Eram para ser três posts sobre assuntos aparentemente diferentes, até que de súbito acabaram por ligar-se ao tentar escrever o primeiro.
Começando.
Alguém, já quase esqueci quem, usou a metáfora da Hidra aplicada à actual situação da Educação. De início achei a ideia despropositada, em especial porque não vejo nenhum Hércules nas imediações com capacidade para a combater, nem vejo o que possa ser considerado o veneno nesta situação. Mas também me apercebi que o próprio autor do texto provavelmente não será muito versado em mitologia clássica e que terá retido apenas a ideia da serpente com muitas cabeças que se regeneram e multiplicam a cada corte.
Ora essa acaba por ser afinal, na sua versão simplificada, uma analogia interessante para o movimento de contestação actualmente protagonizado pelos docentes, que deixou de ter o seu pólo agregador tradicional (os sindicatos, eles próprios multiformes) e explodiu em imensos nós de uma rede à escala nacional.
O que perturba as formas tradicionais de encarar os movimentos sociais. E repare-se como todas as organizações no terreno (ME, sindicatos, comunicação social, políticos) têm dificuldade em lidar com isso e, por comodidade, tendem por vezes a insistir em visões maniqueístas da situação, num modelo de binómio antagónico. Mesmo ao ME convém, agora, reabilitar os sindicatos como interlocutores (veja-se a sucessão de reuniões desta semana, independentemente dos resultados), para tentar esvaziar a incómoda contestação aparentemente polinucleada e potencialmente incontrolável. Pois a cada cabeça que se pretenda cortar, outra surgirá, por certo. Centrando o ataque na serpente sindical de cabeça única o combate é mais «confortável» e «seguro».
Ora o que se passa neste momento está para além dessa forma «confortável» de encarar a realidade que se tornou habitual na análise dos factos sociais. Sendo que a classe docente se uniu num protesto comum verifica-se que existem inúmeras vozes, sendo que cada uma sente que é o momento de se manifestar na sua individualidade e de prescindir de mediadores ineficazes e simplificadores da pluralidade do real.
O que alguns consideram «berros da rua» são apenas vozes a quererem ser ouvidas, porque muito tempo foram subalternizadas e filtradas.
As pessoas querem ser ouvidas.
E isso resulta do que eu, de forma apressada mas talvez mais exacta do que um conceito sofisticado, caracterizei como uma «imensa irritação» das pessoas (neste caso, os professores e educadores) a quem recentemente me perguntou qual a razão desta inesperada explosão sincronizada.
E porquê essa irritação?
- Antes de mais, pelas razões objectivas de desrespeito público quem têm sido obrigadas a suportar, há já mais tempo do que o razoável.
- Em seguida, porque muitas das medidas concretas que lhes são impostas não aparentam ter fundamentação credível ou, pior, nem sequer parecem os protagonistas interessados em explicar a sua razão.
- Por fim, mas apenas por enquanto, porque ao olharem para aqueles que lhes querem impor essas medidas não encontram ninguém que lhes mereça qualquer tipo de segurança ou credibilidade acrescida em relação ao tipo que vai ali a atravessar a rua, por mais estimável que ele seja. Há que ser cristalino e claro: a generalidade dos docentes olha para a a 5 de Outubro e para São Bento e não encontra lá ninguém que considere ser detentor de um especial crédito de confiança ou mesmo de um qualquer capital de credibilidade em virtude do seu trajecto profissional e político.
E essa é, em grande parte, a razão de uma rebelião generalizada, com múltiplas vozes a quererem fazer-se ouvir, perante o «desconforto» das vozes instaladas.
Quando se ouve um porta-voz do partido governamental afirmar que «Foram tantas as coisas que fizemos bem, que não temos de perder tempo com o que fizemos mal» qual se espera que seja a reacção?
A de uma imensa manifestação de irritação perante a arrogância de quem nada fez de notável a não ser estar de braços abertos quando a estrelinha da sorte chegou de Belém.
E os ruins somos nós?
Março 14, 2008 at 7:13 pm
subscrevo inteiramente
Março 14, 2008 at 7:15 pm
Excelente!
Não nos calarão!
Março 14, 2008 at 7:23 pm
misturam-se, de facto, muitas coisas e o resultado é este manifesto descontentamento, que não é apenas nosso mas que desta vez nos tocou por já não conseguirmos fazer frente ao estado a que chegou o ensino.
