Junho 2008


Eu acho que é repetida, mas isso agora não interessa nada…

Continuando a leitura do estudo de João Freire, e como se fossem possíveis mais surpresas (ainda estou longe da parte da bibliografia, que é um mimo), deparamos com estas passagens, recolhidas nas páginas 29 e 30, nas quais se demonstra de forma perfeitamente clara a falsidade de em Portugal se chegar demasiado depressa ao topo da carreira docente ou do modelo da estrutura da carreira ser «desviante ou anómalo em relação (…) ao panorama internacional mais próximo».

Ora se isto é admitido no próprio estudo que serviu de húmus ideológico e instrumental para a elaboração do Estatuto Ministerial de 2007, como é possível que durante meses a fio os responsáveis ministeriais tenham afirmado o contrário?

Afinal quais os limites para a hipocrisia e para a mehtira, dita «política», como se assim de uma mentira não se tratasse?

E como foi possível que quem teve acesso a este estudo tenha então ficado em silêncio?

E será que agora assim continuarão?

E em matéria de comunicação social? E de opinion-makers (Sousas e Tavaes à parte, mais os Monteiros e Madrinhas)?

A útil e ingénua credulidade continuará a tapar os olhinhos?

Já sendo possível ler todo o estudo feito por João Freire para o Ministério da Educação sobre a reorganização da carreira docente, destacam-se com clareza alguns aspectos que antes se adivinhavam, mas que por mais que se enunciassem e se afirmassem ser verdadeiros, careciam de demonstração para convencer os que insitem em manter-se cépticos.

Por outro lado, e aqui podem acusar-me de alguma obsessão, é para mim particularmente interessante reparar como as pessoas são capazes de moldar-se às situações e transformar antigas (?) convicções em novos credos.

As duas passagens que adiante se inserem, das páginas 12 e 13 do dito estudo são sintomáticas destas duas situações.

Na primeira, um histórico (ex?) anarquista de longo historial considera que a estrutura da carreira docente «única», criada pelo estatuto dos anos 90, apesar de «interessante», abriu portas a «ilusões igualitárias».

Na segunda é admitido que o principal problema dessa estrutura era o facto de os 3 últimos escalões da carreira representarem um encargo anual de 63% das despesas com o pessoal, facto que é considerado indesejável, em primeiro lugar, «para a despesa pública paga pelo contribuinte». O que explica desde logo o porquê da localização do garrote na progressão do antigo 7º para o 8º escalão.

(…)

Perante isto, resta saber se ainda alguém considera que a revisão do Estatuto da Carreira Docente teve algumas preocupações de revalorização da dita carreira, da promoção do mérito ou mesmo de qualquer esforço por equipará-la a outras carreiras públicas nacionais ou a carreiras docentes além-fronteiras. É que para desmentir isso eu tenho já preparadas outras passagens do dito estudo.

CDS-PP propõe ao Governo ensino obrigatório de primeiros socorros no 9º ano

Esta gente só pode mesmo estar a rir-se de nós ou então anda com uma enorme falta de ideias úteis.

Aguarda-se a proposta de reintrodução dos Lavores Femininos no currículo (para ambos os sexos e não só), porque afinal toda a população deve saber costurar um botão, levantar uma bainha ou a melhor maneira de limpar a humidade entre os azulejos e os mosaicos, não falando sequer nos melhores métodos para fazer doce de tomate (não esquecer a canela…) e mudar uma fralda (mesmo se com as descartáveis não é necessário aprender a manusear aquele traiçoeiro alfinete de ama).

Isto para não lembrarmos a evidente necessidade de uma indispensável Introdução à Gastronomia Tradicional como método de generalizar a toda a população hábitos saudáveis de alimentação e combate aos malefícios da fast-food.

Não façam batota e digam lá quem é aquele senhor que parece estar, com muita calma, a ensinar o Eric Clapton a tocar guitarra?

O Fafe tem obrigação de saber, claro… Acho que a este nem ele consegue botar defeito…

Como episódio puramente anedótico, vou apenas dizer que foi dele um dos meus primeiros LP’s.

