Um dos articulistas que mais apoio deu a Maria de Lurdes Rodrigues e que, Sousa Tavares à parte, sempre se dirigiu aos docentes de forma pouco respeitosa como uma massa de «zecos», por onde despontariam alguns faróis luminosos que ele lá conheceria (é o que consta nos mentideros bloguísticos), foi Fernando Madrinha nas páginas do Expresso (daí que tenha passado a designá-lo como padrinho… da Ministra).
Tudo o que escreveu em 2005 e 2006 sobre a matéria poderia fazer parte de uma antologia da análise preconceituosa e enviesada obre as matérias da Educação. Para Madrinha, A Ministra sempre foi uma firme defensora do rigor, do mérito e da transparência quanto aos docentes e as suas políticas, como ainda refere agora visavam «distinguir o trigo do joio no universo do pessoal docente». Suponho que em tempos de carestia do trigo como os actuais, para se expressar de forma tão decidida, Madrinha tenha os seus armazéns plenos de bom trigo e se enjoe perante a visão do joio alheio.
Mas adiante, que depois acusam-me de ser demasiado crítico. O que até é verdade quando me lembro de passagens (nem estou para ir à procura do link do post em causa) como aquela em que o dito articulista elaborou sobre quem, ao fazer mestrados e doutoramentos e beneficiando de uma sabática, não traria nada de novo à sua prática pedagógica e «sobrecarregaria» (foi a expressão usada) quem permanecia nas escolas no seu rame-rame (esta parte acrescento eu).
Mas se em 2005 e 2006 Madrinha estava com a Ministra de corpo e alma, em 2007 começou a entrever algumas frinchas no pretenso rigor ministerial. Claro que foi relativamente ao Estatuto do Aluno, que quanto aos professores a defesa da albarda e da arreata curta continuou.
Abre-se o ano de 2008 e Madrinha quase que faz uma pirueta à la Pedreira e surge a criticar a Ministra, ou melhor, o Ministério e um Secretário de Estado, no que se refere ao método de avaliação dos professores.
Claro que não critica as quotas para as classificações, nem nada disso. Vá lá que critica o peso, o burocratismo do processo, assim como a dependência da avaliação dos docentes dos resultados dos seus alunos e os desmandos legislativos e os agora sacramentais prazos curtos.
Mas principalmente Madrinha critica – se lermos bem as entrelinhas e fizermos um pouco de hermenêutica especulativa q.b. - o facto da avaliação dos docentes no antigo 10º escalão ser igual à dos outros com a agravante de já não poderem progredir, ao facto dos avaliadores terem pouco tempo para assistirem às aulas previstas e a falta de liberdade na avaliação dos alunos.
Chamem-me desconfiado, mas aqui quase parece haver gata(o) com o rabo reluzente de fora.
Tudo o que Madrinha agora escreve sobre a irracionalidade da política ministerial, já o poderia ter escrito há muito, tão visíveis as coisas eram. Madrinha optou por não vê-las então porquê? Se parece tão bem informado sobre os meandros de todo o processo (não se lhe conhecendo dotes anteriores neta matéria)?
Será que a posição actual de Madrinha sobre esta questão, a parcial inversão da sua análise, resultará de qualquer contacto imediato com as consequências do processo?
Eu não quero acreditar que isto resulte – sei lá – de uma maior sensibilidade a opiniões de alguns adesivos meio desavindos com o ME, que só agora tenham percebido a carga de trabalhos que lhes caiu em cima a meio de um ano lectivo, não se resumindo isto a exercer um poder de avaliação discricionário sobre os colegas.
Eu não quero acreditar que Madrinha defenda, afinal, apenas tempo para que os avaliadores munidos das suas grelhitas de registo nas mãos, possam retemperar forças no Verão e atacar pela madrugada do ano lectivo de 2008-09.
Eu não quero acreditar que Madrinha envolveu em imensos argumentos, tão válidos hoje como há meses para qualquer observador mediano, um qualquer interesse próximo na matéria.
Eu quero acreditar que Madrinha apenas começou a ver a luz. Pouca, mas mais do que nenhuma. Ou então apenas decidiu abrir os olhos.
Porque acreditar em qualquer outra coisa seria desacreditar nas virtudes, qualidades e sinceridades da alma humana e considerar que estas opiniões seriam condicionadas por interesses particulares e não por uma visão global e desinteressada sobre a Educação.
