Fevereiro 2008


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(c) Antero Valério

Centenas de professores em vigília em Torres Vedras

Centenas de professores da Região Oeste, vestidos de preto, estão concentrados hoje à noite em Torres Vedras, numa vigília de protesto contra as medidas do Ministério da Educação, empunhando cartazes em que manifestam a sua revolta
Os professores ouvidos pela agência Lusa criticam as mais recentes medidas do Ministério, como a avaliação ao seu desempenho, o novo modelo de gestão das escolas e o novo estatuto do aluno.

«O que me faz estar aqui é o facto destas medidas estarem a trazer muita instabilidade e prejuízo efectivo à actividade educativa» , afirmou Maria João Alves, professora do ensino secundário.

«É muita legislação, toda nova, a meio de um ano lectivo e toda para entrar em vigor ontem» , apontou a docente.

«Os professores gastam muitas horas para analisarem estas medidas e isso causa muita instabilidade. Acho que isto é de quem não tem ideia de como uma escola funciona» , sublinhou Maria João Alves, docente em Torres Vedras.

Uma das organizadoras do protesto, Conceição Margaça, explicou que o movimento dos docentes surgiu «à margem dos sindicatos» porque os professores «estão unidos em querer mostrar o seu descontentamento».

A senhora que se segue

A crescente contestação dos professores e o apoio político que vêm conquistando estão a colocar o Governo numa posição difícil. Até os tribunais parecem estar contra a ministra

Ao demitir Correia de Campos, o primeiro-ministro, sem querer, fez uma outra vítima: Maria de Lurdes Rodrigues.À contestação dos professores juntou-se, agora, toda a oposição na evidente esperança de que José Sócrates deixe cair mais um membro do Governo. E não é difícil ver que se está a entrar num ciclo vicioso em que, aos sucessivos ataques à ministra, o chefe do Governo irá responder com declarações de apoio – e, a cada aplauso de Sócrates, reagirá a oposição com novo grito de “ministra para a rua”, tornando uma remodelação ainda mais insustentável.Com todas as atenções centradas na ministra da Educação, mais se notam as fragilidades da sua equipa. Poucos governantes (se é que houve mais algum) terão visto tantas decisões suas travadas nos tribunais, uma moda que pegou com a contestação à época extraordinária de exames em 2006 e ameaça, agora, o processo de avaliação dos professores. Se Maria de Lurdes Rodrigues perder esta nova batalha, não será a ela que a oposição pedirá contas.

Esta é uma nota quase lateral, mas um pouco necessária como introdução ao que gostaria de escrever sobre este movimento de contestação genuína que se vive pela primeira vez em Portugal em muito tempo.

No Público de hoje, na página 2, em bom artigo da jornalista Isabel Leiria, percebe-se como tudo isto apanhou quase toda a gente de surpresa e ainda agora andam à procura de um rumo e um sentido conhecido para enquadrar o que se passa.

A certa altura lê-se que (sem link permanente):

Inicialmente promovidos por sindicatos afectos à Fenprof (à excepção da concentração no Porto, convocada por SMS, mails e blogues, sem que se tenha tornado pública a sua origem), os protestos têm ganho dimensão com ajuda da promoção feita em páginas na Internet dedicadas à educação e ao “passa SMS” entre milhares de colegas que se sentem “atacados” como nunca.

Ora, se bem me lembro, e até acho que me lembro ou conheço razoavelmente bem o que se passou em dois ou três dos primeiros núcleos de contestação, em nenhum momento os protestos foram promovidos por este ou aquele sindicato.

A análise que é feita está errada, não percebendo bem porquê, pois seria relativamente fácil seguir a cronologia dos acontecimentos (a que está no artigo parece desconhecer que as coisas não nasceram a 16 de Fevereiro no Largo do Rato), através do contacto com as pessoas envolvidas. Aliás, é estranho que alguns dos protagonistas que foram ouvidos (em especial dos núcleos das Caldas da Rainha e Leiria) realcem exactamente a independência dos movimentos e depois se escreva que tudo começou com a partir de acções sindicais.

Mais curioso ainda é o recurso a Manuela Teixeira, alguém com uma longa carrerira no establishment sindical mais sereno e ordeiro, +ara explicar o que se passa neste(s) movimento(s).

Ou seja, até quem acompanha jornalisticamente a Educação há muitos anos parece ter sido ultrapassado pelos acontecimentos e, perante as ondas revoltas, parece querer ancorar-se em pontos seguros e conhecidos.

O mesmo se parece passar com o presidente do Conselho de Escolas que, na sua abordagem do fenómeno prefere desvalorizar o que se passa, por perceber que os professores não se sentem minimamente representados pelo organismo a que preside e cujas opiniões o ME recorta a seu bel-prazer.

Álvaro dos Santos, presidente do Conselho das Escolas, admite que a contestação é “inelutável”, mas, pessoalmente, considera que alguma está a ser “empolada”. Como presidente deste órgão consultivo garante que vai continuar a “fazer tudo para que as escolas tenham condições efectivas para fazer bem o seu trabalho”.

Para o seu próprio mal, há quem não perceba que se virou uma página de uma história que cada vez se ia mais acinzentando em termos de movimentos de contestação social. Há quem se agarre ao passado para se sentir seguro.

