O número de suplementos, revistas e outras publicações especiais dedicadas ao tema demonstra bem, por estes dias e semanas, como o imaginário do Maio de 1968 continua presente entre boa parte da sociedade ocidental, em especial aquela mais aberta , então e agora, à influ~encia francófona.

Eu sou obrigado a lamentar mas à época tinha apenas 3 curtos anos e acho que não me deixavam ir para Paris participar na revolta. E não me lembro de nada, pois parece-me que, embora tendo televisão em casa, as notícias foram muito curtas e eu nem sequer sabia ainda ler, tudo isto ao contrário de quem, ainda não sendo então nascido, parece ter estado no Quartier Latin a atirar uns belos pavés aos fascistas dos polícias e ter herdado todos os tiques de uma geração que entretanto serenou, se acalmou e se transformou no sistema.

Sim, confesso, não sou grande fã da herança do Maio de 68 quando observo no que se transformaram os seus arautos. Gosto muito das ideias e dos ideais, mas o problema foi o resto.

No entanto, nada como revisitar o que então aconteceu de uma forma razoavelmente extensa e plural como acontece neste número do Le Magazine Littéraire onde, por curioso que seja, quase tudo é passado em revista em relação às ideias de então e aos seus prolongamentos, excepção feita ao caso da Educação, que é ligeiramente abordada em duas páginas a propósito de um texto de François Chatelet de 1976. O que não deixa de ser curioso quando o Maio de 68 foi essencialmente um movimento despoletado por estudantes.

A minha tese, nada original, é que uma das piores heranças do espírito de 68 passou exactamente por um enorme conjunto de equívocos na área da Educação, assim como uma incapacidade para, criticando o modelo tradicional de família autoritária, erguer um modelo alternativo e funcional que não fosse uma simples antítese do anterior. O que, com o passar do tempo, se revelou insuficiente. E só demonstrou que é difícil construir algo sólido em cima de profundos traumas afectivos, sociais e políticos que só se conseguem traduzir em negações das quais o «proibido proibir» será o símbolo maior.

Chamem-me reaccionário, para ver se eu me aborreço…