Eu estou-me nas tintas para coisas como «O Dia da Raça», tenha a expressão sido um equívoco, um lapsus linguae ou outra coisa pior.

Agora já me aflige que um político eleito democraticamente como Presidente de uma espécie de República diga ali à frente de todos nós que o tratado europeu é demasiado importante para ser referendado pelos povos europeus.

No entendimento de Cavaco Silva, “o Tratado de Lisboa é demasiado importante para a Europa e para os seus cidadãos para que possa ser colocado na gaveta”.
(…)
Uma vez mais, o Presidente mostrou-se pouco partidário de referendos sobre tratados internacionais. “Um erro”, considera.
“Os tratados internacionais nunca deveriam ser objecto de referendo e tivemos agora a prova disso”, afirmou Cavaco.
O Presidente da República evocou mesmo o chumbo, em 1992, na Dinamarca, do Tratado de Maastricht. Cavaco Silva assumia então, enquanto primeiro-ministro de Portugal, a presidência do Conselho Europeu.
“Coube-me fazer a coordenação da resposta a dar perante o não da Dinamarca”, lembrou. “Logo que conheci os resultados, falei com os chefes de Estado e dos governos da Europa, com o primeiro-ministro dinamarquês e disse que o Governo dinamarquês era responsável por encontrar uma solução para ultrapassar a dificuldade que acabava de ser criada”. Em seguida, prosseguiu Cavaco Silva, o ministro português dos Negócios Estrangeiros foi incumbido de se reunir com todos os homólogos. Todos reiteraram que o Tratado de Maastricht, instrumento fundador do euro, seria levado a bom porto.
“Reuniu-se o Conselho Europeu passado poucos dias e reafirmou-se a determinação e a vontade dos Estados-membros de não voltar atrás e seguir em frente”, disse Cavaco. “Passado pouco tempo, a Dinamarca fez um novo referendo e foi aprovado. A Europa continuou o seu caminho e o Tratado entrou em vigor na data prevista”.

Este tipo de declarações e as condutas preconizadas são exactamente a razão porque a maioria dos cidadãos europeus, na maioria dos 27 países votaria Não ao Tratado Europeu: porque é um documento cozinhado na secretaria, por gente que se considera detentora de uma espécie de visão incompreensível pelo vulgo; porque ninguém está verdadeiramente interessado em explicá-lo ás populações; porque são poucos os que acham interessante que o mesmo seja legitimado directamente pelos detentores da soberania num regime democrático parlamentar moderno; porque caso a votação não agrade há sempre um truque na manga.

Só falta agora traçar-se uma linha para decidir o que é importante demais para ser objecto de expressão popular nas urnas e o que é corriqueiro e passível de consulta eleitoral ou referendária. Pelos vistos eleger um Presidente ou um Parlamento é aceitável. Referendar tratados nem por isso.

É o triunfo do argumento da Razão de Estado sobre a vontade dos indivíduos. Do interesse colectivo definido pela superestrutura política sobre a opinião individual dos cidadãos, ela própria formando um colectivo plural.

Mais do que Real Politik isto é No Politik.

E não adianta usarem a táctica canhestra de dizerem que só neoliberais (Sarkozy não é neoliberal e favorável ao Sim?), comunistas e neonazis estão alegres com o Não. Isso é apenas uma imenso desrespeito pelo funcionamento da Democracia. Em especial porque na Irlanda o único partido parlamentar que defendeu o Não foi o Sinn Fein. A menos que na coligação anti-Tratado também se incluam os «terroristas». E digam que há armas de destruição maciça alojadas nas casas dos activistas pró-Não que preparam o derrube da Torre Eiffel, da Torre de Londres e da Torre de Pisa.