Duas notas prévias:

  • Como antigo aluno com razoável facilidade em Matemática, disciplina onde tinha consistentemente as melhores notas ao longo do ano, chocam-me tanto ou mais que na minha área académica de formação as falhas e carências evidentes dos nossos alunos nesta área do conhecimento, em especial nos seus passos mais básicos.
  • Por regra evito trazer para o blogue situações concretas do meu quotidiano escolar, por questões de privacidade e decoro. Nos raros casos que o faço procuro que a identidade dos envolvidos esteja protegida. Só que há situações que, pela sua natureza, me sinto quase obrigado a partilhá-las. Este é um desses acasos.

Hoje, na aula de Estudo Acompanhado, a minha colega forneceu aos alunos uma pequena ficha com apenas quatro das questões da prova de aferição para o 6º ano de Matemática deste ano. A turma é em média bastante fraquinha, por isso as questões em causa até foram das mais simples.

Uma delas era a seguinte:

Corrijam-me se eu estiver enganado, mas isto é algo que se resolvia antigamente aí pela 3ª classe, quase que de cabeça em pouco tempo. Se colocarmos cestos de laranjas e maçãs em vez dos cd’s reconhecemos com facilidade o tipo de problema.

Penso eu que é de resolução quase evidente. mesmo para alunos medianos.

Mas acredito que há pessoas que não terão inclinação para as contas. E até aceito que não saibam fazer ou falhem de um modo natural.

Para evitar isso, agora permite-se ou chega-se mesmo a incitar que os alunos em vez de abstraírem o raciocínio matemático, desenvolvam uma abordagem concreta, nomeadamente transformarem o problema em representações gráficas dos objectos.

Foi o que alguns alunos fizeram. Muitos alunos mesmo.

Outros alunos não responderam porque, disseram depois, não sabiam desenhar as caixas dos cd’s.

Entre as fichas que ajudei a recolher reparei que boa parte dos resultados certos se ficaram a dever aos alunos que indicaram as operações matemáticas envolvidas.

Muitos dos resultados errados ficaram a dever-se a quem começou a transformar este singelo “problema” numa sequência de desenhos de cd’s e caixas de cd’s.

Num dos casos foram desenhadas 85 caixas-miniatura e esse foi o resultado apresentado como bom. Em outro caso – de uma aluna até um pouco acima da média no contexto da turma – foi apresentada a solução de 200 caixas, embora com o bónus de as não ter tentado desenhar, mesmo se foi feito um esquema explicativo (?). Numa outra questão, completamente diversa (e em que o resultado certo era 90), o resultado dado também foi de 200.

Eu sei que posso estar a ceder à caricatura , que posso parecer falsamente saudosista (eu bem sei que muitos colegas meus também já tinham uma mortífera aversão às matemáticas e outras coisas objectivas) ou mesmo que posso parecer catastrofista.

Mas não me importo.

Porque isto é calamitoso e é o resultado de uma progressiva imbecilização das metodologias de abordagem aos conteúdos da Matemática, reduzidos a questões meramente concretas de onde parece querer afastar-se qualquer tipo de abstracção.

E agora ainda querem «generalizar» mais o ensino correspondente aos actuais dois primeiros ciclos do Ensino Básico.

Os custos vão ser imensos e não haverá nova tecnologia que sirva como exemplo salvador para um raciocínio matemático que não se ensinou desde os primeiros passos.