Com os devidos agradecimentos à Ana pelo envio, aqui deixo as quatro páginas do «Balanço e Observações Finais» do estudo feito, por encomenda de Maria de Lurdes Rodrigues a João Freire, acerca da reorganização da carreira docente:

Chamo em especial a atenção para alguns aspectos a desenvolver futuramente, caso assim o tempo livre e a paciência o permitam:

  • A forma como o autor do estudo parece tê-lo conduzido a pensar no que agradaria ao(à) autor(a) da encomenda, nomeadamente quando afirma que apesar de «partir de uma visão própria da situação» se julgar que a mesmo é «no essencial, partilhada pelos responsáveis do ME, tal como foi entrevisto na reunião inicial havida».
  • O modo como, apesar de se anunciar como um estudo comparativo, se conclui que «o esforço analítico da comparaçâo da situação actual dos docentes com outras profissões portuguesas e com as homólogas carreiras em certos países também não pôde constituir, verdadeiramente, uma fundamentação para as propostas de reorganização do estatuto profissional dos professores. A informação disponível não permitiria, por certo ir mais longe». Maravilhoso!!! Afinal o estudo feito não serve para grande coisa e a reorganização do estatuto da carreira docente não se deve basear em nenhum tipo de análise comparativa com outras carreiras nacionais ou com a estruturação das carreiras docentes em outros países. Ao menos, a admissão clara do que já se sabia.
  • O modo como estas reflexões finais se desfiam e desfilam mais como um guião para a condução da negociação (mesmo quando não o assume) com os sindicatos e para a imposição das novas medidas aos docentes, fornecendo um aparato ideológico e instrumental para conduzir a acção do Ministério, do que como conclusões de um estudo académico ou «científico» sobre a realidade existente. No fundo, João Freire explica à sua discípula Maria de Lurdes Rodrigues, com alguma sofisticação e muito cinismo, como deve agir sobre uma realidade que se quer mudar, mesmo se nada do que foi objecto do estudo parece fundamentar o sentido dessa mudança.
  • A proposta, quase a finalizar, de colocar uma espécie de «espiões» do ME a controlar o funcionamento das Escolas, considerando-se para isso como mais adequados os elementos da Inspecção Geral da Educação.

Este documento é essencial, na minha opinião e não só, para compreendermos que o Estatuto da Carreira Docente não foi mudado por se percepcionar que o anterior estava mal ou porque a mudança visava compatibilizar a docência com outras carreiras da Função Pública ou a carreira docente em outros países (como tanto o ME anunciou), mas apenas porque a sua organização se revelava incómoda para o poder político. Por questões organizacionais, orçamentais mas, pelo que transpira de muitas das páginas deste estudo, principalmente por questões de controle do exercício da doc~encia, visto como uma profissão demasiado livre e horizontal.

No entanto, e apesar de afirmar que «o diagnóstico que foi feito da situação pode parecer menos rigoroso e fundamentado do que aquilo que seria desejável ou expectável», este estudo serviu claramente como a base de acção do ME durante o ano de 2006.

Que o seu autor e a executora tenham o lastro curricular e ideológico que lhes conhecemos só torna tudo isto mais lamentável e tortuoso.

Give me your hungry, your tired your poor Ill piss on em
Thats what the statue of bigotry says
Your poor huddled masses, lets club em to death
And get it over with and just dump em on the boulevard

Uma vénia para o mestre e para o último álbum dele que ainda comprei em vinil.

Marinho recebe 40 mil euros em 2011

Bastonário deliberou em pleno conselho geral uma regra que lhe garante receber seis ordenados no final do mandato, em 2011, ‘de uma vez só’, descrito como um subsídio de ‘reintegração’ na profissão.
António Marinho e Pinto chegou e cumpriu. Ao décimo dia em que exercia o cargo de bastonário da Ordem dos Advogados (OA), a 18 de Janeiro de 2008, decidiu instituir uma remuneração fixa mensal para o cargo pelo qual tinha sido eleito em Novembro de 2007. O valor? Equivalente ao do procurador-geral da República, cerca de 6 mil euros.
Mas não ficou por aqui e levou a votação, no primeiro Conselho Geral a que presidiu, uma cláusula que obriga a que “aquando a cessação de funções exercidas no regime de exclusividade de bastonário, este receberá o equivalente a metade da compensação anual referida”.

