Aquilo a que chamamos talento natural para uma determinada função ou área do conhecimento é algo que oscila entre o muitíssimo raro (quando se traduz mesmo na excelência) e o que não é propriamente apenas talento mas uma certa vocação em cima da qual se desenvolve muito trabalho.
O melhor é quando se conjugam as duas coisas: verdadeiro talento e trabalho.
O futebol é uma das áreas em que se confunde muitas vezes talento e trabalho. Ou melhor, em que o talento se apoia em muito trabalho ou em que muito trabalho acaba por dar a ideia (errada) de talento inato.
Um dos casos mais falados durante muito tempo foi o de Roberto Carlos, defesa esquerdo brasileiro que fez a parte áurea da sua carreira no Real Madrid, e dos seus pontapés em livres directos.
A forma estranha como ele chutava para a baliza, com imenso efeito de forma a esconder a sua trajectória final, podia ser confundida com um talento especial para aquele tipo de pontapé. Nada de mais errado: ele confessou várias vezes que era o resultado de muitas horas de treino específico após os treinos regulares dos seus colegas. Ele ficava no campo, por vezes sozinho, a treinar o seu talentoso pontapé. Que de início não era assim tão talentoso, mas que o trabalho foi aperfeiçoando até atingir níveis de excelência inigualáveis ano após ano.
Em contrapartida, quantos talentos inatos anunciados para o futebol se perderam no caminho, por falta de capacidade de esforço, disciplina e trabalho?
Com a Educação as coisas também se passam um pouco desta forma:a excelência está, de forma natural, ao nível de poucos, pouquíssimos mesmo. Mas com trabalho podem aperfeiçoar-se muitas lacunas, melhorar desempenhos, atingir níveis de excelência quase inesperados à partida. Para ser excelente há quem precise de se exceder a si mesmo, ou pelo menos explorar ao máximo as suas capacidades.
Entre nós isto parece não ser compreendido. Cultiva-se a mediania como modo de via «normal», tolera-se a mediocridade com complacência e despreza-se ou teme-se a excelência,
Em vez de se incentivar uma cultura ou uma postura ética virada para o trabalho, o esforço e o desejo de excelência, preferimos arranjar justificações para a inépcia e recorremos ao sacramental «errar é humano» e vamos à nossa vidinha, sempre com a desculpa que «ninguém está livre de lhe acontecer o mesmo». Mas depois queremos ter bons resultados nos testes internacionais em Matemática, Ciência e Literacia.
Se é verdade e justo que não se peça aquilo que alguém não tem condições de dar, não é menos verdadeiro que devemos procurar incentivar que pode a dar o seu máximo. Mas não… 0 10 ou o nível 3 dão para passar e então com as ajudas do costume - «coitado(a), o que vai ele(a) fazer sem o 9º ano?» (ou o 6º ou o 12º ou o curso - tornou-se regra que a mediania medíocre chegue como padrão de salvação para consumo interno.
Claro que externamente isso não funciona e percebemos a cada avalanche dos resultados do PISA (ou outros, antecessores ou sucessores) que apenas andamos a viver de aparências de «sucesso» e a pactuar sem pudor com ficções. Mas enchemos o peito e afirmamos que a partir de agora é que vai ser… e baixam-se os critérios, encurtam-se os programas, aligeiram-se os currículos.
E isto vai acontecendo de forma cíclica, repetitiva, entediante, inoperante, incompetente. Mas desta vez é que vai ser. Agora é com o PIM-PAM-PUM, o PNL, o Plano Tecnológico e Plano Coiso. Como se nós fossemos bons em planos fora do papel. E vai rodando e voltando ao mesmo.
Mas nunca ninguém é verdadeiramente responsável por nada. Se fosse como se compreenderia que um dos co-responsáveis pelo erro enorme da «Pedagogia do Sucesso» da abertura dos anos 90 voltasse com responsabilidades acrescidas na matéria? E que ministros que outrora falharam as suas reformas agora sejam ouvidos como senadores na matéria ou contratados como avaliadores das novas políticas?
Como bónus e para que não digam que só me lembro de coisas más, aqui fica um dos mais famosos golos de Roberto Carlos, aquele em que ele chuta, aparentemente, de forma convicta para fora e depois acaba dentro da baliza de Barthez. Se sobreviverem aos locutores nipónicos, esperem pela repetição em que se vê o remate do ângulo frontal para a barreira e a baliza.
Junho 9, 2008 at 10:53 pm
Quanto ao teu talento Paulo: és bom de escrita e o resto é conversa.
