Acho que já confessei por aqui a minha simpatia por esta linha de uma canção dos Oasis. Comodista como sou, não gosto muito de agitações revolucionárias que me arranquem a uma certa acalmia. Por regra, reservo a turbulência para manifestações menos exteriores. É um defeito, eu sei.

Mas há algo que me aborrece um pouco mais do que isso neste tipo de matérias.

Aborrecem-me imenso os «revolucionários profissionais». Aqueles inflamado(a) – ou inflamadíssimo(a)s . que postulam a revolução sem qualquer tipo de transigências, revoluções culturais e grandes saltos em frente, à rectaguarda e para o lado, que o fazem do conforto de situações bem defendidas.

Muitos dos mais vocais críticos do nosso modelo de sociedade, são personalidades que vivem de acordo com as suas regras, que delas tiram todas as vantagens possíveis, sendo que uma das vantagens é o seu nicho contestatário. Numa linguagem d’outrora, são uma espécie de crachat na lapela do capitalismo neoliberal. Uma espécie de suportável Grilo Falantes que fazem o papel instrumental de consciência crítica, mas que acorrem sempre que o poder criticado os chama para algo.

Encontrei-me pessoalmente com essa estirpe de revolucionários confortáveis na Faculdade há coisa de 25 anos atrás. E eram de duas gerações distintas.

  • A dos revolucionários dos anos 60 e 70 que foram revolucionar, de forma muito burguesa, para Paris, Londres, Oxford, Genebra ou outra boa cidade europeia graças aos bons ofícios e recursos das suas famílias, enquanto os proletas se limitavam a ficar no Portugalinho dos Pobrezinhos ou nos bidonville dos arredores parisienses. Foram eles que aderiram ao Maio de 68 e outras coisas muito libertárias, mas que logo que puderam se instalaram no poder e não mais o largaram.
  • A outra geração era a dos jovens contestatários que sabiam que poderiam muito contestar que o lugarzinho no final do Curso estaria assegurado graças a essas mesmas famílias ou à inscrição no aparelho-jota de uma qualquer cor (em especial em tons laranja, rosa ou vermelho). Aí podiam gritar pelo fim do mundo, que sabiam que para eles o mundo estava sempre assegurado. Uma forma fácil de distinguir esta vanguarda revolucionária de boas famílias era o uso sempre de dois apelidos para sublinharem a linhagem e a estirpe. Para marcar bem o pedigree.

Passou todo um quarto de século ou quase e encontra-se o mesmo tipo de atitude no discurso sobre a Educação. São os iluminados e esclarecidos vultos desta camada revolucionária profissional que mais dizem defender os pobrezinhos dos excluídos e que os associam à indisciplina, exclusão e criminalidade.

E este é o pior dos preconceitos.

Associar de forma simplista a vulnerabilidade social e económica e os comportamentos perturbadores.

É verdade que existe alguma correlação entre tais fenómenos.

Mas está longe de esgotar o fenómeno. Aliás, essa é uma perspectiva que revela mais sobre os preconceitos «de classe» desses analistas e investigadores do que sobre a realidade.

Se não é necessário estar (ou ter estado) no meio da desgraça para a conhecer, a verdade é que ajuda. Pelo menos não é um ponto contra.

E não adianta gritar contra o capitalismo selvagem, contra o neoliberalismo galopante, se não passamos de uma pecinha confortável da sua engrenagem que estigmatiza aqueles que afirmamos defender.