Ou seja, em 2011, quando deixar o cargo de bastonário dos 25 mil advogados de Portugal, Marinho e Pinto, eleito pela larga maioria de uma advocacia “deprimida e não de luxo”, conforme ele próprio explicou em plena fase eleitoral, irá receber quase 40 mil euros, de uma vez só, definido como um subsídio de reintegração na função de advogado.

A vidinha é a vidinha, meus amigos… Coerências à parte…

Começo a encarar com uma inusitada ironia e condescendência as prosas domingueiras de Daniel Sampaio. Houve o período em que as li para discordar, um período em que pura e simplesmente as deixei de ler por enfado e agora estou no período de lê-las para ver até que ponto o autor consegue mudar de posição, não mudando, ou melhor, como consegue não mudar de posição, mudando aparentemente de discurso. E vice-versa. Ou vice-versa. Ou antes pelo contrário.

Esta semana a crónica chama-se «Sem sentido» (desculpem-me mas o meu scanner está já em período estival e corta-me parte da página pelo que o título ficou de fora) e destina-se a demonstrar como «é  estéril ou desajustada» a discussão em torno dos exames e do seu eventual «facilitismo».

Daniel Sampaio critica o ME por reagir com «acinte» às críticas e critica os críticos por desvalorizarem as estatísticas que o ME exibe. Afiram DS que «é tempo de Portugal poder apresentar dados numéricos válidos sobre os diversos sectores de actividade».

Ora o que os críticos das estatísticas educacionais mais apontam é exactamente a sua falta de rigor. por se subordinarem os critérios técnicos da recolha de dados aos interesses políticos. O que não é exclusivo da Educação, tendo sido nos últimos anos visível em matérias como o apuramento dos dados sobre o nível de vida, défice das contas públicas, inflacção e desemprego. Ou seja, em matérias com evidentes repercussões políticas.

Mas depois, ao desenvolver o seu raciocínio, DS acaba por admitir que se calhar, talvez, quiçá, porventura, provavelmente e quase com toda a certeza, por cá as estatísticas não são assim muito fiáveis, atendendo ao modo como se registam as ocorrências, como as mesmas são transmitidas e depois trabalhados os dados numéricos.

Em suma, dá razão aos críticos das estatísticas.

E culmina afirmando que a melhor maneira de sabermos como isto está a correr é esperar pelas «comparações internacionais, em testes validados para alunos em condições semelhantes», que até ao momento não têm corrido nada bem para Portugal.

Pois…

Mas não é isso que os críticos do ME, aqueles que a senhora Ministra chama «pessimistas de serviço», estão cansados de repetir?

Que os exames e estatísticas de produção interna e para uso propagandístico estão longe de ser (con)fiáveis?

O que não tem sentido nesta prosa de Daniel Sampaio é ele não assumir claramente aquilo que defende. Ou se apenas acha que devemos esperar pelos testes feitos lá fora para sabermos se as coisas estão a correr bem ou mal.

Mas nesse caso está a admitir, de forma quase explícita, que os nossos instrumentos internos de avaliação e monitorização do sistema educativo de pouco servem.

Não seria melhor ser claro a esse respeito?

Lá por fora, em especial no mundo anglo-saxónico, é muito habitual que jornalistas de carreira abracem certas causas políticas e apoiem abertamente determinados candidatos e políticos no activo, muitas vezes colaborando em campanhas e funcionando como biógrafo(a)s de personalidades tidas como notáveis. Na maior parte dos casos, não se trata de jornalistas no activo com cargos em órgãos directamente dependentes do poder político.

Entre nós essa prática é menos comum, tanto por escassez de personagens notáveis como pelos equívocos que se levantam, num meio tão pequeno, sobre eventuais promiscuidades político-jornalísticas.

