Lá por fora, em especial no mundo anglo-saxónico, é muito habitual que jornalistas de carreira abracem certas causas políticas e apoiem abertamente determinados candidatos e políticos no activo, muitas vezes colaborando em campanhas e funcionando como biógrafo(a)s de personalidades tidas como notáveis. Na maior parte dos casos, não se trata de jornalistas no activo com cargos em órgãos directamente dependentes do poder político.

Entre nós essa prática é menos comum, tanto por escassez de personagens notáveis como pelos equívocos que se levantam, num meio tão pequeno, sobre eventuais promiscuidades político-jornalísticas.

Hoje pela manhã Eduarda Maio, subdirectora para a Informação (desde 2003) da estação pública Antena 1 apareceu na SIC-Notícias a apresentar a biografia que realizou para a Esfera dos Livros sobre o actual Primeiro-Ministro, José Sócrates, que critérios editoriais, de marketing ou outros, consideraram designar como «o menino de ouro do PS».

Confesso que não li ainda o livro e acho difícil que venha a lê-lo, tanto pelo desinteresse da matéria-prima, quanto pelo preço disparatado do volume atendendo ao aspecto anterior. Pelo que percebo é uma daquelas biografias «autorizadas» em que o visado colabora sem contrariedades de maior e mantém relações amistosas com a produção e autoria da dita.

Ora a mim, como ponto prévio, colocam-se-me algumas dúvidas sobre a conveniência da subdirectora para a Informação de uma estação radiofónica pública, para mais sem antecedentes em matéria de produção biográfica ou outra similar, fazer a biografia do Primeiro-Ministro em exercício, para mais uma biografia pacífica e razoavelmente panegírica.

Estarei a ser demasiado picuínhas?

Estarei a duvidar da lisura de processos e da ética profissional da jornalista envolvida, como certamente afirmarão so que acham tudo isto o mais normal possível?

Quer-me parecer que não. Quer-me apenas parecer que à mulher de César não basta…