Quando ontem li num comentário que Desidério Murcho teria atacado os professores numa sua crónica, estranhei, mas como não tinha acesso ao texto, não opinei. Entretanto, a Paula e o Rolando fizeram chegar-me as versões em imagem e texto da prosa em causa e percebo que DM realmente ataca, e nem sequer de forma muito directa, alguns professores, mas numa perspectiva que partilho, ou seja, a de que um professor deve ter uma sólida formação académica na área que ensina e que a partilha do saber deve ser uma exigência do ofício.
Acho o mesmo, tendo em algumas ocasiões sido mal visto por colegas que se acomodaram aos livrinhos com que fizeram o curso há 20 ou 30 anos e compraram a história do Mattoso para colocar na estante e assim achando que renovaram o seu saber de acordo com os tempos. Por isso não posso dizer que discordo substancialmente do que a seguir transcrevo, excepto na parte que atribui a exclusiva responsabilidade da excelência no ensino aos docentes; afinal os alunos precisam de fazer alguma coisinha, certo?
Ensinar é difícil. Exige virtudes que poucos seres humanos têm: paciência, humildade, curiosidade científica, sensibilidade pedagógica e didáctica, gosto em dar a saber a quem sabe menos, gosto pelo contacto humano com os estudantes. Acresce que não há métodos automáticos que garantam a excelência do ensino, tal como não há métodos automáticos que garantam a excelência da investigação. Exige-se perspicácia, maturidade, inteligência, criatividade, vistas largas.
A excelência do ensino depende exclusivamente dos professores. Algumas medidas do governo central podem potenciar ou estimular a excelência educativa, mas não podem criá-la por decreto. De modo que toda a intervenção do ensino que vise a excelência educativa tem de ser sobretudo um estímulo aos professores para fazer melhor.
E os professores não podem fazer melhor se não estudarem, pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores. A mentalidade portuguesa não facilita as coisas. Mal se tenta corrigir um colega, isso é encarado como arrogância, e não como um gesto de partilha. Mal se procura divulgar bibliografias adequadas, isso é encarado como tentativa de imposição ideológica de uns autores em detrimento de outros. Com esta mentalidade, é difícil criar ensino de qualidade.
Ao longo dos anos, e sobretudo ultimamente, o papel do Ministério da Educação tem sido largamente guiado pelo único tipo de coisa que os políticos e os burocratas conhecem: a realidade virtual. Não importa se os estudantes realmente aprendem, desde que se finja que aprendem e desde que não sejam reprovados. Também não interessa se os professores realmente ensinam, desde que preencham grelhas e formulários infinitos, para dar a impressão de que estão a trabalhar.
É que para a mentalidade burocrática e política, segundo a qual a realidade só tem densidade se estiver organizada num formulário, passar duas horas a ler um livro deve ser o cúmulo do desperdício de tempo dos professores. No entanto, para se dar uma revolução no nosso ensino bastaria que os nossos professores estudassem diariamente, durante duas horas, livros cientificamente sólidos sobre a sua área de actuação.
Um bom professor, seja de que matéria for, tem de dominar até à letra H se leccionar até à letra D. Não pode dar-se o caso de andar a leccionar até à letra H dominando apenas as matérias até à letra D. Mas não se deve encarar como escandaloso que um professor não tenha os conhecimentos que devia ter. Afinal, o mundo não é perfeito e as universidades que os formaram também não. O que importa é partir dessa realidade e fazer algo que seja construtivo.
E o que há de construtivo a fazer é, cooperando, criar estruturas que permitam que quem sabe mais e conhece melhor as bibliografias relevantes possa partilhar os seus conhecimentos com os colegas. Enquanto na escola não houver uma atitude de genuína partilha de conhecimentos, o ensino será só a fingir.

Junho 11, 2008 at 9:24 am
Concordo plenamente, os professores têm de ter tempo para estudarem sempre, para visitarem feiras do livro, museus, exposições, para lerem e verem cinema…
Quanto mais experiências ricas tiver o professor melhor é para o ensino.
Junho 11, 2008 at 9:28 am
Toda a vida fiz sempre tudo para aprender mais pk isso é importante para mim mas tambem o é para a melhoria das minhas aulas .Aquela conversa de alguns colegas (que um professor não precisa de saber muito mas deve é saber transmitir os seus parcos conhecimentos )nunca me convenceu .Para mim ,um professor deve ser conhecedor da sua matéria específica e deve ser uma pessoa informada sobre tudo o que se passa à sua volta .
Mas neste contexto ,não temos tempo para ler ,para termos formação ,para ir ao teatro ,ao cinema …Nalguns países toda a gente acha que os professores devem ter tempo para tudo isto pois são eles que vão transmitir a sua cultura e conhecimentos às crianças .
Junho 11, 2008 at 10:04 am
“No entanto, para se dar uma revolução no nosso ensino bastaria que os nossos professores estudassem diariamente, durante duas horas, livros cientificamente sólidos sobre a sua área de actuação.”
Não, não bastaria.
Junho 11, 2008 at 10:41 am
“…pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores.”
Não, não concordo.
Junho 11, 2008 at 11:56 am
Mais rapidamente do que saber da cor da camisola que o professor que está à frente deles, os alunos apercebem-se da distância que separa os seus conhecimentos dos conhecimentos do professor. E comportam-se em conformidade. Só quem nunca deu aulas ignora estes aspectos metalinguísticos do ensino. Iniciativas recentes orientadas para os professores generalistas só podem partir de pessoas que odeiam a didáctica e a pedagogia, odeiam o ensino e as crianças e jovens e estão dispostas a sacrificar o futuro do país a qualquer preço. Desidério Murcho acentuou bem este aspecto.
