Uma parte significativa da entrevista dada por Marçal Grilo ao Público/Rádio Renascença/RTP2 passou, como não poderia deixar de ser, pela Educação. Como está chuvoso e não me apeteceu ir comprar o jornal e a edição online não tem link permanente, fica por aqui a transcrição anotada de algumas partes.
Nota-se que MG descola ligeiramente deste Governo, pelo menos mais do que até agora tinha feito. A isso não deve ser estranha a cerrada metralha lançada sem dó nem piedade pela actual equipa ministerial (para justificar as actuais medidas) sobre a década anterior a este Governo em matéria de Educação, o que acaba por varrer o mandato de MG na 5 de Outubro. E como quem não se sente…
Mas comecemos pela parte em que é questionado sobre a permanente instabilidade reformista no sector da Educação, na sequência das críticas de Nuno Crato à oscilação dos critérios de elaboração de exames e provas de aferição:
Mas não é esse o problema das mexidas na educação?
Aí estou com os professores, que se queixam muito das alterações sucessivas. Precisamos de serenidade e bom senso, porque as grandes guerras já não se ganham. Há um tempo para dialogar, decidir, unir, para separar, fazer a paz e a guerra. Neste momento é tempo para dialogar.
Depois desta declaração poderíamos dar-nos por satisfeitos por alguém que, durante quase três anos deu um apoio tácito a políticas praticamente opostas às que desenvolveu enquanto ministro, declarar por fim que a oposição dos professores ao método da «reforma permanente» na Educação não é conservadorismo ou «atavismo» mas em muitos casos mero sinal de bom sensso. Mas há mais:
Fez sentido o tempo da guerra?
Quando se tem uma grande vontade de atingir um determinado objectivo, tem de se ser muito determinado e mobilizar os meios necessários para atingir o objectivo. É como numa operação militar.
Portanto, estamos a falar da avaliação dos professores.
Isto não se aplica só à educação, é para quando se tem uma política pública para atingir um determinado objectivo. Quando esse objectivo leva a que se criem condições tão negativas, o objectivo passa a ser secundário em relação a ter o sistema a funcionar minimamente. Se queremos reformas na área da saúde ou educação, não podemos separar-nos completamente dos protagonistas que estão no terreno, porque são eles que vão dar corpo ao que se pretende fazer.
Temos um conjunto de professores que fazem todos os dias o milagre de fazer funcionar muito bem as escolas públicas e privadas. Para que esses professores mantenham a sua capacidade e empenho no que fazem têm que ter estabilidade.
Um estudo feito há uns anos sobre o stress dos professores mostrou que um dos factores é a contínua mudança de regras, obrigando a uma sobrecarga de preenchimento de papéis. A certa altura, têm dificuldade em acomodar essas mudanças e as escolas têm de ser verdadeiras organizações. Há ainda um número significativo de escolas sem liderança, equipa formada, objectivos definidos e meios mobilizados. As escolas vão ter de ser autónomas, por definição.
O que atrás fica dito é algo óbvio, tão óbvio, que não se percebe exactamente no que terá andado o ME a pensar este tempo todo que conseguiria sem o envolvimento da maioria dos docentes. Os estudos existentes sobre o sucesso das reformas na área da Educação apontam todos no mesmo sentido: sem a colaboração activa dos executores, quase todas as reformas fracassam. Ou se seguem adiante, seguem apenas formalmente, acabando esvaziadas do que deveria ser essencial. E, com mais ou menos adesivos, é o que se descobrirá no rescaldo do mandato desta tríade ministerial que parece ter assumido que governava por decreto e com base nos atropelos legais e intimidação disciplinar.
E Marçal Grilo vai mais longe e afirma mesmo que, a certa altura o ME ficou sem aliados nas Escolas.
E o que faltou nestas reformas? Os meios ou os aliados?
Os aliados. A certa altura, não havia aliados. A questão dos aliados é absolutamente fundamental.
Está a falar dos professores.
