Exames do ensino básico vão ter meia hora de tolerância
Medida é justificada pela necessidade de garantir igualdade de condições com as provas do secundário
O Ministério da Educação (ME) decidiu incluir nos testes nacionais de Língua Portuguesa e de Matemática do 9.º ano um período de 30 minutos de tolerância em relação à duração normal de cada uma das provas. Em Janeiro, o ministério já havia decidido estender uma tolerância de meia hora aos exames do ensino secundário.
Se há detalhe interessante e criativo na acção do ME é o da construção de justificações para decisões algo arbitrárias e para os truques do costume, sendo que neste caso é um daqueles truques com pouco sumo.
Vejamos: então os exames do Básico devem ter as mesmas condições do Secundário porquê? Já agora porque não devem ter os do Secundário as mesmas condições dos exames (se os há!) do Ensino Superior? E as provas de aferição do 4º ano devem também ter as mesmas condições do resto do Ensino Básico ou não?
A ideia de manter os alunos mais meia hora a fazer um exame só se pode dever à peregrina e habitual ideia de que a quantidade é que faz funcionar.
Há insucesso a Matemática: mais aulas, mais tempo para os exames, mais computadores.
Parece que o critério da qualidade permanece ausente.
A minha experiência, como aluno e professor, é que um aluno bem ou mesmo medianamente bem preparado, perante um exame bem construído, raramente falha por falta de tempo. Pode falhar por falta de conhecimentos, por nervosismo perante o momento, mas não por mais ou menos meia hora. Só se o exame foi mal elaborado e não teve em consideração o tempo disponível.
Mas o ME decidiu que agora há mais meia hora de puro tédio, pois quem decide isto nunca vigiou exames e certamente não sabe que metade dos alunos passa metade do tempo a não fazer nada em 90 e agora passará mais de metade em 120 minutos.
Em contrapartida, ninguém no ME se lembrou até hoje de uniformizar critérios, de ano para ano, para os exames do mesmo ano de escolaridade, de modo a que eles sejam comparáveis no tempo e se possa desse estudo diacrónico extrair conclusões relevantes. O que temos é, a cada ano que passa, mexidas na estrutura do exame, na forma de o conceber e, agora no tempo disponível para o realizar.
Assim, claro, nunca há maneira de sabermos exactamente o que é comparável. E esse tipo de confusão não percebo bem a quem interessa.
(A notícia é do Público e não tem ligação permaente.)
Maio 14, 2008 at 9:23 am
A desorganização do Ministério e as constantes alterações até podiam ser hilariantes – se o assunto não fosse sério. Quem esteve presente nas reuniões do Ministério com as escolas para serem dadas informações sobre os exames de aferição deste ano assistiu a cenas completamente surreais, como informações dadas pelos digníssimos representantes ministeriais que eram desmentidas segundos depois pelos mesmos digníssimos representantes; informações que ninguém percebia o que significavam; incapacidade de resposta a questões colocadas pelos professores, enfim, uma clara situação de gente que não sabia o que estava ali a fazer e não tinha feito o trabalho de casa.
Mais curioso ainda: no segundo ano das provas de aferição, já foi necessário fazer um conjunto enorme de alterações em relação ao ano passado. É a vida em constante mudança. Ou então a incompetência de quem gere a Educação neste país.
Maio 14, 2008 at 9:26 am
Tempo não resolve, mas ajuda alguns alunos que têm de resolver exames por vezes mal elaborados.
Citando o próprio post: “…exame foi mal elaborado e não teve em consideração o tempo disponível…”! Desculpem-me lá, mas não é isto que acontece demasiadas vezes?
Relembro velhas questões: quem elabora os exames? São professores do respectivo ciclo? Estão a leccionar? Que critérios são usados para escolher quem elabora os exames?
E os erros que são cometidos na formulação das perguntas? Que solução têm? Contarão estes erros na avaliação profissional de quem os comete? E quem são esses profissionais? Serão os mesmo que elaboraram os exames que os alunos fizeram ou irão fazer este ano lectivo?
Esta questão dos exames necessita, como muitas outras, de reflexão urgente.
Aproveito e faço votos que os exames este ano corram bem…
Maio 14, 2008 at 9:29 am
E quem paga a maior factura são os alunos e muitas vezes as suas famílias… Ou não será assim?
Maio 14, 2008 at 9:55 am
Tinha ficado com a ideia de que esses 30 minutos extra se destinavam unicamente a alunos estrangeiros, de acordo com o despacho 13018/2008 de 8 de Maio. Vai-se a ver e li mal o bestseller…é que ele é tanto “despacho” que mais parece coisa do professor Karamba…
Maio 14, 2008 at 10:13 am
Se as provas de aferição devem ter as mesmas condições dos exames do ensino secundário, então também devem servir para avaliar e contar para a nota das disciplinas! E estou muito à vontade para o dizer, a minha filha está no 6º ano e vai fazê-los. Apesar de não lho ter dito e de a ter responsabilizado quanto à “importância” dos mesmos, considero-os uma fantochada.