Já quanto a hierarquizar as razões explicativas do crónico atraso de Portugal nos testes PISA, Desidério Murcho deveria ponderar melhor factores estranhos à actividade dos professores. Penso que se precipitou algo.
Junho 11, 2008 at 12:57 pm
Quem me conhece sabe que não compactuo com professores que não dominam os conhecimentos e as prácticas. Como dirigente do MAP já tive que fazer afastar alguns das salas de aula. Infelizmente. E não é fácil. Em nenhum dos casos era o conhecimento científico que estava em causa, curiosamente. Mas a verdade é que há no ensino pessoas que não podem lá estar. Facto.
Não me parece no entanto, que este número de professores sirva para justificar OS problemas da qualidade educativa.
Continuo a pensar que os professores são, na generalidade, profissionais competentes e empenhados.
Pelo menos tão competentes e empenhados quanto os médicos, os advogados, os juízes, os engenheiros, os economistas, os arquitectos, os jornalistas…
O ensino não é o saco do lixo, perdão, ecoponto, dos licenciados portugueses.
NÃO É!
Junho 11, 2008 at 1:38 pm
Se o sector da Educação se baseia numa relação especialíssima (professor-alunos), que evoca uma relação de autoridade do professor em relação aos seus alunos, esta requer da parte do professor requisitos que á partida apelam para dimensões superiores de maturidade psicológica relativamente á média da população de um determinado povo ou população, com experiências vivenciais pertinentes. Contudo, esta área não tem uma dimensão estática. O professor evolui (ou não) nas experiências com os seus alunos e com as experiências da sua própria vida.
Já quanto aos conhecimentos específicos da disciplina ou disciplinas que leccione parece-me que depende sobretudo da formação inicial que lhe é proporcionada pelas Universidades e Politécnicos. Esta é uma dimensão completamente regulada e da responsabilidade total dos responsáveis pela política educativa. A formação em exercício de funções tem, neste aspecto um peso menor.
A atitude de estudo, de investigação sobre matérias específicas a leccionar e as de cultura e actualidades radica, sobretudo, na formação superior do professor,i.é., no maior ou menor grau de exigência e valoração que cada uma das Universidade e Institutos Politécnicos públicos ou privados oferecem aos seua alunos, futuros professores. A própria “selecção” dos alunos para a entrada e frequência dos cursos valida ou não essa maior ou menor exigência.
Junho 11, 2008 at 2:38 pm
Caros colegas
Muito obrigado a todos pelos comentários. Errei ao dizer que a qualidade do ensino depende exclusivamente dos professores. Concedo o erro. Na verdade, foi precipitação, pois num artigo mais longo (http://criticanarede.com/html/ens_valor.html — exige subscrição, mas posso enviar o artigo para o Paulo publicar neste blog, se quiserem) falo do problema da desvontade que os estudantes têm em aprender. Agradeço a crítica e vou repor a verdade numa próxima crónica do Público.
Quanto ao profissionalismo dos professores não ser menor nem maior do que dos demais profissionais, concordo. Só que o grau de profissionalismo é muito baixo em todos os sectores da vida portuguesa.
Junho 11, 2008 at 4:08 pm
“Mal se tenta corrigir um colega, isso é encarado como arrogância, e não como um gesto de partilha.”
Os profs. devem ser os primeiros a estar dispostos a aprender constantemente, pois só assim conseguem fazer face às exigências e desafios que a profissão nos coloca constantemente.
No entanto, e mais do que nunca, tentar ajudar um colega é mal visto, pois a partilha e a interajuda não se ajusta às novas realidades de avaliação docente. Registar tudo, ao cúmulo de qualquer actividade realizada ser fotografada como se houvesse necessidade de apresentar provas num tribunal, esconder e recear, leva a que quem se atreva a corrijir ou simplesmente dar sem nada esperar em troca, seja visto com relutância e desconfiança. A humildade já não é virtude, antes sinal de fraqueza, como vemos à nossa volta, a começar pelo ME.
Junho 11, 2008 at 4:12 pm
O texto e a reflexão de Desidério Murcho remetem-nos para uma temática consensual: a preparação do professor é também uma questão de estudo pessoal. Mas é importante verificar as causas ou os factores institucionais, escolares, que estão a fazer diminuir o estudo e a vontade e as oportunidades de o fazer e reflectir sobre elas e eles. Há sugestões de bibliofragias actualizada da parte do ME? E da parte das escolas? As áreas não disciplinares, quanto a mim, vieram potenciar o «generalismo» e fizeram diminuir em muito o estudo específico de matérias disciplinares. A burocracia escolar, idem, faz derrapar o estudo e a vontade. Não foram certos «sites», e a «críticanarede» é um deles, e as coisas ainda estariam piores. As reflexões dos professores não podem andar só por generalidades, daí que os críticos devam anunciar estudos e fontes.
Junho 11, 2008 at 4:15 pm
Eh, pá, o texto anterior saiu-me com uma gralha que pode indiciar desatenção. Aqui vai corrigido:
O texto e a reflexão de Desidério Murcho remetem-nos para uma temática consensual: a preparação do professor é também uma questão de estudo pessoal. Mas é importante verificar as causas ou os factores institucionais, escolares, que estão a fazer diminuir o estudo e a vontade e as oportunidades de o fazer e reflectir sobre elas e eles. Há sugestões de bibliografia actualizada da parte do ME? E da parte das escolas? As áreas não disciplinares, quanto a mim, vieram potenciar o «generalismo» e fizeram diminuir em muito o estudo específico de matérias disciplinares. A burocracia escolar, idem, fez derrapar o estudo e a vontade. Não foram certos «sites», e a «críticanarede» é um deles, e as coisas ainda estariam piores. As reflexões dos professores não podem andar só por generalidades, daí que os críticos devam, sempre que opinam, anunciar estudos e fontes.
