O suave milagre (I)
Em “L’enfant”, de Marguerite Duras, uma criança (de 40 anos…) recusa-se a ir à escola porque na escola só lhe ensinam coisas que não sabe.
Alguém do ME dever ter visto o filme e, na sua cabeça, como na fértil cabeça do Professor Pardal, luziu uma lampadazinha: porque não fazer umas provas de aferição “simplex” e perguntar aos alunos só o que eles sabem? Imagino o alvoroço no Ministério. Um milagre estatístico, especialmente na Matemática, vinha a calhar em vésperas de eleições. “Mas que sabem os alunos do 6.º ou do 9.º ano?”, ter-se-á perguntado, subitamente inquieta, a ministra. Depressa se tranquilizou: que diabo, os alunos do 6.º haviam de saber a matéria do 4.º e os do 9.º a do 6.º… Era o ovo de Colombo. A prova de Matemática do 6.º ano incluiria matérias do 4.º (mesmo uma pergunta praticamente igual à prova do 4.º do ano passado), e a do 9.º matérias a que, segundo a SPN, até alunos da primária podiam responder. Foi, como se viu, um sucesso e a ministra já se autofelicitou por ele. E assim, de um ano para o outro, por suave milagre, os alunos portugueses passaram a ser génios matemáticos.
Junho 23, 2008
Deu Muito Nas Vistas – 4
Posted by Paulo Guinote under (In)Sucesso, Exames, Matemática, Provas de Aferição, Truques[26] Comments
Junho 23, 2008 at 10:59 pm
http://www.youtube.com/watch?v=IWj1dXouPJM
Lisbon Treaty…
Junho 23, 2008 at 11:07 pm
Este milagre ainda continua a acontecer, parece que hoje houve uma réplica.
Junho 23, 2008 at 11:12 pm
O que não encaixa neste milagre é depois a bolonhesa- como se poderá ter um aluno com uma licenciatura em 3 anos e um mestrado ou doutoramento em pouco mais do que isso? Cursos intensivos?
Junho 23, 2008 at 11:16 pm
Agora até me fez lembrar o milagre das rosas, nem sei porquê.
“-Que levais aí nessas estatísticas?
-Sucesso senhor, sucesso…”
Junho 23, 2008 at 11:17 pm
Fora do Tema,
Olhem o Humanismo destes com crianças de 7/9 anos:
“Os alunos do 2º e do 4º ano, cujo aproveitamento não corresponda às condições
mínimas para continuar a frequentar o Colégio Alemão, terão aulas de apoio em
Matemática, durante o 2º semestre, para que lhes seja facilitada a possível transição
para o ensino português.”
Pág.7
http://www.dsporto.de/portugues/agenda/downloads/Schulleiterbrief%20Juni%202008%20Portugues.pdf
Junho 23, 2008 at 11:23 pm
Não me perguntem porquê, mas o próximo ano lectivo vai ser muito engraçado.
Junho 23, 2008 at 11:27 pm
http://livresco.wordpress.com/2008/06/23/o-pais-do-faz-de-conta/
Junho 23, 2008 at 11:29 pm
O secretário de Estado da Educação, Jorge Pedreira, diz que as críticas de facilitismo aos exames nacionais são infundadas e feitas sempre pelas mesmas pessoas.
“São sempre as mesmas pessoas a dizer as mesmas coisas relativamente aos exames nacionais e está por demonstrar. As pessoas que dizem isto não conseguem demonstrá-lo é apenas uma impressão, não há nenhum rigor nestas opiniões”, acusa Jorge Pedreira.
O governante estranha que as críticas sejam feitas por académicos, que têm “obrigação” de ter mais rigor nos juízos que formulam.
“Se olharmos para a percentagem de alunos que têm as classificações máximas, não há nenhuma evolução no sentido do facilitismo”, argumenta Jorge Pedreira.
O secretário de Estado da Educação responde assim às críticas que hoje se ouviram, em particular sobre os exames de Matemática.
Nuno Crato, presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), classificou os exames como demasiado simples e elementares. Em declarações à Renascença, Crato mostrou-se preocupado com a mensagem errada que assim é transmitida aos estudantes.
O Gabinete de Avaliação Educacional (GAVE), que elabora os exames nacionais, desvaloriza as críticas da Sociedade Portuguesa de Matemática.
Pinto Ferreira, do GAVE, diz que a SPM foi chamada a avaliar o exame há alguns meses e deu um parecer positivo.
“A Sociedade Portuguesa de Matemática, entre outros, veio ao GAVE, analisou as provas, deu um parecer e o parecer não tem nada de negativo, o parecer é positivo”, afirma Pinto Ferreira.
http://www.rr.pt/InformacaoDetalhe.aspx?AreaId=11&SubAreaId=39&SubSubAreaId=79&ContentId=251589
Junho 23, 2008 at 11:30 pm
e por hoje chega…não há cabeça que aguente…
Junho 23, 2008 at 11:33 pm
“… os alunos portugueses passaram a ser génios matemáticos.”
Quais alunos? Só se forem os vossos.
Na minha escola a média não atingiu o nível 3 nem em português nem em matemática.
Nas vossas escolas a média é 4 ou 5?
A ministra pode dizer do grande sucesso, vocês podem falar do sucesso forçado mas os meus olhos passando as pautas daqueles 200 alunos não o encontram.
Junho 23, 2008 at 11:33 pm
Paulo…hoje ouvi uma sugestão fulminante para o teu blog…implementares um contador de quantos se encontram “ligados” ao blog online…
Junho 23, 2008 at 11:34 pm
Maria A (3)
O suave milagre vai continuar a multiplicar-se. É como a multiplicação dos peixes. Não se preocupe. Em breve, os doutorados mal saberão ler. Nessa altura, o ensino estará democratizado.