E alguém me explica a lógica da classificação de A a E, escala com a qual o nosso sistema de ensino nunca trabalhou nem trabalha?
Este sistema é bom para os alunos “baldas” pois é mais uma confirmação de que o esforço não é uma necessidade. Quanto aos que ainda se esforçam e trabalham, se calhar começa a mostrar-lhes que afinal até nem é preciso…
Maio 14, 2008 at 10:14 am
Faz alguma diferença?
Enquanto pai, logo culpado pela indisciplina, acabo de fazer SÓ neste ano lectivo participação por actos de indisciplina e violência numa turma ao CE e à DREN. E tudo continua…menos eu, que me demiti de representante dos pais porque os coitados dos profes andam por cima das secretárias e dizem que não existe indisciplina. Os miúdos são só “irrequietos”, e a minha filha não é educada nem disciplinada. É “inibida”…eheheheh…triste corporativismo.
Maio 14, 2008 at 10:27 am
Se não faz diferença, devia fazer. Os pais t~em o direito de ter os filhos em turmas onde eles possam aprender, os professores têm o direito de poderem ensinar sem term que andar em cima de carteiras e os alunos “inibidos” têm o direiro de ver reconhecida o bom comportamento.
E, já agora, não se pode tomar o todo pela parte. Há muito tempo que muitos de nós andamos a denunciar o sistema de ensino tal como ele está, desenhado cada vez mais para o facilitismo e a descupabilização.
E não desista, diria eu…
Maio 14, 2008 at 10:45 am
Pois…
Também tenho uma “inibida”. É penalizada na avaliação por ser “caladita”. Nunca chega a responder na aula pq algum “selvagem” avança sem pôr o braço no ar…
Tem dores de cabeça diárias nas aulas.
Inibida??? Em casa e com os amigos é uma tagarela.
Os miúdos normais são os mais prejudicados.
Educar? Responsabilizar?
Maio 14, 2008 at 11:21 am
Caros Colegas
E o que me dizem do facto de nos secretariados de exames do 9.º ano estarem professores que leccionam no 9.º ano matemática e português.
Em princípio as pessoas são sérias, mas é só em princípio…
Eu conheço um caso em que as ditas professoras dão positiva a todos, mesmo aos que não sabem ler nem fazer uma simples regra de três simples.
Será que é por estarem no secretariado de exames?
Isto é grave de mais!
Quanto a seriedade, só ponho as mãos no fogo por mim…
O ME suponho que não se importará com isso. Se algumas destas professorinhas fizerem umas interpolações ou acrescentos em meia dúzia de questões e conseguirem disfarçar os mais resultados, o sucesso é delas e do ME.
Então, viva a fraude, que é boa para o sucesso estatístico do ME…
Eu, por pudor, jamais aceitaria estar no secretariado de exames e ser docente dos alunos que prestam provas.
Mas cada um é como é.
À mulher de César…
Maio 14, 2008 at 12:23 pm
Creio concordar… mais tempo para fazer menos.
A informação é de DR
http://www.dre.pt/pdf2sdip/2008/05/089000000/2073220732.pdf
Maio 14, 2008 at 12:42 pm
… tanta preocupação, de quem manda, com a “necessidade de garantir igualdade de condições” !!!… diria até, como é comovente “tanto socialismo” !!!
Maio 14, 2008 at 1:07 pm
A propósito do comentário 2:
Na verdade a identidade dos autores das provas de exame é, em Portugal, um segredo de estado. Isso mesmo já foi assumido em tempos por uma responsável, salvo erro do GAVE, e penso que continua na mesma. Provavelmente nem a ministra e os dois ajudantes sabem quem são os ditos cujos. Penso que têm sido invocadas razões de segurança e também o facto de que, de outra forma, ninguém quereria assumir essa tarefa. Não sei se é assim noutros países, mas vejo que por cá parece ser daquelas questões que não suscita discussão…
Maio 14, 2008 at 1:12 pm
Esta política educativa aceita como consumado o facto de que a maioria dos alunos são deficientes e que lhes devem ser dadas prerrogativas consideradas normalmente adequadas para casos de dificuldades pessoais objectivas (motoras, mentais ou linguísticas).
Estas medidas não resolvem rigorosamente nada (como explica o Paulo), a não ser aliviar a consciência dos seus mentores e reforçar a infantilização/desresponsabilização dos alunos e encarregados de educação.
Os bons alunos poderão explorar os seus conhecimentos e alongar-se nas respostas, os maus alunos ficarão catatónicos ou começarão a fazer desenhos nas folhas de teste para passar o tempo.
