As manifestações de ontem, convocadas pela Plataforma Sindical, tiveram aquilo que se pode considerar «uma escassa adesão», em especial no Porto e em Lisboa.

As razões para tal escassez poderão ser debatidas a breve prazo por aqui, se isso não significar meramente o arremesso de pedradas entre facções mais aguerridas de professores pró e anti-sindicatos que temos. Embora as coisas possam e devam ser discutidas sem preconceitos e tabus, com a necessária clareza no sentido de encontrar – de novo – pontos de união entre todos.

Como balanço das iniciativas de ontem fica um sabor amargo aos organizadores, que subitamente parecem ter perdido – sem perceber o como e o porquê – o seu exército numeroso de há uma dezena de semanas e procuram encontrar um sentido para o seu modo de vida. No rescaldo as declarações dos líderes da FNE e Fenprof dificilmente poderiam ser mais desastradas.

Vejamos João Dias da Silva:

«Os professores devem ter entendido que o protocolo de entendimento assinado com o Ministério da Educação salvaguardou questões essenciais e têm a garantia dos sindicatos de que não vão ceder», afirmou o líder da Federação Nacional da Educação (FNE), João Dias da Silva.
«Esta manifestação pretende dizer claramente que o protocolo de entendimento não significa que os professores estão resignados», salientou o líder da FNE, frisando que os docentes pretendem negociar com o governo «matérias relevantes» que não foram contempladas no protocolo.
(…)
«O Ministério da Educação deu um sinal positivo com a assinatura do protocolo de entendimento, agora é preciso que essa nesga de disponibilidade para o diálogo seja concretizada», afirmou João Dias da Silva.

Fico sem perceber se JDS atribui a escassa mobilização ao facto dos professores terem «entendido o (…) entendimento» e portanto terem debandado das fileiras, se entende que a manifestação foi uma espécie de validação da política sindical e nesse caso terá sido uma fraquíssima validação. Seja como for, o que ressalta das declarações deste sindicalista é que, ao que parece e por ele, tudo está bem, desde que o ME aceite os sindicatos à mesa. Segundo ele, os sindicatos não cederão, mas não percebemos exactamente no quê, assim como fica por perceber que «matérias relevantes» irão ser negociadas, para além dos pacotes legislativos contestados pela larga maioria dos docentes.

Quanto a Mário Nogueira, as declarações não são muito mais animadoras:

«Este é o encerrar do ciclo das lutas que decorrem da marcha da indignação de 8 de Março e que fundamentalmente tem a ver com os grandes problemas que afectam a educação em Portugal, a começar pelo sub-financiamento, regime de avaliação de desempenho, estatuto da carreira docente e o novo modelo de gestão das escolas», disse à agência noticiosa Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof.

Estamos, portanto, perante o «encerrar do ciclo de lutas que decorrem da marcha da indignação»!

Lê-se e não se acredita! Encerra-se o ciclo de lutas decorrentes da marcha da indignação? Mas estamos a ver a vida ao contrário? Não terá sido a Marcha de 8 de Março o culminar de um ciclo de luta iniciado anteriormente? E não deveria estar agora em decurso a preparação de um novo ciclo e não o seu encerramento.

Já sei qual será a desculpa, citação fora de contexto, transcrição errada das declarações, não foi bem isso que queria dizer… etc, etc. Mas o problema é que me parece que não é nada disso. Parece-me mesmo que, por este andar, a Plataforma Sindical está prestes para, com umas reuniões pelo meio na 5 de Outubro ou no CNE, ir de férias em descanso, pois o «ciclo de lutas» está encerrado por agora, desculpem lá, voltem em outra altura que se nos esgotaram as energias e as ideias, ou vice-versa.

Pelo que se percebe, a desmobilização até se justifica, se estamos no varrer dos cestos.

E justifica-se uma nova mobilização, a partir «de fora», o mais tardar no início do próximo ano lectivo, se o discurso oficial dos sindicatos continuar a ser este.

Eu sei qu a conjuntura não é fácil, o desnorte é razoável e ninguém sabe muito bem o que fazer a partir daqui. Mas, desculpem lá, que vai para essas andanças não se pode queixar que elas são difíceis. Isso é voluntário e não pode ser só feito na base das marchinhas e recomeço da colagem de papéis nos placards sindicais, desaparecendo das escolas.

Porque se assim for, então é que isto tudo foi inútil e vocês não aprenderam nada com o que passou nestes últimos meses.

E não me venham dizer que, se não estive lá, não posso criticar quem esteve. Porque não é isso que eu estou a fazer. O que estou a tentar é que percebam que, com declarações destas, só mesmo os indefectíveis das estruturas sindicais voltam a aparecer, mais um lote de boa gente sempre voluntária nestes casos. Os outros, voltam a desacreditar .