A revolta dos professores
Os docentes não suportam mais a indignidade com que têm sido tratados
Há evidências incontestáveis: as manifestações dos professores um pouco por todo o país (Viseu, Guarda, Braga, Coimbra, Castelo Branco, Portalegre, Setúbal e Faro), que culminarão com a anunciada marcha de 8 de Março, expressam a revolta dos docentes, que não suportam mais a indignidade com que têm sido tratados.
Sinistramente, primeiro-ministro, ministra da Educação e secretários de Estado começaram por incendiar a sociedade contra os professores. Entre outras, propalaram falsas ideias (que nesta coluna desmenti, com recurso a estatísticas da UE), segundo as quais os professores teriam fartos privilégios, ganhando mais que os colegas europeus e trabalhando menos que eles, apesar de serem (assim insinuaram) os responsáveis principais pelos elevados níveis de abandono e de insucesso escolar que caracterizam o sistema de ensino. Depois, seguiram-se as previsíveis medidas “moralizadoras” das quais recordamos três:
1. O horário de trabalho dos professores foi drasticamente aumentado. A incontinência legislativa deste governo inundou as escolas de decretos, portarias, despachos e circulares, que tornaram a vida dos professores num inferno de cumprimentos burocráticos inúteis. As alterações das reduções de tempo de serviço em função da idade e da própria idade de reforma, como é sabido, tornaram mais penoso o exercício profissional em contextos de maior debilidade física. Escravizaram-se muitos professores, obrigando-os a permanecer nas escolas sem condições nem motivo (a farsa e a desumanidade de muitas “aulas de substituição”) e vergaram-se muitos outros a exercícios profissionais próprios de auxiliares ou de amanuenses. Quem resista fisicamente e queira cumprir, pode ter que trabalhar hoje mais de 50 horas por semana. Como contrapartida, reduziram administrativamente os salários e aprestam-se agora a “depurar” o sistema, recambiando para o quadro dos disponíveis, com as desumanas consequências inerentes, os professores doentes, que consagraram vidas inteiras à Escola e ao ensino.
2. A fractura da carreira única em duas, com a emergência dos professores titulares, foi servida por um processo escabroso. É impossível descrever ao cidadão comum o quadro de injustiças cometidas. A insanidade que queimou carreiras e dedicações de vidas à aleatoriedade dos últimos sete anos, provocou chagas incicatrizáveis no tecido social das escolas. É simplesmente insuportável que um estalar de dedos ministeriais ponha à frente dos melhores muitos dos menos preparados, dos menos formados, dos menos experientes, dos menos competentes.
3. O modelo de avaliação do desempenho que se quer impor é insensato e irresponsável: como compreender que se seja penalizado por parir ou ficar viúvo? É tecnicamente medíocre: a formulação de descritores, por exemplo, entrou em roda-viva de apressados improvisos (vide o escabroso caso debatido na Assembleia da República), quando a validade de qualquer deles passaria obrigatoriamente por exercícios de pré-testagem, que não estão previstos. É leviano nos prazos que impõe: é factualmente impossível cumprir um digrama de execução daqueles em coincidência com o período de maior concentração de tarefas escolares. É fantasioso numa sujeição a emanações teóricas e científicas de órgãos que, previstos, nunca foram constituídos: onde está o decantado conselho científico? Está eivado de critérios ridiculamente subjectivos: como se mede a relação de um professor com a comunidade?
Num debate televisivo recente, a ministra ripostou a uma interveniente que não interessavam as pessoas mas sim as políticas. Enganou-se. São as pessoas que definem as políticas. E quando na defesa dessas políticas permitem que se crie o ambiente que hoje se vive, transformando as suas relações com a sociedade que governam num caso continuado de tribunal, só sobra uma solução: a saída dessas pessoas.
Santana Castilho, Professor do ensino superior
Março 5, 2008 at 5:01 pm
Muito bem. E ficou por referir um novo estatuto do aluno, atabalhoado e absurdo, que saiu e foi logo suspenso, uma lei sobre o ensino especial tão desumana que levou a Assembleia da República a ter de a corrigir e de um novo regime de autonomia que reforça a dependência das escolas do ME. Um ME que governa não segundo os interesses das crianças, que têm de permanecer o dia inteiro em regime fechado nas escolas, mas segundo os interesses dos pais, subsidiando a organização que os representa e com quem negociam as mudanças na educação.
Março 5, 2008 at 5:33 pm
Clap! Clap! Clap!!!
Além do mais subscrevo inteiramente o comentário acima!
Março 5, 2008 at 5:52 pm
Informação:
Petição contra a Prova de Ingresso na Carreira Docente, promovida pelo Movimento Democracia, a ser entregue dia 14 de Março, pelas 15 horas, na Assembleia da República.
