OS NOVOS POBRES
Uma pergunta: há 40 anos ou menos, havia mais pobres em Portugal, grupos de risco, vários tipos de desintegrados. A sociedade portuguesa era dual, como mostrou o sociólogo Adérito Sedas Nunes: o mundo dos “de cima” existia sem contacto com os “de baixo”. De certa forma esse dualismo ainda existe. No entanto, a pobreza portuguesa dessa época nunca se associou a fenómenos de criminalidade, nunca justificou que fosse estabelecido um nexo entre as condições sociais de uma pessoa e o seu desvio para o crime.
(…)
Pouca gente estudou melhor a pobreza em Portugal do que a investigadora da Faculdade de Economia Leonor Vasconcelos Ferreira, que morreu prematuramente esta semana. Conhecia alguns dos seus artigos (por exemplo, “Dinâmica de rendimentos e persistência da pobreza em Portugal”), produto de um trabalho de décadas, e esse trabalho estatístico, sem nunca sair do registo de “objectividade” e do jargão académico, procurava explicar porque é que a pobreza portuguesa é tão “crónica” e resistente, porque é que se transmite de pais para filhos e não adere com facilidade aos meios que podem assegurar a mobilidade. Em Loures, um pai e um tio levaram um menor de 13 anos para um assalto. O rapaz acabou morto pela GNR. Tratou-se de um caso de iniciação à marginalidade, mas também de típica transmissão da pobreza.Ao lermos o que escrevia Leonor Ferreira, percebemos que a núcleo do problema não é económico mas cultural. Depende das políticas de desenvolvimento humano que podem levar grupos de pobres especialmente vulneráveis a interiorizar valores de educação, aprendizagem social e preparação do futuro.
Nas últimas décadas, a sociedade portuguesa tem sofrido uma erosão das normas sociais que distinguem as sociedades saudáveis. Indivíduos em estado bruto crescem em famílias deterioradas, sem respeito por uma escola gratuita e por noções mínimas de comunidade. Os apoios sociais são tidos como permanentes em vez de transitórios. O consumo vale mais do que o trabalho. Certos grupos imigrantes esquecem que, tal como os portugueses, devem zelar pelas normas da sociedade que os recebe. Está aqui a agenda socialmente conservadora e economicamente progressista que devemos perseguir.
Este rapaz diz que é de Direita, mas sempre achei que ele anda(va) enganado. Claro que o problema também é económico – a criminalidade sobe sempre com os apertos financeiros – mas é verdade que não podemos esquecer as questões culturais, tão típicas nas sociedades do sul da Europa.
Agosto 14, 2008 at 11:11 am
Eu não faria uma análise tão simplista e conclusiva do rapaz Lomba….
Agosto 14, 2008 at 11:31 am
Quando digo a alguns portugueses que na Holanda já desde o séc. XIX não existem pobres nem analfabetos (Ramalho Ortigão andou por lá e escreveu um livro), não acreditam. Pensam que é natural existirem pobres e ricos, que fazem parte da paisagem, como a relva e as árvores…
A escola pública está a falhar na missão de quebrar o ciclo da pobreza em muitas famílias porque, devido às políticas facilitistas e à preocupação dos responsáveis (?) com as estatísticas, não se transmitem conhecimentos nem valores. Segue-se a política do “para quem é, bacalhau basta”, e muitos jovens entram e saem da escola com os mesmos valores deturpados que traziam da família e do bairro ou da aldeia. A escola não abala esses valores nem abre horizontes. Não presta.
Agosto 14, 2008 at 1:09 pm
Seria aconselhável que os “defensores do modelo filandês” o fossem efectivamente.
Tradução livre de alguns versos do hino deste país, palavras que, segundo parece, têm sido levadas a sério:
somos um país pobre, que não tem ouro
o recurso que temos é o nosso povo.
Afirma a presidente reeleita, Tarja Halonen:
Um povo educado elege dirigentes honestos e competentes, não tolerando a corrupção. Sabe ainda destrinçar discursos sérios de palavras demagógicas.
E já que tanto se publicita a Finlândia, apesar de algumas derrapagens para o Chile, seguem alguns dados:
A Finlândia possui uma uma produção per capita maior do que a do Reino Unido, França, Alemanha e Itália. O nível de vida é elevado. O sector-chave da sua economia é a indústria: madeiras, metalurgia, engenharia, telecomunicações e electrónica. O comércio externo representa 1/3 do PIB.
Agosto 14, 2008 at 1:10 pm
“finlandês”…
Agosto 14, 2008 at 2:22 pm
“Ao lermos o que escrevia Leonor Ferreira, percebemos que a núcleo do problema não é económico mas cultural. Depende das políticas de desenvolvimento humano que podem levar grupos de pobres especialmente vulneráveis a interiorizar valores de educação, aprendizagem social e preparação do futuro.”
O atraso crónico de desenvolvimento a todos os níveis de Portugal, que surge nos discursos políticos como se não fossem os mentores-base desse mesmo atraso crónico, radica, de facto, na transmissão cultural de base. No longo aprendizado dos modos de percepcionar a realidade, de lhe dar significados e de agir ou comportar-se.
Em situação de dificuldades económicas, a forma de as percepcionar e de lhes responder, tem tudo a ver com modos do aprendizado cultural.