Quando no Governo, há dez anos, travámos a batalha pelas propinas, não era possível ter, ao mesmo tempo, uma “guerra das propinas” e uma guerra com os professores. Em termos políticos, temos de definir o objectivo a atingir, os meios de que dispomos e os aliados.
Se o poder político tem toda a gente contra, pode ter a maior das razões nas políticas que quer fazer, mas fica completamente isolado e a certa altura cai. E isto tem um aspecto muito negativo: quando se volta, não se fica no mesmo ponto. Em vez de um passo à frente, deram-se dois atrás.
Mas Marçal Grilo exagera. Albino Almeida e parte da Confap estiveram sempre ao lado da «sua» Ministra. Assim como a equipa dirigente do expresso e mais algumas cúpulas no mundo mediático, mais o Miguel Sousa Tavares e uns quantos opinadores sempre dados a enfunarem as velas quando sentem vento a soprar.
E agora a questão da avaliação, em que Marçal Grilo deixa duas ideias curiosas sobre o entendimento ME/sindicatos e as suas consequências.
Foi o que aconteceu na avaliação dos professores?
O entendimento que resultou da última fase de diálogo intenso entre o ministério e as organizações sindicais salvou o essencial, que é a existência de um sistema de avaliação dos professores. Salvar a ideia da avaliação pareceu-me absolutamente essencial para estabilizar o sistema.
Ou seja, o entendimento foi uma absoluta necessidade das duas partes institucionais em confronto. Quanto ás suas consequências, Marçal Grilo parece crer que apenas se salvou a «ideia da avaliação».
Ele é mais céptico do que eu – pois acho que a ideia de avaliação sempre existiu – e ao mesmo tempo parece que interiorizou a concepção de que o ECD de 1998, por ele negociado e aprovado, não contemplava um sistema de avaliação dos professores.
Maio 25, 2008 at 12:52 pm
Claro que ele sabe que o modelo de 1998 não avaliou nada. Todos corridos a Satisfaz.
Maio 25, 2008 at 12:52 pm
Nem este vai avaliar.
Maio 25, 2008 at 12:56 pm
Por mim o anterior modelo satisfazia, bastava regulamentar o artigo sobre o Bom e Muito Bom.
Este modelo é uma Aberração, e continuará a ser sempre, e nem a comissão paritária- que só lá está a ver…- mada conseguirá fazer. Deram -lhes à PS uma comissão paritária para nada poderem fazer.
Agora bem podem reclamar. O modelo de avaliação aberrante e injusto foi instituido e aplicado, assim como a nova gestão.
Maio 25, 2008 at 12:57 pm
* nada
Maio 25, 2008 at 1:00 pm
O caro amigo Marçal Grilo devia era ter-se preocupado com a Ballet Gulbenkian, que a sua colega do CA da FCG destruiu. Já agora, e porque acabaram com o BG supostamente pelo dinheiro (e esse pretróleo todo vai todo para os honorários das senhoras e dos senhores do CA mais os concertos quase privados com que se brindam?), ainda dão aqueles milhõezitos de sponsoring à ENO?
Grande Golpe!
Um quadro superior da GALP, admitido em 2002, saiu com uma indemnização de 290.000 euros, em 2004.
Tinha entrado na GALP pela mão de António Mexia e saiu de lá para a REFER, quando Mexia passou a ser Ministro das O.P. e Transportes…
O filho de Miguel Horta e Costa recém licenciado, entrou para lá com 28 anos e a receber, desde logo 6600 euros mensais.
http://criticademusica.blogspot.com/
Maio 25, 2008 at 1:13 pm
Mais…no anterior modelo, se mudássemos de escalão em Outubro e estivéssemos numa nova escola, avaliavam-nos com base naquilo que fizemos nas escolas anteriores. Comigo foi assim das duas vezes que apresentei o relatório, isto enquanto professor do quadro.
