Tive reservas em ir, por não perceber bem a utilidade do debate, após duas semanas de massacre sobre o assunto. Comecei por recusar mas, depois, pensei que era algo estranho ficar a comentar o que se passava na televisão, se lá podia estar.

E fui.

Não dei o tempo por perdido.

Mesmo se a coisa se dispersou e a certo ponto perdeu um bocado o seu ponto central.

A sério que passei a generalidade do tempo bem disposto. Desconto o minuto final já descrito no post anterior.

  • Conscientemente não achei necessário impor um discurso agressivo e «fracturante». Outros o fizeram. Sei das limitações de tempo e da exigência dos soundbytes em televisão. Fundamentalmente queria passar a ideia que os professores não são uns alarmistas, sempre a defender interesses particulares contra tudo e todos. Que conseguem ir para lá do anedótico e perceber o mundo em que se movem. Não sei se consegui. De qualquer modo vou atribuir-me um 14 na forma (talvez demasiado relaxada) e 13 no conteúdo (podia ter sido mais preciso e conciso). Não conta para a média final, mas em termos de gozo pessoal subo aos 17, sendo que isso foi resultado da observação do que me rodeou. Média 14.
  • Quanto aos restantes intervenientes, lamento que ao meu colega de mesa, João Palma, não tivesse sido dado mais espaço e tempo de intervenção. Aparentemente estava-lhe destinada a defesa da posição do Procurador-Geral da República o que fez com correcção, embora sem excessivo entusiasmo. Boa a forma (14), menos bem o conteúdo (13). Média 14.
  • Do outro lado, o psiquiatra Pio Abreu era a estrela do programa, que abriu e fechou. Forma muito correcta (16), conteúdo nem sempre perceptível para além da mensagem «sem limites, não há transgressões». Não percebi se defendia a ausência de limites ou algo diferente. Daria um 13, caso não fosse aquele ataque final, sem grande sentido. Fica com 10 no conteúdo, vejam lá a minha falta de respeito. Média de 13.
  • O sociólogo João Sebastião não me convenceu numa argumentação que se baseou na recuperação dos lugares-comuns da Sociologia da Educação de uma esquerda perdida nos anos 60 a inícios de 80. Forma curta, conteúdo demasiado datado. Ninguém acredita ou quer uma sala de aula com alunos muito direitinhos e caladinhos. Isso já não existe. Ninguém acredita que os professores andam a sancionar alunos para os excluir e enviar para as ruas da amargura. Ou se acredita, acredita muito mal. Média de 11, na forma e conteúdo.

Relativamente à plateia vou singularizar apenas os intervenientes que usaram da palavra com maior tempo e liberdade.

  • Começando pelo filósofo José Gil, pessoa que admiro imenso pelos seus escritos, mas que em forma de discurso falado é menos fluente e se enreda a si mesmo. O conteúdo foi bom (16), mas a forma algo confusa e desmotivante (12). Em televisão a complexidade não funciona bem. Média de 14. Sei que estou a abusar da minha liberdade de classificar quem está muito acima de mim no plano intelectual, mas perdoem-me que é só sobre uma prestação em concreto.
  • A psicóloga-professora-mãe-política Joana Amaral Dias foi uma enorme desilusão pelo histrionismo e falta de controle. Agressividade desnecessária e discurso completamente ideologizado e sem capacidade de romper os seus próprios limites. A culpa morre nos Cosmos, nunca nos indivíduos, coitadinhos, vítimas deste sistema neoliberal que também a alimenta. Classificação negativa, daquelas que, há muitos anos, a minha antiga professora Fátima Bonifácio preferia não quantificar para não desanimar muito.
  • O professor universitário Carlos Abreu Amorim foi o responsável por alguns dos melhores momentos do debate, fazendo-me sorrir com todo o gosto. Forma provocadora em muito boa forma controlada (17) e conteúdo bom (15), mesmo se poderia ser mais variado. Mensagem essencial: é necessário repensar a Escola Pública, percebendo que algo está a correr mal. Média de 16.
  • A professora Isabel Fevereiro foi a outra responsável por alguns bons momentos graças à cortante ironia com que apresentou as suas posições. A mensagem que passou foi principalmente a de que quem «está dentro» tem direito a falar, sendo frustrante estar-se sempre submetido a especialistas de bancada. Um homogéneo 16.
  • Fernando Gomes em nome dos pais a sul do tejo apresentou-se com uma forma correcta (15), embora com um conteúdo por vezes pouco coerente, pois oscilou no tipo de argumentação usada Não percebi se queria firmeza desde pequeninos, se outra coisa. Em matéria de conteúdo um 13, para média final de 14. Discordámos, mas penso que com civilidade.
  • Vindo de Gaia para falar depressa e em tom de exaltação das massas Albino Almeida foi igual a si mesmo nesta nova encarnação de grande líder da escola democrática, tendo-se escusado a falar do novo paradigma. Forma excessiva e algo alevantada (12), conteúdo repetitivo e pouco convincente (12). Média de 12. Desnecessário o ruído produzido em off.
  • Os representantes da Escola da Ponte fizeram um bom trabalho de marketing (forma) pelo que merecem 16 na promoção do seu produto. O conteúdo foi escasso (12), pelo que a média fica também pelos 14.

Os restantes participantes falaram pouco ou quase nada, pelo que seria injusto enveredar aqui por uma classificação, com tão pouco tempo em campo.

E pronto, esta foi a minha imitação possível do professor Marcelo a dar as notas da semana, à moda dos velhos programas da TSF.

Agora é só baterem-me à vontade pela ousadia e liberdades tomadas.