Este é o tal texto que era para ser entregue ontem, para publicação hoje, mas afinal já não foi.
É recorrente em Portugal dizer-se que a Educação está mal. De tanto o dizermos tornou-se uma espécie de ruído de fundo familiar, uma das nossas fatalidades, à qual já nos habituámos e sem a qual dificilmente viveríamos. Se desaparecesse, estranharíamos. É o escape para todos os nossos falhanços:
- A economia não se desenvolve? É a falta de qualificações!
- A vida política é uma lástima? Falta de educação cívica!
- A corrupção e o cunhismo são um modo de vida? Precisamos de uma mudança de mentalidade que deve começar na Escola.
Verdade se diga que com mais 150 anos de declínio, a anunciar-se repetidamente que a Educação está bater no fundo, só é possível que esse mesmo fundo esteja seja em movimento descendente.
Mas, neste particular, o actual Governo inovou com alguma ousadia e não pouco arreganho, pois decidiu que apesar de estarmos mal, a partir de agora vamos ter números para demonstrar à saciedade que estamos bem.
- Há falta de qualificações? Damos Novas Oportunidades ao desbarato para o pessoal se certificar e diplomar.
- Há (ou voltam a haver) sinais do abandono escolar não descer? Retira-se gravidade à falta de assiduidade dos alunos.
- Há maus resultados nos exames? Manda-se «melhorar a qualidade» dos exames.
O actual Governo, pelas mãos diligentes da equipa do Ministério da Educação decidiu apresentar «reformas», traduziu-as em milhentas iniciativas legislativas e declarou que a partir de agora tudo entraria nos eixos, a começar pelos professores, esses dispendiosos malandros, que são responsáveis, desde sempre, pelas políticas educativas, pelos decretos, leis, portarias e despachos, pela sua própria formação e pelas condições de ingresso na carreira, pelo currículo, pelos programas e pelo sistema de avaliação, mais o desequilíbrio orçamental.
As coisas não parecem dar mais resultado do que libertar verbas para equipar as escolas, porque os alunos em pouco parecem ter melhorado o seu desempenho? Fabrica-se sucesso a rodos, a começar pela Matemática, essa velha bête noire do sistema educativo. Os alunos não sabem a tabuada aos 10 anos? Coloca-se a dita no formulário do exame. Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos.
E assim se constrói toda uma nova realidade ridente, de muitos numerozinhos feita.
Deve ser um novo paradigma.
Julho 11, 2008 at 9:58 am
A prática deste governo e as medidas deste Ministério da Educação evidenciam duas coisas;
1. A contradição entre massificação da educação e a obtenção de resultados positivos foi resolvida pela adopção de uma “pedagogia de avaliação diferenciada”.
Adoptando os ensinamentos das “Ciências da Educação” a uma população manifestamente ignorante, os exames foram adaptados aos níveis de conhecimento médio dos alunos, de forma a evitar “traumas”, “bloqueamentos”, “baixas de auto-estima” e outros considerandos apropriados.
Como ? Simplesmente baixando o grau de exigência comparativamente com os padrões dos exames dos anos anteriores, que tão maus resultados haviam dado.
2. A ideia de que a escola “do passado” era uma máquina de selecção das elites e de “exclusão social” e de que a escola “moderna e progressista” deve ser “igualitária” e promover o sucesso de todos para bem da democracia, vem realçar a bondade destas medidas e a razão de ser destes resultados.
A dar força a esta política educativa temos a ideologia de “esquerda” que sempre alimentou a “pedagogia diferenciada” e os esforços da escola contemporânea para a produção do sucesso.
Perrenoud e Meirieu são dois dos bois sagrados desta seita da “escola inclusiva”.
“No quadro de uma democratização do sucesso educativo”, diz-nos Meirieu, “convém diminuir o aspecto selectivo inevitável do monolitismo pedagógico e do seu darwinismo educativo subjacente: quando não há senão um método, senão um meio para alcançar o saber, então só os mais adaptados sobrevivem e têm sucesso”.
(“Frankenstein pédagogique”, 1996)
Maria de Lurdes Rodrigues pegou nestes conselhos a sério e democratizou a educação à boa maneira dos sacerdotes revolucionários das “Ciência da Educação”.