Junho 11, 2008 at 5:38 pm
Em 1989 (mais ano, menos ano) contactei pela 1º vez com estagiários dos cursos destinados exclusivamente à docência. Conhecia alguns deles (ou melhor, algumas delas), pois alguns (poucos) anos antes haviam iniciado a mesma licenciatura que eu estava então a acabar. O tempo durante o qual eu tinha concretizado um estágio profissional, trabalhando na área profissional da minha formação (não como docente) elas, uma vez terminada a parte escolar do curso, haviam-se simplesmente matriculado num dos cursos “de professores” e, valendo-se de muitas equivalências, estavam a concluir esses cursos, enquanto eu leccionava pela primeira vez 4 anos após a conclusão da licenciatura e a experiência do trabalho fora do ensino. Espantado, perguntei a algumas das colegas porque tinham feito aquela escolha. Responderam-me que assim asseguravam o emprego, que doutra forma havia poucas garantias de permanência num determinado lugar no exercício da pprofissão (não docente), que era muito difícil arranjar um lugar para iniciar a actividade com um estágio remunerado… Percebi. Estes cursos para professores destinavam-se a contornar o problema de desemprego crescente já aquela data entre os jovens. Era o “caminho fácil”. Aquelas minhas colegas nunca contactaram com o mercado de trabalho real, as dificulades reais de trabalhar para a economia real, onde é preciso demonstrar (todos os dias) valia técnica, competência, capacidade de liderança, capacidade de adaptação às situações concretas, capacidade de diálogo com os executores de outras especialidades, etc, etc. Ou seja, curto e grosso, aquelas minhas colegas nunca saberiam o que era trabalhar a sério me iam preperar meninos para o faz de conta. Peço desculpa a alguns (que os haverá, certamente) professores dos cursos destinados exclusivamente ao ensino, que por sua escolha e determinação pessoal ultrapassaram estas limitações e tomaram contacto com as actividades reais, do fazer e ganhar a vida fora do limbo escolar.
Um professor nada pode transmitir que seja alheio à sua experiência. Um professor que não conhece realidades distintas das académicas, nada mais pode transmitir senão o sua visão limitada do mundo e das formas de usar os conhecimentos.
Sei que este comentário vai ser muito polémico e doloroso para alguns, mas também sei que muitos dos que aqui vêm são gente suficientemente inteligente para ponderar as minhas afirmações (como eu as fui ponderando ao longo de muito tempo) e reconhecer a sua verdade, a sua validade.
Muito obrigadinho é o que eu vos desejo – isto dizia um grande professor que, por circunstâncias que não poderia aqui descrever, decidiu abrir um bar e tornar-se um culto “barman” que alguma vez conheci, cujo balcão alguns assintentes universitários que eu conhecia não frequentavam para não fazerem má figura.
Portugal 1. – Républica checa 1.
Junho 11, 2008 at 6:26 pm
Caro Paulo: Acabo de ler o seu comentário ao artigo do Desidério. Muito lúcido e com aquela isenção crítica que é seu apanágio, aliás. Estão ambos de parabéns, o Desidério e o Paulo. Um abraço. Rui
Junho 11, 2008 at 6:31 pm
“Um bom professor, seja de que matéria for, tem de dominar até à letra H se leccionar até à letra D.”
Um bom professor tem que dominar até à letra Z, para leccionar até qualquer letra. Confesso que não aprecio as opiniões deste Murcho. Em todas as discussões virtuais que sustentei com a criatura no De Rerum Natura, a sua argumentação foi sempre arrogante, provocatória (portanto desviada) e , por vezes, até indelicada. Porquê? Porque o Murcho não compreende o Homem holístico e acha que o cientista, ou melhor, o académico só ser, à sua imagem e semelhança, ateu (nunca consegui perceber se aceita o agnosticismo).
Portugal 2. – República checa 1. :LOL:
Junho 11, 2008 at 6:35 pm
Em vez de “só ser” deveria estar “só pode ser”. Isto é o que dá estar a fazer 3 coisas ao mesmo tempo. Eh,eh, eh.
Junho 11, 2008 at 7:12 pm
Artista de Plástico
Concordo com algumas das suas informações em relação aos professores da área das artes, em 20 anos de ensino é onde tenho observado os piores profissionais, isto custa a ouvir mas é verdade. Na sua maioria são pessoas oriundas de cursos que não eram destinados ao ensino – artes gráficas, arquitectura e belas artes. São pessoas que nunca tinham pensado em ser professores e a profissão surgiu-lhes como uma “bóia de salvação”, há excepções, claro, mas é aí que se notam os casos mais estranhos. Aqueles que realmente tiraram os cursos via ensino já não entram neste rol. São profissionais competentes e adoram a profissão que escolheram.
Junho 11, 2008 at 7:15 pm
Caro artistadeplastico:
Consideo o seu comentário 12 muito importante. Eu, sinceramente, nunca consegui perceber a importância de disciplinas como: “Psicologia da Educação”, “Sociologia da Educação”, “Organização e Gestão Escolar”, “Organização Curricular”, entre muitas outras e com nomes igualmente pomposos e vazios de conteúdo.
Sempre disse que a existência de licenciaturas via ensino foi das maiores asneiras que se criaram entre nós! Estes cursos afunilam de tal maneira a vida profissional daqueles que os escolheram que deveriam pura e simplesmente ser restirados!
