Se há coisas que me deixam indeciso entre a irritação e o tédio mais absoluto são as declarações públicas de «notáveis», em forma individual ou colectiva, a diagnosticar sintomas de mal-estar quando a doença já vai avançada. Sejam eles generais que até dirigem organismos dependentes do Estado que criticam (Garcia Leandro), sejam organizações que há 35 anos fazem parte da tessitura do regime e são formadas por quem fez o que há (SEDES).
Normalmente são considerações vagas, vagamente alarmistas e ainda mais vagamente oportunas, pois por via de regra apenas verbalizam evidências que qualquer observador atento percebe sem o recurso a análises muito profundas. Mais aborrecida é ainda a forma como, quando se lhes pede para concretizarem o diagnóstico, apontarem a culpa do mal-estar e soluções para o resolver, se ficam novamente por considerações vagas, fugindo a atribuir responsabilidades e ensarilhando-se no seu próprio discurso. Foi o que se passou nas entrevistas televisivas do general Garcia Leandro após o artigo no Expresso e com as declarações do presidente da SEDES, Vítor Bento, quando a TSF foi falar com ele.
Porque no fundo não querem desagradar. Apenas querem tempo de antena. Uma atençãozinha mediática. Um maior espaço na mesa dos «conselheiros» do regime.
Afinal o que era, não era bem assim. O mal-estar há, mas não há. Não é de agora, é de sempre. Não se percebe se dará alguma coisa ou não. Se a crise social está aí ou não está. Enfim, uma absoluta perda de tempo, espaço de jornal e e ondas hertzianas ou outras.
A verdade é que a insatisfação anda por aí e começa a sair à rua sem pré-enquadramentos organizacionais. E não são só «militantes de outros partidos» (eu gostaria que pessoas sem partido que estiveram no Rato exigissem a José Sócrates o que o ME anda a tentar extrair a Manuel António Pina). É muito boa gente cansada e farta, sem mais paciência para um estilo simultaneamente hard (a arrogância da atitude, a infalibilidade proclamada) mas muito light (a escassa fundamentação e a superficialidade do discurso)
O que se passou ontem em três pontos do país com grupos de professores a demonstrarem o seu desagrado com isto (e é bom que não se usem fórmulas simplistas para definir aquilo que pretendem) é algo que não se enquadra em vulgatas de má sociologia e/ou de ciência política de bar de Universidade ou de restaurante lisboeta ou portuense de 5 estrelas com direito a fumo de charuto. Muito menos em reflexões apressadas, entre a caça e o remanso do monte alentejano.
É a vida tal como ela é, sem ser vista e vivida pelas lentes das pseudo-elites políticas e culturais do portugalinho que se estende por uns quilómetros quadrados de Lisboa, Cascais, Porto ou Coimbra.
E é uma vida que se movimenta de acordo com lógicas imprevistas para os leitores e produtores dessa má sociologia (da inacção) e dessa míope ciência política rendida aos valores light do marketing.
Não é um mal-estar difuso.
São já os gritos da dor de uma doença a sério.
(e agora vou ali ver se perdoo a mim mesmo esta última tirada algo melodramática)
Fevereiro 24, 2008 at 3:52 pm
Ena, Paulo! Até fez espuma!!!!!!!!!
Fevereiro 24, 2008 at 4:58 pm
A sr.ª Ninistra deve estar a pensar:
“sou mesmo burra, burra, burra!!! porque é que não tive “tomates” para os entregar as autarquias… agora tenho de levar com eles!!!”
Fevereiro 24, 2008 at 7:06 pm
1 – Não é melodramático quando professores são mandados morrer a trabalhar.
2 – Parabéns pela publicidade que lhe estão a fazer e pelo neologismo “guinodocente”. Não há publicidade negativa, e é um reconhecimento de valor e empenho.
3 – Seria bom “contar-se às crianças explicar-se ao povo”, em linguagem acessível, o que realmente se passa com os professores, com a tutela, com a CONFAP, etc..
Fevereiro 25, 2008 at 12:44 am
Eu estive lá e não dei pela presença de nenhum destacado dirigente socialista… ou social-democrata, ou comunista, ou centrista, ou bloquista, ou, ou, ou…
Admito que lá estivessem militantes de vários partidos e professores sindicalizados em vários sindicatos. Uma professora que fez mais do que uma intervenção apresentou-se como conselheira nacional da Associação Nacional de Professores. Mais ninguém se identificou como militante de qualquer outra organização.
De qualquer forma, como à entrada não se exigiu a identificação a ninguém, pode lá ter estado muito filho de muita mãe. Incluindo jornalistas que escreveram notícias sobre algo que não presenciaram.