Peça de Susana Madaíl no Jornal de Notícias, com o subtítulo «cidadania de sofá» que até poderia ser considerado ofensivo se não a subscrevesse em parte:
Participação cívica estimulada por novas tecnologias
O apelo chegou pelo correio electrónico. Exortando ao boicote a três marcas de combustíveis que, juntas, detêm cerca de 80% do mercado nacional, invadiu as máquinas ligadas à Internet no final de Maio. Tais mensagens – uma primeira, muito tosca e pejada de erros ortográficos, e a segunda, já com produção gráfica q.b. e a inserção dos logótipos das empresas-alvo – incitavam o receptor, e putativo consumidor, a não frequentar aquelas gasolineiras nos dias 1, 2, e 3.
(…)
De igual modo, embora menos dramática, a eficácia de recrutamento ficou demonstrada na manifestação dos professores, em Fevereiro último, convocada por SMS, mail e blogues. A adesão e espontaneidade colheu de surpresa muitos analistas – além dos próprios sindicatos – que advogam a apatia cívica dos portugueses. De que discorda Mendes: “Há um adversário, uma lógica de mobilização efémera, mas que ancora numa tradição mais enraizada na sociedade portuguesa, que tem grande potencial de mobilização, com uma média anual de 200 manifestações reivindicativas”, contabiliza. “Temos rituais, acções, repertórios e memórias, designadamente de Abril de 1974, em que as pessoas já estão rotinadas”, afirma. Simplesmente, “os protestos, cá, são de base localista, não é como na França, que se repercutem nas ruas”. É esta “base localista” que ilude os observadores que alegam a apatia cívica dos portugueses, ao induzir um efeito inibidor para muita gente, dada a excessiva proximidade com o “adversário”. E os mais tímidos na participação activa, com presença física, são “a classe média e média-alta”, declara, e que anseiam, segundo o politicólogo André Freire, do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), “por uma participação menos enquadrada, menos hierarquizada e burocratizada”. Ora, as tecnologias da informação e comunicação (TIC) correspondem a esse desejo: “A mobilização pela Internet e SMS permite novas formas de presença no espaço público, porque não tem que passar pelas formas estruturadas – partidos, associações e sindicatos -, que são mais lentas e exigem negociação. As TIC prescindem disso ao mesmo tempo que permitem às pessoas afirmarem-se politicamente”, explica Mendes. E Freire sintetiza: “Implica um acréscimo de cidadania, sendo positiva a entrada de novos competidores no jogo político”.
Apesar desta longa citação, convém ler todo o texto.
Junho 8, 2008 at 12:55 pm
Paulo tens sido uma inspiração para todos nós…e o resto é conversa…a luta continua!
Junho 8, 2008 at 12:59 pm
Os medos só lhes advêm da possibilidade de “recrutamento” e intervenção política sem controle de forças políticas…
Os medos não lhes advêm da possibilidade de controle sobre os indíviduos…
É interessante que se queira promover controles electrónicos deste tipo, em que alunos e professores (para começar, porque isto se esterá a muitos mais locais e serviços depois das experiências connosco):
“Também a partir do próximo ano lectivo, o cartão electrónico do aluno será generalizado para cerca de 800 mil estudantes, permitindo controlar a assiduidade, as entradas e saídas na escola, fazer compras na papelaria ou no bar e, essencialmente, suprimir o dinheiro.
“O que acontece hoje em dia é que os alunos continuam a levar dinheiro para a escola para carregar o cartão. Estamos a trabalhar com o sector bancário para que o cartão possa ser carregado no Multibanco ou através de ‘homebanking’”, explicou.
Através do cartão, os encarregados de educação vão poder ser informados, por sms, da assiduidade dos seus educandos, mas com o livro de ponto electrónico os pais poderão mesmo saber se o aluno está ou não a ter aula e quais os conteúdos que estão a ser transmitidos.
“O livro de ponto electrónico faz parte do projecto Escola Simplex. Através de login e password numa aplicação o encarregado de educação poderá ter acesso a essas informações”, explicou João Trocado da Mata.”
http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/bd039007c19098d9c23061.html
Também ninguém se preocupa com as “olhos electrónicos” existentes em todas as “esquinas” deste país, dando a possibilidade de vigiar toda a nossa vida…
Todos estes “olhos e controles” foram/são implementados com a desculpa da segurança, por isso são para o bem público e por isso louváveis!
É ridículo que se alegue que o aluno não possa levar 1€ para a escola, para comprar um pastel de nata, porque pode ser roubado, mas pode levar telemovel, I-pod, jogo electrónico, etc… isso não tem importância… isso só demonstra o seu poderio!
Como também não sabem o valor do dinheiro porque este será, desde a infantil, dinheiro de plástico, também não importa os “valores” que levam.
Ah! Mas o problema chegou à possibilidade de intervenção na vida política… e aqui já é perigoso! O controle não vem “deles”!
Junho 8, 2008 at 1:04 pm
Aposto que andaram a ler o Habermas:
http://afilosofia.no.sapo.pt/habermas1.htm
Junho 8, 2008 at 1:23 pm
Escrevam: quem os vai derrubar vão ser os camionistas…
Junho 8, 2008 at 3:15 pm
“Educação: 30 empresas das tecnologias de informação vão certificar competências dos alunos”
http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/40fae6ac853a2136ccb0a3.html
Junho 8, 2008 at 3:49 pm
PRECISAMOS DE GARRA COMO OS COLEGAS FRANCESES
Nós, professores de Portugal, república de bananas, com clima quase tropical, preciamos de sair do marasmo que caracteriza a “seneridade emburricada” de uma população com perfil de escravo. Precisamos, sobretudo, de inteligência e de acção!
Já em Março, aqui propusemos a utilização da caderneta como meio de transmissão da nossa mensagem aos encarregados de educação. Propôs-se também a elaboração de um documento sobre o estado da educação, para entregar aos EE, nas reuniões de avaliação do 2º Período.
Mas parece que o “medo” continua a ser um sentimento dominante nos professores.
Ponham os olhos no colegas franceses que decidiram utilizar as armas que têm para se fzer ouvir.
Decidiram utilizar as cadernetas dos alunos e aí escrever “Não somos responsáveis pelas consequências que as reformas postas em prática terão no futuro dos vossos filhos.”
Há quem caracterize a acção como um “ESCÂNDALO”!
No nosso caso, será que o escândalo maior não é o assistir impavidamente ao delapidar do principal sustento da democracia e do desenvolvimento: a educação?
Segue a notícia, extraída do Le Figaro:
mobilizacaoeunidadedosprofessores.blogspot.com/
Junho 8, 2008 at 6:50 pm
Nem estruturas sindicais nem partidárias conseguem mobilizar, estamos no século XXI. Temos consciência de como se chegou ao número de os 100.000 da marcha de Março passado, tal como refere o artigo- a expressão “de sofá” parece-me pejorativa, mas isso é um mero detalhe.
Como todos nós, mais velhos, mais novos e assim-assim temos as nossas “ideias fixas”- a peça “Onde Vamos Morar”, saída de cena há algumas semanas, dava bem conta deste traço de carácter de todos os seres humanos- por isso mesmo e salientando uma obsessão pessoal, só me faz urticária pensar que para a mobilização só constitui excepção à regra a euforia “bandeirística” do futebol, aqui não foi necessária a net nem o telemóvel. Fiz compras num enorme espaço desertificado durante o jogo e até as empregadas da caixa, obedecendo ao “marketing” ostentavam um boné com a bandeira nacional.