Imagine caro artistadeplastico que o tal professores licenciado em ensino descobre que não nasceu para aquilo? O que vai fazer? Imagine, ainda, o cenário de o professor perder o emprego por qualquer razão, o que vai fazer a seguir? Imagine, ainda que o professor se “farta” de aturar a burocracia, o que pode fazer para mudar de profissão?
Por outro lado é para mim evidente que para um licenciado em História, ou Línguas, ou Ciências, ou Engenharia, ou Filosofia, ou … para aprender a ensinar basta uma boa formação inicial de formadores e está pronto para o desafio graças à formação de base que acabou de adquirir.
Estou mesmo convencido que os cursos via ensino servem os interesses de muita gente, excepto o interesse dos alunos e do país!
Mas enfim, é apenas uma opinião
Junho 11, 2008 at 7:18 pm
Artistaplástico (#12),
O comentário poderá ser eventualmente doloroso para algumas pessoas que se revejam em alguma descrição, mas parece-me que o conteúdo não é polémico se tivermos coragem de assumir claramente as nossas limitações e tentarmos ultrapassá-las.
Por isso mesmo é que acho errada a tentativa de tornar a docência uma profissão em grande parte desligada das áreas académicas disciplinares, digamos assim, porque tudo ficará formatado pelo mínimo denominador comum.
Junho 11, 2008 at 7:40 pm
Mas a formatação não nos sbrange também a nós?
Nós fomos formatdos para ensinar de uma determinada forma com um determinbado tipo de launos numa determinada época em determinadas circunstâncias..a questão é que hoje todas essas circunstâncias já não existem..a escola já diz pouco aos alunos..leva tempo demais para a cultura do éfemero dominante..a vida acelerada não tem coorespondência com a durabilidade do tempo que AINDA SE TEM DE PASSAR NA ESCOLA..
Hoje é tudo fast demais para o citroen 2 cavalos que é a escola..se nós professores não aguentamos 2 horas numa reunião sem nos fartarmoas como é que podemos pedir a jovens de hoje estarem 90 minutos concentrados dentro de um espaço fechado, sentados e sem fazerem barulho?
Temo que este tipo de escola esteja a curto médio prazo finito…é o mesmo que tentar introduzir num computador com dez anos o windows vista…arrasta-se..arrasta-se.. até que o remédio é comprar um novo computador que acelere o programa..
No fundo continuamos provincianos com garndes elegias ao que vem de fora…não mudando radicalmente nada..para que algo mude é preciso que tudo fique ma mesma(máxima portuguesa)
Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela — em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisiense não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do “Orpheu”, disse a Mário de Sá-Carneiro: “V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa V. é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si”.
Fernando Pessoa
Junho 11, 2008 at 7:43 pm
“…
The conditions that had caused and authorized the massification of secondary and higher education changed dramatically with the international economic crisis that started in the mid-1970s. But policies always contain a certain inertia.
We have to wait until the end of the 1980s before the economic and political authorities became really aware of the new economic context and the new missions that it imposed on education. To put it in a nutshell: we can state four
characteristics of this new context:
1. intensification (‘globalization’) of economic competition;
2. decrease in state financial resources;
3. faster pace of change (technology, markets);
4. ‘polarization’ of the labour market.
These are the main factors that have determined, since the end of the 1980s, a
profound revision of education policies. Let us explore each of them in detail
and examine their essential impact.
The two first characteristics have apparently contradictory consequences
for education policies. In a context of intensification of economic competition,
the industrial and financial powers ask the political leaders to transform education so that it can better support the competitiveness of regional, national or European companies.
But, on the other hand, the same economic powers require that the State reduce its fiscal pressure and thus reduce its expenditure, notably in the field of
education.
Obviously, there is to be a contradiction: how can one enhance the economic role of education, train a more skilled workforce, and at the same time reduce the means of education systems to accomplish this task?
The lobbyists of the European Round Table of Industrialists (ERT)
express this contradiction when they write, in one of their reports on European
education: ‘[in education] We have to use the limited amount of public money as a catalyst to sustain and stimulate the activity of the private sector’ (1994).
Resolving this contradiction will come from the two other characteristics of the
present economic environment: the rapid pace of change and the polarization
of the labour market.
…”
http://tinyurl.com/6jkc2p
Junho 11, 2008 at 7:44 pm
alunos..formatados..correspondência..grandes.. peço desculpa pelos “lapsus lingus”…
Junho 11, 2008 at 8:01 pm
A questão deveria ser posta de outra forma: por que motivo deixaram as escolas portuguesas, na sua generalidade, de ser centros de saber (se é que alguma vez o foram) ou por que razão não pretendem, apesar dos mil projectos que as animam, ser?
O texto de Desidério Murcho coloca um problema real. No entanto, esse problema não é sentido nas escolas. Há uma convenção tácita de que o saber não é fundamental naquilo que se faz. Curiosamente, os professores responderam e adaptaram-se aquilo que é exigido. Conheço muita gente que sendo professor da minha área, a Filosofia, nunca abriu um livro de Filosofia, depois de acabar o curso (e se calhar antes, em certas faculdades…). O manual basta-lhes. Mas basta-lhes porque não se exige mais do que isso. Aliás muitos desses professores de qualidade científica mais do que duvidosa foram recentemente promovidos a professores de grande qualidade que irão avaliar os idiotas que cientificamente e didacticamente são muito melhores do que eles.
É o grau de exigência do sistema que conduz à situação em que se vive. Eu não estou a negar a responsabilidade individual. Estou a dizer outra coisa: estou a dizer que o sistema político gerou uma instituição escolar de onde o saber foi expulso, onde não entra. No nosso sistema de ensino, não compensa o conhecimento.
