Não sou, de forma assumida, um grevista militante em termos tradicionais. Sou o que alguns poderão mesmo considerar um «contestatário de sofá» (se bem que dê um bocado de trabalho trazer o sofá para defronte do computador).
Por isso não fico logo todo entusiasmado ao primeiro berro de «Abaixo o Governo!» ou super-solidário com qualquer contestação que apareça ao virar da esquina. Detesto que me obriguem a fazer greve, como já fizeram no passado. Mas também não gosto que tentem retirar a quem a quer fazer e sensibilizar os colegas o direito a fazê-lo.
E não sei se desgosto mais dos excessos de quem quer fazer valer o seu ponto de vista à força do que dos daqueles que querem à força reprimir todos os excessos.
Nos últimos 20 anos, com a cobertura de subsídios da CEE/CE/UE fomos todos levados a acreditar que íamos ser «modernos», à excepção do Manuel Carrilho e do Sousa Santos que há muito sabem ser «pós-modernos».
O preço a pagar por algumas facilidades na vidinha foi o adormecimento geral da sociedade. Houve ali uns lampejos de mau feitio por 93-94 quando o cavaquismo se desagregava, mas de lá para aqui tudo amainou. Levámos com o pântano guterrista e aguentámos. Levámos com o cherne da tanga e aguentámos, enquanto ele não foi para prados mais verdes. Levámos com o Santana e até achámos graça, por estranho que pareça. Fomos ficando abúlicos, apáticos, dormentes.
A sociedade foi-se tornando asséptica e não falo só da questão do tabaco ou da faina da ASAE. Em termos políticos passou a a imperar o politicamente correcto. Até as extremas são politicamente correctas: do lado direito toda a gente fala em «responsabilidade» e «ordem» e do lado esquerdo todos se encrespam se alguém fala de «raça» ou diz algo mais humanamente sexista ou misógino.
Mas após um par de anos de um Sócrates estrídulo e irritadiço finalmente parece que uns quantos acordaram, começaram a abrir os olhos e, sacrilégio, a mexer-se.
Contra isso o «sistema» procura recompor-se e clama pelo regresso à «ordem», quando a desordem ainda é uma nebulosa vaga.
A Rua parece levantar-se como um fantasma para alguns.
Há que reagir, há que mostrar que existe um estado de Direito moderno, cosmopolita, europeu. Não queremos protestos independentes, desenquadrados, livres…
Há coisa de meia hora no Rádio Clube Português ouvi, em absoluto estado de incredulidade, um outrora irreverente Camilo Lourenço a clamar, com a compreensão de João Adelino Faria, por medidas contra os malandros dos camionistas que incluíssem:
- Criminalização «pesada» dos actos cometidos.
- Inspecções sistemáticas á contabilidade das empresas de camionagem.
Nem vou aqui medir os méritos do movimentos que nestes dias começou a perturbar o país ou se essas medidas teriam algum sentido (mas afinal o Fisco ainda não faz o seu trabalho? nem as polícias?), mas vou concentrar-me nesta metodologia do «pau neles» que Camilo Lourenço parece postular contra quem perturba a «ordem» asséptica de quem ele, bem instalado no seu sofá analítico, quer manter em conjunto com a «estabildiade das contas públicas», a nova Vaca Sagrada da vida política, arrancada dos tempos áureos da cotabilidade da mercearia salazarista (e não é que isto anda tudo ligado? desejo de ordem- equilíbrio das contas públicas-domesticação dos contestatários?)
Para Camilo Loureço, alguns pseudo-blasfemos e atlânticos engomadinhos a técnica deve ser – parece que já se esqueceram quando clamavam contra estas coisas há uns anos atrás – a da intimidação com base nos aparelhos do Estado.
É curioso como os liberais prescindem logo da defesa do Liberalismo, da Liberalidade e da Liberdade em geral quando algo lhes parece afectar os calos. E apelam ao Estado para disciplinar e trazer Ordem.
Liberalismo e Liberdade, sim, mas com maneiras. Estado, pouco mas sempre que lhes dá jeito.
Há contestação nas ruas? Mande-se-lhes o Fisco a casa e as Polícias que cacem os malandros nas ruas. E, de caminho, que tal a ameça de uns processos em Tribunal?
E isto é complicado porque, aberta a porta da réplica intimidatória o que se segue?