Hoje pela manhã Eduarda Maio, subdirectora para a Informação (desde 2003) da estação pública Antena 1 apareceu na SIC-Notícias a apresentar a biografia que realizou para a Esfera dos Livros sobre o actual Primeiro-Ministro, José Sócrates, que critérios editoriais, de marketing ou outros, consideraram designar como «o menino de ouro do PS».

Confesso que não li ainda o livro e acho difícil que venha a lê-lo, tanto pelo desinteresse da matéria-prima, quanto pelo preço disparatado do volume atendendo ao aspecto anterior. Pelo que percebo é uma daquelas biografias «autorizadas» em que o visado colabora sem contrariedades de maior e mantém relações amistosas com a produção e autoria da dita.

Ora a mim, como ponto prévio, colocam-se-me algumas dúvidas sobre a conveniência da subdirectora para a Informação de uma estação radiofónica pública, para mais sem antecedentes em matéria de produção biográfica ou outra similar, fazer a biografia do Primeiro-Ministro em exercício, para mais uma biografia pacífica e razoavelmente panegírica.

Estarei a ser demasiado picuínhas?

Estarei a duvidar da lisura de processos e da ética profissional da jornalista envolvida, como certamente afirmarão so que acham tudo isto o mais normal possível?

Quer-me parecer que não. Quer-me apenas parecer que à mulher de César não basta…

O tema não é novo e já motivou prosas em diversos espaços de debate sobre Educação, nomeadamente no Inquietações Pedagógicas e no ProfAvaliação do Ramiro Marques, tendo estes textos depois sido citados em outros blogues.

Trata-se do estudo coordenado por João Freire para o Ministério da Educação, concluído em Dezembro de 2005, sobre a desejada reorganização da carreira docente. Apesar de algumas promessas de divulgação e mesmo publicação, a boa verdade é que pouca gente ainda o terá visto, excepto alguns afortunados e, a pouco e pouco, alguns amigos (e amigos de amigos) desses afortunados.

Finalmente, após o conhecimento parcial de alguns excertos, vou ter finalmente acesso a um exemplar inteirinho desse estudo que Maria de Lurdes Rodrigues diligentemente encomendou ao seu antigo mentor e orientador de tese de mestrado.

O estudo é tanto mais interessante quanto, para além do que lá se escreve e revela sobre a arqueologia do novo ECD, significa de cambalhota ideológica do seu autor e da autora da encomenda. Claro que só os burros não mudam de ideias, mas também diz a sabedoria popular que asno não muito jovem tem dificuldade em assimilar novas linguagens, pelo que…

O assunto, até pelo seu particular interesse, merecerá a devida atenção durante a próxima semana.

No próximo dia 2 de Julho (Quarta-feira), pelas 18h30, terá lugar, no Centro Nacional de Cultura (CNC) em Lisboa, um debate intitulado “Como traduzir um ‘Não’ irlandês em linguagem europeia?“, organizado pela equipa de Lisboa do magazine europeu CaféBabel Internacional.

Presenças confirmadas

- Dr. Paulo Sande – Director Gab. do Parlamento Europeu em Portugal

- Prof. Medeiros Ferreira – Professor Universitário (Univ. Nova Lisboa)

- Teresa de Sousa – Jornalista (Público, Antena 1)

- Miguel Duarte – Movimento Liberal Social/ Referendum (www.europeanreferendum.eu)

Os oradores (supramencionados) terão como moderador Paulo Barcelos e pretende-se uma exposição informal de opiniões, debatendo as razões que conduziram a União Europeia à situação actual no que se refere ao Tratado de Lisboa, bem como suas implicações e hipóteses de caminhos a seguir.

Como tópicos de debate, encontram-se as questões relativas ao que está por detrás do “não” irlandês, o que distingue esta recusa das da França e da Holanda, bem como aspectos relacionados com a adequação do tipo e formato da informação que chega aos cidadãos europeus, o futuro depois deste referendo e as várias opções de caminhos a seguir por parte da União Europeia.

Nota: O Centro Nacional de Cultura encontra-se no Chiado (R. António Maria Cardoso, n.º 68), utilizando o Metro Baixa-Chiado, tomando a saída “Largo Camões” e virando pela rua da linha do eléctrico, em direcção ao Teatro São Carlos.

