Pacheco Pereira pertence a um grupo restrito de opinadores que tem vivido dilacerado pela acção de Maria de Lurdes Rodrigues. Embora opondo-se ao Governo do PS, JPP tem aquela volúpia da «reforma» e da «mudança» que o faz sentir uma atracção desmedida sempre que ouve aqueles termos e/ou tem a sensação que algo do género está a acontecer que possa ser considerado «reformista» ou capaz de «mudar» alguma coisa. Por isso, a forma absolutamente desastrada como MLR sempre tentou justificar as suas erradas políticas era usada como pretexto para a criticar, mas sempre com o desejo implícito de poder elogiá-la caso a catástrofe comunicacional fosse menor.

Ora nos últimos tempos MLR passou de péssima comunicadora das medidas do ME para «regular» repetidora do discurso oficial do ME. JPP assinala isso mesmo e aproveita para usar isso como pretexto para saudar a prestação da Ministra da Educação. É o que se depreende de parte da sua crónica desta semana na Sábado e a este hora (dia 1 de Maio, 19 horas) ainda não disponível no Abrupto.

Note-se que, para fazer esse elogio, JPP – contra tudo o que sempre escreveu sobre política – parece fazer privilegiar a forma da comunicação por sobre a substância das medidas. Pior: admite que só agora percebeu verdadeiramente o âmbito e a «extensão das mudanças». Parece que JPP só pelo efeito da repetição e popularização de termos como «professor titular» passou a entendê-los, asim como a distinção entre «carreira» e «avaliação».

Eu pessoalmente não acredito, pois tenho a perfeita certeza que JPP é mais inteligente do que isso e que até agora não opinava sobre as medidas do ME com base nos discursos e entrevistas de MLR, mas com base na documentação existente. Nem poderia ser de outra forma. JPP não opina com base em soundbytes.

Por isso mesmo estranho que JPP surja agora a estender o braço a MLR – mesmo se é para alfinetar o estilo de José Sócrates – como se só três anos depois tivesse percebido a natureza da política do ME.

Assim como estranho que JPP pareça, apesar deste tempo todo e da súbita «iluminação» que o acometeu, confundir coisas que são completamente díspares quando afirma algo como «os professores deixam de ter uma “avaliação” comparativa nacional, feita pela nota do curso e pela antiguidade, e passam a ser avaliados num universo de proximidade, nas escolas, pelos seus pares.»

Esta tirada contém mais erros e equívocos do que seria razoável em duas centenas de caracteres.

Vamos lá devagarinho, esperando que JPP dê por este post:

  • Os professores nunca foram avaliados de forma comparativa pela nota dos cursos e antiguidade. Os professores tinham uma classificação profissional para efeitos de concurso com base nessas notas e na sua profissionalização.
  • Os professores, para efeito de concurso, continuam a ser escalonados com base na tal nota e antiguidade.
  • Em matéria de «avaliação», os professores já eram classificados pelos «pares», «num universo de proximidade». Aliás, essa era uma das críticas ao modelo anterior: o facto de a avaliação ser feita em circuito fechado e de forma igualitária. JPP não percebeu ainda isso. A esta altura também não vou re-re-explicar o processo de avaliação dos docentes até sermos congelados.
  • Agora é que deixarão de ser avaliados dessa forma, pois serão avaliados por professores que deixaram de ser seus «pares» e muita da «proximidade» será quebrada. Isto muda alguma coisa, mas não muda tudo, pois esta avaliação incide sobre a progressão mas não, por exemplo, para efeitos de concurso, pelo menos por agora.

Coloquemos dois exemplos para demonstrar como JPP está profundamente errado.

  1. Por exemplo, um docente consecutivamente avaliado com Muito Bom ou Excelente, desde que não exista vaga, estará sempre abaixo de um docente «titular» com avaliação de Bom.
  2. Por outro lado, para efeitos de concurso e colocação, a «avaliação» não tem interferência na hierarquização dos candidatos, pelo menos por agora como acima escrevi. Um docente com uma média de curso de 14 valores e 15 anos de carreira e menção de Bom estará sempre à frente de um docente com média de 14 e 10 anos de serviço, mesmo se com a menção de Excelente. A JPP – como a muitos que acreditam na propaganda que ouvem – falta o conhecimento efectivo das technicalities disto tudo. Mas nem por isso hesitam em escrever coisas completamente desfasadas da realidade.

Por fim, um reparo necessário: para passar a apoiar as «reformas» de Maria de Lurdes Rodrigues, Pacheco Pereira poderia ter encontrado um caminho mais directo e límpido. Admitia que para ele um cheiro de «mudança» chega para o fazer arrebitar o verbo. Não interessa se a mudança é boa ou má, se os seus efeitos são positivos ou não. Se as declarações da MInistra são fiéis aos factos ou não.

É «reforma»? Então é bom!

Muito curto como forma de argumentar e justificar uma colagem tardia às políticas do ME.