… exactamente quando quer demonstrar que os preconceitos dos outros são traiçoeiros.

É o caso – lá vão achar outra vez que é embirração pessoal e nem é propriamente isso – de um dos sociólogos isctianos preferidos pelo Ministério da Educação.

Como devem calcular falo de João Sebastião e do seu trabalho de alguns anos a esta parte em torno da violência nas escolas portuguesas (violjsebastiao).

O problema não é tanto o conjunto de avisos que ele nos faz sobre os estereótipos normalmente associados à violência na Escola – porque esses são sempre úteis – mas o facto de ele próprio incorrer em distorções do olhar, de tanto querer recusar os preconceitos atribuídos aos outros e de querer relativizar o papel dos agressores, circunscrever os fenómenos qualificáveis como violência e demonstrar que não existe uma relação causal directa entre vulnerabilidade socio-económica e actos violentos.

Os três objectivos são estimáveis, mas a sua perseguição a todo o transe faz com que, por vezes, se incorra no erro simétrico ao que se denuncia.

Quando João Sebastião escreve que se deve proceder, como precaução prévia, à «rejeição da centração exclusiva da pesquisa no ponto de vista unilateral das vítimas, pela subjectividade que introduz na análise» (p. 99 do estudo acima citado) está-se, no plano teórico, a rejeitar aceitar como perspectiva dominante a da «vítima» mas, ao mesmo tempo, corre-se o risco de a esquecer.

E quando se escreve que se deve tomar em conta «a psicologia social do envolvimento na violência, que nos possibilite compreender que processos levam a que algumas crianças se transformem em agressores ou em vítimas» esquece-se algo fundamental: o agressor pratica normalmente um acto voluntário, enquanto a vítima não propriamente. E é esta equiparação entre agressor e vítima, como se estivessem num plano similar, que herda alguns preconceitos de certa sociologia muito engagée dos anos 60 e 70 e, nos seus preconceitos, mistura as coisas, quantas vezes ajudando a confundi-las e não a distingui-las.

Tudo isto vem a propósito da última produção de João Sebastião, Mariana Alves e Joana Campos, apresentada no VI Congresso Português de Sociologia (joao-sebastiao-violencia-e-agressividade), que decorreu esta semana, a qual termina da seguinte forma:

Este tipo de conclusão, desculpar-me-ão os autores, todos com qualificações académicas tão ou mais certificadas que as minhas, e certamente mais em Sociologia, alia a constatação do óbvio (o facto de um grupo de alunos «desenquadrados» poderem perturbar o funcionamento de uma escola) à teorização do indefinido (tudo é muito eventual, diverso e variado), passando pela demonstração do conceptualmente irrelevante (é óbvio que não são as escolas que são violentas, elas são apenas espaços onde pode ocorrer violência praticada por indivíduos).

O problema é que isto – baseado em dados oficiais e depurados (alguém acredita que em algumas das escolas identificadas só existam três episódios de injúrias ou de ameaças durante todo um ano?) – funciona como caução «científica» para os discursos ministeriais que visam (acertadamente) tranquilizar a sociedade, mas ao mesmo tempo escamotear realidades incómodas e que não se reduzem a fichas de comunicação do Gabinete de Segurança do ME.