Shyness is nice and
Shyness can stop you
From doing all the things in life
You’d like to

Shyness is nice and
Shyness can stop you
From doing all the things in life
You’d like to

So, if there’s something you’d like to try
If there’s something you’d like to try
Ask me I wont say no, how could I?

Coyness is nice, and
Coyness can stop you
From saying all the things in
Life you’d like to

So, if there’s something you’d like to try
If there’s something you’d like to try
Ask me I wont say no, how could I?

Este é o mundo onde eu vivo e trabalho, não um qualquer mundo de fantasia criado na cabeça de alguns teóricos de gabinete, que acham que tudo se faz por decreto.

Da 5 de Outubro mandam transferir competências em Setembro. No terreno, as autarquias da Área Metropolitana de Lisboa e, especificamente, as da Península de Setúbal, recusam-se a recebê-las. No meio do fogo cruzado, as Escolas, os alunos, os funcionários, os professores.

Ao reler algumas passagens do livro Imperial Life in the Emerald City sobre a vida na Zona Verde de Bagdad nos meses após a invasão americana do Iraque e sobre o completo desfasamento entre a vida nessa espécie de oásis e o que se passava na cidade cada vez mais caótica em seu redor, encontro muitos pontos de contacto entre o que se passa na cabeça e nos gabinetes do ME e o mundo real em que a maior parte de nós vive.

Logo no início descreve-se como, perante um atentado que matou dezenas de pessoas numa mesquita a dez minutos da dita Zona Verde, ao jantar, os burocratas enviados por Washington afirmavam que não tinham tido tempo de ver os noticiários porque estavam a preparar um óptimo projecto de Constituição para o Iraque, que iria servir de modelo para todo o Médio Oriente.

Azar nosso, os que vivemos do lado «de fora» das bolhas da irrealidade legislativa.

A notícia, com declarações de autarcas de vários concelhos da Margem Sul e do presidente da Fersap, é do jornal Sem Mais, distribuído com o Expresso aos fins de semana.

A quem se preocupa com a qualidade do Ensino em Portugal, em particular, no que concerne o ensino das línguas estrangeiras e da língua portuguesa.

Somos professores de Inglês, Francês e Português do 3º ciclo do Ensino Básico e do Ensino Secundário e estamos verdadeiramente preocupados com a falta de interesse e cuidado da parte do ME relativamente ao ensino das línguas estrangeiras e da língua materna, sobretudo quando vivemos integrados numa comunidade multicultural e plurilingue, como é a União Europeia, não falando sequer da incontornável globalização. Estamos, pois, convictos de que muitos professores de língua estrangeira partilham da nossa apreensão e angústia. Sentimos que, apesar de constatarmos no contexto europeu um grande investimento nas políticas de ensino das línguas, nomeadamente, em torno do trabalho notável desenvolvido pelo Conselho da Europa na uniformização de destas mesmas políticas, em Portugal ocorre o inverso, sendo que, mais uma vez, o nosso país é ultrapassado pela maioria dos 25 países da União Europeia no que respeita ao domínio de línguas estrangeiras.

O perfil do aluno no final do 3º ciclo do ensino básico e no final do ensino secundário preconiza que os nossos aprendentes sejam falantes capazes e autónomos em duas línguas, todavia, ironicamente, a gestão das horas para o ensino das línguas foi dramaticamente reduzida nos últimos anos, ao que acresce ainda o facto de, no ensino secundário, já não ser permitido o desdobramento das turmas com mais de 20 alunos, facto que, a efectuar-se, traria inúmeras vantagens no que toca à apropriação de competências, possibilitando aos alunos desenvolver conhecimentos que lhes permitam exprimir-se desbloqueadamente, quer por escrito, quer oralmente.