Maio 25, 2008 at 1:49 pm
DA,
No meu caso, o relatório foi enviado para a escola onde eu tinha trabalhado.
Maio 25, 2008 at 1:53 pm
“Ele é mais céptico do que eu – pois acho que a ideia de avaliação sempre existiu – e ao mesmo tempo parece que interiorizou a concepção de que o ECD de 1998, por ele negociado e aprovado, não contemplava um sistema de avaliação dos professores.”
De facto, foi com MG que foi negociado e aprovado o ECD anterior. Volvidos 8 anos, com um governo do mesmo partido político, esse ECD é revogado e entra em vigor um outro, com MLR com uma filosofia quanto ao exercício da profissão e reconhecimento totalmente oposta ao anterior, e ele nada diz sobre o assunto central. É como lhe chamassem incompetente. Mas como ele até saltou da 5 de Outubro direitinho para o conselho de administração da F. C. Gulbenkian, ficou com “uma branca terrível”.
Todas as outras matérias, nomeadamente a avaliação, estavam consagradas no próprio ECD. O que significa, que tudo o que tacitamente tem proferido em abono de MLR, é o reconhecimento da (sua) total incompetência á frente do ME e como é hábito no “saloio” Portugal, lhe valeu a “taluda” – pertencer ao conselho de administração da F. C. Gulbenkian.
Assim vai o (des)país…
Maio 25, 2008 at 2:09 pm
Porque a visibilidade no execício da profissão o obriga e os professores são muito “sacanas uns para os outros”,nenhum professor merecia “não satisfaz”.
Os que tentaram e que iriam obter “Não Satisfaz” (como J.Sócrates, MLR e o Valter, Pacheco Pereira e outros da praça) sairam de imediato do Ensino isto porque trabalhar diariamente com dezenas de jovens no nosso sistema de Ensino com as exigências a que todos sempre estamos sujeitos na carreira, pessimamente mal pagos, não admite “Não Satisfaz”.
O Bom e o Muito Bom nunca foi regulamentado por o ME admitir que não tinha disponibilidade financeira para ser implementada a medida.Todos o sabemos.
Maio 25, 2008 at 2:16 pm
esta entrevista de Eduardo Lourenço ao DN, tb é interessante
“O jogo político deixou de ter qualquer componente, digamos, de um dinamismo suficiente para que nós nos interessemos por este tipo de luta. A paisagem neste capítulo é muito desertificada, [tal] como se vive em regime único. A superioridade política, neste momento, do PS, é tal que… Pode ser também uma aparência. Mas PSD e PS não são opositores, numa oposição agressiva e dinâmica, como foi em tempos. São duas alternativas à mesma coisa. Isso arrasta uma dramatização menor da cena nacional e quem está lá fora, realmente, não se pode interessar por uma espécie de drama que não existe.”
http://dn.sapo.pt/2008/05/25/nacional/ps_e_sao_duas_alternativas_a_mesma_c.html
Maio 25, 2008 at 2:28 pm
Lembro que todos os candidatos do PSD prescrevem a privatização do ensino.
Seria, digo eu, um bom tema para discussão: que alternativa(s)?
Maio 25, 2008 at 2:45 pm
Maio 25, 2008 at 2:47 pm
Maio 25, 2008 at 2:49 pm
Não só do ensino mas também da saúde.
Os portugueses, que entendam bem o que está em jogo e pelo menos não votem nestas alternâncias na mesma ideia e práticas políticas. Mudar para ter a mesma politica é melhor emigrar…
Maio 25, 2008 at 3:03 pm
E não se popde privatizar também a prostituição?
É que sim os politicos podiam participar de uma formas mais activa e sistemática.
Maio 25, 2008 at 3:32 pm
Não sou nem nunca fui contra a avaliação do que quer que seja. Porém, este novo modelo de avaliação dos docentes, afinal, avalia o quê? Se este ano lectivo estivesse sujeita às famosas fichas estaria “chumbada” por “falta de comparência”. Bom, este chumbo seria bom para o estado, já o dos alunos, nem pensar… Sai muito caro… Mas, e no próximo ano?!!! Terei condições para ser avaliada/avaliar?!!!