A imaginação didáctica, digamos assim, só pode funcionar se o professor dominar profundamente os saberes que ensina. Mas para que as pessoas que ensinam tenham necessidade de aprofundar o conhecimento, é fundamental que a instituição onde trabalham se oriente para tal. Alguém acredita que a escola pública portuguesa se vai orientar para aí?
O que vai ser fundamental nos próximos tempos é a relação com a comunidade, a participação nas actividades circum-escolares da mocidade portuguesa (não, ainda não acabou. Ela continua muito activa), a feitura de muitos relatórios onde se evidencie o sucesso dos alunos (é melhor não esquecer os gráficos, para uma leitura icónica da coisa). Dizer ámen a quem manda também vai ser muito mais importante do que saber aquilo que se ensina.
Aquilo que Desidério Murcho diz é verdade, mas ele vive noutro planeta e não faz a mínima ideia do que fala. As escolas são realidades «moventes». Não estão paradas no tempo. Diria que estão em queda-livre, só que não há um solo que signifique o fim da queda, portanto continuarão o seu movimento de degradação. Aqui, entre nós, julgo que a instituição está condenada.
As transportadoras não querem pagar tantos impostos sobre o combustível. Param o país. Mas sem impostos, como se pagarão os bens públicos, como a escola? Imagine-se só que todas as actividades privadas se orientam pela mesmo posição das transportadoras. E elas, de uma forma ou de outra, estão a orientar-se. Sejamos brutais: é mais barato ir buscar um médico ou um engenheiro à China ou à América Latina do que fazê-lo por cá. Será que o ME da educação é mau apenas porque não sabe o que é o bem? Ou será que aquilo que ele considera um bem é o que está a levar à prática?
Julgo que as pessoas do ME não são idiotas e sabem muito bem o que estão a fazer. Um professor com boa formação científica é muito caro e não vale a pena investir nele. O mercado fornecerá esse bem às famílias que o procurarem, desde que tenham dinheiro. A formação de uma aristocracia do espírito a partir da universidade, com contaminação para a escola pública, é uma coisa que já não interessa a ninguém. A própria universidade está a tornar-se uma irrelevância. A propósito, ficam estes dois posts bem humorados do Jansenista:
http://jansenista.blogspot.com/2008/06/universidade-ps-bolonha-ano-i.html
http://jansenista.blogspot.com/2008/06/universidade-ps-bolonha-anos-ii-e-iii.html
Junho 11, 2008 at 8:36 pm
Colegas, tenho a presunção de conhecer bem o terreno das escolas por razões que não vou aqui expender. E que tenho eu constatado? Muitos colegas não têm, no mínimo, qualidades de professores como as apresentadas por D. Murcho. Não têm. E muitos sabem-no. E os alunos sentem-no e verificam-no. Contudo, colegas, corrijam-me se eu estiver errada: esses foram os melhores que apareceram num dado momento. O Estado precisou deles, não havia melhores. No futuro a selecção será mais rigorosa, parece-me evidente. O mesmo Estado que em tempos contratava tudo pois precisava agora selecciona. Mesmo os professores que, para citar Perrenoud «morreram em frente ao quadro» ao pecar por não se actualizarem, etc., também foram, de algum modo, vítimas de um Estado que brincou com a sua formação contínua. Quem se lembra do nome do Ministro que criou a formação contínua que permitia aos professores atingir o topo da carreira sem nunca fazerem uma acção na didáctica específica? E isto durou mais de dez anos. Couto dos Santos. Este Murcho seria mais correcto se lembrasse e se lembrasse de tudo isto.
Junho 11, 2008 at 8:42 pm
Como diz o colega de Filosofia, custa muito ver colegas que de facto nada estudam, é só o manual. Para mim isto é difícil de entender, mas parece ser desde há muito assim. Num volume do Conta-Corrente, Vergílio Ferreira, que foi nosso colega, denuncia a mesma coisa: professores de Português que só conhecem os autores do manual! Isto é uma aberração. Mas era assim e continua para desmotivação e aborrecimento dos alunos. Felizmente que há quem siga desde sempre as lições e Sebastião da Gama… Raros, mas há-os para benefício dos alunos.
Junho 11, 2008 at 8:44 pm
«Imaginação didáctica»: óptima expressão. É isto que falta, sem dúvida, aos colegas cinzentões… Que tiveram professores cinzentões…
Junho 11, 2008 at 8:45 pm
Apesar da correcção de Desidério Murcho (8), continuo a discordar e a achar que o fundamental do texto não tem qualquer sentido. Mais parece de alguém que quer pôr os professores a fazer exames anuais como se fossem alunos. Por exemplo: “pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores”. Onde é que o autor foi buscar isto? Com trinta anos de experiência profissional sinto-me à vontade para considerar isto um absurdo completo! Eu sublinho: “o aspecto central…”. Estas frases atiradas assim só não fazem muito mal porque pouca gente as lerá!
Junho 11, 2008 at 8:49 pm
Já agora dou-vos um exemplo do que me parece enquadrar-se numa «imaginação didáctica»: aula de Português, 7º ano, escrita em oficina. O professor, pela primeira vez este ano, hoje mesmo, também escreveu o seu texto. Todos escreveram na aula. Os alunos, quando viram que o professor terminou, pediram-lhe que lesse o seu texto. O professor acedeu e pediu a três alunos que construissem duas perguntas cada um relativas ao texto que iam ouvir para depois as apresentarem aos colegas. Esta estratégia do professor foi criada no momento, pois antes de ler percebeu que assim iam os alunos estar muito mais atentos. Resultado: sucesso, interesse geral, palmas no final da actividade. Se isto não é «imagimação didáctica»… E falta muito disto.