Colocamos as seguintes questões para Vossa informação e reflexão:

1. Não obstante a aposta deste Governo na introdução do Inglês no 1º ciclo, que nos levará a concluir que o M.E. reconhece um estatuto importante a esta língua, a carga horária para o ensino de uma língua estrangeira foi drasticamente reduzida nos restantes níveis de ensino, a saber:

· 3º ciclo do Ensino Básico: as escolas têm “autonomia” para distribuir 8 blocos de 90 minutos entre a Língua Estrangeira I e Língua Estrangeira II nos três anos de ensino. A esmagadora maioria das escolas optou pela seguinte distribuição:

7º ano - Inglês 1,5; Francês 1,5;

8º ano – Inglês 1; Francês 1,5;

9º ano – Inglês 1,5; Francês 1 (1=90 minutos; 0,5=45 minutos)

Como é que os nossos alunos conseguem aprender uma língua (algo que exige um trabalho contínuo, persistente, intencional e eficaz) numa única aula de 90 minutos por semana? E que dizer também da restante carga horária de uma aula de 90 minutos e outra de 45minutos? Esta última acaba por ser, na prática, cerca de meia hora, onde, eventualmente se corrigem alguns exercícios de leitura e se marcam outros, para tornar o treino mais continuado, já que as escassas aulas não o facilitam!

As disciplinas da área das Ciências têm 50% das suas aulas em regime de desdobramento para as práticas experimentais. Por que razão não são consideradas as línguas estrangeiras com o mesmo princípio? Por muito esforço que o professor faça e malabarismos a que recorra, é extremamente difícil colocar 28 ou 30 alunos a interagir oralmente — de forma igual — em tão curtos espaços de tempo, pelo que consideramos premente o desdobramento das turmas do ensino básico no ensino das línguas!

· Ensino Secundário: desapareceu dos currículos a possibilidade de frequentar uma segunda língua estrangeira (excepção Curso científico-humanístico de Línguas e Humanidades), assim como a frequência da língua estrangeira no 12º ano. Neste novo ensino secundário desapareceu dos currículos a disciplina de Técnicas de Tradução, que era muito útil, uma vez que no ensino secundário nunca se apostou numa vertente mais específica como o Inglês técnico, por exemplo.

· Ensino Profissional e Cursos de Educação e Formação (CEF): também nestes níveis a carga horária é manifestamente insuficiente e a possibilidade do aluno ter uma segunda língua é nula. Faria mais sentido a oferta do Inglês numa vertente mais específica, como o Inglês técnico, por exemplo.

· Cursos de Educação e Formação de Adultos (EFA): a aposta do Governo na qualificação de adultos também fica aquém dos objectivos a atingir uma vez que nos cursos EFA do nível do ensino básico oferecem apenas 100 horas para a Língua Estrangeira e no Ensino Secundário nem está contemplado o ensino de uma Língua Estrangeira.

Como desenvolver de forma cabal as competências linguísticas desta forma? Como é possível nestas condições cumprir efectivamente o que a iniciativa Novas Oportunidades propõe? — A Iniciativa Novas Oportunidades assenta numa base clara: o nível secundário é o objectivo de referência para a qualificação dos nossos jovens e adultos. É este hoje o patamar mínimo para dotar os cidadãos das competências essenciais à moderna economia do conhecimento em que vivemos. É este hoje o patamar mínimo para que possamos adquirir e reter, ao longo da vida, novas competências (José Sócrates, sítio das Novas Oportunidades). “Competências essenciais à moderna economia do conhecimento” sem a aprendizagem do Inglês e/ou outras línguas estrangeiras no mundo de hoje?

2. A Portaria 1322/2007 veio impor no Ensino Secundário (Artigo 9º) momentos formais de avaliação da oralidade com um peso de 30% no cálculo da classificação a atribuir em cada momento formal de avaliação, no caso das línguas estrangeiras, e um peso de 25% na disciplina de Português. As escolas debatem-se agora com um problema sério de gestão de tempo. Passamos a explicar:

· Tendo em conta que as Provas da Expressão Oral do GAVE (Língua Estrangeira) têm a duração de cerca de 20 minutos, se os professores aplicarem estes instrumentos do GAVE como modelo aprovado do ME nas suas aulas, como fazer uma avaliação séria e consistente da oralidade em turmas com 28 ou 30 alunos? Com esta duração, o professor poderá apenas avaliar cerca de 5 alunos por cada aula de 90 min.! E, mesmo que se faça essa avaliação com alunos aos pares, como também sugere o GAVE, ou em metade do tempo são necessárias 3 a 4 aulas para avaliar uma turma, num único momento de avaliação!