Já agora, deveriam também criar salas de fumo para permitir que os alunos não-betinhos pudessem fumar cigarros ou charros durante os exames, a fim de reduzir o nível de stress que os mesmos acarretam, contribuindo assim para um melhor desempenho.
Maio 14, 2008 at 2:40 pm
Como se lê no despacho indicado no comentário 10, creio que a tolerância se refere aos exames de Língua Portuguesa não Materna. Os exames do 9º ano sempre tiveram essa meia hora de tolerância desde que existem. Ou a minha cabeça já está completamente baralhada?
(Não li a notícia do Público, mas, como é frequente, devia estar confusa)
Maio 14, 2008 at 2:59 pm
Também não encontrei no ‘Publico’, apenas no ‘Diário da República’ o que indiquei em 10. Pelo que vejo é para qualquer exame do ensino Básico, seja ou não Língua Materna.
Mas esta tolerância surgiu agora.
Maio 14, 2008 at 3:34 pm
Mais uma vez, trabalha-se para a manipulação estatística. É triste.
No primeiro ano em que lançaram esta nova versão de exames de aferição, no 9º ano, os critérios de aferição foram draconianos: quem falhasse uma vírgula veria a resposta a essa questão totalmente eliminada, nem que a reposta estivesse parcialmente certa. Claro, que no ano seguinte,como se desconfiava vir a acontecer, para provar a eficiência das medidas-relâmpago de combate ao insucesso, entretanto decretadas, os critérios foram os opostos: não penalizar os erros ortográficos, fechar os olhos a isto e aquilo e tudo o que foi sobejamente noticiado.
Isto segue por um caminho que, não se admirem, ainda veremos a directiva de dar metade da cotação a quem souber preencher correctamente o cabeçalho da prova!
Maio 14, 2008 at 3:44 pm
Para o pai do post 6.
Tem toda a razão no que diz respeito ao facto dos alunos mais calados porque mais atentos e educados serem muitas vezes prejudicados em relação aos outros.
- São prejudicados porque os outros não lhe dão o direito de se exprimirem.
- São prejudicados porque, entre alguns dos meus colegas, se criou o mito da participação, como se “participar” fosse só por si o Graal da aula. Aliás nas auto-avaliações é frequente o menino que não se cala e que diz sistematicamente disparates, achar que participa muito. Ele não participa, ele cria entropia, que é diferente.
- São prejudicados, porque se confunde educação e respeito por timidez, desvio de comportamento, pouco interesse, etc;
Há muitos professores a beberem da fonte inquinada dos entendidos dos gabinetes do ministérios e das correntes modernas das pedagogias e psicologias da treta e não são capazes de admitir que um aluno tem o direito a ser tímido (aceita-se tudo na escola menos a timidez, estranho), ou a ser reservado, ou a, simplesmente, não gostar de se misturar com a balbúrdia que se instala dentro das salas de aulas hoje em dia. As cartilhas do ministério deviam ser todas rasgadas!!! Não servem. E já agora deviam pôr umas rolhas, bem grossas, nas bocas de todas as Joanas Amaral Dias que por aí andam. Já criaram demasiada confusão na cabeça das pessoas e os professores não são imunes a isso. Não os há que até entendem as políticas da Sra. Ministra? Então…
Maio 14, 2008 at 6:01 pm
Peço desculpa pelo meu comentário anterior. Esta tolerância terá surgido agora, eu estava decerto a fazer confusão com tolerância nas provas globais internas.
Maio 14, 2008 at 6:17 pm
Acho uma certa piada considerar-se aquilo exame. Ex-quê?
Maio 14, 2008 at 7:02 pm
Luis Ferreira (17)
Completamente de acordo consigo. Quando começou esta parvoice de penalisar os alunos mais calados, eu fartei-me de protestar que isso era incorrecto. Os alunos, para mais adolescentes e pré-adolescentes, têm todo o direito de serem calados, tímidos, reservados, e isso não deveria nunca influir nas suas classificações. Eu, como professor não tenho que estar a atribuir pontos pelas características da personalidade das crianças e jovens. Cada um tem o direito de ser como é, desde que não perturbe os colegas nem o funcionamento das aulas. Como diz muito bem, há, estupidamente, uma grande tolerância pelos tagarelas. Nos casos em que a timidez extrema deixe supor um distúrbio patológico, avisam-se os pais e eles, ou instituições, tratem de arranjar uma consulta num psicólogo.
Uma vez, numa conferência sobre a vida de Einstein, o conferencista referiu o facto de, tradicionalmente os pais dos alunos judeus educarem os filhos para estarem muito atentos nas aulas, e só intervirem se o professor os interrogasse. Nada de tagarelices.
Maio 14, 2008 at 7:04 pm
“só intervém quando solicitada” foi um comentário negativo que, como mãe, já ouvi.
