O que é interessante no facto de ter dinheiro é que se torna impossível conceber o que é não ter dinheiro. Eu andei em Cambridge sem pagar. Agora, o Governo quer introduzir uma propina de mil libras, que, é claro, depois aumentará… Outro dia tentei explicar a uma pessoa que se eu tivesse de pagar mil libras não teria lá andado. Ela disse-me para não ser ridícula. Não percebeu que quando uma pessoa não tem mil libras e não pensa sequer pedi-las a um banco, porque não quer ter dívidas. Nem acha que valha a pena gastá-las, porque de qualquer maneira não entende o que Cambridge é, ou que tipo de pessoas vão para lá. ou o que é um diploma… São camadas sobre camadas de não entender… O dinheiro é como o poder: corrompe. Já não me lembro de enfiar um cartão numa máquina e de ficar preocupada se vão sair cino libras ou não. Mas costumava ser o meu dia-a-dia. O problema de não ter dinheiro é pensar em dinheiro o tempo todo: como vamos conseguir fazer as compras, como vamos pagar as contas… O que recordo da minha infância, que de um modo geral foi feliz, é essa preocupação constante com o dinheiro. O que se julga ser a maior diferença entre as pessoas – como a raça, ou a religião – tem muitas vezes a ver como o dinheiro. (Zadie Smith, Actual, 31 de Maio de 2008, p. 16)

E é bem verdade que muito do que nos atormenta a vidinha são aquela(e)s que não se lembram, ou fazem por não se lembrar, que já houve tempos em que não tiveram dinheiro… ou poder… e desprezam os que ainda não o têm.

Sei lá, hoje acordei muito à esquerda…