Em primeiro lugar as minhas felicitações pelo seu blog…tenho sempre acompanhado e vou lendo os artigos nos blogs que alguns docentes como eu criaram. Quero dar os meus parabéns a todos os docentes que mais uma vez conseguiram chegar ao semi-final deste ano lectivo. Somos uns super heróis, meus caros colegas, tudo o que temos suportado, cumprindo com o nosso dever de modo pacífico e em silêncio merece parabéns.
HOJE foi para mim um dia muito especial. Não porque foi um dia bom, na realidade foi um dia claramente insane, como presentemente o de qualquer docente. Mas foi especial porque atingi o meu limite, o meu basta. Durante 7 anos como contratada passei por concursos remexidos, anulados, corrigidos, adiados, incoerentes, não esclarecidos e tudo o mais que possamos imaginar. Fui enxovalhada, agredida verbalmente vezes sem fim, “forçada” a deixar a minha terra, família, amigos(as), casa e tudo o mais que nos mantém a estabilidade nesta vida caótica. Fui o capacho dos alunos, dos pais, do ministério da (des)educação. Aturei os alunos mais mal-educados, indisciplinados, fui ameaçada tendo no entanto, que sair da sala e da escola com um grande sorriso para que o “verniz da podridão não saltasse cá para fora”. Tornei-me uma mascarada, uma hipócrita, uma farsante….tornei-me no oposto daquilo que tento ensinar a não ser aos meus alunos. Sofri a angústia das colocações cíclicas, atrasadas por norma, fazendo-me sentir um brinquedo neste sistema de colocações que nunca tem parâmetros definidos. Sofri com a incompreensão dos que me são próximos, porque não sentem na pele a angústia de um docente que vê o ensino a ruir e com isso um dos pilares do futuro do nosso país.Sofro com a revolta da falta de dignidade e de respeito por aqueles colegas que já se desgastaram por esta profissão e que agora também lhes foi imposto um sistema que lhes vai sugando a pouca saúde a que têm direito, para com direito também, gozarem as suas reformas. Saturei-me com a desinformação dos que me são conhecidos que todos os anos me fazem sistematicamente as mesmas perguntas:”Então onde é que vais ficar este ano?”"Já saiu o resultado dos concursos?”….” Agora a Ministra disse que vão ficar 3 anos na mesma escola não é?” Então agora que os alunos acabaram as aulas entras de férias não é?”Ai não?Ai e vocês fazem o quê na escola até Agosto?”e blá, blá, blaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa.
SOFRI, SOFRI E VOLTEI A SOFRER…..sofrer, calar e engolir tornaram-se as palavras mais usadas no meu dia-a-dia.Desculpem-me mas é um desabafo destes 7 anos de ensino, por isso, perdoem-me a ousadia, mas é só mais um pouquinho!!
Este ano fiquei colocada numa escola com 9 turmas, cerca de 200 alunos e tinha de apanhar mais de 3 transportes para cada lado. Demorava em média 2 horas para cada lado, ou seja, 4 horas por dia….os transportes nem falar….muito pontuais como devem saber, sim, tudo muito eficiente. Greves,avarias e atrasos eram uma constante, claro. MAS nem me atrever a chegar 5 minutos atrasada porque a FALTA, essa sim, era marcada com toda a eficácia. Mas no meio de tudo isto ainda tinha de ir com a maior das calmas e suportar a falta de regras e mau comportamento da grande maioria dos alunos. Das poucas forças que me restavam eram canalizadas para tentar remar contra esta maré do facilitismo e irresponsabilidade que se incute nos alunos. Ah quase me esquecia de mencionar as benditas reuniões, ora bem, nesses dias chegava a casa só para dormitar umas parcas horas, pois não havia tempo para descansar nem recuperar as forças… e muito mais poderia contar-vos, mas receio que ao fazê-lo, alguém me possa identificar e aí caíndo a minha máscara, também cairia a minha carreira no ensino.
Hoje comecei às 6 da manhã e cheguei a casa quase às 20 horas.
Mas como dizem as pessoas por aí: os professores já estão de férias não é?
Docente devidamente identificada
Julho 9, 2008 at 9:13 am
O que se pode dizer? Que demora a aprender? Ou que precisa de fazer uma coisa que goste verdadeiramente? Ninguém é obrigado a persistir no erro, acho..,
Julho 9, 2008 at 9:58 am
Carlos, o problema é quando se gosta do que se faz mas não temos condições para o fazer e ainda por cima não vemos reconhecido o esforço que fazemos.