E assim se vê quem tem receio da mudança e da inovação.

No que isto poderá dar? Em algo de completamente diferente do que conhecemos na nossa história recente, assim todos os interessados percebam que o sucesso depende da liberdade, independência e genuinidade do que se passa e que o importante é a redescoberta do orgulho de ser professor, como profissional e cidadão, e que essa identidade se faz promovendo a confluência de muitas diversidades, sem aproveitamentos particulares.

E tendo sempre presente que devemos ser nós a dar os bons exemplos.

Fichas de avaliação: Maria de Lurdes Rodrigues foi “mal informada”, admite o Ministério

Ao contrário do que a ministra da Educação declarou hoje à saída do debate parlamentar com o primeiro-ministro, o conselho pedagógico do Agrupamento de Escolas Correia Mateus, em Leiria, ainda não se pronunciou sobre a proposta de ficha de avaliação que contempla a “verbalização” de críticas às mudanças ocorridas no sistema de ensino como um dos parâmetros de avaliação.

“Aquela era uma pergunta de forma alguma aceitável e o conselho pedagógico já deliberou negativamente”, disse Maria de Lurdes Rodrigues ao final da manhã, depois de Francisco Louçã, no Bloco de Esquerda ter denunciado a situação durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro.

Horas depois, questionado pelo PÚBLICO, o assessor de imprensa do Ministério da Educação admitiu que a reunião do conselho pedagógico ainda não tinha ocorrido – está marcada para 12 de Março – e explicou que a ministra declarou o contrário porque “foi mal informada”.

Como já escrevi uns posts atrás, acho que a primeira vez que as afamadas propostas de grelhas do Agrupamento de Escolas Correia Mateus (avaliacao-de-desempenho1.doc) surgiram publicamente foi aqui no Umbigo, a 13 de Fevereiro. Passados alguns dias, o documentono formato original começou a circular por mail e apareceu referido em outros espaços.

O reparo não é para ganhar louros. É apenas para sublinhar que então omiti a identificação da Escola, embora isso não me tenha sido expressamente pedido por quem me enviou o documento. Só que aquilo era tão, mas tão grave, que achei que o mínimo a fazer seria esperar para ver qual o desfecho. Lembro-me que alguns(mas) comentadore(a)s chegaram a quase não acreditar que aquilo fosse verdade. Deram-me, porém, o benefício da dúvida e confiaram que eu não estava a enganar ninguém.

Porque embora ainda aparentemente em discussão, só o facto de a proposta de ficha de avaliação dos docentes conter alguns dos parâmetros em causa já era algo absolutamente vergonhoso.

Agora que a coisa chegou ao domínio público, não há que esconder que aquele caso poderá ser relativamente isolado, mas também poderá ser apenas um entre outros casos (e já ouvi falar de mais, entre o igualmente descarado e o mais subtil) que andarão por aí a polvilhar o país, servindo de cobertura para verdadeiras «caças às bruxas» em muitos estabelecimentos de ensino, com o objectivo claro de prejudicar quem desalinha.

Mas mais grave é que a Ministra da Educação – que não tem obrigação de conhecer tudo isto, justiça lhe seja feita – não pode é afirmar peremptoriamente algo que desconhece, sempre naquela mania de tuido justificar, tudo achar que está bem e que tudo acontece no melhor dos mundos, só uns detalhes é que não.

Que Maria de Lurdes Rodrigues parece mais à vontade a rebater em termos vagos, atirando com chavões e lugares-comuns para cima da mesa, a contestação dos professores já sabíamos. Que sempre que se apontam aspectos concretos, prefere caracterizá-los como «caricaturais» também já é notório. Agora que o seu pessoal de apoio, normalmente tão couraçado e célere a lançar contra-fogos, a deixasse ser apanhada em falso desta maneira já é algo inesperado e revela um certo clima de fim de festa, cada um por si e todos para os abrigos que está a chover grosso.

Para mais porque MLR afirma estar em permanente contacto com as Escolas e delas receber imensa informação, através do Conselho das ditas e não só. Por isso mesmo, teria sido mais fácil MLR não se precipitar em respostas formatadas e ter a humildade de se informar com alguma fiabilidade. Porque ninguém é capaz de acertar sempre. Só que quem com ferros gosta de ferir, com ferros acaba ferida.

E fosse a comunicação social mais rápida a escrutinar muita outra coisa, quantas outras «más informações» se tornariam públicas e notórias.

Para hoje e o fim de semana:

  • Aventuras e Agruras de Virgulino Capelinhas, um conhecido meu que é presidente honorífico, honorário e hereditário de uma associação do meu bairro.
  • Problemas de Percepção ou como a imprensa (no caso de hoje o jornal Público) tem alguma dificuldade em saber exactamente como as coisas têm acontecido.
  • Um Novo Movimento Social: as origens, características, objectivos e caminhos possíveis para o actual movimento de contestação dos docentes, tudo visto a partir aqui do meu cantinho.
  • Uma possível reportagem fotográfica da concentração de amanhã em Setúbal (só falta mesmo comprar um boa carga de pilhas).

Como brinde é possível que eu não resista a escrever um breve texto sobre O Senhor Almeida Até Sabe Quatro Línguas.

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