Falta de alunos no ensino secundário coloca futuro da disciplina de Química em risco

Disciplinas opcionais no secundário levam escolas a fechar turmas por não reunirem número suficiente de alunos

A falta de alunos interessados na disciplina de Química do 12.º ano leva as escolas a não abrirem turmas. O facto preocupa a Sociedade Portuguesa de Química (SPQ) e os alunos que querem inscrever-se na disciplina e não podem, como é o caso do filho de Maria Santa.
O jovem contactou as escolas secundárias de Lisboa, Alcochete e Montijo e em todas a resposta foi negativa. “Por a disciplina ser opcional e não obrigatória, não tinham alunos suficientes para formar uma turma”, diz Maria Santa. Este é o segundo ano que o aluno tenta inscrever-se em Química do 12.º ano, sem sucesso. A disciplina é essencial para “adquirir bases relacionadas com o curso” que quer seguir, diz a mãe.
Para a SPQ, esta situação “não é surpresa”. De acordo com Paulo Claro, secretário-geral da SPQ, a sociedade tem conhecimento de casos semelhantes “em diversas escolas pelo país” e vê a “situação com bastante preocupação”. Paulo Claro considera que “a responsabilidade pela falta de alunos a Química não é dos alunos”, mas “da própria sociedade, que cultiva o sucesso fácil e imediato, e do Ministério da Educação, que amplifica essa noção de facilidade”. “Se os alunos podem obter boas notas sem esforço noutra disciplina, porquê escolher Química, que é reconhecidamente trabalhosa?”, interroga-se.
A SPQ alerta que “a facilidade de hoje vai dar o desemprego no futuro”. Apesar de ainda não haver números deste ano, “a tendência não é boa”. A falta de alunos para abrir turmas já fez com que a Química desaparecesse nas escolas menores e está já a atingir as maiores, “o que é preocupante”, diz Paulo Claro.
Foi o que aconteceu na Secundária D. Diniz, escola em Lisboa com cerca de mil estudantes e que não abre uma turma de Química há já três anos. “Este ano, pela primeira vez, não vamos abrir Física”, lamentou Maria José Prina, professora de Física e Química durante a visita de Cavaco Silva a este estabelecimento de ensino, anteontem, para assinalar o início do ano lectivo. “Os primeiros exames nacionais de Física e Química A [em 2006] foram muito difíceis e afastaram muitos alunos”, explicou.

Um dos segredos para o Sucesso Educativo Estatístico é muito simples: se a disciplina obriga a pensar ou dá muito trabalho e os exames são mais problemáticos aligeira-se o programa ou torna-se a sua frequência opcional mesmo para quem queira seguir um curso superior que exija os respectivos conhecimentos básicos, para que os alunos, fruto das flexibilidades e permeabilidades do Secundário, possam fazer o 12º ano com o mínimo dos esforços.

Com este modelo, é óbvio que tornar obrigatório o 12º ano é quase redundante, pois é possível completá-lo fazendo um rendilhado de vacuidades curriculares e académicas.

É a fórmula – nada facilitista, como é natural – de dar ao povo discente o que ele deseja e permitindo que não faça o que o perturba, de maneira a mantê-lo na escola e produzir boas estatísticas para a OCDE.

Algumas “famílias” aplaudem, a Presidência da República limita-se a visitar obras e a oposição continua perdida nos seus próprios labirintos tácticos ou ideológicos.

As consequências funestas só se detectam a médio prazo e a culpa depois é sempre algo difuso ou então do modelo de avaliação dos professores ou da gestão do pessoal não-docente.