Quanto ao testemunho da docente, passei por muitas das situações de que fala. Diferente no meu caso foram alunos que me ajudaram a suportar muitos dos outros dissabores. Faz muita diferença porque é para eles que nós trabalhamos, não é?
Julho 9, 2008 at 10:27 am
multipliquem este testemunho por uns milhares e podem concluir da motivação destes colegas…
Julho 9, 2008 at 10:39 am
Alguém consegue enviar para o Paulo o texto do Santana Castilho sobre a Tia Milu, que saiu hoje no Público?
Obrigado.
Julho 9, 2008 at 10:58 am
Então não é no Ensino Privado que os docentes são mal-tratados, explorados e vilipendiados ?
Porque será que não encontro diferenças entre isto que a docente conta, passado na “Escola Pública”, e o que é relatado por outros docentes sobre certos colégios particulares ?
Onde reside então a diferença ?
Resposta: na IDEOLOGIA de quem se queixa e/ou propõe soluções milagrosas.
Julho 9, 2008 at 11:58 am
Na realidade o panorama é negro q.b., no entanto, o Ministério da Educação prepara-se para o transformar num verdadeiro filme de terror, repleto de efeitos especiais e muito “sangue” à mistura. Se até agora poderia classificar estas mudanças como terror de série B, o ME prepara-se para dar um pulo “qualitativo”.
Vejam as propostas de alteração aos concursos 2009, que estão actualmente em negociação com os sindicatos. Coloco aqui alguns exemplos:
- extinção dos QZP´s e criação de Quadros de Agrupamento e de Escola não agrupada;
- criação de uma bolsa de recrutamento, onde serão inseridos alguns dos QE e QZP´s actuais;
- integração da avaliação do desempenho na graduação para efeitos de concurso.
Grave? Preocupante? Claro que sim.
Visitem os sítios da FENPROF ou da FNE.
Peço desculpa ao colega Guinote (não é meu hábito fazer isto), mas devido à relevância do tema, vou colocar aqui o link do meu blogue, para quem pretenda obter esclarecimentos adicionais: profslusos.blogspot.com/
Julho 9, 2008 at 12:03 pm
Como bateu fundo este testemunho… Comecei a leccionar há 10 anos, o início foi agradável, não muito longe de casa, burocracia menos “pesada” e alunos que queriam aprender e sabiam que, caso não se esforçassem mimimamente, isso teria repercussões…. Agora, no Algarve (sou do Norte), sinto-me totalmente desmotivada…O ambiente na escola não é bom, fazem-me sentir “a contratada que, coitada, vive longe”…Ainda por cima, a renda de casa de há uns meses a esta parte quase triplicou, dada a especulação que se faz sentir em tempo de férias…Caso cometa a excentricidade de ver a minha família 2 vezes por mês, adeus salário. Bem sei que ninguém me obriga a tal, mas a crença profunda de que melhores dias virão ainda me vai animando… não sei até quando!
Entrei para a universidade com média de 18 e terminei o curso com 17 valores, toda a gente me diz que o curso foi um “desperdício”, ainda não concordo com todas essas opiniões, mas já estive mais longe…
Julho 9, 2008 at 12:21 pm
http://mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/2008/07/os-aores-so-outro-pas.html
Julho 9, 2008 at 12:53 pm
nº1
Fico pasma. Fazer aquilo de que se gosta? Mas hoje em dia alguém gosta daquilo que se faz na escola?? É essa a resposta a dar à colega?? Está mal mude-se?? Sabem que no EFA tem que se contabilizar o nº de horas que se passa com cada aluno, dentro da turma e fazer uma grelha? E sabem que só se fica a saber disto no fim do ano?? Há pachorra? Uma porcaria duns cursos, em que se construiu a ideia de que já se passou de ano no momento da matrícula, em que diariamente é uma luta para fazer os meninos graúdos entenderem que têm QUE TRABALHAR?? Agora, a burocracia é sempre a aviar. Quanto menos conhecimentos, mais papelada. É a única maneira de se mostrar serviço. se está nas actas, planificações, grelhas e relatórios é porque é verdade!!!
Julho 9, 2008 at 2:21 pm
É por estas e por outras que sou contra o concurso nacional de professores.
Defendo contratações do âmbito de escola/concelhias/distritais, organizadas pelas escolas, nada de autarquias e ME no processo.
H5n1,
O testemunho visa politicas educativas impostas pelo ME e não pelas escolas.
Julho 9, 2008 at 2:22 pm
Mais, porque carga de água temos de mudar de escola todos os anos?