Junho 11, 2008 at 9:00 pm
Ao colega 26. Permita-me que lhe diga o seguinte: como professor de Português e formador posso afiançar-lhe que muitos colegas desconhecem «conhecimentos fundamentais» de ordem científica que, a serem dominados deveriam ter consequências didácticas. Estou a pensar concretamente no caso da poesia lírica tão mal tratada nas escolas. D. M. tem razão. Um professor pode ter uma óptima capacidade de didactização seja do que for, mas ela será tanto maior quanto melhor for a preparação científica. Repare que também sei que há quem seja muito bom científicamente e não sirva para «dar aulas». Não me refiro a estes. No caso do Portugues em geral a didactica e os conhecimentos científicos não são brilhantes. Trabalhos de investigadores como Maria Luísa Àlvares Pereira, ou Emília Amor, ou Fernanda Irene Fonseca, ou Brandão Carvalho, ou Maria de Lurdes Dionísio ou Isabel Margarida Duarte, etc., etc., têm demonstrado a pobreza didáctica da aula de Português que tem como uma das causas um deficiente domínio das áreas científicas.
Junho 11, 2008 at 9:20 pm
Colega 28. Há uma enorme falta de humildade naqueles que fazem de contas que sabem tudo. Quando lido com alguém assim, seja professor ou outra coisa qualquer, não demoro muito tempo a verificar que a prosápia mental ocupa também espaço onde deveria estar outro tipo de conhecimento. Dizer que alguém pode saber tudo é uma atoarda de todo o tamanho. Há por aqui alguns comentários positivos. Mas se fossem algumas outras pessoas (estamos a pensar nelas?) a dizer parte do que foi dito por aqui, designadamente DM, cairia o Carmo e a Trindade. Valha-nos S. António!
Junho 11, 2008 at 9:27 pm
“Ensinar é difícil. Exige virtudes que poucos seres humanos têm: paciência, humildade, curiosidade científica, sensibilidade pedagógica e didáctica, gosto em dar a saber a quem sabe menos, gosto pelo contacto humano com os estudantes.”
Concordo. Mas, como se avaliam estas dimensões?
E este (des)modelo avaliativo pretende avaliar exactamente o contrário.
Junho 11, 2008 at 9:35 pm
Colega 29: onde é que eu disse que algum professor tem de saber tudo? Referi-me a conhecimentos fundamentais. Só lhe vou dar um exemplo de um conhecimento científico na área da poesia lírica que eu considero fundamental e que muitos colegas meus ouviram na faculdade e esqueceram. Jakobson ensina que o poema é «uma sequência construída com base no princípio da equivalência». Quando, como formador, recordo aos colegas isto e lhes mostro como perceber isto pode permitir interessar muito mais os alunos pela poesia lírica, não vou agora explicar como, eles percebem o alcance prático didáctico que este conhecimento científico pode ter. Não sei se o colega é de Português, para o caso também pouco interessa. Mas leia com atanção o que eu escrevi e verá que não está lá aquilo que leu…
Junho 11, 2008 at 9:59 pm
Os professores têm, evidentemente, que dominar os saberes que integram as suas áreas disciplinares. Mas desses não vai rezar a história. Os que fazem a diferença são aqueles que vão para além disso. São aqueles que valorizam o saber, se empenham numa busca continua do conhecimento e o valorizam a ponto de isso “passar” para os seus alunos. São os professores que conhecem múltiplas realidades, capazes de discutir, humildemente, com os seus alunos os diferentes temas que saltam para a ordem do dia. Estes são os professores que merecem o respeito e o reconhecimento dos seus alunos.
Quanto à didáctica…pedagógio, pedagógico é aquilo que resulta… nem sempre está nos livros.
Junho 11, 2008 at 10:03 pm
Colega 32: foi isto que diz que eu estive a dizer. Exactamente. Sem tirar nem pôr.
Vou dormir, até outra vez!
Junho 11, 2008 at 10:07 pm
Caramba… as 22h ir dormir lembra-me a minha avó GenOveva que ia para a cama ás 21 horas. SEMPRE ATÉ AO DIA DA SUA MORTE…
Junho 11, 2008 at 10:10 pm
Colega 31. No comentário 29 não me referia em concreto às tuas palavras. Generalizei, tendo em conta outros comentários que acho pouco abonatórios. Podes até achar que há nisto corporativismo, mas não imagino outras classes profissionais a fazerem o tipo de comentários que por aqui estão. Concordo com o que dizes, tendo mesmo em atenção as didácticas específicas. E nem sequer digo que não há esquecimentos inconvenientes. Mas somos seres humanos e, por isso mesmo, devemos pôr a nossa inteligência ao serviço do nosso discurso. Tenho de admitir que quando um professor frequenta uma acção de formação, seja de que disciplina for, pode não se lembrar de imediato de todas as matérias, mesmo daquelas que nesse ano não lecciona.
Junho 11, 2008 at 10:13 pm
Como vês, falhou-me o discurso.
“…pode não se lembrar de imediato de todas as matérias, principalmente daquelas que nesse ano não lecciona”. Assim, ficou um pouquito melhor!