Maria de Lurdes Rodriges é o Vasco Gonçalves da Educação pós 25Abril.
Bem haja!
Julho 11, 2008 at 10:31 am
Novos concursos, mais injustiças, com horário zero e mobilidade especial à mistura!! Muito cuidado!! Acordem e vejam:
http://www.professoresramiromarques.blogspot.com/
Tudo é possível? O que precisam mais para fazerem greves já em Setembro e nas avaliações de Dezembro?
Julho 11, 2008 at 10:31 am
Novos concursos, mais injustiças, com horário zero e mobilidade especial à mistura!! Muito cuidado!! Acordem e vejam:
(www.professoresramiromarques.blogspot.com)
Tudo é possível? O que precisam mais para fazerem greves já em Setembro e nas avaliações de Dezembro?
Julho 11, 2008 at 11:55 am
” Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos. ”
mas isto n é a aplicação – na vertente mais radical e sem nuances – do projecto eduquês que tem vindo a ser praticado em Pt? Então… http://psicanalises.blogspot.com/
Julho 11, 2008 at 12:07 pm
“Os alunos não sabem a tabuada aos 10 anos? Coloca-se a dita no formulário do exame. Aos 12 não sabem calcular a área de um quadrado ou círculo, coloca-se a fórmula no enunciado. Aos 15 ainda não sabem o que devioam saber aos 12? Então elaboram-se questões para um aluno de 10 anos.”
mas isto n é simplsmente a aplicação na sua vertente mais consequente do projecto eduquês que tem vindo a ser aplicado em Pt desde há muito?
Como é possível, na Europa de hoje, que fosse de facto aplicada a “filosofia” de “democratização” do ensino da música – provinda de gente estúpida e bronca que não faz ideia o que é o ensino e estudo de uma arte como a Música (nem da música nem de nada: só percebem do ensino mediocre e ridículo que é praticado nas Ese’s e departamentos de “educação”…) – que vai ter como resultado a desistência do ensino especializado da música de todas aquelas criançãs cujos pais, e muito bem, não querem decidir que eles enveredem por uma via na qual são poucos os que ainda têm resultados concretos que lhes permita decidir já? http://psicanalises.blogspot.com/
Julho 11, 2008 at 12:11 pm
… são poucos os que têm resultados concretos que lhes permita decidir nesta altura?
Isto é: são poucos os pais que podem afirmar que os filhos, são indiscutíveis talentos e que portanto a vida deles vai ser a música, decidindo nesse sentido e inscrevendo-os num sistema de ensino totalmente vocacionado para uma hipotética carreira musical.
Julho 11, 2008 at 12:24 pm
Novas Oportunidades?? Nem sei o que dizer. Há de tudo. Há quem mereça e saiba tirar partido dessa oportunidade, com toda a justiça. Depois… e os cursos EFA … a infindável burocracia!!!
Julho 11, 2008 at 12:34 pm
Já agora, Paulo, acrescento ao seu texto, algo que li no O Crime de 10 de Junho 2008, numa entrevista a Fernanda Freitas:
« FF:(…) A violência doméstica é um PROBLEMA DE EDUCAÇÃO. Temos que ensinar os nossos filhos a respeitar o próximo.
Jornalista: Essa prevenção DEVIA COMEÇAR NA ESCOLA …
FF: E vai começar… O fórum Educação para a Cidadania tem muito essa temática. (…)»
A escola. Sempre a escola.
Julho 11, 2008 at 12:40 pm
E ainda temos de aguentar com um secretário de estado vindo hoje bater na mesma tecla:
“- Secretário de Estado pouco satisfeito com resultados na Matemática -”
http://tsf.sapo.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=967108
Que os pais do nosso país comecem a entender o que realmente está a acontecer.
NÃO SÃO OS PROFESSORES QUE NECESSITAM DE MELHORES E MAIS FREQUENTES AVALIÇÕES.
SÃO OS RESPONSÁVEIS PELAS POLÍTICAS EDUCATIVAS, OS MESMOS RESPONSÁVEIS PELAS POLÍTICAS QUE LEVARAM ESTE PAÍS AO ESTADO EM QUE CHEGOU:
- OS NOSSOS POLÍTICOS!
