinião dos principais responsáveis pelo jornal. Não é que ache defeito, pois cada um alinha com quem quer…

Os Contemporâneos (que andam muito bem e a bater os Gatos, acho eu…)

Muitos materiais sobre a avaliação no estado americano do Tennessee:

Framework for Evaluation and Professional Growth

Um estudo interessante sobre a implementação, ao nível local, de sistemas de avaliação de docentes:

Implementing Teacher Evaluation Systems: How Principals Make Sense of Complex Artifacts…

E aqui a apresentação de três modelos possíveis de avaliação, à escolha dos docentes: o modelo das aulas assistidas, o modelo do registo das evidências do desempenho e o model colaborativo. Por cá, não sei se repararam, mas querem impor praticaqmente os três modelos ao mesmo tempo.

Um outro estudo, bastante recente:

Rush To Judgement: Teacher Evaluation in Public Education

Governo disponível para negociar, mas sem condições prévias

O secretário de Estado da Educação reafirmou esta noite que o Governo está disponível para negociar o modelo de avaliação dos professores, caso os sindicatos o queiram, mas sem condições prévias.
A nossa disponibilidade em negociar é total. É preciso é que seja sem condições prévias e que os sindicatos não continuem a exigir a imediata suspensão do modelo” de avaliação, afirmou Jorge Pedreira, no final de uma reunião entre os responsáveis do Ministério da Educação e professores filiados no PS, durante toda a tarde, na sede do partido, em Lisboa.
O secretário de Estado referiu ainda que a “esperança” do Governo é que “os sindicatos se sentem à mesa e negoceiem sem condições prévias”.

Isto é estranho para mim. Mas então as DRE não estão já a querer impor a simplificação, mesmo antes da publicação dos decretos correspondentes?

Ou ouviram das boas no Rato, ou então isto está demasiado confuso para o meu gosto e ainda mais incoerente do que o habitual.

O Monstro

.

A monstruosidade burocrática chamada de avaliação de professores criou nos últimos dias uma situação de braço de ferro entre o Ministério de Educação e os professores, sindicatos e outras associações de classe, difícil de sanar.

Para além do impasse ser mais do que previsível, ele é também o culminar de várias perturbações legislativas, que este organismo tem vindo sucessivamente a despejar nas escolas.

A tentativa para impor esta barafunda só seria possível neste país eternamente desgovernado pela partidocracia vigente e exposto a toda a espécie de aberrações saídas de interesses obscuros e de mentes perversas.

A meu ver este sistema de avaliação não foi copiado do Chile de Salvador Allende, como alguns fazem crer, mas inventado num gabinete da 5 de Outubro, por alguns dos milhares de burocratas do Ministério e seus satélites, que precisam de apresentar trabalho para defender o lugar que ocupam de feição vitalícia até à reforma dourada.

Pessoalmente não entendo porque é que os professores têm que ser avaliados, uma vez que são avaliadores por excelência. Como qualquer outro profissional deverão ser, isso sim, avaliados pela empresa onde trabalham: a escola ou outra instituição. Se não servem têm que procurar outra saída profissional.

Também não percebo porque é que os professores são alvo desta avaliação politiqueira, num país onde existem tantos profissionais que nunca foram avaliados nem nunca o serão, muitos deles pertencentes ao aparelho do Estado. O melhor exemplo encontra-se nos gestores e detentores de cargos políticos, peritos em auferir salários milionários e escandalosos e em oferecer milhões saídos do nosso bolso, em troca de nada.

Além disso, em Portugal os professores sempre foram avaliados, embora por um processo algo semelhante ao que agora querem impor revestido de uma enxurrada de papelada e reuniões infinitas, que não lhes permitem fazer o seu trabalho e ter uma vida familiar.

Há quem se esqueça que os professores antes de ingressarem na profissão tiraram os seus cursos e a sua profissionalização, tendo sido depois sujeitos a todo o tipo de acções de formação, para além de estarem em permanente formação e em contacto com experiências e livros que precisam de ler.

A razão que levou a eleger os professores como forma de propaganda do governo e bodes expiatórios do fracasso das reformas, encontra-se no facto de serem um grupo profissional dividido e fragilizado por divisões politiqueiras e sindicais.

Nunca foram uma corporação e dificilmente conseguirão formar um lóbi capaz de impor uma equipa ministerial que servisse o país, papel que foi deixado a universitários que nada conhecem do sector.

Compare-se os modelos de avaliação vigentes nos países onde estes existem e chegar-se-á a conclusão de que por cá apenas se pretende poupar uns cobres com uma classe, que face a outros países já é bastante mal paga.

Poupa-se nos professores e nas escolas, mas os cofres estão cheios de milhões para distribuir pelos bancos que têm afundado a economia e gastar em despesismos eleitoralistas de caça ao voto.

Os milhões que o ministério gasta em números teatrais propagandísticos do tipo Magalhães, em estudos e em contratos com empresas clientalistas, poderiam ter sido destinados a melhorar os estabelecimentos escolares e em criar condições para um ensino saudável, num país que tanto necessita de formação para poder competir economicamente.

Este governo e a sua politica criou nas escolas um péssimo ambiente de trabalho e um clima de perseguição, que fez fugir em poucos meses muitos dos professores mais capazes e experientes, que preferiram meter a reforma antecipada, pedir a exoneração ou simplesmente procurar outro meio de vida.

Entretanto, nos últimos dias a ministra parece mais preocupada em dar entrevistas a jornais e televisões, o que não lhe augura um fim feliz a ela e ao seu insólito sistema. Isto depois das cedências pontuais feitas à ultima hora.

Toda esta atmosfera de desestabilização das escolas vai fazer com que as famílias com posses continuem a pôr os filhos nas escolas privadas, que nos últimos anos se têm vindo a multiplicar pelo Algarve e pelo país, estabelecimentos onde os professores se dedicam exclusivamente a ensinar os seus alunos.

Por estranho que seja, parece que serão estas escolas que irão salvar o que resta de algum ensino de qualidade que já tivemos.

.

(in Edição Especial, n.º 36., de 28.11.2008, p.18)

Não há mérito sem quotas? Que disparate!

Página seguinte »

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.

Junte-se a 836 outros seguidores