Já usei esta citação aqui no blogue há uns meses, mas hoje começou a ficar mesmo calor e estou preguiçoso pelo que apenas lhe acrescento a interrogação.

Refiro-me à mítica «sociedade civil» cuja apatia tantos criticam, quase tantos quantos criticam a dita sociedade quando ela se agita e move de forma imprevisível.

Se no caso dos professores já se notara que as formas habituais de mobilização, com base nas estruturas organizacionais tradicionais, estão a cair em desuso para não dizer que estão obsoletas, no caso dos camionistas essa sensação começa a confirmar-se pois os protestos e as acções de luta voltaram a escapar, desta vez de forma quase total, ao enquadramento da estrutura tida como representativa dos agentes do protesto.

Claro que perante a imprevisibilidade de movimentos espontâneos deste tipo, mas com uma capacidade de funcionamento em rede que começa a mostrar-se interessante e eficaz, e a dificuldade dos poderes instalados para lidarem com esta nova situação, não era difícil adivinhar que ANTRAM e Governo chegassem a um acordo, um pouco como os sindicatos de docentes e o Me chegaram a um entendimento.

Este tipo de solução apressada e pressionada pelos acontecimentos que se sentem fugir aos espartilhos tradicionais tem uma parte boa, porque soluciona um problema imediato, mas uma outra perversa, pois tenta reconduzir os protestos à sua moldura institucional tradicional.

Porque os representantes querem recuperar o lugar que os representados parecem não lhes reconhecer, enquanto o poder precisa de alguém para se sentar ordeiramente á mesa das negociações institucionais.

De qualquer modo ficam os sinais que já dificilmente podem ser confundidos: as formas de protesto da «sociedade civil» começam a libertar-se dos figurinos previsíveis do passado e começam a ganhar contornos que incomodam os poderes. Há 15 anos tivemos o buzinão, mas mesmo esse teve em seu redor ainda o apoio de máquinas político-partidárias que enquadraram parcialmente o protesto. Basta lembrarmo-nos do PS de então a desfilar pelo garrafão da ponte 25 de Abril.

Agora, mesmo que com algumas infiltrações, os movimentos de protesto começam a funcionar por si mesmos, em rede, de uma forma cooperativa e não hierarquizada.

Pessoalmente, gosto.