Discordo do Paulo quando afirma “a criminalidade sobe sempre com os apertos financeiros” e o determinante deste facto radica na falta de dinheiro, nos problemas económicos. A “falta de dinheiro” é o que despoleta um certo aprendizado cultural de base e a forma aprendida de lhe dar resposta. A criminalidade (nestes casos) não decorre das dificuldades económicas per si, mas das formas percepcionados e aprendidas socialmente de agir, de lhe dar resposta.
Agosto 14, 2008 at 2:34 pm
Dentro do tema proposto pelo Paulo, aconselho a leitura deste post do Kaos
http://www.wehavekaosinthegarden.blogspot.com/2008/08/tittytainment.html
Agosto 14, 2008 at 3:29 pm
Eu gosto do que escreve (e também do que diz nas rarar vezes em vai à televisão) o Pedro Lomba.
Não concordo com o James quando diz que a escola pública está a falhar, nenhuma escolas consegue escolarizar Indivíduos em estado bruto (que) crescem em famílias deterioradas, sem respeito por uma escola gratuita e por noções mínimas de comunidade.
Agosto 14, 2008 at 3:53 pm
A escola não pode ter o sucesso desejado se muitas vezes é a única que procura quebrar essa transmissão de pobreza.
Os apoios, quer financeiros quer de outra ordem, são uma mais valia para quem deles necessita. Mas os direitos também trazem consigo os deveres. O problema é que por vezes parece que estes ficam esquecidos.
Como é que esses indivíduos em estado bruto podem ter respeito pela escola gratuita, se por vezes parece que ela é o único local onde se exige alguma coisa?
Agosto 14, 2008 at 4:09 pm
Como é que esses indivíduos em estado bruto podem ter respeito pela escola gratuita, se por vezes parece que ela é o único local onde se exige alguma coisa?
É por isso que o nosso querido trio maravilha está a levar a cabo a política do sucesso garantido sem muito esforço
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Agosto 14, 2008 at 4:41 pm
Agosto 14, 2008 at 4:41 pm
Mas alguém duvida que é pela educação, latu sensu, que isto (Portugal…) vai a algum lado?! Que inveja que eu sinto dos alunos dos países de leste que se empenham a fundo porque o objectivo deles é superar-se pelo simples gozo da superação e do conhecimento, para o que contam com o aPOIO e o estímulo ods pais. E que contraste com os “nossos” pais que querem é que o “rapaz passe”. Não quero grandes notas, quero é que ele passe sempre para poder ir trabalhar como eu, para o restaurante. E retorquimos: não achava melhor para ele continuar a estudar para ir para o ensino superior…PARA QUÊ? PARA SER UM INÚTIL E GANHAR MENOS DO QUE EU??!! Palavras para quê: é um artista português gerente de um restaurante que até está sempre cheio…ASSIM NÃO VAMOS LÁ!!
Agosto 14, 2008 at 7:38 pm
Ai Mouraria: esse encarregado de educação tem razão com esse argumento do …”ganhar menos do que eu.” Com a degradação do estatuto do professor (cada vez menos dinheiro e menos respeito da sociedade), convenhamos que nós os professores não somos um bom exemplo para incentivarmos os jovens a prosseguir estudos…
“Vá lá jovens, empenhem-se nos estudos e um dia terão uma posiçãozinha bonita na sociedade, como eu!”
gargalhada dos jovens estudantes)
Agosto 14, 2008 at 7:42 pm
Pobreza?! Não ouviram hoje as notícias? Vá lá, reconheçam, não sejam «tendenciosos» e congratulmo-se: Portugal é dos poucos países da União que regista crescimento económico!A inflação desceu e o emprego subiu – claro, estamos em época estival, altura em que há mais trabalho (precário) e em tempo de saldos.
Pró ano lá estaremos a votar Sócrates…
Agosto 14, 2008 at 8:01 pm
Pró ano lá estaremos a votar Sócrates…
Sinceramente acho muito possível que os portugueses voltem a votar massivamente no Sócrates.
O povo tem memória curta e as manobras de propaganda dão sempre a volta às ideias de quem vai sempre atrás do que os outros dizem.
É triste, mas nem todos têm capacidade para pensar sobre as coisas com discernimento. E depois pensar dá muito trabalho.
Agosto 14, 2008 at 8:08 pm
13.
congratlulem-se ( É melhor não)
Agosto 14, 2008 at 8:11 pm
congratulem-se – Foi pior a emenda…Decididamente não há razões para congratulações.
Agosto 15, 2008 at 1:32 am
O ciclo de pobreza em Portugal deve-se sobretudo à falência das políticas de educação. Durante o século XX, tivemos dois períodos distintos nas políticas educativas: a 1º até ao 25 de Abril de 1974 em que a educação era destinada a um grupo de privilegiados muito restrito, o 2º período, após 25 de Abril de 1974, em que dezenas de reformas destruiram a qualidade do ensino, apesar de se assistir à massificação do acesso à educação. A qualidade das aprendizagens e o crescente facilitismo atiraram o nosso País para o fundo dos rankings da OCDE e para a ileteracia funcional da maior parte dos nossos alunos.
A agravar o problema da nossa miséria social e económica, está o número crescente de famílias desestruturadas no plano ético e moral, que são sequiosas do facilitismo e da permissividadde, valores esses que são quadros de referência de quase todos os estratos sociais. Esta sociedade inculta dá valor ao efémero e ao consumo em detrimento do conhecimento, da exisgência e do esforço.
Estes são os ingredientes que tornam a nossa sociedade pouco competitiva no plano global.