
Ia perdendo no Público de ontem, que não comprei (pelo que a imagem não é das que aumenta para ler), um muito oportuno texto de João Freire com o título «A rua não tem sempre razão». Hoje, o Pedro L. fez-me chegar a transcrição do artigo que culmina assim:
Aos professores – meus colegas de missão -, eu desejaria que não se enganassem de alvo. O direito à opinião, à indignação e ao protesto são hoje irrecusáveis, mas, numa democracia, as grandes decisões de orientação política tomam-se através do voto de todos os cidadãos. E os cidadãos-professores têm de ter (e merecer) a autoridade e o respeito necessários para se apresentarem diariamente perante os seus alunos na sala de aula.
Isto é comovente na sua aparente candura, vindo de um vulto notável e notado do anarquismo português das últimas décadas do século XX. Como factos apenas relembraria, com base em documentos e testemunhos, que João Freire foi um dos esteios das publicações de índole anarquista dos anos 70 a inícios de 90, onde se estreou nas lides da escrita uma jovem Lurdes Rodrigues, redactora e editora, por exemplo, da revista A Ideia.
Mais tarde João Freire foi alguém que alumiou a então já socióloga Maria de Lurdes Rodrigues na sua carreira académica, orientando-lhe a própria tese de doutoramento.
Que, como se lê no Terrear, João Freire seja o autor de um estudo «técnico«científico» feito para o ME e que estaria na base do actual Estatuto da Carreira Docente é apenas mais um detalhe factual.
Conclusões sobre a interligação de todos estes factos alguém que as tire, porque a mim não me ocorre nenhuma que possa colocar em forma de escrita neste espaço.
Março 7, 2008 at 9:37 pm
Sábado não estarei por aqui
http://livredoponto.wordpress.com/2008/03/07/sabado-nao-estarei-por-aqui/
Março 7, 2008 at 9:38 pm
Ups… saiu em duplicado noutro post. Desculpa Paulo.
Março 7, 2008 at 9:41 pm
Tudo bem…
Março 7, 2008 at 9:44 pm
Anarquista aos vinte situacionista aos quarenta
Março 7, 2008 at 9:48 pm
Vilaverde Cabral a Mário Crespo, na Sic notícias há momentos:
daqui até às eleições o tempo pode não chegar para o governo recuperar das consequêencias daquilo que vai acontecer amanhã (foi mais ou menos assim; referia-se à necessidade de aliviar este clima de crispação que parece sem retorno)
Março 7, 2008 at 9:53 pm
As ligações são evidentes, mas como gente inteligente apenas se lhes pede para pararem, escutarem e pensarem um pouco nas consequências do que não fizeram e deveriam ter feito, por muito paradoxal que possa parecer.
Tb sou socióloga (formada na mesma escola que os personagens da história) tb sou professora e a perplexidade já há muito que deu lugar à profunda indignação.
Março 7, 2008 at 10:01 pm
Aqueles que não querem ver são os maiores cegos.
ESTE ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA VAI CUSTAR AO PS MAIS DO QUE O GOVERNO MAIS DO QUE O PODER
MAIS DO QUE O SER: VAI-SE DESVANECER
Março 7, 2008 at 10:05 pm
Farto-me de pensar e não consigo encontrar nenhuma profissão em que as pessoas paguem para trabalhar, como nós. E se todos, de repente fôssemos trabalhar para a escola 35 h por semana?! Que tal logo na 1ª semana do terceiro período?! Em que espaços e com que recursos? 1,2,3,4 semanas… As escolas esgotariam rapidamente o seu orçamento anual!
Março 7, 2008 at 10:06 pm
Já começam a ver, já, só que lhes dói. Vital Moreira no seu causa nossa (dele) já só fala do mesmo!
Março 7, 2008 at 10:06 pm
http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/260990
13:11 | Sexta-feira, 7 de Mar de 2008
Cidadão repórter
Desafio aos leitores
Envie-nos fotos, vídeos e sons da manif de professores
Se vai à manifestação de professores, amanhã às 15h, em Lisboa, envie-nos fotos, vídeos ou sons, sejam de telemóveis ou de máquinas digitais.