- Ah!… Vocês protestam por causa do Centro de Saúde fechado e cortaram a estrada? Façam lá o favor de identificar, darem o nome e um dia recebes uma cartinha da DGCI que é para ver se descontaste fraldas e o puto já tem 3 anos.
- E tu, gostas de escrever prosas a protestar por que te apetece? Julgas que podes sem levar com um par de processos em Tribunal para te calares? E que tal se um dia te aparecermos na Escola para ver se dás mesmo aulas?
Porque uma coisa é defender o Estado de Direito, outra usar o Estado para impor à força o que alguns acham que é o seu Direito.
Porque a Rua, com uns quantos descamisados por lá em piquetes parece que ainda despertam medos enraízados em algumas mentalidades frágeis e cada vez mais dependentes do sanitarismo político.
Se fosse para efeitos políticos, certamente gostariam de ter uma ASAE, com treino da Mossad, ao seu dispor.

Junho 12, 2008 at 9:53 am
Há praí uma letras fora de sítio – é preciso rever os lapsos ao digitar – mas concordo genericamente.
Junho 12, 2008 at 10:42 am
Ainda as instituições de participação cívica dentro do quadro geral de liberdades pós-25 de Abril estão em estado incipiente, e já os mais mais bem instalados clamam contra excessos. Que a “sociedade civil” não se enquadre hoje na hierarquia de valores assépticos, desligados das necessidades comezinhas do dia a dia de qualquer um, eis um sinal de vitalidade da sociedade. Que as manifestações de força crescerão à medida que essas necessidades forem sendo atacadas é certamente um pesadelo para quem já se sente confortável. Bad luck.
Quanto à camionagem, já era tempo de revigorar o transporte ferroviário (não o TGV, mas a rede principal). Dar-lhe capilaridade suficiente. Há muito desperdício de gasolina. Bem sei que é uma fonte de receitas importante no orçamento do Estado, porém, alguém tem de pagar. Vá-se lá adivinhar quem?
Junho 12, 2008 at 10:53 am
GH, Toda a razão, já comecei a catar a gralha malvada.
António,
É interessante ver como existe algum efeito de contágio nestas coisas.
Porque há quem, de súbito, tenha despertado depois de estar desanimado.
Falo em parte, e inclusivamente, por mim.
Junho 12, 2008 at 11:55 am
Caro Paulo,
Pau nos liberais também não, coitados, que por cá já são sujeitos a tanta porrada discricionária…. Seria uma receita parecida à que o Camilo parece defender para os camionistas…
Eu não estranho que os liberais se indignem com a passividade do estado perante operações stop dirigidas por piquetes e bloqueios gerais comandados por populares. Mexem com a minha liberdade de ir à praia no fim de semana e para um liberal isso é grave. Se há coisa em que os liberais defendem um estado forte é precisamente na justiça e segurança, porque delas dependem a liberdade. Defesa por conveniência? Claro, o estado é um instrumento de conveniência, é um instrumento estruturante, criado para servir as pessoas e não para se alimentar a si próprio… O problema dos liberais (sociais e/ou económicos) com o estado é quando este invade o espaço do indivíduo, quando entra em fúrias ultra-regulatórias, quando entra em incontinência legislativa, quando cobra imposto para alimentar a máquina (e não para redistribuir riqueza), quando mete o pé nas opões privadas de cada um (aborto), quando assume uma atitude paternalista perante os cidadãos.
Nada disto é incompatível com os pré-requisitos de justiça e segurança. Pelo contrário. Os liberais partilham pelo menos uma coisa com os comunas: o horror à anarquia popular (por razões diferentes, é certo).
Junho 12, 2008 at 2:02 pm
Se há coisa que aprecio em Manyfaces é a naturalidade com que defende os seus pontos de vista, mesmo tendo consciência da dificuldade da causa que abraçou.
Como sempre, realçamos o que mais interessa. Com linguagem colorida para apelar à compreensão geral. Manyfaces tem qualidades para outro ofício que não o de manager de um grande empresa internacional. Mas també tem consciência que nesse outro mundo what comes easy, goes easy
Falemos de regulação do estado. Ultimamente falhou de uma forma retumbante em Portugal. Em vez de a GALP estar a pagar multas dissuasoras (teriam que ser de algumas dezenas de milhões de euros) por abuso de posição dominante, está felicíssima da Costa – assim como os liberais – pois teve um desemnpenho irreprimível (de acordo com o regulador).