Junho 11, 2008 at 10:55 pm
… pode ser próximo da verdade para o ensino das disciplinas de carácter geral, como as línguas, a história, a filosofia, ou para as ciência como Matemática, a Física, etc…nunca a o será para as disciplinas de carácter tecnológico, ainda por cima num tempo em que cada um que chega ao poder decide de novo o que é que acha importante ensinar nesse domínio. Sou Engenheiro Electrotécnico de formação e sempre senti que seria mais fácil para mim leccionar Matemática, Física ou Geomentria Descritiva, só para exemplificar, do que a maior parte das disciplinas que fazem parte da área que pertenço. Se hoje me dissessem que daqui a um mês tinha de começar a leccionar Matemática A ou B do 12º Ano, não perdia uma hora de sono com essa preocupação e não seria, passe a imodéstia, “um cepo”… dizerem- que no ano seguinte,numa só disciplina, tenho de fazer de contas que sou um especialista em aquecimento ventilação e ar condicionado, em instalações de telecomunicações em edifícios, em instalações de baixa tensão, em redes de energia, automatismos industriais, em pneumática, em luminotecnia, em máquinas eléctricas, em desenho técnico,etc,etc… isso sim tira-me algum sono. Não mo tira todo,claro, porque 55 de idade e 33 de serviço ( confesso que não sei fazer o pino) fazem-me olhar, entre a raiva e o desprezo , para quem coloca essas coisas todas no papel, porque eles deixam ali a prova provada de que estão a mentir, a “pôr o Rossio na Rua da Betesga”, eu não, sou mais sério… ou como diria Scolari, ” e o burro sou eu?” Vão perdoar-me Desidério Murcho e alguns concordantes, mas estou em crer que há uma parte do ensino que está a escapar à vossa análise… e esse pode ser também o grande erro de muitos responsáveis pela “coisa”…
Junho 11, 2008 at 11:27 pm
A Olinda escreveu:
“em relação aos professores da área das artes, em 20 anos de ensino é onde tenho observado os piores profissionais, isto custa a ouvir mas é verdade.”
Infelizmente é verdade, basta ver o absentismo nas disciplinas de EV/ET nas Escolas Básicas ou os resultados a dos exames de Geometria Descritiva de algumas Secundárias. Numa Secundária aqui do Porto, onde só há uma professora do grupo de artes visuais, a escola tem sempre média de 6-7 valores a Geometria Descritiva, toda a gente sabe que a Sra não percebe nada do assunto. No sorteio dos Titulares, felizmente, não passou.
Claro que não são todos assim, eu até tenho dois familiares que são excelentes professores de Artes, ambos na Escola Artística Soares dos Reis, no Porto.
Junho 11, 2008 at 11:39 pm
Este é um post pedagogicamente correcto. Ninguém poderá estar em desacordo. É pena que se fundamente em meras impressões. Ficamos a saber que o autor lê livros actaulizados, livros “a sério”, domina todos os assuntos em que é perito. Nota-se no seu discurso a humildade fundamental ao ecercício da excelência docente.
Felizes os alunos que têm tal mestre.
Junho 12, 2008 at 12:27 am
[...] Confesso Que Concordo Posted by Paulo Guinote under Afinidades, Educação, Excelência, Opiniões [39] Comments [...]
Junho 12, 2008 at 12:33 am
José António,
O colega não percebeu um aspecto essencial: o que o texto do Desidério coloca em causa é precisamente uma atitude como a sua de recusa de discussão activa dos problemas e matérias de ensino. Pelo menos criou essa ilusão no seu comentário. Que mal tem o texto do Desidério? Ainda por cima ele não ataca os professores, mas o sistema educativo em geral que, obviamente, também produz professores. Mas é falso que o Desidério só tenha conhecimento das realidades à distância. Ele é formador de professores há pelo menos uma dezena de anos, de forma que conhece bem o terreno. tem trabalhado muito com o ensino secundário, desde a formação à publicação de obras introdutórias e manuais escolares.
Bom trabalho
Junho 12, 2008 at 12:51 am
Les uns et les autres.
Eu bem sei que as amostras valem o que valem…
Mas a avaliar por esta amostra de professores comentadores, somos todos mesmo muito bons!
Somos todos muito capazes e actualizados e empáticos e esforçados e andámos em faculdades a sério e damos aulas a sério e tudo…
Portanto, ou começamos a dar nomes às coisas, ou os professores são mesmo uma classe profissional séria e competente!
Junho 12, 2008 at 1:11 am
Claro que o texto tem vários males, já referidos em comentários anteriores.
E como concordei genericamente com “quero ser um professorzeco”, comentário 6, não percebi patavina do comentário 42.
Junho 12, 2008 at 1:33 am
Há sempre “nós” e os “outros”. Nós, somos os bons, os outros são os … fraquinhos…
E quando alguém diz que os professores não estão assim tão bem, ouvimos de entre nós:
“É verdade! Não eu que sou excelente, mas ali o de EVT…mmmm…fraquiiinho…”
ou então
“É verdade! Não eu que sou excelente, mas aquela malta nova… mmmm… fraquiiinha …”
ou ainda
“É verdade! Não eu que sou excelente, mas os das ESE´s … mmm … fraquiiinhos”
e por aqui fora.
Daqui eu concluo que, não seremos todos excelentes mas também não somos todos…
Continuo a pensar que os professores são, na generalidade, profissionais competentes e empenhados, como disse em #6.
Mas não há como nós para dar tiros nos próprios pés!
Junho 12, 2008 at 9:27 am
Aristides Adão (37)
…estou em crer que há uma parte do ensino que está a escapar à vossa análise… e esse pode ser também o grande erro de muitos responsáveis pela “coisa”…
Can you, by chance, be somehow more specific?
Thanks.
Junho 12, 2008 at 12:12 pm
quero ser um professorzeco (44).
Ocorreu-me agora o Vasco Santana “compreendi-te”. Aliás, tu nos comentários 3, 4, 6 e agora neste, dizes praticamente tudo.
Mas isso sou eu a dizer que não sou excelente, que já tenho muitas falhas de memória, que gosto de ler o que me agrada e não o que os outros pensam que é bom, que não tenho pachorra para ler por dia o tempo que os outros dizem, mas sim o que eu acho, e que além disso já acuso algum cansaço!
