Numa troca de comentários em post anterior, levantou-se a questão da utilidade da criação de turmas de nível.

Por acaso sou um pouco contra esse tipo de medida, em especial agora que se podem constituir turmas de PCA e CEF com bastante facilidade.

Mas desgosto das turmas de nível por outros motivos, alguns dos quais até por achar que será uma medida prejudicial para todos os envolvidos, sejam os eleitos, sejam os coitadinhos. Porque isso é negar, logo à partida, o conceito de Igualdade de Oportunidades. Opção apriorística que não aceito, em coerência com a recusa da a obrigação da Igualdade de Resultados. E partilho, em grande medida, desta perspectiva que aponta as turmas de nível como um passo claro para «trabalhar o sistema» em favor de alguns.

Listarei apenas três, embora a discussão fique aberta a outros contributos:

  1. Como professor, compreendo que seja mais atractivo trabalhar com turmas mais homogéneas do ponto de vista do rendimento. No entanto, acho que esse tipo de metodologia acaba por encerrar os alunos, em especial os de maior rendimento, em «casulos» e por os afastar do contacto e trabalho com os colegas menos dotados, digamos assim. Sei que a presença de alguns alunos disruptores – mas nesse caso trata-se de problemas disciplinares – pode perturbar imenso o ambiente de aprendizagem de uma turma. Mas também sei que as chamadas «turmas de nível» podem transformar-se simplesmente numa guetização inter-turmas, beneficiando alguns alunos em detrimento de outros e desistindo de estratégias de trabalho cooperativo em que os melhores alunos ajudam os que têm maiores dificuldades, o que é muito importante para a sua formação pessoal. Aqui talvez seja parcial, porque a minha estória como aluno, em especial no equivalente aos actuais 2º e 3º CEB, foi a de pertencer a várias turmas que pareciam condenadas ao fracasso, principalment porque os alunos eram da periferia da sede do concelho e ficavam para os «restos». Já como professor, tenho exemplos bem sucedidos de turmas muito heterogéneas que funcionaram bem, em especial quando se impedia que os bons se agrupassem sozinhos, deixando os outros entregues a si mesmos.
  2. Uma outra reserva às turmas de nível passa por um aspecto que pode parecer contraditório com o anterior e é o da avaliação. Até que ponto é justo usar a mesma escala de avaliação para turmas com perfis de aprendizagem completamente diversos? Até que ponto é justo que um aluno bom numa turma XPTO tenha nível 4, enquanto um aluno que lhe seria inferior, em confronto directo, pode tirar esse mesmo nível 4 ou mais só porque está numa turma sobre a qual as expectativas são menores? Isso já acontece actualmente com as turmas de Currículos Alternativos e mesmo com os CEF, mas esses já sabemos que se regem por regras diferentes, enquanto com as turmas de nível isso se torna mais difuso.
  3. Por fim, uma questão prática elementar: onde se traça a fronteira para dividir as águas? O que fazemos aos alunos que ficam nos limiares? Os chamados borderline? Empurramo-los em que sentido? Para baixo ou para cima? Depende das vagas? Do poder de reivindicação do(a) EE? Complicado. Pouco transparente.

No fundo é transferir para o interior do sistema público de ensino uma estratégia discriminatória de que se acusa muitas instituições privadas de praticarem. E que admito que também já existe em vários estabelecimentos públicos. Mas que ainda não é a regra. Felizmente. Acho eu.