Tenho seguido com moderado divertimento e algum cinismo o debate em torno da acção da ASAE. Para resumir a situação, temos um organismo do Estado que tem levado a sua missão (que é essencialmente correcta) demasiado a sério e cometido alguns excessos, abusando um bocadinho do espalhafato e do espírito dos tempos.

No meu caso, se é verdade que acho um rematado disparate querer impor Toda a directivazinha asséptica da UE aos nossos produtos, já não acho disparate o combate à fraude, contrafacção e incumprimento generalizado de diversas regras em vigor.

Mas nos últimos dias o ângulo de ataque mudou e a acção da ASAE passou para a ser criticada porque se regeria por objectivos a alcançar pelas suas direcções regionais e agentes no terreno.

Sem grande receio de absoluta incoerência, não foram poucos os opinadores que zurziram a ASAE por reger a a sua acção por critérios quantitativos com a mesma voz inflamada com que, por regra, querem que na Educação as escolas e os docentes sejam avaliados pelo cumprimentos de objectivos de «sucesso».

Vou poupar-me a nomes de órgãos de informação (mas há um que sai ao sábado e tem um formato bem grande…) e indivíduos, para não ressuscitar a acusação de que gosto demasiado de ataques «ao homem» (pois neste caso as vozes femininas são menores). Resta-me apenas constatar que, com o mais absoluto despudor, há quem tenha dois pesos e duas medidas conforme lhe convém.

O professorzeco deve ser medido pelos resultados obtidos pelos seus alunos? Claro! Mesmo se os resultados não são os dele, mas de interpostos terceiros? Sem qualquer dúvida!!! A accountability e tal, nas empresas privadas é assim, os objectivos devem ser traçados e cumpridos, não se imagina uma «organização» a funcionar doutra maneira!!!

E a ASAE, deve agir de acordo com objectivos? Não, de maneira nenhuma!!! Mas porquê? Porque actuar com base na necessidade de cumprir objectivos desvirtua e condiciona a sua missão essencial.

Pois é. Eu até compreendo as dores de muita gente com a acção destemperada da ASAE e partilho das preocupações quanto à possibilidade de – a meio do caminho – os responsáveis regionais e agentes da ASAE perderem um pouco a noção da sua missão, secundarizando-a em relação à necessidade absoluta de atingir objectivos previamente estabelecidos.

Só que também me preocupo com os docentes que se vejam obrigados a desvirtuar a sua missão de ensino e avaliação da progressão das aprendizagens dos alunos com base em objectivos traçados pelo ME ou por órgãos de gestão demasiado adesivados. E como agora sabemos, até as quotas para a avaliação dos docentes dependerão das avaliaçõesa externas feitas pela IGE (que talvez tenha objectivos próprios a alcançar). Porque a certa altura do processo é tão simples confundirmos as coisas e tomarmos como farol da nossa acção aquilo que é acessório e instrumental.

Porque ou somos coerentes e defendemos que as «organizações» e os seus trabalhadores devem funcionar com base em objectivos, ou então não fazemos uma adaptação selectiva dos casos em que se aplica tal lógica.

Claro que há uma terceira via: a da adaptação das soluções a cada situação específica, que é o que eu até acho mais recomendável.

Mas então não nos gritem aos ouvidos que »TODAS as organizações» se regem pelo mesmo tipo de modelo de funcionamento e avaliação dos seus trabalhadores