Não sou adepto das generalizações mas será que alguém consegue enumerar-me, ao longo dos últimos 30 anos e dos diversos ministros e secretários de estado que tivemos, apenas 10 políticos que consigamos dizer que trabalharam REALMENTE bem?
É que na minha cabeça surgem uns aí 4 ou 5… nada mais…
E depois “o BURRO sou EU???”
- Valha-nos a Nossa Senhora da Boa Memória…
Julho 11, 2008 at 12:46 pm
E parabéns pelo texto, Paulo.
Pena não ter seguido, mas nós aqui damos a mão a ajudamos a circular…
Julho 11, 2008 at 12:55 pm
Comentário (meu) repetido.
“Síntese Problemática da situação presente
- Diagnóstico
À partida, pareceu que a situação actual de organização e funcionamento da carreira docente podia ser descrita sinteticamente da forma seguinte:
- Fraco rendimento do sistema, medido pela insuficiente qualidade dos “formados”.(…)”
(J. Freire, Dezembro de 2005)
http://www.educar.files.wordpress.com/2008/06/freire12.jpg
(P. Guinote, Junho de 2008)
Logo,
- Grande rendimento do sistema, medido pela suficiente qualidade dos “formados”
Confirmam que o “problema” estava, de facto, na “organização e funcionamento da carreira docente”
Moral da hitória: “Quanto mais me bates mais eu gosto de ti”
Conclusão: O estudo freiriano, de reestruturação da carreira dos professores dos Ensino Básico e Secundário, deu bons resultados práticos.
O povo português já começou a perceber, que os resultados para os “formados”, vão ser a curto/médio/longo prazo óptimos, como prescrito por Freire! Os métodos de comprovação do modelo são infalíveis.
Em face dos bons resultados do modelo, é de aconselhar a sua imediata aplicação a todo o Ensino, com efeitos retroactivos ao genial percursor do modelo, o próprio Freire.
Julho 11, 2008 at 12:59 pm
O REI E A RAINHA VÃO NUS
Desde que foi desmascarado, o Estudo sobre a Reorganização da Carreira Docente do Ministério da Educação, coordenado por João Freire, tem vindo a ser objecto de algumas reflexões e comentários nos blogs de educação.
. Solicita-se uma ampla divulgação deste estudo e das reflexões sobre ele, para que todos os professores (e todos os cidadãos em geral) possam, definitivamente, perceber as trampolinices dos nossos responsáveis ministeriais e afins que, através do seu enfezamento, vão tornando o País mais mesquinho e vil.
. Parte deste estudo pode consultá-lo neste blog em ESTUDO QUASE SECRETO.
Paulo Guinote:
. Margarita e o Mestre
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente-2
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente-3
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente-4
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente-5
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente-6
. A Arqueologia do Estatuto da Carreira Docente-7
Ver
http://www.mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/2008/07/rei-e-rainha-vo-nus.html
Julho 11, 2008 at 1:55 pm
Comentários? nem é necessário…ficou tudo dito com clareza…
Julho 11, 2008 at 2:25 pm
Composição de um aluno do CEF-9ºANO
O futuro ou já o presente?
Eu axo q os alunos n devem d xumbar qd n vam á escola. Pq o aluno tb tem direitos e se n vai á escola latrá os seus motivos pq isto tb é perciso ver q á razões qd um aluno não vai á escola. primeiros a peçoa n se sente motivada pq axa q a escola e a iducação estam uma beca sobre alurizadas.
Valáver, o q é q intereça a um bacano se o quelima de trásosmontes é munto montanhoso? ou se a ecuação é exdruxula ou alcalina? ou cuantas estrofes tem um cuadrado? ou se um angulo é paleolitico ou espongiforme? Hã?
E ópois os setores ainda xutam preguntas parvas tipo cuantos cantos tem ‘os lesiades’, q é um livro xato e q n foi escrevido c/ palavras normais mas q no aspequeto é como outro qq e só pode ter 4 cantos comós outros, daaaah.