Mas há outro exemplo eventualmente mais próximo do campo de Manyfaces: as duas concepções de rede de banda larga
http://www.spiegel.de/international/business/0,1518,558759,00.html
Também aqui o regulador tem uma palavra a dizer, e dela depende em grande medida o desenvolvimento das futuras redes.
Toda a questão do estado é uma questão social. Quem quiser preservar o seu individualismo no estado de máxima pureza, pode tentar uma vida semelhante à de Robinson Crusué.
Junho 12, 2008 at 5:31 pm
Caro António,
A profissão de gestor é colorida, por isso a linguagem tende a ser colorida. Quanto a ter qualidades para outro ofício, já não vou a tempo. A política bebe-se no berço e por essa altura andava eu ocupado com… a nobre arte da engenharia.
Quanto ao resto:
Não é a Galp que está abusar de posição dominante. Seria até estranho que o estado a penalizasse por isso. Porque neste caso é o próprio estado que abusa da sua posição dominante (de legislador em causa própria), ao manter as condições para um quasi-monopólio do mercado, protegendo os seus investimentos na Galp, agradando aos seus parceiros no negócio e… continuando a espremer a vaca do imposto sobre os combustíveis, cavalgando alegremente a subida de preços. A posição dominante é por isso da sua inteira conveniência e só não acaba com ela porque não quer (o parecer da autoridade para a concorrência foi só brincadeira para entreter).
Eu na discussão da neutralidade da rede sou até bastante “neutral”, sendo certo que neste caso, como em tudo na vida, alguém tem de se chegar à frente com os Euros para investir na rede… Quanto ao Birgersson, parece que ele ficou milionário aos 26, por isso otário ele não é de certeza. Sabe tão bem como eu que ninguém vai investir numa rede sem perspectiva de Retorno. Ele arranjou maneira de ganhar dinheiro a gerir as redes dos municípios sem ter investido nelas (não é parvo não senhor)… Mas no fim da linha alguém tem de adiantar uns trocos para investir na rede. No caso das redes geridas pelo Birgersson foram os contribuintes nórdicos que avançaram com a verba (benditos e ricos contribuintes)…). No caso português ou Americano, who knows? Com o talento que a PT tem ainda convence o estado que deve chegar-se à frente a bem do “Futuro da Internet”. Afinal, foram eles que compraram a rede fixa ao estado, quando deu jeito para equilibrar o deficit… Agora podem dizer que não lhes sobrou dinheiro para mais brincadeiras a menos que lhes sejam dadas garantias que o regulador não vem depois brincar ao “unbundling” com o dinheiro dos outros…
É que o estado (Português) tem sempre esta tendência para achar que na hora de criar riqueza o ónus está do lado das empresas (está certo), mas na hora de a distribuir nada como dispor da riqueza dos outros (a de cada um de nós) para implementar todos os igualitarismos que lhe passem pela cabeça.
Junho 12, 2008 at 7:04 pm
Esse senhor camelo Lourenço há uns anos numa entrevista elogiou Goobels, dizendo que o mesmo era um mestre da prpoganda e que os empresários deviam aprender com os ensinamentos do mesmo..individuos desses vendem o filho ou a mulher se for para bem do mercado…todavia quando a coisa corre mal gritam: estado ajuda-me please…para estas pessoas estas imagens são vistas com alegria enquanto saboreiam uma lagosta e se agarram a belas alternadeiras..
Junho 12, 2008 at 7:49 pm
Tem muita razão Paulo Guinote, infelizmente os nossos liberais de trazer por casa, só são liberais quando lhes dá jeito…!
É esta aquela gente que vive, viveu e tudo fará para continuar a viver à sombra do Pai Estado.
Há quem chame a esta gente, o bloco central de interesses eu, pessoalmente denomino de nomenklatura e coloco o k porque acredito piamente que do seu bafo sai um cheiro nauseabundo muito parecido com o das cúpulas dos partidos comunistas que dominaram os países membros do antigo Pacto de Varsóvia.
Esta gente é liberal desde que sejam os outros a ficarem a descoberto, esta gente defende o mercado desde que eles continuem numa situação de monopólio, jurando a pés juntos que é o melhor para o país uma vez que se defendem sectores estratégicos
Esta gente já não acha muita piada se o povão, que os alimenta todos os dias com o seu trabalho, decide adoptar o modelo liberal e demonstrar de forma liberal o seu descontentamento ou até criar um blog que apresente demasiado sucesso.
