Alguém imagina país com maior tradição de descentralização político-administrativa a todos os níveis do que a Suiça?
Alguém acha que a Suíça é um país pobre, sem recursos, com escassa massa crítica, um fim de mundo em termos educativos?
Os mais apressados dirão logo: consequência de um modelo descentralizado de gestão. Em particular da gestão escolar.
Certo?
Errado!
Ora muito bem, há cerca de seis meses as autoridades políticas suíças concluíram um processo de harmonização – leia-se centralização – da escolaridade obrigatória e dos seus padrões, como consequência dos resultados dos seus alunos não terem sido os mais desejáveis nos testes PISA 2000, sendo que foram resultados bem superiores aos dos portugueses.
No âmbito de um processo despoletado em 2002 – o Projecto Harmos – foram produzidos diversos relatórios e estudos (este é bem interessante sobre a organização dos horários dos alunos) que culminaram num Livro Branco em 2004 com um conjunto de directrizes no sentido da harmonização dos conteúdos, padrões de exigência, terminologias, etc, etc. Até têm também uma espécie powerpoints sobre o assunto e tudo.
Ou seja, perante uma situação problemática (que nós gostaríamos de ter…), a solução foi harmonizar um sistema que era extremamente descentralizado e atingira um limite de (in)coerência e estender a escolaridade de 9 para 11 anos, mas através do seu início aos 4 anos e não do seu prolongamento.
Claro que entre nós se acena com exemplos externos escassamente fundamentados e quase sempre seleccionados a dedo, conforme as conveniências.
E aponta-se como solução e panaceia universal, exactamente aquilo que os outros abandonaram por escassez de resultados: uma desregulação do funcionamento do sistema público de ensino num país cuja dimensão demográfica não é muito maior do que a da Suíça e em que o território e culturam até apresentam uma muito maior homogeneidade.
Ahhhhhhhhhhhhh… o processo de reforma, debate público e produção de materiais, durou cerca de 5 anos. Não um par de meses. Porque depressa e bem… já vimos que não são estes quem.
Janeiro 10, 2008 at 10:11 pm
O meu voto:
Como resultado andamos constantemente a discutir autênticas anedotas, mas já cansa.
Que um dia pessoas de bom senso venham a ocupar lugares ministeriais. De momento parece haver um tecto de conhecimentos, para além do qual o candidato passa a não-ministeriável. Por sinal, num nível incrivelmente baixo, género, se somas 2+2 já não serves
Janeiro 11, 2008 at 3:46 pm
Não, Paulo Guinote. Harmonização e uniformização não são a mesma coisa. Só se pode harmonizar o que é diverso. O problema da Suíça era o oposto do nosso: a nossa solução terá que ser o contrário da deles.
Janeiro 11, 2008 at 3:58 pm
Não necessariamente.
(sei que harmonização é mais no sentido de confluência do que de absoluta uniformidade, mas não é isso que está em causa)
Porque na Suíça a excessiva atomização produziu maus resultados.
O que nos diz que uma solução oposta à deles – que acaba por ser uma solução no sentido da situação anterior da Suiça – não agrave ainda mais os nossos problemas?
Janeiro 11, 2008 at 9:43 pm
A excessiva atomização produziu na Suíça maus resultados que ainda assim estiveram longe de ser tão maus como os da nossa excessiva centralização. Tomáramos nós os maus resultados deles!
Mas não é isso que queremos. Queremos melhor. Muito bem: enquanto eles procuram esse melhor «harmonizando» (e repare que não falam em centralizar nem em normalizar) – nós temos que ir em sentido contrário, ao encontro deles. Para tal temos que investir na diversificação, na descentralização, na autonomia real e na variedade de filosofias e projectos. Lá por vermos as barbas deles a arder isso não significa que vamos pôr de molho as nossas – que não estão a arder mas estão a ficar podres, de estarem há tanto tempo metidas em água choca.
Janeiro 11, 2008 at 9:45 pm
Aceito isso, se por “diversificar” entendermos algo diferente de obrigar a diversificar, o que não é mais do que uma outra forma de uniformização.