Dá que pensar…
Maio 14, 2008 at 8:31 pm
Em contrapartida, ninguém no ME se lembrou até hoje de uniformizar critérios, de ano para ano, para os exames do mesmo ano de escolaridade, de modo a que eles sejam comparáveis no tempo e se possa desse estudo diacrónico extrair conclusões relevantes. O que temos é, a cada ano que passa, mexidas na estrutura do exame, na forma de o conceber e, agora no tempo disponível para o realizar.
Além da ausência de uniformidade, no presente ano lectivo, a informação da matriz e estrutura dos Exames do Básico só foi disponibilizada no final de Fevereiro, já perto, portanto, do final do 2º Período.
Mantêm-se os três grupos a Língua Portuguesa. No entanto, o I passa a ter 3 textos, na Escrita os alunos têm de fazer um texto com um mínimo de 180 palavras, quando antes eram 140, e as respostas são dadas numa folha de resposta, quando antes eram dadas nos enunciados…
Se calhar até percebo a razão pela qual os exames vão ter mais 30m….
Maio 14, 2008 at 8:52 pm
Um do melhores alunos que tive até hoje, só intervinha quando solicitado. Nunca me passou pela cabeça penalizá-lo só porque ele não se considerava one-man show. Aliás, ele muito aguentava no meio daqueles hunos que se atropelavam pra dizer piadas secas.
Maio 14, 2008 at 9:32 pm
Por acaso a medida justifica-se porque o espaço das escolas dedicado a exames é contínuo em muitos casos. As saídas do 9º ano não serem ao mesmo tempo que as do secundário ia ser o cabo dos trabalhos. Os exames do 9º ano estão sempre mal calendarizados e realizam-se em dias em que são precisas muitas salas para o secundário e não se pode criar um isolamento acustico eficaz. As queixas que chovem todos os anos sobre a falta de silêncio durante a realização dos exames são espantosas: até o toque dum telefone é referido!
Quanto ao facto de haver professores de disciplinas com exame no secretariado de exames, isso não é problema, desde que no dia do seu exame não estejam sozinhas e isso é sempre conseguido. Os exames nacionais vêm nas embalagens “à prova de bala” e qualquer vigilante sabe que as embalagens têm que estar invioladas. O que se passa durante a realização dos exames no secretariado também está regulamentado. Quem contactou com o enunciado não pode ausentar-se até ao fim do tempo nem falar ao telefone ou telemovel. Os professores não vigilantes não podem entrar nas salas onde decorre exame, a não ser para escrever instruções ditadas pelo gave.
Só para dar um exemplo, os professores de mat e fq que têm que controlar as calculadoras usadas pelos alunos saem da sala quando o envelope é aberto e aguardam a chegada de alunos atrasados no exterior. Controlam aí a calculadora e o aluno é acompanhado à sala por um funcionário com a dita calculadora.
Pode haver fraudes, mas porque as pessoas querem e não porque o sistema o permita. Nos ambientes grandes é dificil manter segredos até porque tinha que ser uma fraude generalizada, mas nos pequenos…
Maio 14, 2008 at 11:23 pm
A Ana Mendes Silva escreveu:
“E alguém me explica a lógica da classificação de A a E, escala com a qual o nosso sistema de ensino nunca trabalhou nem trabalha?”
Julgo que essa opção visa impedir a criação de rankings pela Comunicação Social.
Maio 14, 2008 at 11:32 pm
As mexidas na estrutura do exame são ditadas por medidas economicistas. São feitas 3 provas de exame para (por ex. Matemática),uma 1ªcham, uma 2ªchamad. e uma suplente, que depois são sorteadas. Quando não é utilizada a suplente ( que acontece quase sempre), sobra uma prova,que será utilizada no ano seguinte. No entanto, se muda a equipa responsável pela realização da prova de exame nada garante que mantenha a mesma estrutura, grau de dificuldade, etc.
Maio 14, 2008 at 11:34 pm
As mexidas na estrutura do exame são ditadas por medidas economicistas. São feitas 3 provas de exame para (por ex. Matemática),uma 1ªcham, uma 2ªchamad. e uma suplente, que depois são sorteadas. Quando não é utilizada a suplente ( que acontece quase sempre), sobra uma prova,que será utilizada no ano seguinte. No entanto, se muda a equipa responsável pela realização da prova de exame nada garante que mantenha a mesma estrutura, grau de dificuldade, etc.
Maio 14, 2008 at 11:36 pm
Para quando as provas e exames a todas as disciplinas?
Maio 14, 2008 at 11:42 pm
Olinda
Não me parece que seja tão cedo (muito$$$$).Mas acho que o próximo´será Inglês
Maio 15, 2008 at 1:01 pm
Se, ainda assim, não passarem todos, para o ano o exame tem três horas de duração e as respostas já vêm no enunciado…;-)