11685 signatários
mais em movimentodemocracia.blogspot.com
Março 5, 2008 at 6:06 pm
Bravo. Excelente texto. Curto e objectivo, como convém. E acerta em cheio na «mouche».
Março 5, 2008 at 6:09 pm
Parabéns ao Santana Castilho.
Março 5, 2008 at 6:10 pm
Obrgdo, papoilix. E não foi preciso referir uma única vez os professores…
Março 5, 2008 at 6:21 pm
Mais uma vez hoje no “Publico” Santana Carrilho o ilustre pensador que há anos anda ressabiado por nunca ter sido repescado para algum cargo politico relevante promovido pela direita ou pela esquerda, destila a sua frustração.
Março 5, 2008 at 6:22 pm
Sou marido de professora. Acabou o tempo para a família. A direcção de turma prolonga os telefonemas serão dentro. Os filhos e o marido também pagam. A falta de disponibilidade, pela falta de tempo, pelo ambiente crispado, pelas putas das reuniões que se prolongam quase todos os dias para lá das oito da noite. Mais o conselho de turma, e a de departamento de mat. e a de departamento de Ciências, e a de pedagógico e a de directores de turma, e o disciplinar, pelas mais de 10 horas diárias (acabadas á noite em casa)de prenchimento de papelada, e de cartas para a Comissão de protecção de menores e encarregados de Educação a avisar as duas faltas, e as 4 faltas e a puta que pariu isto tudo. Pelos fins-de-semana que já não há. E é mais as aulas assistidas pela formadora (uma daquelas da ESE que descobriu a polvora como as beatas que vão a Fátima, choram muito e vêm de lá convencidas que viram a Nossa Senhora).
Até eu ando a fazer fotocópias no escritório, porque o departamento já não tem verba e o fotocopiador está sempre avariado.
Ainda por cima, não tenho mulher. Está ocupada com a Escola.
Há aí alguém que me possa indicar o telemóvel de uma das mulheres de um dos secretários de estado ? Como os gajos estão tão ocupados, poderia ser que a mulher de um deles me pudesse desenrascar. Estou a precisar de apoio psicológico.
Março 5, 2008 at 6:32 pm
albino mau escreveu Carrilho e não Castilho … Freud explica!
Março 5, 2008 at 6:35 pm
Acho um piadão quando alguns comentadores vêm dizer que tem que se neutralizar a “minoria radical” do movimento de protesto dos professores. Ainda não perceberam que:
1- há uma maioria radical! Eu, radical me confesso (bem como os colegas com quem vou falando, dado o tamanho descomunal da nossa indignação e da nossa determinação em protestar) e não sou nem militante de partido nem sindicalista (e se fosse um ou outro, estaria no pleno exercício dos meus direitos cívicos!)
2- o actual movimento de protesto resulta também de anos e anos de medidas educativas erradas e de desautorizações (para não falar em humilhações…) sucessivas por parte das equipas ministeriais. Esticaram a corda durante anos e agora…ups!
Março 5, 2008 at 6:44 pm
“Mantêm uma relação pedagógica com os alunos produtora de:
· expulsão de aluno(s) da sala de aula;
· atitudes de rejeição do aluno face à frequência da respectiva
aula;
· desinvestimento do aluno na disciplina.
Entrevista a alunos (em
caso de necessidade)
Mantém, recorrendo aos mecanismos legais à sua disposição uma
relação pedagógica com os alunos: não utiliza o mecanismo de
expulsão de alunos da sala de aula.
*Mantém com os alunos uma relação pedagógica potenciadora de
inclusão e de investimento pessoal dos alunos na melhoria dos
seus próprios resultados de aprendizagem”
Mais uma pérola da Escola EB23 Correia Mateus
Março 5, 2008 at 6:48 pm
Para descomprimir:
TRRIIIMM… TRRIIIMM… TRRIIIMM…
Responde o atendedor de chamadas:
“Obrigado por ter ligado para o Júlio de Matos, a empresa mais adequada aos seus momentos de maior loucura.”
* Se é obsessivo-compulsivo, marque repetidamente o 1;
* Se é co-dependente, peça a alguém que marque o 2 por si;
* Se tem múltipla personalidade, marque o 3, 4, 5 e 6;
* Se é paranóico, nós sabemos quem é você, o que você faz e o que quer. Aguarde em linha enquanto localizamos a sua chamada;
* Se sofre de alucinações, marque o 7 nesse telefone colorido gigante que você, e só você, vê à sua direita;
* Se é esquizofrénico, oiça com atenção, e uma voz interior indicará o número a marcar;
* Se é depressivo, não interessa que número marque. Nada o vai tirar dessa sua lamentável situação;
* Porém, se você votou no Sócrates, não há solução – desligue e espere até 2009. Aqui atendemos LOUCOS e não INGÉNUOS!