Assinado: o apanha bolas
Junho 9, 2008 at 10:55 pm
`E verdae paulo ainda agora vim de um areunião em que se paassram miúdos de 17 e 18 anos de idade para terem o 9º ano completo -també eé verdade que só tinham 3 ou 4 negativas e não me parecia que eles se reprovassem de ano fosse pedagogicamente positivo…
Porque não passar o certificado de frequência-tão antigo e famoso mas tão pouco aplicado-a estes alunos e “prontos”…
Junho 9, 2008 at 10:56 pm
..verdade…reunião…é..
Junho 9, 2008 at 11:16 pm
O trabalho, o rigor, o esforço e o seu mérito, são conceitos inexistentes actualmente nos nossos alunos. Numa escola, da qual eles sabem à partida, que lhes faz tudo e quase tudo lhes permite, não é dificil de perceber. Só lamento é que os “espertos do costume”, aqueles que gostam muito de opinar sobre educação sem nunca lá terem posto os pés, não acreditem naquilo que os professores no terreno já detectaram há muito. Entretanto gerações de jovens vêm sendo estragadas com os resultados destas pedagogices!
Junho 9, 2008 at 11:19 pm
Brilhantes golos: de bola corrida o Paulo Guinote diz quase tudo, de bola parada desligue-se o som e… “tá bem”!
A força deste blog mostra o talento e o trabalho de tantas formas que os carreiristas sentem-se desesperados.
Junho 9, 2008 at 11:29 pm
Sem ter a ver com o post e porque ainda não existe música..
http://www.youtube.com/watch?v=oryzIVsU-Ns&feature=related
Allo swan..
Junho 9, 2008 at 11:32 pm
Tirado do site Teacher tV
It is claimed that one in three teachers will have mental health problems at some point during their career. This week on Teachers TV we are shining the spotlight on mental health issues.
In Teacher Mental Health, another instalment from our popular School Matters series, teachers and ex-teachers break the silence and speak out about mental health problems through powerful first-hand testimonies. We meet a former president of the NUT who left his job as a result of anxiety and depression, a primary school teacher who ended up being admitted to a mental health unit, and a school who was surprised to see its staff taking advantage of the pupils’ therapeutic counsellor
Junho 9, 2008 at 11:40 pm
Parabéns pelo post.
Há muitos anos, estava ainda na Faculdade de Letras de Lisboa, fui ver um treino do «meu» Benfica (eu sei, eu sei, Paulo, que é do Sporting). Era treinador Sven-Goran Eriksson. Na altura nem percebi o que estava a ver, mas foi uma das aulas de pedagogia mais interessantes a que assisti. Eriksson não usava apito. Tratava os jogadores como pessoas adultas. É isso que faço com os meus alunos. Mas interessante mesmo era o trabalho específico. Lembro-me que o trabalho começava no Bento que punha a bola no Pietra e o trabalho ia até à outra baliza. Depois, repetia e repetia e repetia, até chegar à perfeição. Foi o único treino de futebol a que assisti, mas ensinou-me mais sobre pedagogia, aprendizagem e sucesso que todas as sessões que tive no estágio para professor. O sucesso só pode nascer de muito trabalho, da repetição e da análise do que se faz. Todo o resto é conversa para entreter ministros e secretários de estado que não fazem ideia daquilo que regulam.
Junho 10, 2008 at 12:09 am
Excelente post do Paulo G. De facto excelência quer nas aprendizagens dos nossos alunos; quer ao nível do desempenho profissional de qualquer quadrante,salvo raríssimas excepções, não é algo inato. Exige muito esforço e muitas das vezes com todo o esforço do mundo é inatingível.
Ao longo das últimas décadas com a pedagogite aguda a martelar a cabeça dos professores na sua formação, assim como, as diversas pressões nomeadamente da tutela, levaram a que o nível de exigência tenha baixado sucessivamente(as provas de aferição do 6ºano um exemplo) e hoje os nossos alunos muitas vezes são tratados como mentecaptos, uns coitadinhos. Encontrei uns testes de há vinte anos, daqueles batidos na máquina de escrever e corrigidos no stencil com verniz.Eram do 7ºano. Muitas das questões não ouso colocá-las agora ao 9ºano.Facilitismos… Quanto à conversa, dos “alunos coitadinhos é para acabarem o 9ºano,vamos subir três notas para nível três,” estou farto de a ouvir nos conselhos de turma,ano após ano. Somos cúmplices desta situação da “mediania mediocre” em que a cultura de exigência é uma miragem. Mas,muitos dos papás gostam, (nem todos,não gosto)e O ME agradece que o que conta são as estatísticas. Quanto às reais competências adquiridas e às provas PISA ,ficam para mais tarde e com jeito e mais uns malabarismos dá-se -lhe a volta.
Junho 10, 2008 at 12:25 am
JCM [8]
“O sucesso só pode nascer de muito trabalho, da repetição e da análise do que se faz.”
