Não sou nenhum anjinho. Nem pretendo ser impoluto, ingénuo, incorruptível, ou qualquer outra coisa começada por um in ou im.
Não se chega aos entas sem os nossos pecadilhos no rol.
Mas continua a afligir-me que se minta, omita ou distorçam os factos por mera comodidade, talvez para «conforto» de uma argumentação que desiste de se fundamentar de forma rigorosa.
Ao contrário de quem perdoa ou «compreende» a falta de rigor na retórica e na luta política, como se esse fosse um mundo em segunda mão, em que a «mentira política» não é tão reprovável como a mentira simples, acho que deveria ser exactamente nesse tipo de arena que o respeito pela transparência e verdade teriam obrigação de ser maiores.
Claro: afinal sou ingénuo e, pior do que isso, ainda não cheguei à fragmentação pós-moderna da «verdade», em que ela é toda muito relativa de acordo com o observador.
Mas admito-o: a mentira (ou «inverdade» no eufemismo do politiquês) gratuita, instrumental, claramente usada para desacreditar algo ou alguém de forma voluntária é uma das razões maiores para ter há muito desacreditado dos políticos profissionais ou amadores.
Por isso a minha reacção visceral de repulsa a muito do que emana do Ministério da Educação para a comunicação social. Quem me critica por não ser suficientemente positivo acerca de algumas medidas do ME, desconhece a razão de se ter tornado essa a minha reacção primária.
Abomino a pequenez mesquinha de quem falta à verdade paraatingir os seus fins, sendo que estes nem sequer justificam tais meios.
Hoje volto a ficar mesmerizado com as declarações de Maria de Lurdes Rodrigues sobre o funcionamento do 2º CEB, nomeadamente da dimensão dos seus Conselhos de Turma e da organização dos horários das turmas e professores.
Eu gostaria que MLR apontasse quantas e quais são as escolas em que os Conselhos de Turma do 2º CEB excedem os 9-10 professores. Porque eu consigo apontar muitos casos em que a regra é a existência de apenas 7-8 (um para LP/HGP, outro para Inglês, outro para Matemática/Ciências, dois para EVT e um para, respectivamente, Educação Musical, Educação Física e Educação Moral e Religiosa quando se aplica a situação). Essa é, pelo meu conhecimento directo desde 1992 neste ciclo do ensino básico, a regra. No máximo 9-10 docentes. A introdução das ACND não alterou isto porque foram distribuídas pelos docentes das disciplinas previamente existentes.
Mas para justificar não sei bem o quê, MLR decide afirmar que a realidade não é esta e transpõe as críticas feitas ao seu Ministério relativamente à manta de retalhos curricular do 3º CEB para o 2º CEB.
Porquê? Para quê?
Porque distorcer a realidade dos factos? Para quê apontar o dedo às escolas por algo que não é verdade?
Será que o Conselho de Escolas não tem ninguém que informe a senhora Ministra destes deslizes sucessivos e lhe explique que ou se informa ou é exigível que respeite o rigor dos factos e pare de ofender, de forma recorrente, a gestão das escolas com base em falsidades?
Fevereiro 12, 2008 at 2:21 pm
http://noticias.sapo.pt/lusa/artigo/84a1019b25be6eafe346f8.html
“Na prática, o que acontece é que cada um dos espacinhos é preenchido por um professor e é isso que dá lugar à situação de os alunos do segundo ciclo conhecerem, por exemplo, 16 professores”
Quando disse que o 2.ºciclo tinha 16 professores devia estar a confundir como 3.ºciclo.
“(…)o Governo vai reorganizar o horário dos alunos do 5º e 6º anos, preparando-se para pôr em prática um modelo semelhante ao que já introduziu no primeiro ciclo.
Há dois anos, o Ministério da Educação tornou obrigatório o prolongamento do horário das escolas da antiga primária até às 17:30, estipulando que as actividades como Música, Desporto, Expressões ou Inglês fossem dadas apenas na parte da tarde, fora do currículo das crianças.
“Temos intenção de alargar o conceito de escola a tempo inteiro ao 2º ciclo (…) Em algumas escolas sobrelotadas não é possível acabar já com o regime de desdobramento (turmas de manhã e outras de tarde), mas é para isso que se deve caminhar, como se caminhou no primeiro ciclo”, anunciou.
Segundo a ministra, trata-se de “dar às escolas a possibilidade de oferecerem aos alunos um conjunto de actividades extracurriculares com condições”.
“Dar condições para que a formação musical possa ser estendida, para que as visitas aos museus e aos espaços de património possam ser organizadas de modo diferente, para que o desporto escolar possa ser alargado às turmas do segundo ciclo”, exemplificou.”