E não se teime em imputar-nos as culpas ( sim alguns de nós são menos vocacionados que outros, mas qual é a profissão em que toda a gente sai de casa de manhã cantando e rindo?!) porque sempre fomos uma espécie de paus-mandados das inovações que vinham da 5 de Outubro, cada uma mais vil que a anterior.
Por que não nos queixamos antes?
Se calhar porque os sindicatos sempre nos instigavam à greve e muitos de nós, por muito visível que fosse ainda a veia revolucionária , não nos víamos a prejudicar alunos com ausências (quando se tem 12º anos pensa-se duas vezes…). E sim, por sermos desde sempre um grupo heterogéneo e desunido.
Não agora.
Agora estamos no limite da resistência às esperimentações. No limite de resistência à cretinice que é afirmar em horário nobre que não se olha para o que se fez de mal. Fosse ele professor e certamente nunca teria ensinado tal coisa aos seus alunos. Fosse ele um verdadeiro encarregado de educação e nunca teria ousado fazer tal afirmação junto dos seus filhos. Como político tudo lhe é permitido.
Março 14, 2008 at 7:24 pm
no limite da resistência às experimentações, e por isso a recusar mais esta!
Março 14, 2008 at 7:25 pm
Não têm crédito de confiança, nem de cultura, nem de inteligência.
Creio que a estrutura que imaginamos que por eles é seguida para pôr em prática, enfim, as suas ideias, é fruto da nossa inteligência e não da deles. Aquilo que parece pensado não é mais do que aquilo que o touro faz quando investe contra o que lhe surge pela frente.
Não é inteligência. É instinto. Enfim, algo que é primário.
Março 14, 2008 at 7:27 pm
Concordo,mas tem de haver um amplo acordo de “objectivos mínimos” que continue a possibilitar esta unidade porque a estratégia do ME passou a ser ” as escolas que decidam”… e fé em Deus.
Logo, temos que identificar muito bem o que é mesmo essencial e a estratégia mais adequada; por ex. eu acho que neste momento a av do desempenho já não é um objectivo fundamental porque simplesmente é já uma coisa sem qualquer nexo, que não tem saída e que em setembro dará lugar a algo de novo…
ANTÓNIO
Março 14, 2008 at 7:27 pm
optima análise que assino por baixo
Março 14, 2008 at 7:28 pm
É sobrevivência… e por isso o ser humano vai até ao fim do mundo.
Já leu, Paulo, a carta aberta ao sr. Emídio Rangel ?
Está em http://paulocarvalhoeducacao.wordpress.com/
Bom fim de semana.
Março 14, 2008 at 7:33 pm
Eu acrescentava ao segundo motivo uma nuance: “as medidas concretas”, além de não se perceber a fundamentação, pior do que isso, carecem de lógica e coerência. Alguns colegas meus perguntam “qual é o objectivo disto ou daquilo?” Eu costumo responder: “Estás a procurar lógica onde a não há nem estava prevista!” Grande parte das medidas são caos puro. Veja-se a necessidade compulsiva de publicar esclarecimentos, despachos interpretativos, “FAQs” (perguntas frequentes) e outros que tais.
Não me lembro de ver nos últimos tempos um diploma legal em educação que não sofresse a curto prazo uma clarificação, uma correcção ou uma suspensão parcial.
Março 14, 2008 at 7:33 pm
…. ouvi da palavra do nosso primeiro dizer que é generoso pois isto só merece um comentário
Março 14, 2008 at 7:36 pm
Hoje, no «Opinião Pública» da SIC Notícias, uma senhora manifestava a sua opinião dizendo que uma familiar professora «ao fim de 27 anos ganhava mais de 500 contos LIMPOS». Dizia que era necessário que puséssemos as mãos na consciência.
O tom de voz era calmo e o discurso perfeitamente articulado.
Como é possível que as pessoas digam isto? Será que pensam que é verdade?
Para quem ouviu e não sabe a verdade, só pode realmente ficar a pensar várias vezes nas nossas razões. 500 contos limpos?????
Quem dera!!!
Está tudo maluco?
Março 14, 2008 at 7:37 pm
Quem assim escreve não é gago!