Tem inteira razão. O pior é que há colegas nossos que não pensam desse modo. É ver certos directores de turma, por exemplo, muito apiedados com os meninos que vão reprovar, fruto de terem passado o ano a passear os livros (quando os levam para a escola) e, quantas vezes, a prejudicar a aprendizagem dos outros. Ainda hoje enfrentei o olhar escandalizado de uma colega, por ter afirmado que não tinha pena de determinado aluno reprovar pois, pura e simplesmente, não mexeu “uma palha” para aprender fosse o que fosse. O rapaz é simpático, é verdade, e parece que, para alguns colegas, isso é suficiente para alcançar o sucesso! Como diz Jteck (9), está instalada a filosofia do “coitadinho”.
Junho 10, 2008 at 12:37 am
De facto,como menciona Alice N. (10),parece que alguns dos nossos colegas D.Ts consideram que a proficiência do seu cargo tem a ver com o menor número possivel de alunos retidos,mesmo para aqueles alunos que durante o ano inteiro passearam os livros…
Junho 10, 2008 at 1:42 am
Nada a acrescentar ao post do Paulo, porque ele atira para “golo”, coisa que os nossos governantes, ou por ignorância, ou por outros motivos mais obscuros, ainda não perceberam: só a cultura do esforço e da persistência é que poderá dar uma volta de 180º ao nosso sistema educativo. Infelizmente a cultura do facilitismo, da pedagogia “bacoca” e do “entretenimento”, aliada à “lavagem ao cérebro” feita pela Central do Ministério da Educação a muitos de nós professores, tem arrastado o nosso sistema educativo para um beco sem saída.
Parabéns Paulo por este post.
Junho 10, 2008 at 2:27 am
Hoje em dia, quando se ouve música ou algo semelhante, é incrível o nosso comportamento, sempre à procura das correspondentes imagens. Foi notável o desempenho da máquina que vende a associação de imagem com som. Neste caso, falhou. Foi mesmo golo!
Junho 10, 2008 at 2:42 am
Acrescento:
His Master$s voice, http://inventors.about.com/od/gstartinventions/ss/gramophone_2.htm
o que prova que os negócios globais não são de hoje!
Junho 10, 2008 at 2:47 am
“A vontade enérgica é uma esperança meia realizada”.
“A sorte tem algo de extraordinário: é que quanto mais trabalho mais sorte pareço ter.”
“A lei do êxito na vida baseia-se na “Lei dos dois Esses (SS)”: sem Sacrifício não há Sucesso.”
“Um homem deve subir a pulso a corda da vida.”
……………………………………………………..
Acordem, Pais deste país!
Não deixem que os sucessos de alguns dos nossos políticos, obtidos pelos facilitismos que os naturais conluios proporcionam, sirvam de exemplo para os vossos filhos!
Porque os que hoje habituarem-se com o “passar sem merecer” amanhã serão os que necessitarão de um “Fax” para ser alguém…
… mas, eternamente, sem credibilidade.
……………………………………………………..
Junho 10, 2008 at 2:50 am
O sucesso só existe antes do trabalho e do treino, no dicionário… em tudo o resto funciona de forma inversa.
Junho 10, 2008 at 3:14 am
O que parece é que o mundo está a ser governado por chicos-espertos que nunca fizeram visitas de estudo à Índia profunda, à Angola profunda, ao Afeganistão profundo, ao Irão profundo, já agora, à América profunda. Nestes países, o sucesso resume-se à sobrevivência.
Junho 10, 2008 at 9:48 am
Paulo: parabéns pelo post e já agora pelas imagens do golo;
ora aí está um texto e um GOLO que deveria ser de leitura e visionamento obrigatórios em todas as reuniões de departamento e CP´s e Cons de DT´s de todos os agrupamentos /escolas deste país.
Junho 10, 2008 at 11:45 am
No pain, no gain.
Ou então, só estimamos verdadeiramente aquilo que nos custou a alcançar.
Se o jogo a feijões – já que estamos nessa – valesse alguma coisa, já teríamos convencido a UEFA a não exigir tanto aos futobolistas. Talvez fosse suficiente conseguirem verbalizar a palavra golo para que pudessem passar imediatamente à fase seguinte.
Junho 10, 2008 at 10:57 pm
Gostei muito do post. Estava inspirado!
Pena não ser publicado noutro sítio.
Mas a crer nos posts anteriores, até que é capaz de ser lido por mais gente do que se possa pensar.
Junho 11, 2008 at 12:39 pm
… nem de propósito. Acho que isto tem tudo a ver com o que acabei de postar:
http://educar.wordpress.com/2008/06/10/mais-de-70-de-insucesso-e-nos-e-que-somos-ruins/#comment-68373