Junho 23, 2008 at 11:35 pm
para dar alento à malta…
Junho 23, 2008 at 11:38 pm
Pode-se fazer um exame fácil sem que haja uma grande percentagens de notas excelentes?
Pode, é a coisa mais fácil. Basta adicionar a um conjunto de itens que “quase” toda a gente faz um item (com uma cotação adequada) de grande complexidade. O Pedreira, com essa história da cotação máxima, pensa que os outros são estúpidos…
Junho 23, 2008 at 11:41 pm
sobre os exames e ministra, transcrevo parte da prosa (sempre acutilante) do José da Loja
“Já sabíamos da especial apetência desta ministra para a estatística benevolente. Parece que aprendeu os segredos alquímicos da coisa, nos cursos do ISCTE, com doutoramento sumativo.
O que espanta nisto tudo, é saber que Maria de Lurdes Rodrigues, terá sido professora do ensino primário, tirocinando curso de Magistério, no tempo em que este equivalia a uma boa licenciatura de Politécnico, com doutoramento summa cum laude e, mesmo assim, ter do ensino básico e secundário, uma ideia tão estatística que aflige.
Por outro lado, sem espanto, verificamos o desprezo, perante opiniões que não provenham do viveiro da verdade oficial, do director do GAVE ou de outros alfobres.
Ainda assim, a olímpica superioridade de um convencimento de que o ensino está a melhorar a olhos vistos, só por um embotado autismo se compreende.
Neste caso, temos uma opinião de ministra. Científica e baseada em critérios estatísticos, sem ponta de empirismo. Pecha que, aliás, atira àqueles, como lama de incompetência para maledicentes profissionais.
Nesta pequena entrevista, o que choca não é apenas a figura em si. É a verdadeira figuração que se adivinha e que é tomada a sério, com todo o peso de um Estado que se desacredita a olhos vistos.
Não me lembro de nenhum ministro da Educação tão medíocre e tão perigoso.”
Junho 23, 2008 at 11:47 pm
Pegando no que a Setora disse,
Isso é bom sinal. É sinal que os professores não cedem ao “sucesso fácil”. Enquanto isso acontecer a honestidade está garantida. Seria perfeitamente desonesto, por exemplo, que um aluno que nunca fez nada o ano todo e só teve negativas, passasse só porque teve satisfaz nas provas de aferição. Todavia o que que interessa são as estatísticas das provas, e essas são o que são.
Penso eu…, de que.
Junho 23, 2008 at 11:49 pm
Ou essas médias são mesmo das provas? Ai que agora baralhei-me… (Deve ser do cansaço, já vai longo o dia…)
Junho 23, 2008 at 11:57 pm
(12)
Tem a certeza do milagre da multiplicação dos peixes?
Ou será da multiplicação dos pâes que, aliás, deu origem à anedota do :”Hoje não é preciso EU fazer o milagre da mulpiplicação dos pães. Hoje trouxemos sandes!”
Junho 24, 2008 at 12:05 am
E desde já aviso que não me apetece emendar o “mulpiplicação”. Quem escreveu isto não é penalizado por eventuais erros não impeditivos da comunicação.
OK?
Junho 24, 2008 at 12:09 am
Fernanda 1,
A multiplicação foi de pães e peixes. Havia apenas 5 pães e 2 peixes para uma multidão de 5 mil pessoas, dizem (cf. Mateus 14:17).
Prefiro a multiplicação dos peixes, ao preço que o produto está, é mais em conta e está também mais próxima da realidade matemática em Portugal.
Junho 24, 2008 at 12:14 am
Ao preço que estão os bens alimentares básicos, não há margem para milagres alimentares. Os milagres multiplicam-se no papel e em números estatísticos “para português ver”! (Que há patranhas que os ingleses já não engolem)
Junho 24, 2008 at 12:32 am
JCM,
Tem toda a razão.
http://br.youtube.com/watch?v=Cpy9CMl4kYU
Junho 24, 2008 at 12:51 am
Ó Margarida (16) refiro-me a média nas provas de aferição, nessas tããão fááááceis!
Aferimos, pronto.
A estatística é o que é. Na minha escola dá assim. Sucesso nem por encomenda.
Junho 24, 2008 at 8:40 am
Se na criação de animais se usam antibióticos e outros produtos artificiais para acelerar o crescimento;
Se os desportistas recorrem a transfusões de sangue e a drogas para melhorarem o desempenho;
Se homens e mulheres realizam implantes e operações estéticas para vingarem no mercado sexual;
Não vejo mal nenhum em falsificar resultados escolares para poder beneficiar os alunos e fazer subir a auto-estima dos portugueses.
Penso que estes exames são mais uma corajosa medida de esquerda, um passo na defesa da Escola Pública inclusiva e na promoção do igualitarismo entre estudantes, uma vez que se acaba de vez com a meritocracia burguesa que teima em premiar e distinguir os melhores.
Viva a esquerda!
Viva a Maria de Lurdes Rodrigues!
Abaixo a castração dos exames e das avaliações de mérito!
Todos iguais, todos burros com diplomas como o nosso querido líder!
Junho 24, 2008 at 2:18 pm
Acham que ainda iremos ver a biografia do querido líder em filme, série ou ópera bufa?
Junho 25, 2008 at 10:29 am
Bem apanhado!
Não acham que anda a gozar (mesmo) e há muito tempo com a vida dos nossos alunos, dos professores, dos pais e portugas em geral…(?)
http://ferrao.org/2008/06/nuno-crato-versus-maria-de-lurdes.html