O livro já não é novo (edição original de 1986), mas continua actual em muitas das suas passagens e, principalmente, na sua análise da ascensão do poder de algumas profissões, mesmo se já então se pressentiam sinais de declínio em alguns sectores.

É muito interessante a abordagem da questão do credencialismo e do controle do acesso ás profissões por organizações que emanam do próprio corpo profissional, claro que com a autorização legal do Estado:

A mais impressiva forma de credencialismo trabalha para produzir um cartel ocupacional, que ganha e preserva um controle monopolista sobre o fornecimento de um bem ou serviço de modo a aumentar o rendimento dos seus membros protegendo-os da competição de outros. Para ser completamente eficaz, tal cartel deve ser capaz de controlar o número de pessoas que entram no campo [de actividade] de modo a manter uma relativa escassez e de controlar igualmente o comportamento competitivo dos seus próprios membros de modo a preservar um preço e uma política de produção comuns. nenhuma profissão moderna foi capaz de preencher todos os requisitos de um cartel eficaz (…) no entanto, um direito sustentado pelo Estado tem alguns atributos significativos de um cartel. Eles têm o monopólio da prática que, em conjunto com o controle das comissões de licenciamento e acreditação que os suportam, faculta a oportunidade de limitar a entrada na ocupação. O uso calculado dessa oportunidade pode controlar o número de pessoas disponíveis e manter alto o custo do serviço, embora se as profissões usaram efectivamente essa oportunidade nas últimas décadas é uma questão empírica sobre a qual ainda há um debate considerável. (Eliot Freidson, Professional Power – A Study in the Institutionalization os Formal Knowledge. The University os Chicago Press, 1988, pp. 63-64)

Já sabemos que entre nós a formação destes cartéis profissionais aconteceu, em grande medida mas não exclusivamente, durante o Estado Novo, graças à modalidade de corporativismo que foi usada pelo próprio Estado para manter o controle e a auto-regulação de certas actividades profissionais e não só (na indústria funcionava o Condicionamento Industrial).

É esse o sistema que – com alguns matizes – ainda sobrevive hoje com as Ordens Profissionais, mesmo se a acção destas nem sempre funcionou no sentido da cartelização.

Quanto aos professores, é paradoxal que seja agora o Estado a querer regular de forma mais estreita o acesso à profissão, não no sentido de fazer escassear os profissionais disponíveis e elevar o seu valor no mercado salarial, mas exactamente no sentido de a proletarizar. A estratégia é a inversa ao dos cartéis profissionais: regula-se o acesso para manter os que estão dentro sob estreito controlo, usando como «ameaça» os contingentes que ficarão de fora.

Nesta obra não deixa também de ser curioso que o professor do ensino não-superior, e em especial o antigo professor «primário», seja usado como o exemplo de profissional com menos poder e mais constrangido burocraticamente na sua actividade, apesar da sua autonomia relativa na sala de aula (pp. 161-162).