Mas densansem que não vão ter os autarcas à perna!
“O modelo será gerido pelos próprios estabelecimentos de ensino, ao contrário do que sucede na antiga primária, onde são maioritariamente as autarquias e associações de pais a assegurar as actividades de enriquecimento curricular.”
Fevereiro 12, 2008 at 2:41 pm
“Será que o Conselho de Escolas não tem ninguém que informe a senhora Ministra destes deslizes sucessivos e lhe explique que ou se informa ou é exigível que respeite o rigor dos factos e pare de ofender, de forma recorrente, a gestão das escolas com base em falsidades?”
Não, não tem. Porque as escolas que a sra ministra ouve são aquelas onde há “boas práticas”, que até já vão cumprir os “prazos indicativos”, mesmo quando as outras, as incompetentes, alegam não o conseguirem fazer.
Porque se a ministra é sinistra, há muitos sinistros nos executivos deste país, professores como nós, que alimentam o despotismo e arrogância ministerial.
Felizmente, na minha escola, o executivo não tem essas tais “boas práticas”, ainda…
Fevereiro 12, 2008 at 5:27 pm
Ainda só tinha ouvido de raspão, na rádio, essa notícia para que DA nos remete. Ouvi que a ministra referira os 16 professores por turma no 2º Ciclo, o que também jamais vi, sendo uma pura mentira. E ouvi que o ME iria concentrar as disciplinas por professor, o que me fez logo lembrar o novo regime de formação para a docência, com o professor generalista para o 2º Ciclo, que foi aprovado sem grande contestação por parte daqueles de quem se esperaria que não andassem, na altura, calados como andaram.
Mas venho deixar um testemunho de uma visão já muito antiga dos então ministérios da educação, relativamente a esta parte da notícia:
“A ministra explicou que as escolas nunca puseram em prática um mecanismo que permitia que um só professor leccionasse um conjunto de disciplinas à mesma turma, como Matemática e Ciências ou Língua Portuguesa e Inglês, por exemplo, apesar de o currículo prever essa possibilidade.”
Ora, eu lembro-me bem dos tempos em que alguns presidentes dos então conselhos directivos pretendiam aplicar essa possibilidade que a ministra refere atribuindo indiscriminadamente as disciplinas de Matemática e de Ciências, mesmo quando tinham na escola professores com formação científica específica para uma ou outra (ainda não havia as ‘licenciaturas em ensino’) e conheci colegas de Matemática que, ao não serem aproveitados para leccionarem exclusivamente esta, ou até ser-lhes atribuído um horário só com Ciências, reclamarem superiormente e, de imediato, a então Direcção Geral Qualquer Coisa (já não lembro as designações) mandarem os referidos presidentes corrigirem o critério (então considerado falta de critério).
Mas isso foi noutros tempos, com outras visões (independentes então da cor política dos governos). Enfim… coisas retrógradas, falta minha de adaptação a novos tempos e novas realidades…
Fevereiro 12, 2008 at 6:18 pm
Já agora, acrescento (e refiro o 4º Grupo do 2º Ciclo por ter sido o meu grupo, pelo que conheço a questão muito melhor do que noutros grupos) uma informação que hoje quase ninguém tem por não ser desse tempo: Na reforma Veiga Simão juntaram-se nesse grupo a Matemática e as Ciências unicamente devido à escassez de professores com formação específica na primeira, e os cursos de ciências (Biologia, etc.) tinham Matemática no 1º ano. E assim ficaram para sempre as duas disciplinas juntas nesse ciclo, como se tivessem uma natural afinidade…
Fevereiro 13, 2008 at 8:58 am
Subscrevo INTEIRAMENTE as palavras indignadas do Paulo sobre a mentira!
De facto, só o pudor e o desejo de fugir à latrina em que esta ministra despejou o Ensino tem evitado que se chame MENTIROSA à senhora. Mas há que chamar os bois (ou as vacas!) pelos nomes! A SENHORA MINISTRA DA EDUCAÇÃO DO MEU PAÍS É MENTIROSA!
E não é de agora: sempre que precisa de limpar a face, esta senhora não hesita em recorrer à mentira, à falsidade, à distorção dos factos. Ela sabe que ainda há muitos jornalistas que adoram “bater nas corporações”…
Tenho de repetir a velha máxima, para não deseperar:
“É possível enganar algumas pessoas durante todo o tempo; é possível enganar todas as pessoas durante algum tempo; mas não é possível enganar todas as pessoas durante todo o tempo!”
Ela há-de cair! E nós cá estaremos para es exéquias…