Junho 12, 2008 at 2:22 pm
(45)
… “a word to the wise is enough”
… e confesso que de momento não tenho tempo disponível para ser mais específico… vou apanhar cerejas, estão ali, a olhar para mim, na minha cerejeira completamente carregada…e os pássaros andam a dar nelas com força… tenho que aproveitar este pedaço de tarde…
” as marés e o tempo não esperam por ninguém”.
Junho 12, 2008 at 9:02 pm
Caro Aristides Adão (47)
Admito que tenha visto algum programa tão eclético como o que apresenta. Custava muito dizer onde?
Embora me pareça que a crítica a um programa concreto não tenha sido o assunto referido por Desidério Murcho, logo, não compreendi onde estava o pomo da discordância.
De qualquer forma, grato pela resposta.
Junho 13, 2008 at 12:20 am
O comentador 26 diz que “Mais parece de alguém que quer pôr os professores a fazer exames anuais como se fossem alunos.”
Antes fosse. O problema é que no ano seguinte teríamos de importar professores do Paquistão, da Ucrânia ou da Moldávia, pois vários dos que cá temos são, manifestamente, fraquinhos, fraquinhos, fraquinhos.
Ainda o 26: ” (…)pois o aspecto central da nossa falta de qualidade educativa é a pura falta de conhecimentos fundamentais que deviam ser solidamente dominados pelos professores”. Onde é que o autor foi buscar isto? Com trinta anos de experiência profissional sinto-me à vontade para considerar isto um absurdo completo!”
Que sorte que tem o colega. Pois se fosse professor de Filosofia indagar-se-ia quanto à qualidade dos ditos. Um dos manuais mais adoptados do mercado é puro lixo conceptual, destituído de rigor e de evidências de actividade neuronal significativa. Qualquer conversa de café é mais edificante. E no entanto, os professores adoptam-no. Porque será? Será competência? Será profissionalismo?
Os restantes comentadores que enfiaram a carapuça, digo, que discordam de Desidério têm o dom da omnisciência: nunca leram nada do autor, mas sabem tudo sobre ele. Se é assim que dão aulas, estamos conversados.
Junho 13, 2008 at 1:07 am
Meu caro António Ferrão,
… as cerejas não podiam esperar mais, e deixa-me que diga, são uma delícia! Em seguida tive de ir a Coimbra e só agora vim aqui.
… a minha discordância não é com o entendimento de que um professor deva estar uns degraus acima daquilo que deve ensinar, antes pelo contrário… mas discordo de quem dá como adquirido que esses degraus, mais acima, se sobem todos através dos livros, ou melhor dizendo, exclusivamente à custa dos livros ( permite-me até que diga, mal de quem sobe esses degraus só à custa dos livros). Pode parecer tolice mas há uns anos quando o Rali Portugal passava sistematicamente nestas paragens e era assunto de todas as conversas dos alunos e motivação para a “gazeta” geral, eu achava importante ter uma boa informação sobre o tema… além do mais dava-me o prazer e a oportunidade de acrescentar-lhes alguma coisa sobre “as máquinas” para lá do “show”… e que mais ninguém lhes diria…
… e quantos degraus subo eu quando vou às cerejas, amasso cimento, faço um muro de pedra, uma canalização de água, uma instalação eléctrica, uma grade de ferro,corto uma árvore caída, roço um silvado, etc, ? Aqui se calhar nem subo muito acima, fico ao nível do que têm sido “os tempos livres” de alguns alunos( bastantes) que tenho tido…
….voltando ao assunto, o problema não está no facto de Desidério Murcho ( com o devido respeito) , estar ou não a referir-se a um programa concreto, mas sim no facto de estar a fazê-lo, e muitos dos seus concordantes, eventualmente sem conhecer alguns programas em concreto… e esses programas não são secretos.
Cá vai um, de que falei ( mas há mais …) … e já agora, quem lecciona actualmente este programa, leccionava há dois anos, nada mais nada menos que Sistemas Digitais…
http://sitio.dgidc.min-edu.pt/recursos/Lists/Repositrio%20Recursos2/Attachments/289/Praticasinstalacoeselectricas_12.pdf
…e, permite-me de novo a imodéstia, Matemática ainda consigo “tocar de ouvido”, ou , melhor dizendo, de improviso, quanto àquele, farto-me de folhear partituras… e confesso que ainda desafino…
Junho 13, 2008 at 1:37 am
Na realidade não sou de Filosofia. Sou de uma área em que os conhecimentos não podem ser só livrescos. Seria muito bom para o meu descanso, mas não é assim. Paciência. Voltando ao essencial, não vejo qualquer razão para alterar o que disse nos comentários anteriores. Espero que o exemplo desta troca de ideias dê para os professores compreenderem que quando frequentam acções de formação não devem franquear demasiado a sua alma. Devem fazer aquilo que eu faço quando conheço pessoas que se consideram a fina flor e procuram desvalorizar os outros. Apanho-os como “ginjas”. Quanto a ir buscar professores ao resto do Mundo, prefiro os portugueses. Afinal, foi com eles que aprendi o pouco que sei e foram eles que me ensinaram a ser feliz, muito antes de haver “excelência” e candidatos a ela. Meu caro amigo, ao fim destes anos todos uma das coisas que me está manifestamente a preocupar é a possibilidade de haver dentro de uma classe profissional quem queira vender ideias, provavelmente para vender a seguir “artigos” mais lucrativos.
Junho 13, 2008 at 2:34 am
Aristides Adão
Por momentos ainda pensei tratar-se de uma proposta de programa a ser apreciada por qualquer burocrata sem competência na electrotecnia. Agora percebo melhor o alcance da acusação. Estive a lê-lo: é, simplesmente, kafkiano. Coitados dos alunos.