Maio 25, 2008 at 3:51 pm
No livro de Dulce Neto, “Difícil é sentá-los – A educação de Marçal Grilo”, de 2002, em que a autora entrevista o antigo Ministro da Educação, MG mostra-se reformista. “Não tenho nada a ideia de que é preciso destruir tudo e fazer tudo de novo! Tenho uma ideia reformista da vida, que é: vamos dando passos.” E a autora, na mesma página 58, diz: “Preocupou-se sempre com a boa imagem dos professores, com a valorização do seu estatuto.”
Como se pode ver, há pessoas com ideias! E a autora refere-o como liberal! Este “liberal” para Ministro da Educação, já! (Juro que nunca mais digo uma frase destas, mas agora não resisti!).
Gostei de anahenriques (9).
Maio 25, 2008 at 4:14 pm
O Paulo Guinote escreveu um artigo publicado no Público sobre (esta) avaliação brilhante.
Está (lá) tudo refletido.
Guardei-o. Mas não sei onde exactamente.
Alguém, ou o próprio Paulo, poderia colocá-lo de novo aqui no Umbigo para todos (o)lerem ou relerem.
Obrigada.
Maio 25, 2008 at 4:15 pm
Reafirmo que Marçal Grilo foi o ministro da educação mais cnhecedor, mais competente e mais respeitador dos professores. Tinha uma visão gradualista da política e foi muito sensato na forma como introduziu mudanças. Tinha em grande conta a estabilidade nas escolas. Foi o oposto de MLR.
Ramiro
Maio 25, 2008 at 4:15 pm
reflectido
Maio 25, 2008 at 4:21 pm
ramiro marques (19),
Então porque tem apoiado publicamente as políticas de MLR desde início?
não me quer explicar esta total falta de coerência?
O lugar na F.C. Gulbenkian está garantido. E uma fantastica reforma também. Ninguém publicamente conhecia MG antes de este ter estado no ME.
Aliás como deve saber, MG, sempre foi visita de casa de R. Carneiro. Daí a sua ida para M.E.
Gostaria que o Ramiro se pronunciasse sobre a questão que levanto.
Obrigada.
Maio 25, 2008 at 4:45 pm
Paulo, pegando nas tuas palavras:
“Ou, se seguem adiante, seguem apenas formalmente, acabando esvaziadas do que deveria ser essencial. E, com mais ou menos adesivos, é o que se descobrirá no rescaldo do mandato desta tríade ministerial que parece ter assumido que governava por decreto e com base nos atropelos legais e intimidação disciplinar.”
Colocando-me no lugar do governo, pergunto:
- Achas que eles irão, em ano de eleições, colocar em práctica “o mesmo” modelo de avaliação que levou 100.000 para as ruas este ano???
É que não sei, cheira-me que antes do início do próximo ano lectivo vamos ter surpresas…
Ou estou a precisar de “Vicks Vapo-Spray”?
Maio 25, 2008 at 4:57 pm
MG, desculpem a minha franqueza, foi o melhor ministro da Educação, depois do 25 de Abril, porque percebeu, desde início do seu mandato, que quanto mais se mexia na Educação, mais ela se afundava.
Numa conferência realizada no Porto, há algum tempo atrás, onde estive presente, ele afirmou peremptoriamente, que o grande probelema na educação era a ausência de um mínimo de ESTABILIDADE. Lembro-me na altura que ele fez uma comparação da situação vivida no ME com a situação do Benfica.
Visitou uma vez a minha Escola e assistiu pessoalmente à realização de um Conselho Pedagógico, quando um colega lhe perguntou qual a reforma que mais gostaria de implementar no ME. Ele respondeu “NENHUMA”
Maio 25, 2008 at 5:03 pm
EM[23] ler “problema” em vez de “probelema”.