· Tendo trocado impressões com colegas de norte a sul, todos comentam sobre a dificuldade em gerir as aulas entre a leccionação de conteúdos e avaliação dos mesmos. Damos um exemplo concreto: uma turma de 11º ano com apenas 16 alunos. Para fazer os tais momentos de avaliação formal da oralidade no 1º período, foram necessárias quase 4 aulas de 90 minutos – o que corresponde a 2 semanas de aulas. O mesmo repetiu-se no 2º período. Duas semanas de aulas usadas para avaliar, não ensinar. Duas semanas para um único momento de avaliação formal da oralidade!

Como podemos avaliar o que não é leccionado? Com apenas 2 aulas semanais (90 minutos cada), e não falando do desperdício de tempo que temos de suportar com dificuldades específicas de cada aluno, momentos de indisciplina, distracção, problemas da turma a resolver, começamos a constatar que o tempo para ensinar de facto é fortemente espartilhado por imposições legais. Daí a necessidade urgente de o Ministério da Educação voltar a implementar o desdobramento das turmas no ensino da língua estrangeira e da língua materna, com vista a um melhor ensino e, consequentemente, melhores resultados escolares.

Para a verdadeira promoção do sucesso educativo e a um efectivo combate ao abandono escolar entendemos que os recursos humanos são a chave necessária. Melhorar as condições para o processo ensino-aprendizagem é a questão fulcral para uma Escola melhor, mais eficaz, porque ensina, mais justa, porque avalia conscientemente o que ensinou de facto e mais humana, porque atende a problemas individuais de cada discente. Enfim, será um importante passo para uma Escola de verdadeiro sucesso!

Barcelinhos, 6 de Maio de 2008

O Departamento de Línguas da

Escola Secundária/3 de Barcelinhos (403787) – Barcelos

*Documento redigido e aprovado por unanimidade em reunião no passado dia 6 de Maio de 2008.

Ainda muito nos primórdios e a precisar de algum trabalho e enriquecimento documental e de ligações para sites, nacionais e internacionais, relevantes quanto à acção do Conselho de Escolas.

Quanto à questão do endereço, só mesmo eu acharei estranho que esteja alojado no site do Portal Gaia Sul.

Peça interessante de Carla Tomás no Expresso de hoje, porque realmente isto deu muito nas vistas, de subitamente termos o milagre da subtracção das negativas e multiplicação do sucesso nas provas de aferição de Matemática.

Agora com os exames do 9º e 12º anos parece que existe alguma perturbação quanto às estratégias de classificação e são desencontrados os boatos quanto aos níveis de (in)sucesso.

Afirmar como faz o presidente do GAVE que a melhoria se deve ao acréscimo de meia hora para a realização dos exames é esquecer que isso não se passou com as provas de aferição. É apenas usar argumentos sem sentido e inaplicáveis às situações em causa.

Quanto à polémica relativamente aos critérios de classificação das provas e exames, só quem passou por isso sabe como os critérios oficiais publicados no site do GAVE são uma coisa e as indicações que chegam às Unidades de Aferição e aos professores classificadores dos exames são outra razoavelmente diversa. E nem ao fim de alguns anos deixou de ser um incompreensível work in progress.

Mas toda esta discussão teve um efeito altamente positivo que é comparar as diferenças de atitude entre ME e professores nesta matéria: enquanto o primeiro se satisfaz com a construção estatística do sucesso, os segundos preferem a construção de um sucesso real, baseado num bom desempenho assente em aprendizagens realizadas e consolidadas.

O blogue que publicou a comparação entre as provas de Matemática que a revista Sábado usou e a que eu me referi aqui afinal foi o Tonibler que, como todos os que se sentem por serem filhos de boa gente, decidiu reagir em força e em jeito.

E aqui a versão enquanto banda sonora (abafada) para o trailer do genial Trainspotting.

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