E mesmo os gagos cantam em uníssona afinação quando se trata de dignidade!
A política não é uma profissão! A política é toca habita na pólis!
O PovO!
Março 14, 2008 at 7:38 pm
O texto mais abaixo do colega Paulo -Organizando Ideias – focaliza o processo no ponto preciso em que ele se encontra…
Assim, a avaliação já não é a questão central porque haverá n avaliações(tantas quantas as escolas).
Temos agora que nos pôr de acordo quanto ao objectivo central a definir e se falharmos não teremos tão depressa uma oportunidade como esta.
ANTÓNIO
Março 14, 2008 at 7:39 pm
Tenho quase esse tempo de serviço.Também quero esse ordenado:)
Março 14, 2008 at 7:43 pm
O Povo está na rua! O povo está atento!
100.000 prfessorZECOS fazem muito ECO não é?
Março 14, 2008 at 8:19 pm
Eu estou no 10º escalão, tenho mais de 30 anos de serviço e por isso também quero esse ordenado. Ninguém conhece um jornalista que queira e possa ser isento?
Março 14, 2008 at 8:22 pm
Excelente. A “Hidra” não faz parte da nossa mitologia. Ainda bem, filmes de terror com espelhos e molduras já bastam.
Março 14, 2008 at 8:30 pm
Ministério só tem «duas saídas»
«O ME só tem duas saídas: aplicar o regime de avaliação, tal como está previsto no diploma, ou suspender o processo, se não houver condições para o fazer. Tudo o que forem aplicações diferenciadas e procedimentos mínimos é à margem da lei», afirmou o secretário-geral da federação.
Além de ilegais, a Fenprof considera que estas alterações podem criar «profundas injustiças», uma vez que fica ao critério das escolas aplicar o regime simplificado ou o modelo previsto no decreto regulamentar.
«O ME disse-nos que as escolas que quiserem aplicar procedimentos de avaliação mínimos podem fazê-lo e as que quiserem o máximo impõem o máximo. Um professor pode ser injustiçado apenas porque na sua escola a avaliação foi aplicada de forma diferente do que na escola ao lado», criticou Mário Nogueira.
http://www.portugaldiario.iol.pt/noticia.php?id=928236&div_id=291
Março 14, 2008 at 8:36 pm
“Os procedimentos simplificados anunciados pelo Ministério da Educação são completamente ilegais porque representam uma alteração ao diploma que não foi negociada, nem publicada em lado nenhum”, defendeu o secretário-geral da Fenprof, no final da última reunião com a tutela. Mário Nogueira considera que o Conselho de Escolas, com o qual a tutela chegou a acordo, “não tem competências para negociar e fazer acordos, o que representa outra ilegalidade”.
Para a Fenprof, o ministério só tem duas saídas: “aplicar o regime de avaliação, tal como está previsto no diploma, ou suspender o processo, se não houver condições para o fazer”. “Tudo o que forem aplicações diferenciadas e procedimentos mínimos é à margem da lei”, reforçou o dirigente sindical.
http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1322654&idCanal=58
Março 14, 2008 at 8:37 pm
COMUNICADO DA FENPROF depois da reunião esta tarde
http://www.fenprof.pt/?aba=27&cat=34&doc=3216&mid=115
Março 14, 2008 at 8:39 pm
procedimentos simplificados!?
é para para rir: lei é lei!
Este Ministério de Educação vai-se passar a chamar Ministério da Hecatombe
Março 14, 2008 at 8:43 pm
A FENPROF, sustentada pela Resolução aprovada há menos de uma semana por cem mil professores, reafirmou a exigência de suspensão da avaliação, num quadro de uma indispensável revisão do ECD. Esta posição corresponde, também, à que a Plataforma Sindical dos Professores, por consenso, reafirmou, em reunião ontem realizada.
O Secretariado Nacional da FENPROF
14/03/2008
http://www.fenprof.pt/?aba=27&cat=34&doc=3216&mid=115
Março 14, 2008 at 8:59 pm
Está tudo louco? À confusão que criaram, juntam mais confusão? Essa gentinha do Ministério tem neurónios? Têm crâneo?
Quando já estou em vias de completar 28 anos de serviço docente, verifico que não recebo os ditos 500 contos. Será que já existe, a nível dos ordenados, também a diferenciação entre escolas?