E isto não é apenas semântica.
Janeiro 11, 2008 at 9:56 pm
Uma vez perguntei ao reitor duma escola suíça – um país com 19% de população imigrante – como é que eles se arranjavam para integrar crianças vindas de culturas e sistemas educativos tão diversos.
- Não é fácil, – respondeu-me ele – mas também não é impossível. Repare que já estamos organizados para acolher crianças vindas da comuna vizinha, duma escola em que a filosofia educativa e o currículo podem ser consideravelmente diferentes da nossa.
Está a ver, Paulo? A inexistência de um Ministério, de uma filosofia pedagógica oficial, ou de uma tecno-burocracia educativa pode facilitar muito mais coisas do que aquelas que dificulta.
Janeiro 11, 2008 at 9:59 pm
Mas incluir alunos não é difícil em si. O problema é conseguir que isso se traduza em algo proveitoso para todos.
E não esqueçamos que na Suíça (e não só)esses imigrantes são muitas vezes tratados como sendo alunos com NEE.
Mas confesso que desconheço em concreto o sistema e que receio a desconcentração total em Portugal, porque os portugueses não são suíços.
Janeiro 11, 2008 at 10:04 pm
Claro que não é apenas semântica, Paulo. Pode ser «spin», mas disso nem você nem eu somos responsáveis. Há uma falsa diversidade imposta de cima, assim como há uma falsa autonomia e um falso sucesso. Mas nenhuma destas contrafacções pode ser substituída pelo produto genuíno se não reduzirmos substancialmente o poder e a dimensão do contrafactor – ou seja, no caso Português, o Ministério da Educação e a tecno-burocracia educativa que lhe está associada.
Janeiro 11, 2008 at 10:17 pm
É verdade que muitos alunos imigrantes são tratados na Suíça como sendo alunos com NEE, Assisti a dezenas de casos desses. Mas também vi muitos directores de escolas, professores e outros responsáveis a manifestarem consciência desse facto, preocupação com ele, e determinação em combatê-lo.
Numa escola foram-me mostradas estatísticas sobre o acolhimento dado às crianças portuguesas que as mostravam a meio da tabela entre as italianas e as albanesas- isto é, encontravam-se, em termos de integração em turmas especiais, no ponto em que estavam as crianças italianas quinze anos antes e onde se esperava que viessem a estar as crianças albanesas quinze anos depois.
A mim fez-me impressão ver uma escola a planear em termos de décadas – o que é mais uma vantagem em relação a um sistema em que as escolas dependem de governos que planeiam, na melhor das hipóteses, em termos de quadriénios.
Eu acho que uma das melhores coisas que podem acontecer a uma escola, e das mais produtivas em termos da sua missão, é a serena consciência de que os governos passam, mas nós ficamos… Prouvera que pudesse ser assim em Portugal.
Janeiro 11, 2008 at 10:44 pm
JL, mas como conseguiremos ter escolas dependentes de humores políticos locais a planear com décadas de avanço
Se as escolas tiverem autonomia a sério isso é possível.
Mas apenas deslocalizar a obediência de um actor político para outro não resolve.
Sendo que o centralismo que eu acabo por defender – a existência de uma estrutura comum nacional – não implica uma burocracia maior do que 300 mini-burocracias.
Janeiro 11, 2008 at 11:14 pm
Nisso concordo consigo, Paulo: se for para entregar as escolas a caciques locais, então talvez valha mais deixar tudo centralizado como está.
Mas que não é uma boa solução, não é.
E daí… Não vejo nos caciques a capacidade (não é que não quisessem) de montar enormes estruturas tecnico-burocráticas como as que actualmente oprimem as escolas. O que a mim me cheira é que os caciques, depois de irem meter o nariz meia dúzia de vezes nas escolas para ver o que é que aquilo lhes pode render em termos de votos, dinheiro ou influência, vão acabar por se desinteressar e deixar tudo em auto-gestão.
Janeiro 11, 2008 at 11:16 pm
Meu Deus, nem acredito que fui eu quem escreveu o comentário acima! Será possível que já esteja assim tão cínico?!