Um dos traços mais marcantes da entrevista de MLR ao Expresso, para além do choque visual, passa pela forma como a entrevistada começa a responder a questões negando uma evidência, para acabar a confirmá-la.

Há vários exemplos, desde logo o que se refere ao papel dos exames, mas gostaria de isolar dois outros, por serem especialmente significativos.

Um surge na sequência da questão «Disse quem em Portugal se chumba muito, que sai caro ao país». A resposta é:

Nunca disse isso. Vejam que o Plano de Acção para a Matemática custa muito dinheiro, mas ninguém me ouve dizer se é caro ou barato. Devemos esperar o retorno desse investimento. O que aconteceu foi perguntarem-me o custo e eu ter respondido. Claro que a repetência nos sai cara. Permanentemente no sistema educativo temos 40% de repetentes. O sistema investe com eles o dobro ou triplo do que com os outros alunos.

Esqueçamos – ou não! – a manifesta falta de rigor da última afirmação. Um repetente só implicaria o dobro ou triplo dos custos de outro aluno se repetisse todos os anos uma ou duas vezes. Uma repetência ou duas num trajecto escolar de 12 anos significa um acréscimo de 8,5% ou 17%. O que é um bocadinho menos que 10% ou 200%. Mas isto são cálculos muito elaborados sem recurso ao P.A.M., pelo que se desculpa a imprecisão da Ministra, pessoa formada em Ciências Sociais.

Centremo-nos na questão se ter afirmado se era caro ou não.

E nesse particular, se MLR não tinha dito, passou a dizer.

Mesmo se nós lemos o que ela disse e sabemos, de igual modo, que se tinha o número mesmo ali à mão para o atirar, ele não apareceu por acaso.

A verdade é que MLR acha que a repetência é má, não necessariamente porque esteja errada, mas porque custa dinheiro. Não interessa se é necessária como estratégia ao serviço da consolidação de um percurso escolar. Não, não serve porque é cara. É como se um médico se recusasse a repetir um exame a um paciente, cujo diagnóstico é inconclusivo, apenas porque o novo exame sai caro. E lhe desse alta como se ele estivesse bom e pronto para ir à sua vida.

Outra incongruência surge mais adiante, na entrevista.

Quando lhe afirmam «disse que perdeu os professores mas ganhou o país…» declara que:

Dou um prémio a quem encontrar essa minha frase. Há diferentes interesses que devem ser ponderados, os dos professores, os dos alunos, os das famílias, das autarquias, os do país. O que a frase pode simbolizar no aspecto mais positivo é que há vários interesses que têm de ser ponderados. A política da educação não pode estar reduzida à condição dos professores.

Claro que nos lembramos desta frase, tanta vezes glosada, divulgada desde finais de 2006, salvo erro em Novembro, no contexto do fim das negociações em torno do Estatuto da Carreira Docente.

Mas mesmo que não tenha sido proferida exactamente desta forma ou com alguma vírgula pelo meio, o que acontece é que Maria de Lurdes Rodrigues, depois de recusar tê-la proferido, passa a explicar o seu significado, demonstrando até que ponto concorda com ela e teorizou a sua justificação.

Quanto a prémios, se quisesse algum das suas mãos, até poderia colocar por aqui algum link maroto para a contrariar, mas sinceramente prémios desses só os recebe quem quer.