O site do Expresso quer mostrar o que se espera ser o maior protesto de sempre dos professores visto pelos olhos de quem participa na manifestação. Como tal, desafiamos os professores e outros participantes na manifestação a enviar fotos ou vídeos, captados por telemóvel ou máquina digital.
As fotos, bem como os pequenos filmes e os sons, devem ser enviados para o mail
cidadaoreporter@expresso.pt
Março 7, 2008 at 10:08 pm
Era essa a posição que deviamos tomar.Ficavamos com fins-de-semana e libertos depois das 17h 30mn.Essa era a melhor armadilha para a Ministra e fieis seguidores.
Março 7, 2008 at 10:10 pm
Jurei um dia para mim próprio, e para amigos mais chegados, que nunca mais na vida me iria admirar fosse com o que fosse. Estou farto de quebrar a jura. Apesar de ter mais de meio século de idade, todos os dias fico estupefacto com o que vou sabendo. Tenho mesmo receio que um dia algum cientista decida que existem dois tipos de Homem: os que têm coluna vertebral e os que não têm.
Março 7, 2008 at 10:14 pm
O mais educado que me ocorre dizer, é que esta gentalha chafurda toda no mesmo lamaçal… e comem todos com as mãos da mesma bacia…
http://socratinice.blogspot.com
Março 7, 2008 at 10:16 pm
Eu deixei de ter impressora em casa.
Março 7, 2008 at 10:17 pm
se os teus esforços são vistos com indiferença, não desanimes!
Também o sol ao nascer dá um espectáculo todo especial e mesmo assim a maioria da plateia continua dormindo…
Amanhã vamos acordar Lisboa com o nosso silêncio
Março 7, 2008 at 10:17 pm
na avaliação externa das escolas (na minha foi há pouco mais de um mês) participam 3 pessoas: 2 inspectores e um terceiro afecto a uma entidade externa. Fiquei curioso sobre qual seria a entidade externa. Agora já não me espanta… ISCTE!
Então a avaliação externa foi feita para os amigos?…
Março 7, 2008 at 10:34 pm
Então e o computador e a electricidade e o material de escrita e os dicionários (que ficam desactualizados) e todo o tipo de livros de apoio (ao contrário de alguns senhores, estamos sempre a aprender…)E mais uma assoalhada para fazer escritório?!
Março 7, 2008 at 11:46 pm
http://www.debatereducacao.pt/relatorio/files/Dp18.pdf
João Freire -Docente do. IST(entrevista). Quais são, na sua perspectiva, …
Depoimentos Pessoais
Debate Nacional sobre Educação
Março 8, 2008 at 12:11 am
A ME encomendou-lhe um “estudo” comparativo com o exercício da profissão docente em outros países da Europa e com profissões com mesmo nível de habilitações. Etc. Para implementar as “riformas”. A reestruturação da carreira. Etc. No blog “Inquietações Pedagógicas” uma reflexão muito crítica de um colega nosso do Secundário sobre o “estudo”. Não sei onde tenho o texto crítico. Que o dito “estudo” está no segredo dos deuses.
ABSOLUTAMENTE INACREDITÁVEL. A TOTAL VERGONHA QUER PARA ELE QUER PARA A SINISTRA.
O “estudo” está no segredo dos deuses e é com base nele que ao que parece se estão a fazer as “riformas”. ABSOLUTAMENTE SURREALISTA. Tudo.
Paulo, vou tentar ler o artigo deste “sinhor”.
Março 8, 2008 at 12:19 am
Paulo,
Gostaria de ler o artigo de João Freire publicado no Público e a que fazes referência. É possível…
Obrigada.
Março 8, 2008 at 12:20 am
Amanhã a marcha deve ser silenciosa e nem sequer deviamos falar à comunicação social:
A jogada de Sócrates
Amanhã, a jogada de Sócrates será usar a comunicação social que está do lado dele para denegrir os professores.