Obrigado!
Março 5, 2008 at 6:49 pm
A marcha do dia 8 acaba no Terreiro do Paço. Ui
Março 5, 2008 at 6:55 pm
Se um aluno insistir numa má conduta que além de me desrespeitar está a impedir que os outros usufruem da aula, não o posso expulsar da aula?
e se eu lhe pedir por favor que se comporte?
e hipnotizá-lo, posso?
Março 5, 2008 at 6:55 pm
errata: usufruam
Março 5, 2008 at 7:05 pm
Vale a pena dar uma olhadela neste artigo, escrito na óptica dos economistas, e que chumba tecnicamente o modelo de avaliação dos professores: http://diarioeconomico.sapo.pt/edicion/diarioeconomico/opinion/columnistas/pt/desarrollo/1096452.html
Seria interessante transcrevê-lo aqui no «Umbigo»
Março 5, 2008 at 7:07 pm
Fada dos dentes
Isso é uma amostra dos que nos está a cair em cima: a visão romântica do ensino, tal como Nuno Crato a denunciou, levada às ultimas consequências de absurdo e de crueldade para com os professores. Eu vou à marcha do dia 8 por isso, para que de uma vez por todas deixe de ser essa visão errada do ensino (e da natureza humana…) a enformar o chorrilho de legislação que este ministério e os anteriores veem produzindo para nosso mal, dos próprios alunos e do nosso futuro.
Não gostaria de ver a Ana Benavente a marchar ao meu lado. Ela marcha contra quê? se esta legislação é feita por um governo do partido dela, e vem na sequência lógica do que ela fez?
Os militantes do PS que vão à marcha deveriam levar a bandeira do partido com uma fita negra.
Os jornalistas, antes de falarem dos professores e do estado do ensino, deveriam ir ao terreno ver como é. Afinal, não é isso que mandam as regras do bom senso e do bom jornalismo? À do prós e prós poderia eu próprio indicar-lhe duas ou três turmas da minha escola. Ela que esperimentasse ir lá dois dias seguidos, das 8.25 às seis, e depois falávamos. O mesmo tratamento para quem escreveu “relação pedagógica produtora de expulsão da sala de aula”
Março 5, 2008 at 7:08 pm
Eu sinto-me orfã . Hoje ainda não ter ouvido a srª e não saber notícias daqueles lados.
ahahahahah
Março 5, 2008 at 7:10 pm
lol Hoje ainda não ouvi.
Março 5, 2008 at 7:20 pm
Ontem fui pela primeira vez na vida a uma manifestação. Foi em Beja,um frio de rachar e centenas de colegas, não sei quantos, depois de um dia longo de trabalho, estiveram ali. Decididos, unidos como nunca.
Adorei ver esta união que nunca tinha visto em 20 anos de ensino.
Parabéns a todos os colegas e até dia 8.
Março 5, 2008 at 7:20 pm
[...] Santana Castilho o herói de hoje no jornal “Público” transcrito no Blog “ Educação do Me… [...]
Março 5, 2008 at 7:25 pm
Não quero fazer propaganda a outros Blogs, mas Santana Castilho é o tal de 2002 num artigo na “a Pagina” repescado aqui?
http://antifalsospedagogos.wordpress.com/
Março 5, 2008 at 7:35 pm
Apenas um pormenor: os professores empenhados em cumprir não fazem 50 horas por semana. Se estão empenhados em cumprir, devem ler o Estatuto da Carreira Docente no artigo sobre o horário de trabalho semanal. Salvo erro, são 35 horas. Quem se dá à desvergonha de fazer 50 horas fazia melhor não se queixar. Uma coisa é ser flexível e trabalhar um pouco mais quando é mesmo necessário, outra coisa é abusar no desrespeito da Lei. Ser apanhado a 140 à hora não é o mesmo que ser apanhado a 200.
Março 5, 2008 at 7:43 pm
Pelo vistos ando sempre em imcumprimento. A infracção é mesmo muito grave. O consolo é que não devo ser caso único.
Março 5, 2008 at 7:43 pm
incumprimento, claro
Março 5, 2008 at 8:17 pm
Santana Castilho tem dado um valioso contributo para a compreensão do que está em causa quando o tema é a continuada degradação do nosso estatuto profissional. Se há mais tempo o tivéssemos levado a sério, por certo não estaríamos na situação crítica em que nos encontramos; nós, a escola pública e os estudantes que ainda têm na escola, apesar de tudo, um valioso suporte para um futuro melhor.
Março 5, 2008 at 8:30 pm
Apesar de tudo, temos feito um esforço sobre-humano para aguentar as escolas de pé.
Março 5, 2008 at 8:37 pm
E a sala de aula calma e saudável:)
Penso que é isto que incomoda alguns!
