Recomecemos então a saga da adorável entrevista de MLR ao Correio da Manhã de ontem, conduzida pelo paradigmático ARF, o verdadeiro protótipo do entrevistador à solta.

Concentremo-nos na parte sobre a estratégia negocial do ME com os sindicatos:

- Esse paradigma foi alimentado politicamente durante muitos anos e deixaram os professores funcionar completamente à solta, não acha?

- Isso já não diria.

- Não foram os sindicatos que determinaram durante anos toda a legislação produzida neste Ministério?

- Não tive essa experiência. Não tinha nenhuma experiência no Ministério da Educação. Ouço dizer isso muitas vezes mas eu na realidade não sei, não conheço o suficiente para poder dizer que foi ou não assim.

- Mas consigo mudou essa situação. A decisão política não é deixada aos sindicatos.

- Não sei se mudou a decisão. O que lhe posso dizer é que comigo não é assim. Com esta equipa não é assim. Com esta equipa são apresentadas propostas aos sindicatos, que obedecem a alguns princípios. Normalmente decidem-se princípios, depois dá-se corpo a esses princípio nos decretos-leis, nas leis e depois as coisas fazem o seu caminho.

- Mas os sindicatos queixam-se que de a sua equipa quando vai para negociação já vai com posições definitivas e apenas perguntam a opinião deles. Que não há verdadeiras negociações.

- Vamos lá ver. O que é a negociação? A negociação não pode significar, é bom que não signifique, a perda daquilo que são os pontos de partida, os pontos de referência. O Ministério da Educação, pelas razões que já lhe disse, considera muito importante reestruturar a carreira em duas categorias: professor e professor titular.

- E os sindicatos nem querem ouvir falar disso?

- Os sindicatos reagem negativamente, não aceitam a necessidade de reestruturar a carreira por razões que eu consigo compreender até pela história recente da carreira docente. Não aceitam. Mas o Ministério vai para a frente com a proposta, apresenta uma proposta de reestruturação da carreira. Os sindicatos vão para a negociação e de duas uma: ou têm capacidade de destruir, convencer o Ministério da Educação de que isto é errado, ou não.

- E como é não têm de se aproximar da sua posição?

- Se percebem que é um princípio de que o Ministério da Educação não abdicará então vamos ver como é que esta proposta de concretizará causando prejuízos mínimos ou transições mais suaves. Admite que há transições que podem ser muito mais suaves. E isso é que faz toda a diferença num processo negocial. É a intransigência, é o ponto de afastamento em relação àquilo que são os princípios de cada uma das partes.

- E essa intransigência tem sido grande da sua parte?

- Admito que tenha havido na revisão do estatuto da carreira docente e em algumas novas regras que foram introduzidas princípios, como este da reestruturação da carreira, que é o mais simbólico, digamos assim, que são totalmente estranhos aos…

- Professores?

- Aos professores e aos sindicatos. Mas como a estratégia dos sindicatos não deu resultados com esta equipa em relação aos princípios definidos muitas vezes admito que haja a percepção por parte de quem está a negociar que não houve uma verdadeira negociação. Mas há muita margem de trabalho entre o princípio e a sua aplicação.

- Como se vai concretizar no terreno?

- Exacto. A dificuldade nos processos negociais é encontrar os espaços de trabalho conjunto, que foi o que conseguimos, apesar de tudo, agora neste processo de entendimento sobre a avaliação. Os sindicatos não saíram da sua posição, continuam a considerar que não era necessário mudar o modelo de avaliação, continuam a usar vários adjectivos sobre este modelo e nós continuamos a manter os nossos pontos de vista. Mas conseguimos encontrar esse espaço de negociação na concretização.

- Há algumas críticas aos sindicatos por terem assinado esse acordo.

- O memorando de entendimento é sério porque nenhuma das partes abdicou dos seus princípios, nem de os continuar a declarar e defender. Em qualquer caso do lado do Ministério da Educação há uma aproximação àquilo que são as preocupações dos professores. Isto é, se a preocupação é com os efeitos negativos da avaliação, então vamos criar aqui um espaço de maior exigência e de confirmação.

- Agora já não são penalizados á primeira avaliação negativa, não é?

- Exacto. Já não é à primeira avaliação negativa que as pessoas são penalizadas.

- Quando é que um professor sente de facto na pele e é penalizado por ser um mau professor?
- No segundo ciclo. Com a confirmação. Todos aqueles que tiverem uma avaliação que confirme a avaliação negativa sofrerão os efeitos desse resultado.

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Chamo especialmente a atenção para a forma irrepreensível como jornalista qualifica os professores no início deste excerto, como andando por aí «à solta». Perante tamanho despautério até MLR, que dificilmente poderíamos considerar uma fã da classe, se sente na obrigação de, com algum embaraço, afirmar que «isso já não diria».

Mas AFR, completamente em roda livre, insiste e inquire se não foram os sindicatos que definiram toda a política do ME nos últimos 30 – 300? – anos. Também aqui, refugiando-se no seu desconhecimento do sector (uma declaração com que facilmente muitos concordaremos), declara que ouviu falar, mas não tem a certeza. É tipo Abominável Homem das Neves ou Yeti. Ouviu-se falar, muita gente diz o viu, mas não há provas.

Mas a coisa continua em grande quando se chega ao tratamento da forma como decorreram as negociações. Neste particular, MLR tem uma afirmação formidável, que volto a transcrever:

Mas o Ministério vai para a frente com a proposta, apresenta uma proposta de reestruturação da carreira. Os sindicatos vão para a negociação e de duas uma: ou têm capacidade de destruir, convencer o Ministério da Educação de que isto é errado, ou não.

Isto significa que, para MLR, ou os sindicatos tinham capacidade para destruir a proposta ou não. Pelos vistos não tiveram. Isto, em linguagem de basquetebol da NBA chama-se uma jogada in your face. Daquelas mesmo de gozo na cara do adversário. Os sindicatos não tiveram «capacidade de destruir» a proposta do ME. É esta a opinião de MLR. A expressão é de tal modo inadequada a quem está a falar de uma negociação, que tudo o que vem a seguir é acessório. A linguagem de MLR quanto à negociação com os sindicatos revela o seu pensamento mais profundos: eles ou nós! Só a destruição do adversário é passível de alterar as posições iniciais.

O que acaba por nos fazer acreditar que este «tudo ou nada» do ME sempre se baseou exactamente em quebrar por completo os sindicatos.

O que também significa que o entendimento foi uma de duas coisas a descobrir no futuro: ou o abandono dessa estratégia, que não previa cedência significativas, ou alguém então ainda acabará destruído.

Quanto à última pergunta desta série, apenas revela também a postura do entrevistador quando pergunta quando é que esses celerados professores sentirão «na pele» as consequências de serem maus e incompetentes. Sente-se um frémito na pergunta, um desejo mal contido de cheirar sangue. De ver rolar cabeças, de observar os cadáveres a cair.

Absolutamente lastimável.

Vergonhoso!