Alguns jornalistas estarão especialmente atentos:
- a pequenos incidentes;
- a sinais de envolvimento partidário;
- a declarações à comunicação social de professores com pouca habilidade para dar entrevistas e que não saibam expressar com clareza os motivos por que ali estão;
- a comportamentos festivos de alguns professores distraídos ou despreocupados que em determinados momentos esqueçam a razão por que ali estão e a postura distinta que é exigível a um professor.
Esses jornalistas estão preparados para aproveitarem esses pormenores. E serão esses pequenos pormenores que passarão em alguns órgãos da comunicação social. Um repórter da Sic Notícias já ensaiou essa táctica a propósito de uma manifestação realizada numa cidade alentejana.
Alguns comentadores já começaram a ensaiar o discurso contra os professores: Vital Moreira, José Miguel Júdice, e outros que verão…
Até um comparsa da dita criatura dos tempos de certas lutas libertárias e anarquistas, com quem tem uma legalíssima traficância de serviços e de favores, veio em sua defesa.
Amanhã vai estar muita coisa em jogo: uma ministra, uma política, um governo.
Parte da eficácia do evento vai jogar-se na comunicação social, grande parte dela socratinizada…
Há que estar atento.
Mas principalmente, após a Manifestação, há que tomar a consciência de que, face a um Ministério da Educação irreversivelmente doente, com esta ou sem esta ministra, o destino da educação tem de estar nas mãos dos professores, que têm de ter consciência de que todas as doutrinas e filosofias ensaiadas nos últimos 40 anos mais não fizeram do que produzir as mais impreparadas gerações que tivemos em nove séculos de História numa visão comparada com o resto do mundo.
Tomar esta consciência talvez seja mais difícil do que depor uma ministra arrogante, prepotente, tirana e incompetente…
O Ministério da Educação não pode continuar a destruir Portugal, condenando os jovens portugueses a esta abjecta ignorância.
Essa tem de ser a grande luta dos professores. Contra essa luta só podem estar os medíocres para quem a escola é apenas uma mera secretaria emissora de diplomas mesmo que obtidos de forma duvidosa…
http://socratinice.blogspot.com/
Março 8, 2008 at 12:40 am
Onde se encontra o estudo que lhe foi encomendado pela ME (e pago por todos nós) para reestruturação da carreira docente?
Á “reforma” decorre desse “estudo” da autoria deste sociólogo. Onde encontrar?
Março 8, 2008 at 1:34 am
“Tomar esta consciência talvez seja mais difícil do que depor uma ministra arrogante, prepotente, tirana e incompetente…”
dada a importância do comentário do 10000000 seria bom que o paulo o passasse a post se não for abusar da hospitalidade. é que é mesmo muito importante…
Março 8, 2008 at 1:35 am
o comentário é o 21, desculpe.
Março 8, 2008 at 2:09 am
O direito à indignação e ao protesto são irrecusáveis, mas, numa democracia, as decisões tomam-se através do voto. É curioso e surpreendente situar-me eu na posição de criticar movimentos populares de contestação ao poder político, sem que me sinta obrigado a defender este, ou qualquer outro, Governo. Mas nem o facto de ter dado um contributo técnico, profissional, para o início deste processo me inibe de exprimir agora uma opinião.
As reformas no sector da educação e as relações laborais entre professores e ministério de tutela transformaram-se em conflito social e assumem já uma dimensão política. Não é uma novidade. O sindicalismo é uma entidade de representação de interesses colectivos (dos assalariados) mas que, institucionalizando-se, também cria os seus interesses “próprios”: os dos dirigentes, dos militantes, dos funcionários do “aparelho”, da salvaguarda da sua própria função e respectiva imagem pública. No caso português, os vectores mais dinâmicos e dominantes do sindicalismo são conduzidos por gente com uma iluminação ideológica e, frequentemente, com alinhamentos partidários: quando a conjuntura o permite, jogam o peso da acção social na cena política, geralmente contra o Governo em funções, no que tendem a ser acompanhados pelas diversas forças da oposição. Ninguém sabe como esta crise irá terminar, mas o diagnóstico compreensivo da situação não é muito difícil de fazer.