Julho 9, 2008 at 2:28 pm
????????
ocartel.blogspot.com/2008/07/anti-constitucional.html
Julho 9, 2008 at 2:29 pm
Desculpem o desabafo.O nosso dia-a-dia é rosários de queixas. Os nosssos blogues, muros de lamentações.Parece que isto faz parte do nosso fado de «Ser Português»: lá vamos vivendo, aliviando as nossas mágoas com uns desbafos.De vez em quando extravazamos fazendo festas muito bonitas, como foi a nossa manifestação dos 100000. Depois chegamos a entendimentos e tudo fica na mesma e ficamos «felizes» Ora bolas para nós. Afinal quando é que agimos?
Julho 9, 2008 at 2:49 pm
DA
desfaça a minha confusão, porque por vezes parece-me que era suposto reinar uma harmonia perfeita na Santíssima Trindade constituída pelo Ministério da Educação – Escola Pública – Docentes.
Quer-me parecer que muitos docentes andam perdidos entre a mitologia que lhes foi inculcada e a realidade dos dias de hoje.
Ainda mais quando aparecem os anjos sindicais a quererem restabelecer o paraíso perdido.
Julho 9, 2008 at 3:14 pm
Existem Escolas que durante este ano lectivo programaram visitas de estudo ao Sábado e Domingo, onde professores foram coagidos de forma subtil a executarem estas tarefas. Ao que chegamos!
Logo já nada me causa espanto.
Felizmente existem escolas, cujos líderes, fizeram passar despercebida toda esta convulsão, criando um clima de cooperação e solidariedade e desdramatizando toda esta situação.
A esses PCE’s (muitas vezes criticados) tenho que lhes prestar a devida homenagem.
Julho 9, 2008 at 4:32 pm
Concordo com O DA.
Os Concursos deviam ser a nível concelhio ou distrital. E só em Setembro, como eram antes, porque assim já há vagas para atribuir. Há coisas que nunca deviam mudar. Esta é uma delas. No meu caso pessoal fui contratado durante 8 anos. Corri algum país real. Hoje sou do quadro (QZP 1.º Ciclo) e tenho 20 anos de serviço.
Pensava que já tinha estabilidade. Uma ova!!!
Portanto, esta coisa da instabilidade não acontece só aos contratados.
No ano passado fui colocado a 125 km de casa. Gastava mais de metade do ordenado em viagens e estadia.
Também me perguntavam , no ano lectivo anterior (em que fiquei a 15 km de casa) se não era para três anos, devido à propaganda governamental. Este ano vai ser a perguntar se não é por 4 anos, após ter saído a notícia dos novos concursos nos telejornais.Quero dizer que, com 20 anos de serviço, nunca fiquei dois anos seguidos na mesma escola e cada vez me custa mais andar longe longe de casa. A velhice (quase 50 anos) já pesa. Mas, por este andar, estou a ver que nunca mais estabilizo. Não estou nada contente!! Claro que pertenço aos descontentes…
Julho 9, 2008 at 5:28 pm
Concurso a nível regional? Local? A nível de escola?! Mas vocês não se lembram como era antes do 25 de Abril? O que era preciso fazer para fazer com que o Reitor ou o Director olhasse para nós e nos desse a benção de em Outubro termos um lugarzinho de eventual? Mas está tudo bêbado ou quê? O que se lutou para acabar com os compadrios de escola e de concelho ?
Julho 9, 2008 at 5:31 pm
E quereem voltar ao mesmo???? (desculpem mas a irritação com que querem fazer voltar isto ao antigamente até fez que manadasse o comentário antes de o acabar,.Poder discricionário dos directores ou presidentes da tretanunca mais. Coitados de vós que sois novose de mim que sou velho. Vou pereder dinheiro mas vou-me embora e choro cada vez que imagino onde “isto” vai parar!
Julho 9, 2008 at 6:55 pm
Pois é. Não vão nessa de contratos feitos pela escola conforme os gostos do presidente. Sei que havia sempre horários na gaveta para os “amigos” e os outros ficavam de fora…
Julho 9, 2008 at 7:02 pm
Mas quem é que quer voltar ao mesmo? Só mesmo quem já tem o seu lugarzinho garantido está contente com estes actuais concursos. Ou quem já está quase na reforma e se está a borrifar para tudo isto.
Perceberam o que eu escrevi? Tenho 20 anos de serviço ( e sou do QZP- não sou contratado) e , nos concursos actuais, ou não sou colocado ou fico a mais de 100 km de casa.
Não tem nada a ver com colocações pelo director. Esses concursos a nível distrital eram feitos à mão e funcionavam.