Ás veses o pipol ainda tenta tar cos abanos em on, mas os bitaites dos profes até dam gomitos e a malta re-sentesse, outro dia um arrotou q os jovens n tem abitos de leitura e q a malta n sabemos ler nem escrever e a sorte do gimbras foi q ele h-xoce bué da rapido e só o ‘garra de lin-chao’ é q conceguiu assertar lhe com um sapato. Atão agora aviamos de ler tudo qt é livro desde o Camóes até á idade média e por aí fora, qués ver???
O pipol tem é q aprender cenas q intressam como na minha escola q á um curço de otelaria e a malta aprendemos a faser lã pereias e ovos mois e m**das (vai c estrelilhas p o blogui do Paulo guinot asseitar) de xicolate q são assim tipo as pecialidades da rejião e ópois pudemos ganhar um gravetame do camandro. Ah poizé. tarei a inzajerar???
Julho 11, 2008 at 2:50 pm
Competir na positiva
Todo o homem é diferente, tem capacidades que se evidenciam das mais diferentes formas.
A escola por mais eficaz que seja, apenas estimula o desenvolvimento de um número limitado de capacidades.
Grande parte das capacidades, necessárias ao bom desempenho, têm que ser forçosamente adquiridas no posto de trabalho.
Compete no entanto à escola (escolaridade obrigatória) desenvolver nos seus alunos capacidades. Estas capacidades estão amplamente estudadas, no entanto vou tentar fazer uma síntese.
- Saber contar o suficiente para perceber quando está a ser enganado num banco, numa seguradora ou num hipermercado.
- Conseguir interpretar o discurso de um político.
- Possuir uma dose de assertividade suficiente para manter uma vida familiar, um posto de trabalho e alguma convivência social.
É certo que muitos alunos excelentes acabam por falhar ao longo da sua vida, em aspectos simples da vida, aonde alunos muito fracos obtêm excelentes resultados.
Isto é notório quando alguns seres humanos dedicam durante a sua juventude doze horas por dia a uma actividade (corresponde a 80% da sua existência se dormir) há sempre alguma coisa que fica para trás.
Quando um aluno não adquire as capacidades consideradas necessárias, a retenção é solução ou não?
Desvantagens: pode estigmatizar e desmotivar um aluno que por sua vez pode levar o seu estado de espírito a uma turma.
Raramente contribui para que o aluno melhore o seu percurso académico.
Vantagens: Com a escolaridade obrigatória de nove anos poderá ser preferível reter um aluno imaturo, evitando assim que ele entre nesse estado no mercado de trabalho, mas com a escolaridade de doze anos provavelmente já não ser verificará esta necessidade.
“Efeito chicote” está é a maior vantagem da retenção ao observar os colegas retidos os alunos estudam para que não lhes aconteça o mesmo, estamos aqui a falar de um chicote psicológico e não do chicote físico que foi a ferramenta mais importante na construção das grandes pirâmides.
A ausência de retenções pode ser interpretada pelos alunos mais malandros da seguinte forma: “Tanto faz trabalhar como não no final passo na mesma”
Concluindo, atendendo a que reter os alunos não é solução urge encontrar mecanismos que estimulem uma competição saudável, que obviamente será uma competição na positiva.
Termino com uma provocação que espero sirva de reflexão!
Era licenciado em filosofia
De pensar tinha a mania
Grandes meditações
Muitas ideias
Não parava de pensar
Em causas suas e alheias
Foi trabalhar para uma serração
E na primeira sessão
A meio de uma reflexão
Veio uma serra e cortou-lhe a mão.
Julho 11, 2008 at 3:26 pm
Muito bom texto, parabéns Paulo Guinote.
Eu acho que o paradoxo desta ministra da educação é fazer tudo como se faz nos colégios privados, como se faz nas escolas militares, como se faz na Casa Pia, ou seja fazer tudo em função de agradar aos pais, aos seus eleitores. E os professores e as escolas são meros instrumentos e funcionários ao serviço dos seus objectivos partidários. Por isso tem tantos apoios de associações de pais, e de comentadores, e empresários de direita, e da Igreja, e todos os sectores que pretendem entrar no negócio do ensino.
Julho 11, 2008 at 4:45 pm
Pena este texto não ter sido publicado, porque é acutilante e mais virado para o exterior. É pena!
Parabéns Paulo