Esta gente está habituada a uma sociedade completamente amordaçada através da “subsidiação” de todo o tipo de organizações “emanadas” da sociedade civil, desta forma compreende mal como podem aparecer cidadãos a organizar movimentos sem terem como objectivo obter este ou aquele “tachito” para se amansarem. Por isso consideram que a “blogagem” é algo muito próximo do inferno e as manifestações convocadas por SMS algo muito próximo de libertinagem e se alguém se atreve a organizar algo que ponha em cheque a nomenklatura, saltam todos a defender o pai Estado de forma a continuarem a acumular riqueza através do empobrecimento do povão.
Reparou como no PSD apareceram do nada todos aqueles que se alimentaram de forma directa ou indirecta do Estado quando lhes cheirou a carne a apodrecer (partido socialista)?
Já estão todos em bicos de pés a bajular a grande líder – Manuela Ferreira Leite
É a vida, como diz António Guterres…
Junho 12, 2008 at 7:52 pm
A propósito de Camilo Lourenço, este jornalista no tempo de Durão Barroso defendia o mercado, a sociedade livre, a liberalização de todos os sectores da sociedade, a descida de impostos; hoje defende o Estado e as suas receitas. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades? Não! Muda quem está no poder, mudam as suas prioridades, simples…
Claro, é apenas a minha opinião
Junho 12, 2008 at 8:22 pm
Caro Manyfaces
(Pedindo desculpa aos restantes comentadores pela utilização deste espaço dedicado à Educação para aflorar outros temas)
Na Suécia a transmissão é uma função do Estado: já assim era no tempo das micro-ondas, assim continua sendo no tempo da fibra optica. Ninguém vai lá pedir autorização para conspurcar a paisagem com mais uma torre de VHF/UHF/SHF ao lado de outra, assim como não vai pedir para escavacar passeios. Os operadores usam os acesso criados e, se precisarem de ampliar a sua rede de cobertura, comunicam a sua pretensão a uma entidade do Estado de que não conheço o nome, e esperam pela autorização de utilização de infra-estruturas existentes ou criadas na ocasião para o efeito.
Nada mais natural que os operadores partilharem os recursos colocados à sua disposição: nem o negócio é lá possível de outra maneira. Porém, nos EUA, os grandes trusts das telecomunicações (VERIZON) aguardam regulação protectora do direito de construção e utilização exclusica (closed networks). É neste ponto que as concepções se chocam. O regulador americano está renitente em conceder a autorização que a Verizon e outros pretendem e, de momento, agrada-lhe bastante a abordagem bem social e pouco liberal das open networks da Suécia. O que constituiria um enorme satisfação para os consumidores. Esmagamento da iniciativa privada?
PG – O Umbigo é um ponto de encontro que começa a alargar-se para outros temas. Se isto é uma abuso, basta uma palavra.
Junho 13, 2008 at 12:56 am
Caro António,
Não é abuso concerteza. O tema toca a todos os que paguem o acesso à net.
Agradeço a informação sobre a Suécia.
Logo veremos qual o modelo de financiamento que irá prevalecer. O certo é que em Portugal dificilmente alguém gastará um Euro enquanto o regulador não disser quais serão as regras do jogo para as novas redes.
Junho 13, 2008 at 1:43 am
É verdade que estivemos todos mais ou menos adormecidos.Mas também temos que concordar que agora se está a ir longe demais. Pequenos exemplos mostram isso. Vejamos a lei do tabaco: como se pode aceitar,que para fazer cumprir a lei, seja o cidadão a denunciar outro cidadão que se não o fizer pode ser denunciado por um terceiro… Isto para mim,é um princípio absolutamente pidesco. Como é possível que se tenha votado uma lei destas e os cidadãos a tenham aceite sem a minima contestação? Como não os assusta a criação de um precedente desta natureza.
A Europa está a importar os piores valores da América conservadora e nós a abdicar de valores que eram matriz da cultura europeia. Não gosto desta a Europa.
Não tem nada a ver, mas já repararam que começaram no Chile as manifestações contra as reformas do sistema educativo…a ministra não deve ter ficado muito feliz com a notícia.
Junho 13, 2008 at 5:37 pm
e o PM diz que aprendeu a lição e está a pensar como resolver situações futuras… ( não sei as palavras ipsis verbis!) e eu até tenho medo de imaginar o que ele vai imaginar…
Bom fim de semana.