Quando o concurso era a nível distrital sabia-se sempre as vagas que havia , o que não acontece agora. Ou seja, em Setembro vão aparecer vagas perto da minha residência que serão para outros que estão atrás de mim na lista. Claro que quem é efectivo ( ou lá como se chama isso agora – nunca soube esses nomes, porque estava mais preocupado em saber qual era a “terrinha” para onde iria dar aulas) não sabem de nada. Quando descobri que professores do 2.º Ciclo ficam efectivos numa escola , ao fim de dois anos de serviço, até me passei!!! Esta situação passa-lhes ao lado!
Julho 9, 2008 at 7:05 pm
Subscrevo o testemunho do João, pois tb eu só entrei para QE ao fim de 18 anos de concursos e cá em casa há quem vá para o 17ª, se não erro nas contas.
E passei por uma dezena ou mais de mini-concursos.
E eram tão transparentes quanto o nosso país permite.
Depois, passou a ser mais fácil justificar os “erros” como os computadores.
Julho 9, 2008 at 7:25 pm
Pois é… O computador, depois, justifica tudo. E se fosse à mão, sempre se podia reclamar ou chamar a atenção a quem tinha cometido o erro.
Julho 9, 2008 at 8:26 pm
João Duarte e Paulo Guinote,
De acordo convosco. Pelas razões que apresentam. E nos moldes que colocam a questão – sem computador e podendo-se reclamar e obter resposta.
As ilegalidades destes últimos concursos, desde que introduziram o computador, são inqualificáveis (!)
Julho 9, 2008 at 11:45 pm
O grande problema do 1.º ciclo deve-se ao facto de mais de metade dos seus professores pertencerem aos QZPs, tendo este nível de ensino muita instabilidade docente.
O 1.º ciclo tem 22.000 turmas, mas apenas 13.000 professores do QE. Os restantes 15000 são dos QZPs.
Uma EB1 com 250 alunos, 11 turmas, precisa de pelo menos 14 professores. Há que pô-los nos quadros.
Julho 10, 2008 at 9:20 am
Pois será… Mas o que é certo é que a propaganda governamental não fala especificamente no 1.º Ciclo e diz que todos os professores foram colocados por 3 anos. Por outro lado eu não quero ser do Quadro de um Agrupamento se esse Agrupamento ficar a 100 Km da minha residência. Isso não me interessa. É que o meu QZP tem 13 concelhos e muitos mais Agrupamentos. E os concelhos distam , nalguns casos , mais de 100 km uns dos outros.
Julho 10, 2008 at 12:05 pm
http://www.professoresramiromarques.blogspot.com/2008/07/destacamento-por-condies-especficas-um.html
Julho 10, 2008 at 1:19 pm
Li o que está no link enviado pela anahenriques. Enfim… é o salve-se quem puder.
Já me aconteceu no tal concurso maluco de há 3 ou quatro anos ( o tal do computador que não acertava- já agora, onde estão as conclusões e as punições exemplares? Que o Governo de Santana não o fizesse, ainda se admite, mas estes “modernaços”, os tais da legalidade acima de tudo, nunca quiseram saber disso? E a empresa Compta? Que é feito desse inquérito rigoroso?).
Pois , nesse famoso Concurso (?)fui parar a 85 Km de casa e alguns com Destacamento por Doença (falsa, claro) ficaram na minha área de residência. Tinha que me acontecer a mim… Com a sorte que tenho…
Mas , o que me admira mais nessa tal denúncia, publicado no blog de Ramiro Marques ,é que O ME considera o QZP como área de residência. Pois… Se for em Lisboa, tudo bem. Mas o meu QZP tem escolas a mais de 140 Km da minha residência. Bonita área de residência.
Julho 10, 2008 at 5:54 pm
…como me dizia uma pessoa há dias ( claro que é pró-PS e eu dei-lhe o devido desconto; no entanto, é a mentalidade de muitas pessoas ainda, que foi agravada pela maneira como o ME e PM e outros nos tratam) : “os professores vão dar umas aulitas e ganham imenso… ” porque para “dar ” as aulitas, o professor chega perante uma turma, tem uma inspiração divina e zás!!!… sai-lhe tudo da cabeça e os materiais , esses, aparecem por magia…depois acabam as “aulitas” e tudo também aparece feito por magia… Enquanto as mentalidades forem estas, bem podemos pregar… que só o deserto nos ouve…
Já nem falo as distâncias que cada vez mais os colegas t~em que percorrer, que isso é de dar em doidos, andar sempre na estrada…
Julho 11, 2008 at 12:35 pm
Vida de Professor (alguns apontamentos)
http://www.mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/2008/07/em-que-pas-estava-ministra-da-educao.html