Março 5, 2008 at 8:49 pm
Sim, também. A sala de aula continua a merecer o nosso incondicional respeito. Feridos, muitas vezes; incrédulos, tantas outras. Inevitavelmente, damos por nós de olhar vazio a tentar entender o furacão que diariamente nos atropela, porque sim. Houvesse uma razão plausível, uma justificação séria; um sacrifício compreendido, não para todo o sempre e, muitos de nós, teriam compreendido, pois essa é a nossa prática|missão de todos os dias. Mas não! Os ataques são continuados. Mal reagimos ao sobressalto, outro sobressalto está a caminho. Por mais cuidados de saude que a escola necessitasse, tantas intervenções cirúrgicas, em simultâneo, se não reagimos, vão dar cabo de nós. Por isso temos que ir à consulta de excepção, dia 8, em Lisboa. Estaremos para quebrar, ou voltaremos a torcer?
Março 5, 2008 at 8:51 pm
Ooops! saúde, claro!
Março 5, 2008 at 8:59 pm
Não acho que torçamos…
Março 5, 2008 at 9:45 pm
Santana Castilho sempre está do lado dos professores desde sempre…
Março 5, 2008 at 10:04 pm
Sanatana Castilho tem estado, desde sempre,ao lado dos professores. Desde sempre denunciou a demagogia e a má política das medidas da ministra Fê-lo, sempre, de forma clara e bem fundamentada demonstrando conhecimento da realidade das escolas e do quotidiano dos professores. Merece o meu respeito e admiração.Obrigada:)*
Março 5, 2008 at 11:43 pm
Desculpem lá,
mas Santana Castilho é uma besta, repararam que o texto do senhor não passa de “copy past” do que tem sido escrito na blogosfera?
Quem gosta deste senhor que leia o livro que ele escreveu “Manifesto para a Educação…”
Este homem é um frustrado.
Março 5, 2008 at 11:52 pm
Santana Castilho fala em «revolta». E é mesmo o que está a acontecer. As pessoas que estão fora disto ainda não se aperceberam que essa revolta é o resultado de um acumulado de anos e anos de insinuações e descalabro legislativo/pedagógico, de dislates intelectuais em relação a nós, de má fé e de muita ignorância. Além disso aparecendo sempre as “sérias” personagens que até parecem nunca ter tido nada que ver com o assunto. Ontem dei por mim a ouvir Manuela Ferreira Leite a defender esta reforma e as posições da ministra, afirmando que a educação está mal, que tem de mudar, que o 1º ministro não pode voltarr atrás, etc… Mas eu pergunto! Afinal esta senhora não foi também ministra da educação? E o que é que fez quando lá esteve? O que melhorou? NUNCA TEVE NADA QUE VER COM O ASSUNTO???
o exemplo de Manuela Ferreira Leite é apenas um estre muitos outros. ESTA GENTE NÃO É NEM NUNCA FOI RESPONSÁVEL POR NADA? E quem os ouve agora até poderá julgar que nunca existiram.
Para terminar, esta equipa ministrial, avança com uma reforma que coloca a cereja em cima do bolo. A «culpa é dos professores», pois claro. Da mesma forma de que a culpa da porcaria de sistema de saúde que temos «é dos médicos», a porcaria de justiça que temos «é dos juizes e advogados»,a culpa da insegurança «é dos polícias» e, como é óbvio a culpa de se perder uma guerra «é dos soldados» e NUNCA dos generais que estabelecem a táctica!
Acho que ficámos fartos!!! A barragem rebentou!
Março 7, 2008 at 11:37 pm
Concordo em absoluto. As escola estão transformadas em locais de tortura. É certo que os professores têm de trabalhar cerca de 50 horas se quiserem cumprir: preparar aulas, fazer testes formativos e sumativos, dar aulas . Não há tempo para a reflexão, para a formação científica, para pesquuisar materiais novos. Nada.
As horas que estamos na escola são infrutíferas.E as reuniões, infindáveis e não pagas?
Está na hora de dizer basta!
Março 21, 2008 at 7:12 pm
Mais um artigo do demagogo SC. Que continua a fazer-me pensar sériamente que com Professores Universitário deste calibre tenho de colocar as crianças no privado. Aqui no rectângulo a professorada que foi dar aulas para o público porque nem um prego sabiam pregar tocou a rebate reaccionáriament ao ver as suas mordomias postas em causa.Sol na Eira e Chuva no Nabal,padrão de vida Ocidental com gestão Soviética.E sr. Prof.SC lá vai com as suas manhas atordoando os incautos como se demonstra aqui…E é com estes nossos profs.que vamos instruindo o nosso futuro como nação.Só exemplo de revolta e depois admiram-se se os alunos não lhes passam “cartucho”.