Fevereiro 10, 2008 at 12:24 pm
Paulo,
O Público de hoje tem um editorial sobre o Ensino Artístico, a criticar a actuação do ME da autoria do Nuno Pacheco
Também o António Barreto descasca neles.
Fevereiro 10, 2008 at 12:26 pm
E hoje no Público também o António Barreto descasca neles.
Fevereiro 10, 2008 at 12:56 pm
o comentário 2 está a mais.
o que escreveu o Barreto, retirado do Blasfémias
http://blasfemias.net/2008/02/10/o-que-os-centralistas-nao-concebem/#more-1032
(…) Há vinte anos, ou mais, que se dão pequenos passos na direcção da autonomia e da “devolução às comunidades” das escolas. Há décadas que se tenta envolver os pais na gestão das escolas, com ineficientes dispositivos que quase nunca resultaram. Há muito tempo também que os ministros, muitos deles pelo menos, se queixam de centralismo excessivo e confessam, geralmente em privado, que gostariam de entregar as escolas básicas e secundárias às autarquias, mas “não podem”. As desculpas para estas fraquezas são numerosas, expressas muitas vezes pelos próprios. As autarquias não querem mais responsabilidades. Os pais não se interessam. Os professores são contra. A tradição portuguesa não é essa. E muitas outras, entre as quais avulta uma de excepcional importância. Dizem os delatores da entrega às comunidades que estas, sob domínio dos professores ou dos autarcas, fariam, conforme a região, escolas revolucionárias no Alentejo ou reaccionárias no Minho. É uma estranha convergência, de Salazar à democracia, passando por todas as formas de jacobinismo.
Não é possível administrar uma organização com dois milhões de alunos, quatro milhões de pais, duzentos mil professores e dezenas de milhares de funcionários. Na educação, tal como, aliás, na saúde, não se pode pretender gerir universos com estas dimensões humanas, políticas e financeiras. Nem as grandes empresas o fazem e adoptam sofisticados sistemas de descentralização. Os ministros, em vez de elaborar reais políticas, definir objectivos, prever o médio e o longo prazo e desenhar modelos, transformam-se em directores-gerais executivos a correr numa lufa-lufa atrás dos problemas e a inventar falsas soluções. Correia de Campos e Maria de Lurdes Rodrigues são dois excelentes exemplos de governantes com ideias e coragem, mas que se perdem na administração casuística, na quezília, na abertura de uma escola ou no fecho de uma urgência. Mesmo que fosse possível gerir centralmente tão enormes organizações, os resultados não seriam brilhantes. As escolas pertencem, por definição, às comunidades. Perante a escola de massas, cada vez mais se percebe esta relação essencial.
A entrega das escolas às autarquias, com responsabilidade e competências, teria ainda a formidável consequência de retirar a maior parte do trabalho ao ministério, reservando-lhe as suas funções nobres, que cada vez exerce menos: inspeccionar, avaliar, prever, assegurar os direitos fundamentais e cuidar da coerência nacional. Já se pensou no que poderia ser um ministério da educação sem nomeação de professores, sem definição de horários, sem autoridade sobre os técnicos de apoio, sem concursos de aquisição de bens, sem capacidade para aprovar, dia sim dia sim, regulamentos pedagógicos e normas de execução? Já se imaginou na utilidade de um ministério que se dedicasse a pensar, a apoiar e a inspeccionar, em vez de administrar, recrutar, fazer obras e ditar regras de comportamento? Após tantas décadas de miséria educativa e de caos escolar, com os péssimos resultados que se conhecem, merecíamos melhor. Nós todos e também os professores, os alunos e os pais.
Fevereiro 10, 2008 at 5:00 pm
Obrigado, de manhã nem saí para ir ao jornal, atasacdo em trabalho.
Estava à espera da publicação do texto num qualquer outro blogue, sendo que no Sorumbático</em< os textos do AB aparecem à 2ª feira.
A questão do Ensino Artístico é interessante, especialmente porque já surgiu ontem no Expresso e tem imenso destaque.
É curioso como o Conservatório (honra lhe seja feita) consiga mobilizar as boas vontades que tanto faltaram aos professores há não muito tempo.
Fevereiro 10, 2008 at 8:20 pm
O que estão a fazer ao Ensino Artístico é muito estranho, muito embora os outros conservatórios de música(Aveiro, Coimbra, Porto e Braga) parecam estar de acordo com a reforma.
“É curioso como o Conservatório (honra lhe seja feita) consiga mobilizar as boas vontades que tanto faltaram aos professores há não muito tempo.”
É verdade, conseguem ter os editorialistas do lado deles.