A novidade da conjuntura presente é a de que o mal-estar latente no corpo professoral transbordou agora para a rua, sob a forma de mobilização contestadora (mais do que reivindicadora), amplamente multiplicada pelos ecos mediáticos, onde se exprimem emoções e frustrações diversas. Não nos iludamos: as convocatórias e manifestações ad hoc, possibilitadas pelos gadgets de comunicação interpessoal, não são mais do que a forma pós-moderna do tam-tam africano ou do velho rumor urbano ocidental. Mas as “minorias activas” tentam controlar e canalizar este fluxo para objectivos que só elas saberão precisamente quais são. Quase todas as revoluções se fizeram assim. Contudo, não é porque um relatório de “sábios” alerta para os perigos de uma “crise social” ou um general reformado chama a atenção para a deslegitimação progressiva do nosso regime democrático que o país vacila nas suas convicções profundas de querer continuar a “ser”, num clima de liberdade e com a prosperidade possível.
Os professores terão certamente algumas razões de queixa: a inadequação das instalações para a sua permanência e trabalho nas escolas exige fortes e urgentes investimentos; a avalancha das normas administrativas que sobre eles desaba carece provavelmente de algum simplex; etc. Mas qualquer observador atento que conheça um pouco o ambiente nas nossas escolas públicas teria percebido a existência, entre os professores, de uma implícita hierarquia de reconhecimento profissional que cindia o corpo docente em três grupos, grosso modo: um importante sector de indivíduos competentes, dedicadíssimos e experientes, merecedores de todos os encómios (até pelas crescentes dificuldades da missão educativa); uma pequena minoria de equivocados na profissão, incapazes de melhoria e perturbadores do clima relacional na organização escolar; e, como sempre, uma maioria de pessoas de boa vontade e com todas as capacidades para progredir e incrementar as suas qualidades profissionais, com benefícios directos para a aprendizagem das crianças e os resultados (qualitativos e quantitativos) do ensino. A organização da carreira docente em categorias profissionais e uma real avaliação do desempenho (que não tinha qualquer efectividade no estatuto anterior) procuraram traduzir organicamente aquelas clivagens, “partindo” o falso princípio da igualdade nas recompensas (quando os contributos são tão diferenciados) e tentando construir um sistema meritocrático e de responsabilidade (individual e grupal, no seio na comunidade escolar) no exercício da função docente.
É provável que o processo administrativo (concurso) que levou já à nomeação de uns milhares de professores-titulares tenha corrido com deficiências, produzindo casos de injustiça individual, no sentir dos próprios e dos seus pares, e distorcendo a “hierarquia reconhecida”. Mas é precisamente àquele “igualitarismo” e “irresponsabilidade” que os líderes sindicais (e outros) têm vindo a apelar, na batalha que querem travar contra estas reformas.
A sociedade (e o Estado) atribui aos professores um “poder social” considerável: não apenas a responsabilidade de ensinar, mas também a faculdade de “julgar e avaliar” (os saberes adquiridos e, implicitamente, as pessoas que os exibem) e de se mostrarem eles próprios como “modelos educativos” para as crianças e jovens em formação.
Aos professores – meus colegas de missão -, eu desejaria que não se enganassem de alvo. O direito à opinião, à indignação e ao protesto são hoje irrecusáveis, mas, numa democracia, as grandes decisões de orientação política tomam-se através do voto de todos os cidadãos. E os cidadãos-professores têm de ter (e merecer) a autoridade e o respeito necessários para se apresentarem diariamente perante os seus alunos na sala de aula.
Março 8, 2008 at 2:10 am
Texto do João Freire completo, para a Ana Henriques
Março 8, 2008 at 3:03 am
ó da, poupe-nos os lençóis. quem parece ter dificuldades de compreensão não são os professores.
Março 8, 2008 at 3:04 am
este seu argumento é forte…
“O direito à opinião, à indignação e ao protesto são hoje irrecusáveis, mas, numa democracia, as grandes decisões de orientação política tomam-se através do voto de todos os cidadãos.”